Misoginia

Entenda o que é misoginia e sua relação com o machismo e o sexismo.

Misoginia é o ódio, a repulsa e o preconceito contra as mulheres apenas pelo fato de serem mulheres. Infelizmente, a misoginia não é algo que nasceu na sociedade moderna. Ela já existe há um tempo nas diversas culturas que constroem a história da humanidade. Assim como o machismo, racismo e a LGBTQIA+fobia, a misoginia também deve ser combatida.

O que é e quais as causas da misoginia?

A etimologia do termo misoginia vem de duas palavras gregas: miséo, que significa ódio e gyné, mulher, portanto, é o ódio contra as mulheres. A definição ainda se expande para a aversão, a repulsa e o desprezo a tudo aquilo que remete ao gênero feminino, inclusive às partes sexuais do gênero. Vê-se a misoginia presente na sociedade desde os povos antigos, infelizmente não é algo novo.

A principal causa da misoginia é o sistema patriarcal que estrutura as diferentes sociedades ao longo da história da humanidade. O sistema patriarcal é pautado pelo domínio masculino, fazendo com que as camadas de poder da sociedade (como os poderes econômico e político) sejam majoritariamente representadas por homens. A falta de representatividade feminina nas instâncias de poder causada pelo patriarcado acaba oprimindo as mulheres e provocando a misoginia.

Outras causas para a misoginia.

    1. Filósofos misóginos: alguns pensadores, como Aristóteles e Schopenhauer, são considerados misóginos por diversas passagens em suas obras, em que colocam o papel e o valor da mulher como inferiores e imperfeitos. Aristóteles, um dos filósofos que estruturou uma grande parte do pensamento ocidental, em seus estudos sobre matéria e forma, afirmou que a mulher era um homem imperfeito, quando comparada com o corpo masculino.
    Já Schopenhauer, por exemplo, em algumas passagens, dizia que o único papel da mulher era o de reproduzir. Não podemos reduzir a obra desses filósofos a essas passagens, mas é preciso fazer a crítica.
    2. Religiões: assim como com os pensadores citados, não podemos reduzir as religiões aos seus princípios misóginos, mas é preciso reconhecer as passagens misóginas e repreendê-las. Um dos motivos para a manutenção da misoginia é o amplo domínio do cristianismo no mundo.
    Em diversas passagens da Bíblia Sagrada, podemos ver a defesa da submissão das mulheres aos seus maridos, colocando-as como suas propriedades. Sendo a ideologia cristã uma das mais seguidas no mundo, os princípios cristãos acabam se expandindo; no entanto, os preconceitos propagados na Bíblia também se alastram nas culturas cristãs e, hoje, já sabemos que eles devem ser combatidos.
    O Alcorão é outro escrito religioso que propaga a inferioridade da mulher em relação à inteligência e a fé. Além de também dizer que a mulher deve obediência ao marido.

É importante, contudo, sabermos que nem sempre foi assim. Durante a pré-história, segundo historiadores, a humanidade se organizava de uma forma diferente. O sistema vigente era o matriarcal, no entanto, a sociedade não era baseada em um sistema opressivo. Em algumas sociedades europeias e asiáticas, a mulher era considerada uma figura sagrada por ter a capacidade de gerar a vida e ambos os gêneros dividiam valores iguais, ainda que tivessem funções diferentes.

Atenção!

A misoginia e os demais preconceitos não são naturais do ser humano, mas foram desenvolvidos em razão do processo histórico que prioriza a dominação e a opressão do outro como instrumentos de desenvolvimento civilizatório.

A luta do movimento feminista, ao contrário do que muitos pensam, não é para que haja o domínio social da mulher, mas sim a igualdade entre os gêneros. O movimento tem, como principais pautas, o fim da opressão estrutural que as mulheres sofrem na sociedade machista e a emancipação do gênero feminino para se expressar livremente.

Em contraposição à misoginia, existe a misandria: o ódio ou aversão ao gênero masculino. Assim como a misoginia, a misandria deve ser combatida. Na sociedade patriarcal, no entanto, os males provocados por esse preconceito são menores do que os da misoginia, haja vista que existe mais homens nas esferas representativas de poder do que mulheres e, portanto, sofrem menos opressão do que as mulheres.

Como a misoginia se manifesta

A misoginia se manifesta em diversos níveis, dos menos visíveis aos mais drásticos. A desvalorização do gênero feminino, a depreciação da mulher, a exclusão social, as ofensas verbais, as ações ou os comportamentos agressivos contra o gênero feminino, a objetificação do corpo da mulher, o abuso e a violência sexual e o feminicídio (assassinato de pessoas do gênero feminino), entre outros atos de violência contra mulher. Todos esses atos são modos da misoginia se manifestar.

Misoginia X machismo X sexismo

Os três conceitos estão relacionados, pois todos abordam a depreciação do gênero feminino e colaboram para a manutenção da violência cometida contra esse gênero, mas operam de formas diferentes.

A misoginia, como vimos, está ligada ao ódio às mulheres e a tudo relacionado a elas. Por se relacionar a um sentimento, dizemos que a misoginia está em uma esfera patológica (do grego: páthos, que significa paixão, afeto ou sofrimento), ou seja, é um ódio doentio que se manifestará por meio de uma ação que tem como suporte o machismo.

Já o machismo não tem um fundo sentimental, mas sim cultural. O machismo é um preconceito e um modo de opressão que opera na acepção de que o gênero masculino é superior ao feminino. Dizer que o machismo é estrutural e cultural significa dizer que o machismo faz parte da estrutura básica do sistema capitalista (o sistema econômico atual) de modo a colaborar para sua manutenção e bom funcionamento em todas as esferas: pública, privada, política, cultural, econômica. O machismo endossa e é endossado, portanto, pelo capitalismo, pelas religiões, por pensadores que criam as teorias ideológicas que seguimos etc.

O sexismo é a ideia de que existem funções únicas e específicas para cada gênero na sociedade ou que cada um deve ser de um determinado jeito. Como a ideia de que o homem deve trabalhar e ser o provedor da família, enquanto a mulher fica em casa e cuida dos filhos. Ou pensar que o homem não pode expressar seus sentimentos porque deve ser “forte” e a mulher, por ser “frágil”, pode chorar e sofrer facilmente.

Misoginia no Brasil

A misoginia pode ser expressa de diversas formas, mas independente do modo de manifestação, ela sempre será uma violência contra a mulher. É uma violência porque é uma ação opressora. No Brasil, um dos países cuja violência contra a mulher expressa números exorbitantes, existe uma lei que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher: a lei Maria da Penha de 2006, que detalha os cinco tipos de violência (verbal, física, psicológica, sexual e patrimonial).

De acordo com o FBSP (Fórum brasileiro de segurança pública) de 2017, a cada onze segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. De acordo com o portal Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha, hoje, no Brasil:

    – A cada 2 segundos uma mulher é vítima violência física ou verbal;
    – Uma mulher é vítima de perseguição a cada 6,9 segundos;
    – A cada 22,5 segundos uma mulher é vítima de espancamento ou tentativa de estrangulamento;
    – Uma mulher é vítima de arma de fogo a cada 2 minutos.

Segundo o Atlas da Violência de 2020, em 2017, 13 mulheres por dia foram assassinadas.

Leis contra a violência de gênero

Esses dados são alarmantes e apenas a Lei Maria da Penha não dá conta de contê-los, por isso outras leis foram criadas para tentar enfrentar a violência de gênero. Alguns exemplos de leis são:

    – Lei 15.104 de 2015 que define o feminicídio como um crime hediondo. O feminicídio é um tipo de violência específico, a fatal;
    – Lei 13.718 de 2018 que trata do crime de importunação sexual, tornando crime a divulgação e propagação de cenas de estupro, sexo, pornografia e nudez sem que a outra pessoa envolvida dê o consentimento.
    – Lei 13.642 de 2018 sobre crimes propagados em rede de computadores que propagam conteúdo misógino. A lei é uma alteração da lei 10.443 de 2002. Ela acrescenta à Polícia Federal o papel de investigar tais crimes.

Em abril de 2021 entrou em vigor a lei 14.123, que enquadra a perseguição como crime. Essa lei não é específica para as mulheres, mas tendo em vista que vivemos em uma sociedade machista, na qual as mulheres são as maiores vítimas de atos opressores, essa lei auxilia muito as pessoas em situação de violência que precisam de proteção de seus agressores.

Como vimos, existem algumas leis para se combater a misoginia, no entanto, apenas a existência dessas leis não garante o fim da violência contra as mulheres, é preciso existir um combate de caráter ativo e educativo para que esses atos sejam extintos da nossa sociedade.

Quer saber mais? Esses vídeos vão aprofundar e exemplificar os temas que trabalhamos aqui

Nos dois primeiros vídeos, você verá duas discussões importantíssimas que abordam a misoginia, misandria e homofobia, por fim, um pequeno glossário de todos esses conceitos apresentados.

Misoginia e misandria: qual a diferença?

O vídeo do canal Free Winnie traz a uma boa discussão em relação à oposição entre misoginia e misandria, abordando, inclusive, a questão de considerar se misandria realmente existe ou se é uma reação à violência sofrida contra as mulheres.

Misoginia e pautas LGBTQIA+

O vídeo do canal Tempero Drag faz uma importante discussão entre a relação das lutas feministas e da população LGBTQIA+. O vídeo mostra como a misoginia e a homofobia tem a mesma raíz.

Definições dos conceitos de hoje

No vídeo do canal Não me poupe, vê-se uma sequência de definições de conceitos, dos quais alguns nós tratamos nesse post. Além de oferecer exemplos de como esses conceitos se manifestam na sociedade.

É importante sabermos os significados e as manifestações desses preconceitos para termos argumentos para refutá-los e combatê-los. Está na hora de vivermos em uma sociedade verdadeiramente livre. Confira sobre essa liberdade clicando aqui!

Referências

BRASIL. Atlas da Violência 2020. IPEA – Instituto de pesquisa econômica avançada. FBSP – Fórum brasileiro de segurança pública, 2020.
DAVIS, Angela. Mulher, raça, classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
FONSECA, Pedro Carlos Louzada. Matéria” e “forma” de Aristóteles e misoginia: disseminação na literatura medieval. Revista Nós, Cultura, Estética e Linguagens. v.03 n.03, 2018.
SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, Patriarcado, Violência. 2ª ED. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduanda do 4º ano de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Misoginia. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/misoginia. Acesso em: 07 de May de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [Concurso CESP 2010]

Com relação aos movimentos sociais, assinale a opção correta.
A) As lutas do movimento feminista na contemporaneidade focam, em todas as esferas sociais, as discriminações sexistas, o patriarcado, a misoginia ou a divisão sexual do trabalho.
B) O movimento feminista é considerado um movimento social recente.
C) Apenas alguns movimentos sociais devem ser considerados sexuados.
D) O papel das mulheres como sujeito coletivo em movimentos sociais mistos é central e visível.
E) O movimento das mulheres em bloco rejeita a ideia de que a igualdade com os homens supõe a transformação global das relações sociais.

A alternativa A é a correta.
A alternativa B está incorreta porque o movimento feminista tem suas primeiras aparições datadas na contestação do Direito do Homem e do Cidadão que excluía a mulher da declaração.
A alternativa C está errada porque os movimentos sociais não são pautados pelo sexismo.
A alternativa D também está errada porque, como vimos, mesmo em um movimento social, a sociedade machista não permite que o papel da mulher seja central.
A alternativa E está incorreta porque o feminismo representa a luta pela igualdade de gênero.

2.

De acordo com o que foi visto a respeito da misoginia, considere as afirmações:
I. A misoginia é uma prática recente que surgiu na sociedade contemporânea em resposta ao machismo.
II. Embora atuem de formas diferentes, machismo, misoginia e sexismo estão interligados porque são preconceitos.
III. O machismo é um preconceito de ordem social e cultural, ao passo que a misoginia é um preconceito de ordem mais patológica.
IV. Misoginia e misandria representam o mesmo preconceito, mas a misandria é mais praticada do que a misoginia.
É possível afirmar que:
a) I e II estão corretas;
b) I e III estão corretas;
c) II e III estão corretas;
d) II, III e IV estão corretas;
e) I, II e IV estão corretas.

A alternativa C é a correta.
Como foi visto, a misoginia é um preconceito antigo que já estava presente desde o tempo dos povos antigos e não é uma resposta ao machismo, pelo contrário, atua por meio dele, em alguns casos.
Vimos que o conceito de misandria é o ódio aos homens e tudo aquilo que é representado pelo gênero masculino, diferente de misoginia que é o ódio à mulher. Também foi explicado que, por conta da estrutura patriarcal da sociedade, a misandria não é tão fatal quanto a misoginia, haja vista que os homens estão nas instâncias de poder e, portanto, sofrem menos opressão que as mulheres.

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