Thomas Kuhn

A Ciência é subjetiva e é um eterno processo de normalidade e crise. Conheça o pensamento de Thomas Kuhn, responsável por desenvolver a teoria dos paradigmas científicos.

Autor de “A estrutura das revoluções científicas”, conheça as principais ideias do filósofo norte-americano Thomas Kuhn, que revolucionou a Filosofia da Ciência a partir de sua visão historicista.

Índice do conteúdo:

Biografia

Thomas Kuhn. Fonte: Wikipedia

Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996) foi um físico e filósofo estadunidense. Seus principais trabalhos foram voltados para a Filosofia da Ciência. Sua carreira acadêmica começou em 1940, na Universidade de Harvard, onde estudou Física. Em 1943 ele terminou a graduação, em 1946 obteve seu mestrado e, por fim, em 1949, seu doutorado. Todos os estudos na área da Física, na mesma instituição.

Após terminar seu doutorado, Kuhn começou a lecionar em Harvard. Uma das disciplinas que ensinava era de Ciências para os alunos dos cursos de Ciências Humanas. A partir desse momento, todo seu estudo mudou. Kuhn precisou estudar os casos mais conhecidos acerca da História da Ciência para lecionar a disciplina e esse contato acabou moldando o que viria ser sua teoria sobre os Paradigmas Científicos.

Em 1956, Kuhn ministrou aulas de história da ciência na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Enfim, tornou-se professor efetivo em 1961 dessa Universidade. Em 1964, assumiu a cadeira de Filosofia e História das Ciências, na Universidade de Princeton. Por fim, em 1971 Kuhn ministrou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), até o final de sua carreira.

O debate da Filosofia da Ciência vem da época de Copérnico. Mas um dois principais autores que compõe o contexto de debate é Karl Popper, com sua obra “A lógica da descoberta científica”. Além de Popper, também dialogava com Paul Feyerabend, aluno de Popper.

Principais ideias de Thomas Kuhn

A principal ideia de Thomas Kuhn é a oscilação da ciência ao longo da história. Para ele, ora o período é de normalidade, ora é de crise. Veja a seguir os principais conceitos abordados por Kuhn.

  • Paradigma: a princípio, paradigma significa um exemplar ou um modelo. Para Kuhn, a noção de paradigma tem uma base historicista, ou seja, a ciência deixa de ser vista de forma ampla e generalizada pela comunidade científica (um conjunto de cientistas que partilham de um mesmo paradigma) e passa a depender de um período datado na história. Para Kuhn, o conceito de paradigma pode ser usado tanto de forma geral quanto de forma restrita. Quando usado de modo geral, abarca a noção de matriz disciplinar (conjunto de compromissos de pesquisa de uma comunidade científica). Quando utilizado de maneira restrita, diz respeito aos paradigmas exemplares, a base da formação científica. O paradigma, quando restrito, é a base porque é por meio dele que o pesquisador acessa e domina determinado conteúdo da ciência, por meio de experimentação desses exemplares compartilhados pela comunidade científica.
  • Ciência Normal: é o período em que se desenvolve uma atividade científica fundamentada em um determinado paradigma. Essa fase é o processo rotineiro em que os cientistas não questionam (ao contrário, colocam à prova a estrutura paradigmática e corroboram) o paradigma em uso, por isso, acaba ocupando a maior parte da comunidade científica. De acordo com Kuhn, existem três classificações para a constituição da ciência normal: determinação do fato significativo (ou seja, os constructos teóricos e práticos a respeito de leis da natureza), articulação da teoria (momento em que se resolve as ambiguidades e os problemas) e a harmonização dos fatos com a teoria.
  • Crise: diferentemente do período da Ciência Normal, o período de Crise é quando o atual paradigma não é capaz de resolver todos os problemas (esses problemas podem levar anos ou até mesmo séculos para serem resolvidos). Quando isso acontece, o paradigma é questionado – ou seja – a comunidade científica começa a debater se esse paradigma precisa ser reformulado ou abandonado. Esse momento é chamado de Crise. Dá-se o nome de anomalias para os objetos estudados ao longo desse processo.
  • Ciência Extraordinária: é quando novos paradigmas são criados e eles começam a competir entre si, de modo a impor o mais adequado à resolução do problema.
  • Revolução científica: momento no qual um dos novos paradigmas substitui o paradigma anterior, tradicional. Cada revolução alimenta o ciclo de quebra e instituição de novo paradigma. A partir do momento em que o novo paradigma é aceito pela comunidade científica, ele inicia o processo da Ciência Normal; até que surjam novos problemas, novos questionamentos, novos paradigmas e assim sucessivamente.
  • Estabelecimento de um novo paradigma: o novo paradigma é aquele que ganhou a disputa e assumiu o status da Ciência Normal. No entanto, a teoria de Kuhn – por considerar o fenômeno histórico – demonstra que as escolhas paradigmáticas não são puramente científicas e objetivas, haja vista que a ciência não é um campo isolado da realidade. Desse modo, o filósofo aponta a existência de debates, tensões e disputas dentro da ciência. A atividade científica não está isenta dos aspectos subjetivos, pois esses cientistas fazem parte de uma determinada realidade social que influencia no seu modo de ver e pensar o mundo e, portanto, na sua escolha por um paradigma em detrimento de outro.

O mais importante é entender que, para Kuhn a ciência é subjetiva e as mudanças paradigmáticas acontecem não só por demandas científicas, mas também por demandas sociais e históricas. Os motivos para se escolher um paradigma em função de outro são motivos que vão além do campo científico, perpassando a política, a ética e a economia. Um paradigma pode ser um modelo a ser seguido “objetivamente”, mas sua criação e sua escolha são feitas conforme os interesses subjetivos daqueles que detêm o poder para tomar essas decisões.

Principais obras de Thomas Kuhn

Essas são as principais obras publicadas por Kuhn:

  • A revolução copernicana: a astronomia planetária no desenvolvimento do pensamento Ocidental (1957).
  • A Função do Dogma na Investigação Científica (1957).
  • A estrutura das revoluções científicas(1962).
  • Reconsiderando os paradigmas(1974).
  • Teoria do corpo negro e descontinuidade quântica: 1894-1912 (1979).

A mais conhecida de todas é “A estrutura das revoluções científicas”, livro em que ele apresenta a noção de paradigma, de mudanças paradigmáticas e da sua visão sobre a Ciência, fundamentalmente ancorada na História.

7 frases de Thomas Kuhn

Veja algumas frases e pensamentos famosos do filósofo:

  1. “O significado das crises consiste exatamente no fato de que indicam que é chegada a ocasião para renovar os instrumentos”.
  2. “Para mim, uma revolução é uma espécie de mudança envolvendo certo tipo de reconstrução dos compromissos de grupo. Mas não necessita ser uma grande mudança, nem precisa parecer revolucionária para os pesquisadores que não participam da comunidade – comunidade composta talvez de menos de vinte e cinco pessoas”.
  3. “Como atividade que resolve quebra-cabeças, a ciência normal não visa novidades do fato ou de teoria e, quando bem sucedida, não as encontra”.
  4. “Em condições normais, o cientista não é um inovador, mas um solucionador de quebra-cabeças, e os quebra-cabeças sobre os quais ele se concentra são apenas aqueles que ele acredita que podem ser definidos e resolvidos dentro da tradição científica existente”.
  5. “O que um homem vê depende tanto do que ele olha e também sobre o que sua experiência visual-conceitual prévia lhe ensinou a ver”.
  6. “Todos os avanços significativos são quebrados – ‘com’ formas antigas de pensar”.
  7. “Indivíduos que romperam inventando um novo paradigma são quase sempre muito jovens ou muito novos para o campo cujo paradigma eles mudam. Estes são os homens que, sendo pouco comprometidos por prática anterior às regras tradicionais da ciência normal, são particularmente prováveis ​​de ver que essas regras não definem mais um jogo jogável e conceber outro conjunto que pode substituí-los”.

Nessas frases pode-se ver o principal pensamento de Thomas Kuhn: a historicidade presente na ciência e como isso implica as mudanças paradigmáticas. A ciência, para ele, é um processo constante de alternância e revolução.

Quer quebrar paradigmas? Saiba mais sobre Thomas Kuhn

Nestes três vídeos, você poderá sintetizar os conhecimentos trabalhados e se aprofundar em alguns conceitos explicados brevemente nessa matéria. Além disso, no último vídeo, poderá contrastar o pensamento de Kuhn com outros três importantes filósofos da Filosofia da Ciência.

Síntese do pensamento de Thomas Kuhn

Nesse vídeo de animação do Canal Gobbo Avantis, você poderá sintetizar as informações trabalhadas nessa matéria, para que nos vídeos a seguir fique mais claro algumas especificações a respeito dos conceitos de Thomas Kuhn.

Detalhando a teoria

No vídeo do Canal Conexão Filosófica, são explicados os percursos percorridos pela Ciência a partir da teoria de Thomas Kuhn. O vídeo aborda os conceitos de paradigma, anomalia, crise, revolução e ciência normal.

Contexto de debate de Thomas Kuhn

Nesse vídeo, Mateus Salvadori apresenta as teorias de Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend – os principais filósofos do século XX na área de Filosofia da Ciência. Esse vídeo é interessante para você conseguir contrastar as ideias desses quatro pensadores.

Com os vídeos e com a matéria, você pode acompanhar o pensamento de Thomas Kuhn e a sua defesa da ideia de que a ciência é um ciclo de alternâncias e revoluções, ciência normal e crise, em que as mudanças paradigmáticas são inevitáveis. Soma-se a isso a defesa pela historicidade da ciência. Gostou do tema? Veja sobre um dos grandes paradigmas quebrado, o Geocentrismo.

Referências

A estrutura das revoluções científicas. Thomas Kuhn. (2003)
Convite à Filosofia. Marilena Chauí (2004)
Filosofando: Introdução à Filosofia. Maria Helena de Arruda Aranha et al. (2009)
O livro da filosofia. Will Buckingham et al. (2011)

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduanda do 4º ano de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Thomas Kuhn. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/thomas-kuhn. Acesso em: 08 de November de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [UEM 2012]

“O filósofo Thomas Kuhn afirma que uma teoria se torna um modelo de conhecimento ou um paradigma científico. O paradigma se torna o campo no qual uma ciência trabalha normalmente, sem crises. Em tempos normais, um cientista, diante de um fato ou de um fenômeno ainda não estudado, o explica usando o modelo ou o paradigma científico existente. Em contraposição à ciência normal, ocorre a revolução científica. Uma revolução científica acontece quando o cientista descobre que o paradigma disponível não consegue explicar um fenômeno ou um fato novo, sendo necessário produzir um outro paradigma.”

(CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 14.ª ed. São Paulo: Ática, 2011, p. 281).

Sobre isso, é correto afirmar que

I) o paradigma científico é o campo teórico do cientista porque fornece os parâmetros para a ciência normal.

II) a teoria torna-se um modelo de conhecimento porque ela se constitui como uma explicação dos fenômenos para o cientista.

III) o paradigma científico é incompleto porque os cientistas estão sempre negando os paradigmas.

IV) a revolução científica é um avanço na ciência porque os cientistas sempre descobrem que as teorias anteriores estavam erradas.

V) embora verdadeiros, os paradigmas científicos são mutáveis porque os cientistas podem alcançar os limites dos modelos teóricos.

Estão corretas:
a) I, II e IV
b) II, III e V
c) I, III e V
d) I, III e IV

A alternativa correta é a “A”.
Uma ciência madura, de acordo com Kuhn, experimenta fases alternativas de ciência normal e revoluções. Durante o período de ciência normal, as teorias chaves, os instrumentos, os valores e as pressuposições metafísicas, que compreendem a matriz disciplinar, são mantidos fixos, permitindo a geração cumulativa de soluções para quebra-cabeças, enquanto durante uma revolução científica, a matriz disciplinar perpassa uma revisão, isto em vista da solução de perplexidades maiores e mais sérias que perturbavam o funcionamento da ciência normal.

2. [UNIOESTE 2009]

“Segundo o filósofo da ciência Thomas Kuhn, paradigma é um conjunto sistemático de métodos, formas de experimentações e teorias que constituem um modelo científico, tornando-se condição reguladora da observação. […] A ciência normal, conforme Kuhn, funciona submetida por paradigmas estabelecidos historicamente num campo contextual de problemas e soluções concretas. […] Os paradigmas são estabelecidos nos momentos de revolução científica […] Portanto, para Kuhn, a ciência se desenvolve por meio de rupturas, por saltos e não de maneira gradual e progressiva”.

(E. C. Santos)

Sobre a concepção de ciência de Kuhn, é INCORRETO afirmar que:

a) o desenvolvimento científico não se dá de modo linear, cumulativo e progressivo.

b) o desenvolvimento científico possui momentos de revolução, de ruptura, nos quais há mudança de paradigma.

c) a ciência normal é o período em que a pesquisa científica é dirigida por um paradigma.

d) um exemplo de mudança de paradigma (revolução) na Astronomia e a substituição do sistema geocêntrico aristotélico-ptolomaico pelo sistema heliocêntrico copernicano-galilaico.

e) a ciência não está submetida, de forma alguma, às condições históricas.

A resposta é a alternativa “E”.
De fato, o texto afirma que “a ciência normal, conforme Kuhn, funciona submetida por paradigmas estabelecidos historicamente num campo contextual de problemas e soluções concretas”, e isso é justamente o contrário do que está afirmado na alternativa E.

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