Preconceito social

O preconceito social é apenas uma das expressões de desigualdades sociais latentes em nossa sociedade, sendo necessário discutir sobre ele.

Os preconceitos em geral são um conceito para explicar como seres humanos possuem comportamentos hostis ou discriminatórios em relação a um indivíduo ou grupo. Nesse sentido, o preconceito social marca especificamente os preconceitos que se dirigem contra alguns grupos dentro de uma sociedade. Entenda mais a seguir:

O que é preconceito social

O preconceito social é qualquer tipo de discriminação voltada contra grupos ou classes sociais historicamente desfavorecidas. Sendo assim, o termo se relaciona com o de desigualdade social.

Tipos de preconceito

Para entender como o preconceito social se relaciona com a desigualdade social, veja abaixo alguns grupos que que carregam “marcadores” que os fazem ser reconhecidos como pertencentes a um grupo e, logo, sofrer um preconceito:

  • Preconceito racial: no Brasil, o racismo de marca faz com que pessoas de pele mais escura sofram mais preconceito do que as de pele mais clara. Assim, esse tipo de discriminação tem relação com o racismo estrutural que existe no país.
  • Preconceito de classe: conforme as leituras clássicas na sociologia, o mundo pode ser dividido pelo menos em duas classes, sob o critério econômico: os proprietários (dos meios de produção) e os não-proprietários. Logo, a maioria do mundo, que é menos abastada, pode sofrer preconceito pela sua condição econômico em maior ou menor nível.
  • Preconceito de gênero: no mundo ocidental, as “mulheres” – por mais diversas que elas sejam –, apenas por serem identificadas nesse gênero, podem sofrer alguns preconceitos. Esse estigma está relacionado com conceitos como o machismo, o patriarcado ou sexismo.
  • Preconceito homofóbico: seja qual for a orientação sexual, indivíduos que não são heterossexuais podem sofrer preconceitos e agressões de diferentes níveis em vários locais do mundo. Atualmente, já são bastante conhecidas as violências contra pessoas gays ou lésbicas, ao não se conformarem a um padrão de sexualidade.
  • Preconceito transfóbico: pessoas trans são aquelas que não se identificam com o gênero que lhes foram impostos ao nascerem. Portanto, ao não se adequarem ao padrão esperado de masculinidade ou feminilidade, são alvos recorrentes de preconceito e violência – até de assassinato.
  • Preconceito xenófobo: a xenofobia diz respeito à discriminação contra estrangeiros ou indivíduos considerados “de fora”. No mundo contemporâneo, uma das grandes questões internacionais tem sido a da crise dos refugiados.
  • Preconceito linguístico: nos diferentes países, há a chamada norma culta a ser seguida para falar ou escrever “corretamente” um idioma. Assim, qualquer indivíduo que possui uma trajetória cultural diferente dessa norma é considerado “errado”.

Embora esses preconceitos mostrem bem como alguns marcadores sociais acompanham os indivíduos na sociedade, existem ainda outros. Para identifica-los, é necessário se atentar às desigualdades sociais.

Preconceito social é crime?

Como já foi possível notar, os preconceitos sociais são variados. Entretanto, no artigo 3 da Constituição Federal consta que “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

No artigo 20 da Lei º 7.716/1989, é considerado crime “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”. Logo, preconceitos raciais, religiosos ou xenófobos são ações cabíveis de pena.

Em 2019, uma nova legislação tornou a homofobia e a transfobia crimes equiparáveis com o do racismo, fazendo com que esses preconceitos também passem a ser enquadrados juridicamente.

Preconceito social no Brasil

Os preconceitos sociais podem se manifestar de diversas maneiras. Embora existam vários casos explícitos, uma boa parte deles são velados, e ocorrem de modo “amigável”, o que torna o preconceito difícil de ser identificado. Veja, a seguir, alguns exemplos:

Homofobia na escola

Conforme uma pesquisa realizada em 2004 (1), 41% dos pais de uma escola não gostariam que seus filhos estudassem com colegas LGBT na mesma turma. Assim, mesmo que esse caso seja um exemplo explícito de preconceito homofóbico e transfóbico, existem outros modos sutis de se discriminar pessoas desse grupo.

Racismo e desemprego

Em 2017, 64% da população desempregada no Brasil era composta de pessoas negras. Os estudos mostram (2) que uma das grandes dificuldades para a entrada no mercado de trabalho está no próprio momento da entrevista. Nesse contexto, pessoas negras são consideradas como menos capazes – por preconceito – do que os de outros grupos étnico-raciais.

Xenofobia em aumento

Nos últimos anos, uma das grandes pautas internacionais é o da xenofobia. Se na Europa há a crise de refugiados, o Brasil também é palco de conflitos envolvendo imigrantes que procuram trabalho no país. Conforme um estudo (3), houve um aumento de 633% nas denúncias por xenofobia em 2015, principalmente contra haitianos.

Preconceito social e racial

O preconceito racial é um preconceito social, pois faz parte de uma série de discriminações e violências praticadas contra um grupo minoritário em poder: nesse caso, a população negra. No Brasil, esse fenômeno faz parte do racismo estrutural.

É interessante mostrar que pessoas negras são minoritárias em poder, já que, paradoxalmente, elas são a maioria numérica no país: são mais de 53% da população brasileira. Entretanto, esse também é o grupo com menor renda, taxa de escolarização ou ascensão social em comparação com os brancos.

Por essas e outras razões, o preconceito racial é apenas uma das expressões de um racismo estrutural – ou seja, um racismo que está arraigado e está na própria formação da nação brasileira. Assim, isso mostra o quanto esse é um problema urgente a ser debatido.

Preconceito social e de classe social

As questões de classe – ou seja, de ordem econômica – foram um dos primeiros fenômenos estudados pela sociologia. Nesse contexto, os grupos com maior poder aquisitivo, que são minoritários, são os que dominam os grandes meios de produção.

Em teorias clássicas como as de Karl Marx, é possível visualizar como o capitalismo só foi consolidado porque os recursos naturais de diversos povos foram expropriados – foi o caso, por exemplo, das terras originárias que foram chamadas de “Brasil”, após a colonização.

Consequentemente, os grandes donos dos meios de produção dominam não apenas a economia, mas a indústria cultural e o prestígio na sociedade. Assim, são comuns os preconceitos com a população mais pobre em todo o mundo.

Vídeos sobre preconceito e sociedade

Os preconceitos que podem ser identificados cotidianamente são de ordem social, ou seja, possuem uma relação histórica com o modo como nossa sociedade é formada. Portanto, veja abaixo uma seleção de vídeos que ampliarão o tema:

A psicologia social do preconceito

Como adquirimos alguns preconceitos? Veja como alguns deles fazem parte de um processo psicológico humano, e como outros estão ligados a uma desigualdade social.

Os preconceitos nas relações sociais

Os preconceitos estão quase sempre ligados a desigualdades sociais enfrentados pela sociedade. No vídeo acima, entenda esse assunto ligado à raça e a etnia.

Preconceito social contra indígenas

O racismo contra a população indígena é um fenômeno muito presente na sociedade brasileira, mesmo que não seja ainda tão visível em relação a outras pautas.

Preconceito religioso

O preconceito religioso é uma das ações enquadradas como crime no Brasil, e se relaciona com o racismo. Entenda mais.

Transfobia

A transfobia é uma das pautas mais urgentes a serem debatidas no movimento LGBT. Compreenda mais sobre o que significa essa reivindicação.

Portanto, os preconceitos sociais são uma pauta importante para diversos movimentos que mostram como são alvos de discriminações por conta de determinados marcadores sociais. Para entender mais da questão, veja sobre minorias.

Referências

Marcadores sociais – Marcio Zamboni;

Preconceito e discriminação como expressões de violência – Lourdes Bandeira; Analía Soria Batista.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Cientista social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UERJ]

No último mês de janeiro, nas comemorações do Dia de Martin Luther King,
propagou-se, mais uma vez, a frase Black lives matter “Vidas negras importam”, que surgiu nos protestos gerados pela morte de jovem negro, em agosto de 2014, na cidade norte-americana de Ferguson. A utilização dessa frase nas comemorações de 2015 aponta para uma contradição existente entre uma característica da ordem política norte-americana e um impedimento ao pleno exercício dos direitos civis. Essa característica e esse impedimento, respectivamente, são:

a) prevalência do republicanismo e existência de grupos paramilitares
b) legitimidade do associativismo e regulação dos movimentos populares
c) vigência do ideal democrático e permanência de desigualdades étnicas
d) garantia da liberdade de manifestação e monitoramento das redes sociais

Resposta: c

Justificativa: uma das grandes contradições que os ideias do liberalismo, do progressismo e da democracia liberal precisam lidar é a convivência de valores que prezam pela liberdade e, ao mesmo tempo, dos preconceitos e desigualdades sociais.

2. [UEL]

Analise os dados da tabela a seguir:
Tabela de dados de desigualdade social

Os dados sobre a pobreza e a indigência segundo a cor ilustram os argumentos dos estudos:

a) de Gilberto Freyre sobre a natural integração dos negros na sociedade brasileira, que desenvolveu a democracia racial.
b) de Caio Prado Junior sobre a formação igualitária da sociedade brasileira, que desenvolveu o liberalismo racial.
c) de Sérgio Buarque de Holanda sobre a cordialidade entre as raças que formam a nação brasileira: os negros, os índios e os brancos.
d) de Euclides da Cunha sobre a passividade do povo brasileiro, ordeiro e disciplinado, que desenvolveu a igualdade de oportunidades para todas as raças.
e) de Florestan Fernandes sobre a não integração dos negros no mercado de trabalho cem anos após a abolição da escravidão.

Resposta: e

Justificativa: a tabela demonstra a desigualdade social enfrentada pela população negra, sustentando a tese de Florestan Fernandes sobre a não integração dessas pessoas na sociedade.

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