Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga foi um poeta que escreveu do lirismo árcade e bucólico ao sarcasmo e à crítica política.

Tomás Antônio Gonzaga viveu no Brasil durante o século XVIII e participou de movimentos artísticos e políticos. Sua obra Marília de Dirceu é um clássico da literatura brasileira escrito em liras, poemas líricos para serem cantados. Conheça este importante escritor árcade brasileiro a seguir!

Índice do conteúdo:

Biografia

Gravura de Tomás Antônio Gonzaga (Fonte: WikiMedia)

Tomás Antônio Gonzaga (Porto, 1744 — Ilha de Moçambique, 1810), conhecido como Dirceu, foi um poeta, juiz e ativista político. Órfão de mãe, mudou-se para o Brasil com o pai em 1751, vivendo em Pernambuco e na Bahia. Em 1761, retornou a Portugal para estudar direito e tornou-se juiz. De volta ao Brasil, foi nomeado ouvidor de Vila Rica (MG), onde conheceu sua amada Maria Joaquina, a pastora Marília de sua obra.

O poeta também se tornou amigo dos árcades Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. Juntos eles atuaram na Inconfidência Mineira, movimento precursor da Independência do Brasil. Em 1789, Gonzaga foi acusado de conspiração, ficou preso por 3 anos no Rio de Janeiro e foi condenado ao exílio de 10 anos em Moçambique. No país africano, o escritor casou-se com Juliana de Sousa Mascarenhas e atuou como juiz da alfândega até morrer em 1810.

Principais obras

A vida bucólica e o contato com a natureza são características árcades muito presentes na obra de Tomás Antônio Gonzaga, mas ele também apresentou uma escrita satírica e agressiva em algumas produções. Veja a seguir!

Marília de Dirceu

O poeta teria escrito a primeira parte do livro no Brasil, com 33 liras românticas e bucólicas inspiradas em uma vida com sua amada Maria Joaquina. O trabalho foi publicado em Lisboa em 1782, quando ele foi enviado à Moçambique, portanto, o escritor não participou dessa edição e não se sabe quem o teria feito.

A segunda parte do livro foi escrita durante o exílio, por isso aborda como temas a justiça dos homens, a saudade e o amor por Marília enquanto um consolo. Essas 65 liras foram publicadas em 1799 e há ainda uma terceira parte de Marília de Dirceu que não foi escrita por Tomás Antônio Gonzaga. Veja a primeira lira do livro a seguir!

Lira I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Cartas chilenas

A obra é composta por poemas satíricos que circularam em Vila Rica a partir de manuscritos em 1779, pouco tempo antes da Inconfidência Mineira. Os textos ironizavam e criticavam a tirania, o abuso de poder, a corrupção, a cobrança de altos impostos e os mandos e desmandos de políticos em Vila Rica, como o governador da capitania de Minas Gerais Luís da Cunha Meneses, referenciado na obra por “Fanfarrão Minésio”.

As cartas foram assinadas por “Critilo”, um possível habitante de Santiago do Chile (na verdade, Vila Rica) que narra ao amigo “Doroteu” (na verdade, Cláudio Manuel da Costa) a balbúrdia da cidade e de seu governante chileno “Fanfarrão Minésio”. A totalidade das cartas foi publicada em 1845 com a linguagem irônica e agressiva de Tomás Antônio Gonzaga, em versos decassílabos sem rimas, conforme o excerto abaixo:

Carta 2ª
Em que se mostra a piedade que Fanfarrão fingiu no princípio do seu governo, para chamar a si todos os negócios

Apenas, Doroteu, o nosso chefe
As rédeas manejou, do seu governo,
Fingir-nos intentou que tinha uma alma
Amante da virtude. Assim foi Nero;
Governou aos romanos pelas regras
Da formosa Justiça; porém logo
Trocou o cetro de ouro em mão de ferro.
Manda, pois, aos ministros lhe deem listas
De quantos presos as cadeias guardam:
Faz a muitos soltar, e aos mais alenta
De vivas, bem fundadas esperanças.
[…]
Mas quer fingir-se santo aos outros homens,
Pratica muito mais, do que pratica,
Quem segue os sãos caminhos da verdade.
Mal se põe nas igrejas de joelhos,
Abre os braços em cruz, a terra beija,
Entorta o seu pescoço, fecha os olhos,
Faz que chora, suspira, fere o peito;
E executa outras muitas macaquices,
Estando em parte, onde o mundo as veja.
Assim o nosso chefe, que procura
Mostrar-se compassivo, não descansa
Com estas poucas obras: passa a dar-nos
Da sua compaixão maiores provas.

Outras obras de Gonzaga

  • Tratado de Direito Natural (1768)
  • A conceição – o Naufrágio do Marialva (1802)

Agora que você já leu um pouco sobre as obras de Tomás Antônio Gonzaga, veja os vídeos abaixo e amplie seu conhecimento.

Vídeos sobre um autor lírico e sarcástico

Separamos três vídeos sobre a vida e as principais produções literárias de Tomás Antônio Gonzaga. Confira!

Marília de Dirceu

Nesse vídeo, o professor Pablo faz um resumão sobre a literatura árcade, apresenta essas características em Marília de Dirceu e comenta alguns trechos da obra. Assista!

Cartas chilenas

O professor Beto Brito fala dos temas abordados nas cartas chilenas e traz algumas curiosidades sobre seu processo de produção e autoria. Acompanhe!

O Brasil e as Cartas chilenas

A partir desse vídeo do Seja Livro, você vai entender o contexto brasileiro do século XVIII e compreender os acontecimentos de Minas Gerais descritos por Tomás Antônio Gonzaga em suas cartas.

Que tal conhecer um pouco mais sobre o movimento literário árcade? Leia a nossa matéria Arcadismo no Brasil e continue aprendendo!

Referências

Obras Completas (1942) – Tomás Antônio Gonzaga (organização de M. Rodrigues Lapa).

Érica Paiva Rosa
Por Érica Paiva Rosa

Professora, redatora e produtora cultural. Mestre em Letras pela UEM.

Como referenciar este conteúdo

Paiva Rosa, Érica. Tomás Antônio Gonzaga. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/tomas-antonio-gonzaga. Acesso em: 26 de January de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [PUC]

Pode-se afirmar que Marília de Dirceu e as Cartas chilenas são, respectivamente:

a) altas expressões do lirismo amoroso e da sátira política, na literatura do século XVIII.
b) exemplos da poesia biográfica e da literatura epistolar cultivadas no século XVII.
c) exemplos do lirismo amoroso e da poesia de combate, cultivados sobretudo pelos poetas românticos da chamada “terceira geração”.
d) altas expressões do lirismo e da sátira da nossa poesia barroca.
e) expressões menores da prosa e da poesia de nosso Arcadismo, cultivadas no interior das Academias.

Resposta: A
Justificativa: Marília de Dirceu é uma obra que se caracteriza pelo lirismo amoroso, enquanto Cartas chilenas, pela sátira política. Ambas as obras foram produzidas no século XVIII e são títulos muito importantes para a escola árcade.

2. [UFMG]

Todas as alternativas, sobre Marília de Dirceu, estão corretas, EXCETO:

a) Em alguns poemas, contrapõe-se um passado feliz a um presente doloroso.
b) Em determinados poemas, Gonzaga mescla à sua desgraça alguns elementos de humor.
c) Na obra, a intensidade de sentimentos convive com um forte sentido de realidade.
d) No conjunto da obra, Gonzaga tematiza tanto o seu amor por Marília quanto a infidelidade dela.
e) No livro, uma das temáticas recorrentes é o amor inabalável do poeta por sua musa.

Resposta: D
Justificativa: Na obra, Tomás Antônio Gonzaga não escreve sobre a infidelidade de Marília de Dirceu.

3. [FUVEST]

As chamadas Cartas Chilenas são obra anônima porque:

a) os originais, assinados pelo autor, perderam-se em um terremoto do Chile.
b) a ditadura que dominou o Brasil, entre 1937 e 1945, tornava perigosa a divulgação do nome de seu autor.
c) seu conteúdo pornográfico, pouco condizente com a moral da época, desaconselhava a relação da autoria.
d) contendo severas críticas ao governador de uma Província, seria imprudente a divulgação do nome de seu autor.
e) nome do autor é substituído pelo pseudônimo Fanfarrão Minésio, que os críticos ainda não conseguiram identificar.

Resposta: D
Justificativa: As cartas foram assinadas por Critilo, um personagem fictício, por apresentarem críticas ao governador Luís da Cunha Meneses, por isso foram divulgadas como obra anônima. Anos mais tarde, após estudos verificou-se que Tomás Antônio Gonzaga as escrevera.

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