Karl Popper

Vivemos em um mundo em constante evolução, principalmente no que diz respeito às ciências e tecnologias. Karl Popper compreendeu isso e, então, criou seu próprio método científico.

Karl Popper é um filósofo austríaco que atuou nas áreas da política e da ciência. Participava das discussões do Círculo de Viena (grupo de filósofos que defendiam o “positivismo lógico”), mas se opunha abertamente às várias doutrinas do grupo. Dentre suas principais contribuições, há a demarcação científica que distingue a ciência das pseudociências e da metafísica.

Biografia

Karl Popper em 1990. Fotografia por Lucinda Douglas-Menzies. Fonte: Wikimedia.

Karl Raimund Popper nasceu em 28 de julho de 1902 em Viena, na Áustria. De seus pais, herdou o interesse pela filosofia, por questões políticas e sociais, bem como o amor pela música. Em 1919, envolveu-se ativamente na política, tornando-se membro de uma associação socialista e marxista. Todavia, desiludiu-se rapidamente pelo caráter doutrinário do marxismo. Posteriormente, interessou-se pelas teorias psicanalíticas de Freud e Adler e, inclusive, exerceu trabalhos sociais na área.

No entanto, foi uma palestra de Albert Einstein sobre a teoria da relatividade o marco fundamental de sua trajetória intelectual, pois fez Popper refletir sobre o espírito crítico tão presente em Einstein, porém ausente em Marx e nos psicanalíticos. Em poucas palavras, ao contrário destes, a teoria da relatividade possuía implicações testáveis que, se falsas, falsificariam toda a teoria. Mais tarde, Popper viria a ser criticado por sua ênfase à lógica da falseabilidade a qual, segundo muitos da comunidade filosófica, teria sido substituída pelos paradigmas de Thomas Kuhn.

Apesar das críticas, é imensa sua contribuição para a filosofia da ciência, inclusive por ter fornecido base para estudos póstumos na área a Kuhn, Lakatos e Feyerabend. Também seu trabalho quanto à verossimilhança, à mecânica quântica, à teoria da probabilidade e ao individualismo metodológico influenciou pesquisadores contemporâneos. Ademais, aposentou-se das universidades em 1969, porém manteve-se ativo como escritor e palestrante até sua morte em 1994.

Nem Freud, nem Marx

Como já mencionado, Popper impressionou-se em virtude da teoria de Einstein se mostrar altamente arriscada, isto é, permitia deduzir consequências que, se comprovadas falsas, poderiam refutar a teoria em si. Por outro lado, nada poderia refutar as teorias psicanalíticas de Freud e Adler, visto que, segundo ele, a suposta “cientificidade” da psicanálise baseava-se em sua capacidade de se acomodar em todas as formas possíveis do comportamento humano. Porém, o austríaco considerava essa uma fraqueza, não uma qualidade científica.

Embora por motivos distintos, Popper também criticou a cientificidade do marxismo. Neste caso, o filósofo afirma que, a princípio, os postulados de Marx eram científicos, pois sua teoria era genuinamente previsível. Entretanto, quando as previsões não se cumpriram, a teoria foi “salva” da refutação pela adição de hipóteses ad hoc, ou seja, hipóteses que são acrescentadas à teoria original para justificar anomalias que tornariam a teoria falsa tornando o marxismo uma pseudociência.

A ciência e a demarcação

O problema da demarcação consiste no problema de distinguir teorias científicas de teorias não científicas. Isso significa que se uma teoria é incompatível com observações empíricas, ela é científica. Essa fala pode causa estranhamento a princípio, mas pensemos no que foi dito a respeito do marxismo e da psicanálise: o primeiro foi modificado para que acomodasse tantas observações empíricas quanto fossem necessárias para não ser refutado; já a segunda é consistente com todas as observações possíveis. Portanto, ambas não são científicas. Isso não quer dizer, porém, que teorias não científicas não possam ser esclarecedoras ou valiosas.

Além disso, com o desenvolvimento de tecnologias ou refinamento das próprias teorias, podem acabar por se tornar refutáveis, portanto, científicas. Ademais, acrescenta-se às teorias criticadas por Popper a metafísica, porque esta age de modo que a realidade observada se encaixe em suas teorias. Portanto, não há observação possível que se falsifique suas teorias.

Teorias de Karl Popper

Para Popper, a ciência não é definitiva e deve estar em constante evolução. Por isso, desenvolveu um método de investigação científica onde as hipóteses que compõem uma teoria passam por testes constantes, acompanhando, assim, o desenvolvimento da ciência e das tecnologias. Abaixo, explicamos sua metodologia.

Falseabilidade

Karl Popper observou que muitas hipóteses científicas são generalizações universais, como “todo metal ferroso é afetado por um campo magnético”. Para verificar essa hipótese, deve-se observar cada metal ferroso para confirmar se, de fato, são afetados pelo campo magnético. Sendo assim, basta encontrar um metal ferroso que não seja afetado para que a hipótese universal seja falsa. Desse modo, a generalização universal, segundo Popper é cientificamente válida, pois pode ser refutada (supondo podermos observar todos os seus objetos).

Sendo assim, todas as ciências devem apresentar hipóteses que tenham diversas consequências observacionais e testá-las incansavelmente. Enquanto as hipóteses não são refutadas, os cientistas as mantêm, porém, tão logo são encontradas evidências que as tornem falsas, devem ser dispensadas. Portanto, em suma, Popper afirma que uma hipótese científica deve ter sua validade determinada pela observação, mas se não há uma condição em que essa hipótese seja falsa, esta não é científica.

Método Hipotético Dedutivo

O método de Karl Popper consiste em, primeiramente, identificar problemas, lacunas ou contradições em teorias já existentes. A partir disso, para cada problema, lacuna ou contradição é formulada uma conjectura, solução ou hipótese. Estas passam pelo incansável teste da falseabilidade acima mencionado. Então, os resultados são analisados e as conjecturas, soluções ou hipóteses são avaliadas de modo que se determine sua refutação ou corroboração. Na sequência, se a hipótese é refutada, deverá ser descartada ou reformulada até que dela se sucedam hipóteses que possam ser corroboradas. Essas novas hipóteses passarão pelo mesmo processo e, assim, ocorrerá infinitamente.

Principais livros

Popper escreveu inúmeros livros que contemplam desde questões sócio-políticas até obras consideradas pioneiras no campo da filosofia da ciência. A seguir, listamos alguns de seus principais trabalhos.

  • A lógica da pesquisa científica (1934)
  • A sociedade aberta e seus inimigos (1945)
  • A miséria do Historicismo (1957)
  • Conjecturas e refutações (1963)
  • Conhecimento objetivo: uma abordagem evolucionária (1972)
  • Os dois problemas fundamentais da teoria do conhecimento (1979)
  • Em busca de um mundo melhor (1984)

Destas, duas obras destacam-se pela crítica ao Historicismo: A miséria do Historicismo e A sociedade aberta e seus inimigos. Estas obras ressaltam o quão problemática é a ideia de que é possível prever o futuro através de uma análise histórica fundamentada na lei da evolução da sociedade, sendo que a publicação de 1957 é dedicada à memória de homens e mulheres, vítimas do fascismo e de crenças comunistas nas leis inexoráveis do destino histórico. Ademais, na área da filosofia da ciência, destacam-se A lógica da pesquisa científica e Conjecturas e refutações como uma síntese de sua metodologia baseada na falseabilidade e no princípio de que devemos aprender com os nossos erros para o êxito das teorias científicas.

5 frases de Karl Popper

Como já mencionado, Popper dedicou-se tanto à filosofia política quanto à filosofia da ciência. Por isso, destacamos algumas frases presentes em suas obras de ambas as áreas de estudo.

  1. “Temos pois de proclamar, em nome da tolerância, o direito de não sermos tolerantes com os intolerantes. Temos de proclamar que qualquer movimento que promova a intolerância se coloca fora da lei, e temos de considerar criminoso todo e qualquer incitamento à intolerância e à perseguição, como consideramos criminoso o incitamento ao homicídio, ao rapto, ou ao restabelecimento do tráfico de escravos” (A sociedade aberta e seus inimigos).
  2. “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância” (A sociedade aberta e seus inimigos).
  3. “Um dos ingredientes mais importantes da civilização ocidental é o que poderia chamar de “tradição racionalista”, que herdamos dos gregos: a tradição do livre debate – não a discussão por si mesma, mas na busca da verdade” (Conjecturas e refutações).
  4. “A ciência é valorizada pela influência liberalizadora que exerce – uma das forças mais poderosas que contribui para a liberdade humana” (Conjecturas e refutações).
  5. “Tudo isto significa que um jovem cientista que espera fazer descobertas é mal aconselhado se seu professor diz: ‘Observe à sua volta’ e que ele será bem aconselhado se seu professor lhe disser: ‘Tente se informar acerca do que as pessoas estão discutindo atualmente na ciência. Descubra onde as dificuldades surgem e interesse-se pelos desacordos. Estas são as questões com as quais você deveria se ocupar’” (Conjecturas e refutações).

Para finalizar, ressaltamos que a tolerância, o livre debate e a liberdade humana são aspectos chave na compreensão deste filósofo que, apesar das críticas, foi homenageado em premiações internacionais por suas contribuições para filosofia e a ciência.

Vídeos para entender Popper

Após apresentarmos os fundamentos básicos para a compreensão da filosofia de Karl Popper, selecionamos alguns vídeos para complementar seus estudos.

Falseabilidade em Popper

Neste vídeo, Mateus Salvadori explica, com exemplos, o famoso método científico de Karl Popper.

Popper x Kuhn

Aqui, o professor Alexandre Zeni coloca lado a lado estes dois importantes personagens da Filosofia da Ciência.

A lógica da pesquisa científica

Novamente, Mateus fala de Popper. Dessa vez, explana uma das mais importantes obras para a ciência de nosso século.

As motivações de Popper

Qual a relação entre Einstein, Freud e Popper? Este vídeo explica, de maneira dinâmica e didática, o que Popper aprendeu com os dois primeiros. Embora o vídeo seja em língua inglesa, é possível ativar as legendas em português!

Como se pode ver, apesar das críticas, Karl Popper representou um marco para a filosofia, em especial, no campo científico. O filósofo acreditava que a ciência está em constante evolução e cabe aos pesquisadores identificar possíveis erros e lacunas nas teorias e aprender com eles. Agora, para aprofundar seus conhecimentos no tema, explore nosso conteúdo sobre o conhecimento científico.

Referências

ABRÃO, Bernadette Siqueira (org.). A História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

SHEA, Brendan. Karl Popper: Philosophy of Science. Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://www.iep.utm.edu/pop-sci/. Acesso em: 14 de junho de 2020.

THORNTON, Stephen. Karl Popper. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2019 Edition), Edward N. Zalta (ed.). Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/win2019/entries/popper/. Acesso em: 14 de junho de 2020.

Thaís Bravin Carmello
Por Thaís Bravin Carmello

Licenciada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Carmello, Thaís Bravin. Karl Popper. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/karl-popper. Acesso em: 15 de August de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [UEL]

“O positivista desaprova a ideia de que possam existir problemas significativos fora do campo da ciência empírica ‘positiva’ – problemas a serem enfrentados por meio de uma teoria filosófica genuína. O positivista não aprova a ideia de que deva existir uma […] epistemologia […].” (POPPER, Karl R. A lógica da pesquisa científica. Trad. de Leônidas Hegenberg. São Paulo: Cultrix, 1974. p. 53.).
Com base no texto, é correto afirmar que Karl Popper:
a) Defende a ideia de que a filosofia é uma ciência.
b) Atribui aos positivistas a tese de que a filosofia é uma ciência.
c) Afirma que as teorias filosóficas devem resolver os problemas científicos.
d) Descreve a rejeição do positivista à epistemologia.
e) Desaprova a ideia de que deva existir uma epistemologia.

Resposta: D
Justificativa: A resposta pode ser encontrada no próprio enunciado da questão, quando este afirma “O positivista não aprova a ideia de que deva existir uma […] epistemologia […]”. Aliás, Popper, apesar de participar das discussões do Círculo de Viena, era crítico de muitas de suas ideias positivistas.

2. [UEL]

“As experiências e erros do cientista consistem de hipóteses. Ele as formula em palavras, e muitas vezes por escrito. Pode então tentar encontrar brechas em qualquer uma dessas hipóteses, criticando-a experimentalmente, ajudado por seus colegas cientistas, que ficarão deleitados se puderem encontrar uma brecha nela. Se a hipótese não suportar essas críticas e esses testes pelo menos tão bem quanto suas concorrentes, será eliminada”. (POPPER, Karl. Conhecimento objetivo. Trad. de Milton Amado. São Paulo: Edusp & Itatiaia, 1975. p. 226.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre ciência e método científico, é correto afirmar:
a) O método científico implica a possibilidade constante de refutações teóricas por meio de experimentos cruciais.
b) A crítica no meio científico significa o fracasso do cientista que formulou hipóteses incorretas.
c) O conflito de hipóteses científicas deve ser resolvido por quem as formulou, sem ajuda de outros cientistas.
d) O método crítico consiste em impedir que as hipóteses científicas tenham brechas.
e) A atitude crítica é um empecilho para o progresso científico.

Resposta: A
Justificativa: O excerto descreve um dos princípios do método científico de Popper: a refutabilidade. Esta consiste em testar as hipóteses em busca de erros e lacunas. Portanto, a alternativa correta é a A.

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