Psicanálise

A psicanálise freudiana proporcionou a descoberta do inconsciente e das contradições dos desejos humanos.

A psicanálise é uma teoria, um método, e também um modo de interpretar e tratar dos sofrimentos psíquicos humanos. Assim como outras abordagens da psicologia, ela é independente e possui seus próprios conceitos e ideias sobre como se explica o fenômeno psicológico. Saiba mais sobre essa importante área do conhecimento.

O que é?

A psicanálise é uma teoria criada por Sigmund Freud por volta de 1895, desenvolvida com o objetivo de interpretar e curar sofrimentos psíquicos. Alguns fundamentos importantes da teoria original incluem a descoberta do inconsciente, o papel da sexualidade e os processos de repressão.

Atualmente, a psicanálise constitui um campo abrangente de estudos e aplicação. Embora Freud continue sendo uma referência, outras figuras como Mealnie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan foram responsáveis por dar novos fôlegos para a teoria.

Psicanálise é ciência?

Freud, criador da psicanálise, sempre se preocupou com o caráter científico da teoria que estava desenvolvendo. Para ele, alguns processos mentais que ele descrevia poderiam ser, no futuro, descobertos pelos estudos do sistema nervoso.

Entretanto, muitas pessoas questionam a cientificidade dessa teoria. Alguns afirmam que ela está entre a ciência e a arte. Hoje, existem pesquisas que relacionam a psicanálise com descobertas da neurociência, se aproximando da proposta inicial de Freud.

Enfim, para responder a essa pergunta, é necessário questionar qual é a definição de ciência que se está utilizando. A depender da perspectiva, é possível que ela não seja enquadrada como tal. De todo modo, sua influência e validade são inegáveis.

Contexto histórico

Sigmund Freud era um médico. Em 1885, em Paris, ele teve contato com Jean-Martin Charcot, também médico, que fazia exibições públicas de tratamento de uma doença: a histeria.

Na época, a histeria era uma doença misteriosa que acometia as mulheres, e os médicos tentavam curá-la fazendo intervenções violentas e invasivas no útero ou em outros órgãos. Nesse contexto, Charcot defendia que a cura não estava nesse tipo de “tratamento”.

Freud ficou admirado com as demonstrações de Charcot, e passou a estudar a histeria. Ao mesmo tempo, foi influenciado por Hippolyte Bernheim que utilizava técnicas de hipnose. Com o tempo, Freud desenvolveu métodos sem o uso da hipnose, mas pautado na fala e na escuta.

Assim, Freud formulou uma teoria e um método de análise: a psicanálise. Com ela, foram sistematizadas as ideias sobre o inconsciente, além de conceitos como o recalcamento. Depois da histeria, o autor ainda produziu interpretações sobre o sonho e a sexualidade infantil, gerando polêmicas.

Freud: o pai da psicanálise

Sigmund Schlomo Freud foi médico e criador da teoria psicanalítica. Nasceu em 6 de maio de 1856 na atual Príbor, na República Tcheca, sendo de família judia. Até hoje, é o representante de uma das maiores teorias psicológicas.

Freud foi responsável por formular uma série de conceitos e descobertas, como a ideia do inconsciente. A seguir, confira algumas das obras mais importantes do psicanalista:

  • Estudos sobre a histeria (1895);
  • A interpretação dos sonhos (1990);
  • Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901);
  • Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905);
  • Cinco lições de psicanálise (1910);
  • Conferências introdutórias à psicanálise (1917);
  • O mal-estar na civilização (1930).

Principais conceitos

A psicanálise é atualmente um campo abrangente de investigação e aplicação. Por isso, é difícil apresentar toda a complexidade de teorias já formuladas até hoje. Entretanto, confira a seguir alguns fundamentos importantes apresentados desde Freud:

Consciente e inconsciente

Uma das grandes proposições de Freud foi afirmar que as pessoas não são coerentes ou unificadas – ou seja, o “eu” é sempre pelo menos cindido em duas partes: o consciente e o inconsciente. Por essa razão, o que o sujeito “quer” é frequentemente contraditório.

Em seus estudos, Freud tentou acessar o inconsciente de diversas formas. Abandonando as primeiras tentativas de hipnose, a fala e a escuta tornaram-se centrais na clínica. Assim, surgem técnicas como a associação livre.

Id, ego, superego

Essa é uma segunda formulação importante de Freud, e de certo modo é uma continuidade da primeira. Conforme o autor, o sujeito é dividido em três instâncias: o id, o ego e o superego.

O id é a parte mental responsável pelos prazeres, os instintos e as tensões biológicas no humano. Enquanto isso, o superego se forma no indivíduo tardiamente com as leis, a moral e os papeis sociais. Nesse contexto, o ego é a instância que tenta mediar as exigências do id e do superego, conciliando seus desejos “contraditórios”.

Repressão e recalcamento

Uma das mais importantes interpretações feitas na análise freudiana foram os modos inconscientes de encobrir o desejo. Conforme o psicanalista, os sintomas apresentados pelo cliente não são um desvio ou degeneração, mas um meio de expressão do sujeito.

Assim, sintomas como insônia, queda de cabelo, ou até doenças como a histeria – que era de interesse do Freud –, diziam respeito a coisas que eram difíceis para a pessoa expressar. Assim, o sujeito adota inconscientemente mecanismos de repressão desses desejos.

Complexo de Édipo

Em termos resumidos, o complexo de Édipo diz respeito a um sentimento que surge desde criança: a sensação de nunca se estar completamente satisfeito, e a fantasia de que o outro está gozando e você está excluído dessa plenitude.

No caso da criança, como as suas grandes referências são geralmente os pais, é nessa dinâmica entre as funções materna e paterna que o complexo de Édipo surge. Em exemplos clássicos, o menino rivaliza com o pai pela atenção da mãe.

Assim, os conceitos psicanalíticos formam um sistema teórico bastante complexo. Em linhas gerais, e em parte, a psicanálise faz o papel de dar sentido a essas aparentes contradições dos desejos, revelando o que está inconsciente e ajudando a tecer caminhos mais saudáveis ao sujeito.

Vídeos para se aprofundar sobre a psicanálise

A psicanálise pode ser de interesse tanto para as pessoas que querem estudá-la, como para aquelas que desejam ser analisadas. Contemplando esses objetivos, veja abaixo uma seleção de vídeos que abordam alguns tópicos importantes sobre o tema:

A estrutura cindida do sujeito

Uma das grandes propostas freudianas foi de afirmar que o “eu” não é dono de si, nem coerente psicologicamente. Ao mesmo tempo, a contradição e os paradoxos deixam de ser necessariamente patológicos na psicanálise. Entenda mais no vídeo acima.

Psicanálise é ciência?

Existem diversas respostas possíveis à pergunta do subtítulo. Para essa questão, é importante notar qual é a definição de ciência que está sendo adotada pela pessoa que responde. Acima, veja a uma possível solução desse problema.

Quem foi Freud?

Confira a uma breve biografia de quem foi Freud e sobre seus estudos. Ainda hoje, ele figura como o grande representante da psicanálise e muitos de seus conceitos são ainda resgatados ou são alvos de releituras.

A psicanálise de Lacan

Embora Freud seja o grande criador da teoria, Lacan é bastante conhecido por dar novos rumos para os conceitos psicanalíticos. Para entender a psicanálise hoje, pode ser importante ter contato com as ideias de Lacan, que já estão bem estabelecidas.

Assim, a psicanálise é ainda uma das grandes teorias que influenciaram o mundo ocidental. De fato, existem outras correntes teóricas e filosóficas que questionam as propostas psicanalíticas, e pode ser interessante conhecê-las para vislumbrar a pluralidade da psicologia.

Referências

Histeria e borderline. Mo(vi)mentos da clínica psicanalítica – Eunice Nishikawa, Maria Luiza Fiore, Orlando Hardt;

Os fundamentos freudianos e as aplicações da psicanálise: condições, possibilidades e implicações – Angela Cristina da Silva;

Para que serve a psicanálise? – Denise Maurano.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Cientista social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [FUNDEP]

“A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio [de energia]. Em consequência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração. O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis. A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas. Daí, portanto, o emprego de métodos destinados a incitar as pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua finalidade, daí a restrição à vida sexual e daí, também, o mandamento ideal de amar ao próximo como a si mesmo, mandamento que é realmente justificado pelo fato de nada mais ir tão fortemente contra a natureza original do homem.”
FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização. Obras psicológicas completas. Parte V. Edição Standart brasileira. Rio de Janeiro: Imago editora, 1996
A partir desse trecho, em conformidade com o pensamento psicanalítico de Freud, é CORRETO afirmar que
a) a felicidade humana só é possível no retorno à vida natural, uma vez que a civilização é responsável por um profundo mal-estar no homem.
b) a força da lei é a mediação capaz de dominar as manifestações mais refinadas da agressividade humana, que faz da diferença e oposição uma inimizade.
c) a identidade humana encontra-se na libido. Por isso, o maior esforço da sociedade consiste em inibir e controlar esse desejo, o que gera mal-estar nos homens.
d) a premissa fundamental da psicanálise afirma que a vida psíquica divide-se em consciente e inconsciente, sendo a dimensão consciente predominante.

Resposta: c

Justificativa: a libido é uma força motriz presente nos sujeitos, e os desejos nunca são plenamente satisfeitos – a ideia da plenitude se encontra nos ideais de paraíso ou céu. Assim, a civilização ocidental, para Freud, se encontra nessa tarefa de lidar com os desejos a todo o momento.

2. [FCC]

Para Freud, a associação livre é um método que
a) consiste em reprimir conteúdo do inconsciente, favorecendo uma sensação de bem-estar ao cliente, que sofre traumas advindos de um Complexo de Édipo não constelado.
b) reproduz de forma linear os pensamentos do cliente codificando os estímulos que provocaram dor e hoje são vivenciados pelo cliente como fobias.
c) evidencia respostas negativas a estímulos sensoriais que se expressam diante de eventos positivos que mereciam ser vivenciados sem dor.
d) leva à cura do paciente que apresenta um comprometimento do sistema nervoso central.
e) consiste em o paciente exprimir indiscriminadamente todos os pensamentos que vem à sua mente, quer a partir de um elemento dado (palavra, número, imagem de um sonho, qualquer representação), quer de forma espontânea.

Resposta: e

Justificativa: a associação livre é o método que surgiu substituindo a hipnose, e é uma forma de acessar o inconsciente por meio da fala e da escuta. Com a fala livre, é possível identificar as contradições trazidas pelo sujeito.

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