Filósofos brasileiros

O pensamento filosófico brasileiro a partir de 15 pensadores que você precisa conhecer

Hegel, Kant, Marx, Pascal, Nietzsche, Simone de Beauvoir entre muitos outros. O que todos esses filósofos têm em comum? Eles são grandes influências para o pensamento de muitos filósofos e filósofas brasileiros. Neste post, conheça melhor a nossa cultura aos olhos de 15 filósofos brasileiros.

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Sueli Carneiro (1950)

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Sueli Carneiro é uma filósofa, escritora e uma das maiores ativistas do movimento social negro brasileiro. Em 1988, fundou o Geledés – Instituto da Mulher Negra –, sendo a atual diretora. Além disso, é considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil. Possui doutorado em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP).

Principais obras

  • A construção do outro como não-ser como fundamento do ser (2005)
  • Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil (2011)
  • Escritos de uma vida (2018)

Frases famosas

  1. “Nós, mulheres negras, somos a vanguarda do movimento feminista nesse país; nós, povo negro, somos a vanguarda das lutas sociais deste país porque somos os que sempre ficaram para trás, aquelas e aqueles para os quais nunca houve um projeto real e efetivo de integração social”.
  2. “Ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social”.
  3. “O pessoal da orientação sexual não vai retroceder em suas lutas, as mulheres não vão recuar nas suas agendas; nós não vamos voltar para a senzala. E isso está colocado. Vai ter luta!”

Nestas frases, Sueli Carneiro expõe praticamente o que trabalhou em sua tese de doutorado, a produção social e cultural da eleição e da subordinação raciais, bem como a produção de vitalismo e morte informados pela filiação racial. Em outras palavras, o racismo estrutural ao qual a população negra está diariamente submetida.

Marilena Chauí (1941)

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Chauí é uma filósofa brasileira, especialista na obra de Baruch Espinoza e professora emérita de Filosofia Política e Estética da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É considerada uma das filósofas mais importantes e influentes do país.

A pensadora também é conhecida por sua atuação política, combateu a ditadura militar no Brasil. Foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual é ativa militante. E foi secretária de Cultura do Município de São Paulo durante a gestão da prefeita Luiza Erundina.

Principais obras

  • Convite à Filosofia (1995)
  • Contra a Servidão Voluntária (2013)
  • A ideologia da competência (2014)

Frases famosas

  1. “Eu odeio a classe média. A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez; é o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. É uma coisa fora do comum. (…) A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”.
  2. “As pessoas que, desgostosas e decepcionadas, não querem ouvir falar em política, recusam-se a participar de atividades sociais que possam ter finalidade ou cunho políticos, afastam-se de tudo quanto lembre atividades políticas, mesmo tais pessoas, com seu isolamento e sua recusa, estão fazendo política, pois estão deixando que as coisas fiquem como estão e, portanto, que a política existente continue tal qual é. A apatia social é, pois, uma forma passiva de fazer política”.
  3. “Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais forte se ninguém pensar, se todo mundo aceitar as coisas como elas são, ou melhor, como nos dizem e nos fazem acreditar que elas são”.

Pelas frases, o pensamento político de Chauí é expresso. A denúncia à classe média e a necessidade de se falar sobre política são temas muito defendidos pela filósofa.

Djamila Ribeiro (1980)

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Djamila Ribeiro é uma filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira. É pesquisadora e defendeu sua dissertação em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com o título “Simone de Beauvoir e Judith Butler: aproximações e distanciamentos e os critérios de ação política”.

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Djamila Ribeiro é muito ativa nas redes sociais e tem muitos seguidores. Por meio dessas redes, a filósofa expressa seu pensamento sobre o feminismo negro no Brasil e no mundo.

Principais obras

  • Quem tem medo do feminismo negro? (2018)
  • O que é lugar de fala? (2017)
  • Pequeno manual antirracista (2019)

Frases famosas

  1. “A representatividade é importante, porque não basta ser mulher e mulher negra, mas tem que estar comprometida com as questões, e eu estou. Comprometida com as pautas feministas, com a questão racial, com a agenda dos direitos humanos no Brasil”.
  2. “Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la”.
  3. “Se eu luto contra o machismo, mas ignoro o racismo, eu estou alimentando a mesma estrutura”.

Para Djamila Ribeiro, a luta contra o machismo e o racismo é uma prática necessária e diária. Essas estruturas de opressão estão a serviço do sistema que lucra com a exploração dos povos oprimidos.

Sílvio Gallo (1963)

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Gallo é um filósofo e pedagogista brasileiro. Ele partilha da visão da filosofia anarquista brasileira e é autor de diversos livros e artigos sobre filosofia, filosofia da educação e educação libertária, sendo referência na área.

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Principais obras

  • Pedagogia Libertária – Anarquistas, Anarquismos e Educação (2007)
  • Educação do Preconceito – ensaios sobre poder e resistência (2004)
  • Deleuze & a Educação (2003)

Frases famosas

  1. “A educação tradicional veiculada pelo capitalismo teria por objetivo disseminar a ideologia da perpetuação e manutenção do sistema social, ensinar a ver o mundo de uma maneira socialmente aceita, a agir segundo esses parâmetros. A educação anarquista, por sua vez, teria por objetivo desestruturar essa ideologia social e ensinar a construção da liberdade, para que cada um pense e aja à sua maneira, criando sua própria ideologia, assumindo sua singularidade, sem no entanto fechar-se para a amplitude do meio social”.
  2. “Devemos, assim, considerar o anarquismo como um princípio gerador, uma atitude básica que pode e deve assumir as mais diversas características particulares de acordo com as condições sociais e históricas às quais é submetido. O princípio gerador anarquista é formado por quatro princípios básicos de teoria e de ação: autonomia individual, autogestão social, internacionalismo e ação direta. Vejamos brevemente cada um deles”.
  3. “A educação menor é rizomática, segmentada, fragmentária, não está preocupada com a construção de nenhuma falsa totalidade. Não interessa à educação menor criar modelos, propor caminhos, impor soluções. Não se trata de buscar a complexidade de uma suposta unidade perdida. Não se trata de buscar a integração dos saberes. Importa fazer rizoma. Viabilizar conexões; conexões sempre novas. Fazer rizoma com os alunos, viabilizar rizomas entre os alunos, fazer rizomas com projetos de outros professores. Manter os projetos abertos: “um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzzo”.

Nestas frases é possível compreender melhor o pensamento de Gallo sobre o que é uma educação libertária e a importância da filosofia anarquista na educação e formação do sujeito.

Miguel Reale (1910-2006)

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Reale foi um filósofo, jurista, político e professor universitário brasileiro. Foi Secretário da Justiça do Estado de São Paulo e reitor da Universidade de São Paulo (USP), onde era professor titular de Filosofia do Direito. É o criador da teoria tridimensional do direito, sua principal teoria.

Miguel Reale também é conhecido por ser um dos principais ideólogos da Ação Integralista Brasileira, grupo fascista e nacionalista brasileiro, e por ter sido um dos principais redatores da Emenda Constitucional nº 1, que consolidou a ditadura militar no Brasil. Em 2002, ele supervisionou a comissão que elaborou o Código Civil brasileiro.

Principais obras

  • Perspectivas Integralistas (1935)
  • Teoria Tridimensional do Direito (1968)
  • Experiência e Cultura (1977)

Frases famosas

  1. “A cultura brasileira não é densa, não é complexa, tem muitas lacunas, tem muitos vazios. A começar da escola fundamental, que é uma escola de informação e não é uma escola de formação”.
  2. “A democracia atual é, sobretudo, uma partidocracia. Nesse sentido, a democracia brasileira é capenga, porque os nossos partidos não são agremiações dirigidas por um grupo de idéias com uma programática devidamente esclarecida. Nós não temos, na realidade, partidos claramente situados”.
  3. “Em primeiro lugar, não se pode recusar aos integralistas vivência dos problemas brasileiros, situando-se no contexto de nossas circunstâncias. Nesse sentido, cabe-lhes a responsabilidade de terem tirado as consequências lógicas das críticas feitas pelos mais lúcidos intérpretes da sociedade brasileira da época, os quais reclamavam uma reforma de fundo, baseada numa visão realista de nossas coisas, liberta dos reiterados vícios de uma vida política miúda e pequenina, tanto no plano mais alto das chamadas elites, como entre as camadas populares”.

A visão política de Reale, conservadora e tradicionalista, é evidenciada nestas frases. Reale defendia que o Integralismo, movimento de extrema-direita, não poderia ser associado ao fascismo, para ele, era um movimento que se preocupava com as questões sociais do Brasil e que Plínio Salgado, líder do movimento, deveria ser exaltado como um grande intelectual.

Leandro Konder (1936-2014)

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Foi um dos grandes nomes da filosofia marxista brasileira. Aos 15 anos entrou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), militando por mais de trinta anos. Em 1972, foi forçado a sair do Brasil devido à Ditadura Militar, refugiando-se na Alemanha e na França. Retornou ao Brasil em 1978 e, de 1984 a 1997, foi professor no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). A partir de 1985, deu aulas no Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Foi um dos principais divulgadores do marxismo no Brasil, sobretudo na introdução da obra de Lukács, junto de Carlos Nelson Coutinho.

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Principais obras

  • A derrota da dialética (1988)
  • Walter Benjamin – O marxismo da melancolia (1988)
  • Flora Tristan: uma vida de mulher, uma paixão socialista (1994)

Frases famosas

  1. “O que é pior do que ter graves problemas? É ter graves problemas e se recusar a reconhecê-los.”
  2. “Contudo, valeu a pena ter brigado por coisas nas quais eu acreditava, mesmo que o preço fosse o fracasso. A ética me consolou nas derrotas. E eu sempre me lembrava de que, afinal (mal comparando), Antonio Gramsci e Walter Benjamim também foram losers.”
  3. “Não podemos ler Marx nos transportando artificialmente para o tempo dele. Vivemos uma história que ele
    não viveu, vimos coisas que ele não viu, temos preocupações que ele não tinha”.

Leandro Konder, defensor do marxismo, sabia que não era possível entender a filosofia marxista no Brasil sem olha para o contexto brasileiro e sem reconhecer as contradições existentes no país. Estas frases expõem esse lado crítico de seu pensamento.

Márcia Tiburi (1970)

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Tiburi é uma filósofa, escritora e professora universitária brasileira. Em 1990, graduou-se em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e, em 1996, em artes plásticas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1994 obteve seu mestrado em Filosofia na PUC-RS com a dissertação “Crítica da Razão e Mímesis no pensamento de Th. W. Adorno”. Em 1999, obteve o título de doutora pela UFRGS, com a tese “Dialética Negativa: superação negativa e a transformação da filosofia em Theodor W. Adorno”.

Seus principais temas de pesquisa são a ética, a estética, a epistemologia e o feminismo. É professora convidada da Universidade Paris 8 e atualmente leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Principais obras

  • As Mulheres e a Filosofia (2002)
  • O Corpo Torturado (2004)
  • Metamorfoses do Conceito (2005)

Frases famosas

  1. “Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”.
  2. “A complexidade do ato de escutar está em que, por meio da escuta, entro em outros processos de conhecimento. Torno-me outra pessoa”.
  3. “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”.

A filosofia contemporânea é o foco de estudo de Tiburi. Portanto, é possível observar os problemas contemporâneos expressos nestas frases supracitadas, como a mediocrização da vida intelectual e do exercício de pensar.

Clóvis de Barros Filho (1965)

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Clóvis de Barros Filho é um pensador brasileiro. Concluiu seu bacharel em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero de São Paulo em 1985 e em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) em 1986; é especialista em Direito Constitucional e em Sociologia do Direito pela Université Panthéon-Assas de Paris; obteve o título de mestre em Ciência Política pela Université Sorbonne Nouvelle de Paris em 1990; e de doutor em Ciências da Comunicação na Universidade de São Paulo (USP) em 2002. Em 2020, criou o podcast Inédita Pamonha com a Revista Inspire-C. Sua área de atuação e pesquisa é a ética e a comunicação.

Principais obras

  • Ética na Comunicação (2008)
  • O Habitus na Comunicação (2003)
  • Comunicação na Polis (2002)

Frases famosas

  1. “A capacidade de problematizar significa a condição que se tem de perguntar por que certo princípio deve triunfar sobre outro”.
  2. “O capitalismo é a consolidação do desejo como motor da história”.
  3. “De qualquer forma, você continuará assim. Vivendo como dá. E enquanto der. Procurando esticar o encontro que alegra e abreviar o que entristece. E a vida que vale a pena? Só pode ser uma. A sua. Esta mesma que você está vivendo desde que nasceu. Mas com tudo. Seus encontros, certamente. Mas também seus sonhos, suas ilusões, seus medos e esperanças e, por que não, suas filosofias também”.

Por se especializar em ética, Clóvis de Barros Filho traz, constantemente, assuntos e questões filosóficas para o debate. Ele é conhecido por defender o estudo e o enriquecimento intelectual.

Carlos Nelson Coutinho (1943-2012)

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Coutinho foi um dos principais intelectuais marxistas brasileiros, conhecido por articular a reflexão teórica com a prática militante. Dedicou-se à crítica cultural nos anos 1960 e 1970. Foi um dos principais divulgadores das obras de Lukács e Gramsci no Brasil, junto de Leandro Konder. Também foi o editor das obras de Antonio Gramsci, publicadas pela editora Civilização Brasileira. Desde a juventude, militou no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nos anos 1970, exilou-se em Bolonha (Itália), recebendo forte influência político-teórica do antigo Partido Comunista Italiano, e posteriormente em Paris.

Principais obras

  • A Democracia como Valor Universal (1984)
  • Lukács, Proust e Kafka (2005)
  • Gramsci e América Latina (1998)

Frases famosas

  1. “Analisar os fatos para superá-los, usando-se do ‘pessimismo da inteligência articulado ao otimismo da vontade”.
  2. “Não há democracia sem socialismo, não há socialismo sem democracia”.
  3. “Assim como Marx parte da mercadoria e de suas determinações para elaborar as categorias mais complexas e ricas de sua crítica da economia política, entre as quais o capital como relação social, também Gramsci parte de seu “primeiro elemento” (a distinção governantes e governados) para explicitar as mais importantes determinações de sua teoria crítica da política”.

Coutinho foi um grande pensador e um grande personagem do cenário intelectual brasileiro. Comunista declarado, defensor dos princípios democráticos e militante potente. Nestas frases é possível ver tanto seu lado intelectual quanto militante.

Bento Prado Júnior (1937-2007)

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Prado Júnior foi filósofo, professor, crítico literário, tradutor, escritor e poeta brasileiro. Lecionou na Universidade de São Paulo (USP), posteriormente na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Prado Júnior foi um dos principais nomes para a construção do estudo de filosofia no país, tanto nos temas de educação de filosofia quanto para traduções de obras filosóficas.

O filósofo foi aposentado compulsoriamente pela ditadura militar em abril de 1969, pelo ministro da Justiça, Gama e Silva. Bento Prado Jr. foi cassado junto com seu colega José Arthur Giannotti e se exilou na França, retornando no final dos anos 1970, para lecionar, primeiro PUC-SP e depois na UFSCAR.

Principais obras

  • Presença e campo transcendental: consciência e negatividade na filosofia de Bergson (1965)
  • Alguns ensaios (1985)
  • Erro, ilusão, loucura (2004)

Frases famosas

  1. “Ao delimitar o campo do dizível e do pensável, o filósofo aponta para o inefável como télos de sua empresa. É mais ou menos como na Crítica da razão pura, onde se coloca para além do cognoscível as ideias de Deus, alma e mundo que, no entanto, constituem o alvo último (embora inatingível pela metafísica) da Razão”.
  2. [Sobre regras e juízos] “Uma regra não pode ser pensada como anterior ou exterior à sua aplicação: talvez mesmo o contrário, como se a regra só emergisse de sua aplicação, manifestando o caráter reflexionante da linguagem ou do pensamento”.
  3. “É incontestável, assim, que não há no Brasil um conjunto de obras filosóficas que componha um sistema ou uma tradição autônoma. Mas, justamente por isso, talvez possamos falar de uma experiência particular da filosofia no Brasil, que tem essa carência como horizonte. Talvez, a maneira mais adequada de descrever a situação da filosofia do Brasil seja a de mostrar como os pensadores assumem essa carência da cultura nacional e como interrogam, através dela, a possibilidade de sua própria filosofia. Talvez pudéssemos caracterizar inicialmente essa experiência como a experiência de uma temporalidade invertida: nela a reflexão precede a percepção, a filosofia precede a própria
    filosofia. Aqui, a coruja de Minerva levanta voo ao amanhecer. Isto quer dizer que a consciência do vazio cultural faz com que até mesmo o historiador das ideias tenha uma preocupação essencialmente prospectiva: o que ele busca no passado são os germes do que ele acredita que a filosofia deve ser no futuro”.

Umas das grandes preocupações de Prado Júnior era a tradição filosófica no Brasil e o exercício filosófico. O filósofo também se dedicou ao estudo das obras de Kant, Wittgenstein e outros filósofos.

Vladimir Safatle (1973)

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É um filósofo, escritor e músico brasileiro nascido no Chile. É professor titular de Teoria das Ciências Humanas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Seu pensamento filosófico está concentrado nas de epistemologia da psicanálise e da psicologia, filosofia política, Teoria Crítica e filosofia da música.

Safatle é filho do ex-guerrilheiro Fernando Safatle, que participou da luta armada contra a ditadura no Brasil como militante da Ação Libertadora Nacional. Sua família mudou-se para o Brasil por conta da ascensão do governo de Augusto Pinochet. A partir de 1987, em Goiânia, seu pai assumiu o cargo de Secretário do Planejamento no governo de Goiás.

Com Christian Dunker e Nelson da Silva Jr., Safatle fundou e coordena o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Latesfip-USP). A grande proposta das suas obras é fazer uma releitura da tradição dialética (sobretudo Hegel, Marx e Adorno) por meio da teoria psicanalítica de Jacques Lacan, além de pensar uma reformulação de categorias marxistas, como fetichismo, crítica e reconhecimento.

Principais obras

  • A Paixão do Negativo: Modos de Subjetivação e Dialética na Clínica Lacaniana (2006)
  • O neoliberalismo como gestor do sofrimento psíquico (2021)
  • O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo (2015)

Frases famosas

  1. “A democracia não conhece meio-termo, seu igualitarismo deve ser absoluto”.
  2. “Contra um processo econômico de pauperização social e concentração de riquezas, exigência de uma reinvenção democrática que nos leve para além dos limites da democracia liberal”.
  3. “Uma experiência política não pode ser objeto de uma dedução transcendental. O que me impressiona é, ao contrário, como há uma legião que tenta nos dizer que toda forma de fortalecimento da força do demos só pode produzir catástrofes. No que se percebe que eles têm uma visão completamente a-histórica de dinâmicas políticas. O que não poderia ser diferente, já que no fundo, seu debate não é político, mas teológico”.

A política é um tema inescapável quando se parte de um pensamento marxista. Com Vladimir Safatle não é diferente. O filósofo tem inúmeras reflexões sobre a democracia e a institucionalização da pobreza.

Viviane Mosé (1964)

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Mosé é uma poetisa, filósofa, psicanalista e especialista em elaboração e implementação de políticas públicas brasileiras. Fez mestrado e doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escreveu e apresentou, em 2005 e 2006, o quadro Ser ou não ser, no Fantástico, quadro importante que abordava temas filosóficos com uma linguagem mais acessível à população. Atualmente é sócia e diretora de conteúdo da Usina Pensamento. Também participa do programa Encontro com Fátima Bernardes.

Principais obras

  • Nietzsche e a grande política da linguagem (2005)
  • A Escola e Os Desafios Contemporâneos (2013)
  • Beleza, feiura e psicanálise (2004)

Frases famosas

  1. “Tudo que nasce tende a morrer para que a vida continue. É porque sabemos que vamos morrer que temos urgência de viver”.
  2. “Se o homem é o único animal que sabe que vai morrer, ele também é o único que incessantemente cria, interfere, produz”.
  3. “Não lidamos bem com a contradição porque temos a alma rasa, estreita. Almas amplas amam as contradições porque geram vida, força, ação. Não precisamos resolver as contradições, podemos mantê-las vivas, quentes em nós”.

Com seu doutorado sobre Nietzsche, é possível ver como a filosofia do filósofo alemão influencia no pensamento de Mosé, sobretudo nos temas referentes à vida e morte.

Raimundo de Farias Brito (1862-1917)

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Foi um escritor e filósofo brasileiro. Sua filosofia se voltou para a metafísica, embora também tenha contribuições para a ética e política. Farias Brito combateu fortemente a visão materialista e suas vertentes, defendendo, assim, uma cosmovisão espiritualista. A ética britiana é baseada na busca pela verdade e voltada ao aprimoramento do homem. O filósofo foi um crítico da Revolução Francesa, do liberalismo, do individualismo, da democracia e do socialismo. Segundo Plínio Salgado, Farias Brito foi uma das influências mais importantes do integralismo brasileiro.

Principais obras

  • A Base Física do Espírito (1912)
  • Mundo Interior (1914)
  • A Filosofia Moderna (1899)

Frases famosas

  1. “A energia que sente e conhece, e se manifesta, em nós mesmos, como consciência, e é capaz, pelos nossos órgãos, de sentir, pensar e agir”.
  2. “A energia que sente e conhece, e se manifesta, em nós mesmos, como consciência, e é capaz, pelos nossos órgãos, de sentir, pensar e agir”.
  3. [Sobre a Revolução Francesa] “Em primeiro lugar, o lema fundamental [Liberdade, Igualdade e Fraternidade] que chegou a ser considerado como a mais gloriosa conquista da revolução, de todo se desmoralizou, tornando-se patente que nunca a desigualdade de condição entre os homens chegou a tomar tão vastas proporções como nas democracias. Que os homens não são iguais demonstra-o o complicado sistema das hierarquias sociais. Que não são livres demonstra-o a variada combinação de laços e sujeições a que estão subordinados. Que não são irmãos demonstra-o o espetáculo cotidiano da exploração do homem pelo homem. Depois, se a questão era fazer cessar em política toda e qualquer espécie de absolutismo, acontece que nem isto chegou a conseguir a Revolução, porquanto se a democracia foi o resultado legítimo da Revolução, é uma verdade que ao absolutismo do Papa e dos reis, sucedeu nas democracias o absolutismo dos capitalistas banqueiros, mil vezes mais detestável”.

Nestas frases de Farias Brito, é possível ver o caráter conservador e tradicionalista do filósofo brasileiro.

Mário Sérgio Cortella (1954)

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Cortella é um filósofo, escritor, palestrante e professor universitário brasileiro. Em 1989, tornou-se mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sob a orientação do Prof. Dr. Moacir Gadotti, e em 1997, tornou-se doutor sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Freire, também em Educação pela PUC-SP. É professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e de pós-graduação em Educação da PUC-SP.

Principais obras

  • Por que Fazemos o que Fazemos? – Aflições vitais sobre trabalho, carreira e realização (2016)
  • Política: Para Não Ser Idiota (2010)
  • Ética e Vergonha na Cara! (2014)

Frases famosas

  1. “É necessário cuidar da ética para não anestesiarmos a nossa consciência e começarmos a achar que tudo é normal”.
  2. “Na vida, nós devemos ter raízes, e não âncoras. Raiz alimenta, âncora imobiliza. Quem tem âncoras vive apenas a nostalgia e não a saudade. Nostalgia é uma lembrança que dói, saudade é uma lembrança que alegra”.
  3. “Volto ao ponto: minha liberdade não acaba quando começa a do outro, ela acaba quando acaba a do outro”.

Cortella é um filósofo conhecido por tratar de temas cotidianos a partir de uma perspectiva filosófica. Nestas frases, é possível ver sua preocupação com a ética e a banalização do mal, a questão da liberdade – essencial para a ética – e como as pessoas lidam com suas relações.

Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé (1959)

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Pondé é um filósofo, professor universitário, palestrante e escritor brasileiro. Defendeu seu doutorado sobre Blaise Paschal na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e fez pós-doutorado na Universidade de Tel Aviv, em Israel.

Pondé tem divulgado um pensamento que chama de “liberal-conservative”, que engloba, segundo ele, as ideias de filósofos como David Hume, Adam Smith, Edmund Burke, entre outros.

Principais obras

  • Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (2012)
  • Marketing existencial (2017)
  • A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo (2014)

Frases famosas

  1. “Sem hipocrisia não há civilização – e isso é a prova de que somos desgraçados: precisamos da falta de caráter como cimento da vida coletiva”.
  2. “Nada é mais temido por um covarde do que a liberdade de pensamento”.
  3. “O perdão é maior do que a justiça, ele cabe onde a justiça não seria suficiente. É possível ser justo com alguma pessoa, sem perdoá-la”.

Pondé é um pensador contemporâneo que lida com temas do cotidiano, como a hipocrisia, a covardia e a justiça.

Gostou da matéria? Conheça um filósofo que inspirou muitos pensadores brasileiros, Michel Foucault.

Referências

O problema da filosofia no Brasil (1969) – Bento Prado Júnior
A (re)volta da dialética: diálogo, autocrítica e transformação no pensamento de Leandro Konder (2017) – André Luis de Oliveira Mendonça e Katia Reis de Souza
Convite à filosofia (2000) – Marilene Chauí
A construção do outro como não-ser como fundamento do ser (2005) – Sueli Carneiro
Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (2012) – Luiz Felipe Pondé

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduanda do 4º ano de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Filósofos brasileiros. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/filosofos-brasileiros. Acesso em: 25 de May de 2022.

Exercícios resolvidos

1.

Sobre o período da ditadura militar no Brasil e o impacto na vida intelectual, pode se dizer que:

a) Não houve grandes modificações, os intelectuais seguiram trabalhando livremente.
b) Houve perseguição política e muitos tiveram que se exilar, dentre eles o filósofo Leandro Konder.
c) Houve perseguição política só contra a classe artística, os intelectuais não sofreram perseguição.
d) Não houve perseguição política, porque não existiu ditadura militar no Brasil.

A alternativa B está correta. Durante a ditadura militar brasileira, muitos intelectuais, artistas, políticos e civis precisaram buscar asilo político em outro país.

2.

Sobre o feminismo negro no Brasil, é correto afirmar que:
I. O Instituto Geledés, fundado em 1988 foi um importante local para divulgação de estudos antirracistas e feministas, criado por Sueli Carneiro.
II. Djamila Ribeiro é uma importante divulgadora do feminismo negro, sobretudo pelas redes sociais, para democratizar tais temas.
III. No Brasil, não há grandes referências sobre o feminismo negro, somente importamos teorias de norte-americanas, como Angela Davis.

Estão corretas as afirmações:
a) I e II
b) II e III
c) I e III
d) I, II e III

A alternativa A está correta.
Sueli Carneiro é um nome indiscutível quando o assunto é feminismo negro e Djamila Ribeiro é uma filósofa que soube aproveitar as redes sociais para divulgar esse tema.

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