Desigualdade social

A desigualdade social é um problema persistente nas sociedades modernas, e é necessário entendê-la de forma não individualista. A sociologia ajuda a compreender suas causas e consequências.

Por que alguns possuem mais e outros menos? A desigualdade social é o termo utilizado para pensar esse assunto. Nas sociedades modernas, uma classe pode obter mais prestígio, dinheiro, segurança ou capacidade de dominar os demais. Enquanto isso, outras não possuem esses mesmos poderes e a explicação está no modo de funcionamento da sociedade.

Esse é um fenômeno que nos acompanha há bastante tempo. A Revolução Francesa e o lema “igualdade, liberdade e fraternidade” traduz bem o incômodo com esse grande problema – que se agrava cada vez mais em diversos países. A seguir, serão analisados alguns de seus aspectos.

O que é desigualdade social

Operários, de Tarsila do Amaral (1933).
Operários, de Tarsila do Amaral (1933).

A desigualdade social é qualquer forma de concentração de poder (econômico, político, cultural) de uma classe social sobre outra, desprivilegiada desse poder.

Portanto, ao falar de desigualdades sociais, não se está discutindo o sucesso de um indivíduo sobre o outro. Ao contrário, estamos debatendo sobre como uma grande classe de pessoas recorrentemente possui menos poder e uma outra detém muito.

Causas da desigualdade social

Qual a origem da desigualdade social? Para autores como Rousseau, ela advém de uma corrupção da humanidade. Por outro lado, pensadores como Hobbes afirmam que a existência da desigualdade é inevitável em qualquer lugar.

De qualquer forma, a desigualdade se tornou um grande problema tanto para os liberais como para os socialistas da época. Veja a seguir algumas causas da desigualdade social que conhecemos atualmente, particularmente no Brasil:

  • Colonização: países europeus colonizaram diversos territórios e populações ao redor do mundo por meio da violência. O Brasil era uma colônia que visava apenas a exploração dos seus recursos naturais. Mesmo após a Independência, toda a riqueza explorada obviamente não retornou ao Brasil, que cresceu como uma nação dependente das grandes potências mundiais.
  • Escravidão: no Brasil, a população negra trazida de terras africanas foi escravizada, enquanto os brancos eram os senhores. Como sabemos, a propriedade é algo que se passa de geração em geração. Consequentemente, esses senhores enriqueceram com o trabalho de escravos e passaram seus bens aos filhos. E mesmo que ela tenha acabado, a população negra foi deixada sem propriedade, e o fruto de seu trabalho continua nas mãos dos descendentes desses antigos senhores.
  • Normas culturais: apesar de existirem culturas diversas e ricas no Brasil, a dominante é geralmente aquela que possui uma referência nas potências mundiais. No nosso país, elas privilegiam ou oferecem mais poder e segurança para as pessoas que estão dentro de suas normas. Normas que, por exemplo, dizem o que é um “homem” ou uma “mulher”, qual deve ser a sexualidade do indivíduo ou seus padrões estéticos.

Consequências da desigualdade social

Como foi discutido acima, a desigualdade social pode ter diversas origens. Todas elas, entretanto, possuem um caráter social – ou seja, não basta olhar para a história de vida de um indivíduo, mas analisar a sociedade como um todo.

A seguir, confira algumas das consequências dessas desigualdades para toda a população:

  • Violência: é uma consequência da desigualdade social porque, quando um grupo de pessoas é desfavorecido, fica mais vulnerável diante dos mais privilegiados. Ao mesmo tempo a violência mantém a desigualdade, porque faz com que indivíduos do lado com menos poder tenham medo, não desenvolvam suas capacidades, além de dificultar sua ascensão social.
  • Pobreza: a pobreza é o outro lado da moeda da concentração de renda na mão dos mais ricos. Por mais que haja recursos o suficiente no mundo para alimentar a população mundial, a desigualdade social faz com que muitos não tenham acesso a alimentação, saúde, moradia e educação.
  • Naturalização: um dos efeitos da desigualdade é ela mesma se justificar e convencer de que essa é a ordem natural da sociedade. Afinal, as mudanças sociais geralmente ocorrem em intervalos muito grandes de tempo. Em outras palavras, as pessoas crescem e são ensinadas a acreditar que não é possível mudar as desigualdades sociais, e acabam não vendo mudanças significativas até a sua morte.

Portanto, toda desigualdade social possui uma raiz histórica que ultrapassa a vida de um único indivíduo. Para entender como elas funcionam, é necessário recorrer à sociologia, a antropologia ou outras formas de conhecimento.

Desigualdade social e ideologia

Para Karl Marx, as desigualdades econômicas entre a burguesia e o proletariado ocorrem pelo modo como o capitalismo se estrutura nas sociedades modernas.

Segundo sua famosa frase, a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante – ou seja, a capitalista. Entenda mais sobre com base no mundo em que vivemos:

  • Capitalismo: os indivíduos são iguais e devem ser livres para competir uns com os outros na sociedade. Se existe ainda desigualdade social, é possível resolvê-las visando tornar todos realmente iguais e capazes.
  • Comunismo: de acordo com Marx, as desigualdades sociais não serão resolvidas dentro de um sistema capitalista porque o capital é a fonte desses problemas. O Estado e o capital que é concentrado nas mãos de poucos devem ser abolidos para que todos sejam livres.

Ainda que tenhamos dividido os discursos entre essas duas ideologias, há uma diversidade maior de argumentos a respeito das desigualdades sociais. No entanto, as ideias apresentadas podem servir como um ponto de partida para estudar mais a respeito do assunto.

O cenário brasileiro

Trabalhadores no lixão em Brasília.
Foto: Arquivo/Agência Brasil

Para abordar o assunto no Brasil, é necessário analisar a sociedade brasileira em seus diversos aspectos. Além das já pontuadas raízes históricas, as desigualdades se mantêm hoje também pelo modo como as relações sociais se organizam.

Dados sobre a desigualdade social no Brasil

Conforme o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em 2009 apenas 10% da população brasileira possuía cerca de 43% de toda a renda nacional. Essa classe de 10% corresponde às famílias mais ricas do país. Enquanto isso, o 10% da população mais pobre detinha apenas 1,1% dessa renda.

Em outras palavras, há uma disparidade no modo como nossos bens são usufruídos pelos próprios brasileiros. Assim, a concentração de renda nas mãos de poucos é um grande problema. Apesar disso, em 2011 houve uma redução nessa desigualdade devido a fatores como o trabalho, a previdência e o Programa Bolsa Família.

Ainda existem desigualdades de outras ordens persistentes no país. Pesquisas como o PNAD e o Atlas da Violência mostram que as mulheres negras são as mais vulneráveis em relação a violência. Entre 2004 e 2014, houve uma diminuição de homicídios de pessoas não-negras (14,6%) e um aumento no homicídio de pessoas negras (18,2%).

Como acabar com a desigualdade social

A essa altura, é possível notar que solucionar a questão da desigualdade social não é uma tarefa fácil. Além disso, esse é um empreendimento que pode levar gerações e décadas para mudanças efetivas. No entanto, é possível indicar alguns caminhos já apontados por pesquisas, que ajudam a termos uma maior clareza sobre a nossa sociedade.

  • Educação: os investimentos públicos neste setor são essenciais para a redução da desigualdade social. Entretanto, a aprendizagem ocorre em toda a sociedade, e é necessário que o ato de adquirir conhecimento seja incentivado.
  • Pesquisas: pesquisas científicas e acadêmicas que investigam o modo como essas desigualdades ocorrem são imprescindíveis para compreender melhor o assunto. A partir delas, é possível pensar em novas soluções e promover debates.
  • Movimentos sociais: a organização de pessoas em torno de pautas políticas precisa ser incentivada, e não censurada. Particularmente, movimentos que reivindicam a redução de determinadas desigualdades são importantes para realizar mudanças na sociedade.
  • Arte: a arte é uma das formas possíveis de pensar o mundo, e é a partir dela que muitos se inspiram a realizar transformações. Desse modo, é relevante estar atento ao que artistas brasileiros produzem – principalmente os que dão atenção aos problemas sociais.
  • Plano econômico: quando se trata de economia, o assunto fica restrito a especialistas. Todavia, é necessário dar atenção a tais questões principalmente no momento de eleger representantes. Rótulos em relação a “direita” ou “esquerda” podem não refletir com precisão qual é o plano econômico do candidato.

Todos os pontos elencados fazem parte de um horizonte maior, isto é, de pensar qual o projeto de sociedade brasileira está em vigor. Muitas ações governamentais agravam as desigualdades sociais – prejudiciais para a maioria das pessoas.

Tipos de desigualdade social

Há muitos tipos de desigualdade social, e cada uma delas são estudadas pela sociologia. Confira alguns na lista abaixo:

  • Econômica: a desigualdade econômica é uma das mais conhecidas e que mais é percebida pelas pessoas. Ela é social porque não é simplesmente um problema de um indivíduo ter mais que o outro, mas uma questão que toca a concentração de renda.
  • Racial: o racismo e a desigualdade racial são problemas persistentes em toda a história brasileira, prejudicando a população negra e dificultando sua ascensão social.
  • Gênero: conforme as normas culturais dominantes, o papel feminino é visto como algo menor, complementar ou que simplesmente ajuda quem ocupa a posição masculina. Assim, mulheres são prejudicadas nessa relação.
  • Sexualidade: assim como nas desigualdades de gênero, as normas culturais dominantes impõem padrões de sexualidade e comportamento. Consequentemente, pessoas que não se apresentam como heterossexuais são vulneráveis a violências.
  • Deficiências: pessoas com deficiência enfrentam muitas dificuldades em uma cultura dominante que impõe padrões de corpo e normalidade. Muitos querem “consertar” esses indivíduos, como se eles tivessem algo de errado.

Desse modo, é importante estar atento aos diferentes tipos de desigualdade social para entender como nossas relações se organizam. A partir disso, é possível que pequenas mudanças aconteçam.

Entenda mais sobre o assunto

Confira uma lista de vídeos com outras pessoas falando a respeito das desigualdades sociais. Esse é um tema que é produtivo quando é debatido, sendo preciso conhecer argumentos de diversas fontes para poder discutir o assunto.

Desigualdade de renda no Brasil

Entenda mais sobre o cenário da desigualdade e a concentração de renda no Brasil atualmente. Além disso, o vídeo aborda possíveis causas desse fenômeno na sociedade brasileira.

Sobre fome e desigualdade econômica

Para compreender melhor sobre uma das consequências da desigualdade econômica, vale a pena conferir esse vídeo que retrata a fome. O ato de se alimentar, que pode parecer simples e comum, é algo ainda difícil para muitas pessoas.

As normas sexuais e a desigualdade

As pesquisas sobre como funcionam as normas sexuais na nossa sociedade ajudam a entender melhor a diversidade humana em relação à sexualidade. Com isso, é possível também ter maior clareza sobre as desigualdades e os preconceitos.

A desigualdade racial no Brasil

Revise sobre a realidade da desigualdade racial no Brasil. Entenda esses argumentos para se inserir nos debates contemporâneos.

Portanto, a desigualdade social é um tema complexo e bastante abrangente. Entretanto, é necessário entender minimamente do assunto para se atentar aos debates políticos que tratam dessa questão. Nesse sentido, a sociologia é uma importante fonte de estudo.

Referências

A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica – Florestan Fernandes;

Mulheres, raça e classe – Angela Davis;

Persistentes desigualdades raciais e resistências negras no Brasil contemporâneo – Zelma Madeira; Daiane Daine de Oliveira Gomes;

O Brasil das desigualdades: “questão social”, trabalho e relações sociais – Marilda Villela Iamamoto.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UFUB]

De acordo com a teoria de Marx, a desigualdade social explica-se:

a) Pela distribuição da riqueza de acordo com o esforço de cada um no desempenho de seu trabalho.
b) Pela divisão da sociedade em classes sociais, decorrente da separação entre proprietários e não proprietários dos meios de produção.
c) Pelas diferenças de inteligência e habilidade inatas dos indivíduos, determinadas biologicamente.
d) Pela apropriação das condições de trabalho pelos homens mais capazes em contextos históricos, marcados pela igualdade de oportunidades.

Resposta: b

Justificativa: a teoria de Marx faz parte da Sociologia Clássica que explica as desigualdades sociais não por um argumento individualista ou capacitista, as desigualdades sociais são explicadas por meio da realidade social. Assim, Marx e outros autores demonstram que não há uma igualdade de oportunidades para todas as pessoas e a mobilidade social em direção ascendente por membros de classes baixas é uma realidade difícil. A desigualdade social existente aqui, portanto, é entre aqueles que detêm os meios de produção (a propriedade) e aqueles que não possuem.

2. [ENEM]

TEXTO I

Ela acorda tarde depois de ter ido ao teatro e à dança; ela lê romances, além de desperdiçar o tempo a olhar para a rua da sua janela ou da sua varanda; passa horas no toucador a arrumar o seu complicado penteado; um número igual de horas praticando piano e mais outras na sua aula de francês ou de dança.
Comentário do Padre Lopes da Gama acerca dos costumes femininos [1839] apud SILVA, T. V. Z. Mulheres, cultura e literatura brasileira. Ipotesi — Revista de Estudos Literários, Juiz de Fora, v. 2. n. 2, 1998.

TEXTO II

As janelas e portas gradeadas com treliças não eram cadeias confessas, positivas; mas eram, pelo aspecto e pelo seu destino, grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam, sonegadas à sociedade, as filhas e as esposas.
MACEDO, J. M. Memórias da Rua do Ouvidor [1878]. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 20 maio 2013 (adaptado).

A representação social do feminino comum aos dois textos é o(a):

a) Submissão de gênero, apoiada pela concepção patriarcal de família.
b) Acesso aos produtos de beleza, decorrência da abertura dos portos.
c) Ampliação do espaço de entretenimento, voltado às distintas classes sociais.
d) Proteção da honra, mediada pela disputa masculina em relação às damas da corte.
e) Valorização do casamento cristão, respaldado pelos interesses vinculados à herança.

Resposta: a

Resposta: a representação dada ao papel feminino em ambos os textos é a da submissão e do enclausuramento da mulher nas atividades domésticas. Assim, fica evidente a desigualdade de gênero pelas oportunidades e as possibilidades de ascensão social.

Compartilhe nas redes sociais

TOPO