Francis Bacon

Francis Bacon é um filósofo conhecido por representar o início de uma tradição de método nas ciências modernas.

Quando se discute sobre história da ciência, o nome de Francis Bacon geralmente aparece. Qual a sua importância? Na matéria abaixo, entenda como esse autor postulou noções básicas que ainda se encontram nos métodos científicos, pensando nas formas de descrever de modo confiável e verdadeiro a realidade.

Biografia

Pintura de Francis Bacon
Francis Bacon, Viscount St Alban. Artista desconhecido.

Francis Bacon nasceu na Inglaterra em 1561. Seu pai, Sir Nicolas Bacon, era Guardião do Selo Real, fazendo com que Francis estivesse sempre envolvido com os serviços da realeza. De fato, ele quando adulto foi conselheiro e ministro de Elizabeth I e James I.

Em vida, Francis Bacon foi nomeado Lorde Chanceler e Barão de Verullan em 1618, além de Visconde de St. Albans em 1621. Contudo, um envolvimento com caso de corrupção o tirou da vida pública, embora tenha sido perdoado pelo rei.

Bacon vivia duas vidas bastante separadas: uma, como político, e outra como filósofo. Logo que o primeiro campo passou a tomar menos de seu tempo, se dedicou mais à sua escrita, suas reflexões e seus experimentos.

Com isso, Bacon se tornou um dos grandes proponentes do método experimental científico. Atualmente, é conhecido como um dos criadores da ciência moderna, propondo um conhecimento produzido a partir da experimentação ou do empirismo.

Morte

Em 1626, Francis Bacon passava pelo distrito de Highgate, no inverno, e decidiu realizar um experimento. Sua hipótese era que o gelo podia conservar a carne tanto quanto o sal; logo, matou uma galinha, enterrou-a na neve, e voltaria para confirmar a ideia.

Entretanto, sob o frio intenso, Bacon acabou adoecendo gravemente. Acamado, pediu que alguém verificasse o resultado do experimento, o que confirmou que sua hipótese estava correta. Após alguns dias, faleceu no dia 9 de abril.

Na época, o filósofo estava interessado em pensar sobre as possibilidades de prolongamento da vida. Portanto, a ideia de experimentar a preservação da carne no gelo estava alinhada ao que refletia no momento.

Teoria

Francis Bacon possui uma vasta obra produzida ao longo de toda a sua vida. Contudo, um livro que se destaca é o Novum Organum – é com ele que suas principais proposições são feitas, influenciando séculos de produção científica posteriormente. Veja a seguir algumas de suas ideias:

O empirismo

Conforme Bacon, a natureza deve ser observada sistematicamente na prática. Para isso, o cientista deve se despir de qualquer preconceito – ou “ídolos”, que serão explicados no tópico seguinte. Assim, o método científico é aquele que permite um indivíduo analisar a realidade tal como ela é, sem julgamentos pessoais.

Portanto, a ideia de grande valor para Bacon é a da experiência, ou a empiria. É por meio da observação – feita a partir de um sentido: a visão – que o conhecimento pode ser produzido. Por essa razão, o autor é classificado na vertente filosófica chamada empirista.

O empirismo é uma corrente filosófica oposta ao racionalismo: ou seja, ele afirma que todo o conhecimento se origina na experiência, e não “dentro da cabeça”, nas ideias ou em uma Razão inata.

Ídolos

Para observar a natureza tal como ela é, é necessário se despir de preconceitos ou ídolos que os indivíduos carregam socialmente. Segundo Bacon, existem pelo menos quatro tipos de ídolos, ou seja, julgamentos sobre a realidade que não são confirmadas na prática. Veja quais são eles:

  • Ídolo da tribo: é um tipo de julgamento que advém da própria natureza humana, que tende a imaginar uma regularidade nos fenômenos maior do que eles realmente apresentam na prática.
  • Ídolo da caverna: esse tipo de julgamento vem da educação recebida pelo indivíduo e de suas vivências pessoais. Assim, Bacon chama atenção aos apegos a determinadas ideias que cada um cresce com.
  • Ídolo do foro: é formado pelas palavras usadas cotidianamente com algum consenso, mas não possuem rigor científico. Por exemplo, as pessoas podem não saber o que é, pela ciência, o “amor” ou a “sorte”, mas usam esses termos.
  • Ídolo do teatro: são filosofias – muitas vezes combinadas com teologia e tradições – que se fixam na mente dos indivíduos e tiram conclusões que nunca foram provadas experimentalmente.

Portanto, Bacon procurou formas de identificar os tipos de julgamentos que fazem com que cientistas não enxerguem a natureza real. A verdadeira ciência, assim, deve mostrar como a realidade funciona independentemente de valores pessoais. Atualmente, essa tese já é criticada.

Francis Bacon e a filosofia

Na história da filosofia ocidental, existem algumas oposições ou “brigas” antigas. Um exemplo, já citado, é entre empirismo e racionalismo. De fato, Bacon é um dos autores que figura no primeiro polo, sendo frequentemente lembrado quando esse debate emerge.

Outra dualidade tradicional é entre método indutivo e dedutivo. No caso do primeiro, trata-se de um raciocínio que parte do particular para alcançar conclusões gerais: ou seja, observa-se a realidade na experiência, em cada fenômeno específico, junta-se os dados e então formula-se uma teoria.

Ao contrário, o método dedutivo parte do geral para o particular – de uma teoria ou de um conjunto de hipóteses, para buscar a comprovação nos casos específicos. Logo, com essa explicação, é possível entender que Bacon esteve no lado do método indutivo, que privilegia a experiência primeiro.

Portanto, Bacon é uma figura importante na história da filosofia porque representa um lado dos debates que são bastante tradicionais. Certamente, suas ideias já foram criticadas, reformuladas, e atualmente existem outras teses filosóficas importantes. Contudo, seu nome sempre é lembrado.

Principais obras

A obra de Bacon é vasta e inclui livros que foram publicados após a sua morte, e por isso incompletos. Dentre os seus textos, existem aqueles voltados ao campo da política, e também da filosofia. Confira alguns:

  • Ensaios (1597)
  • O avanço da aprendizagem (1605)
  • A sabedoria dos antigos (1609)
  • Novum Organum (1620)
  • Nova Atlântida (1627)

Novum Organum

É a obra mais conhecida e influente do autor. Nela, Bacon defende a ciência: invenções como a pólvora e a bússola foram responsáveis por verdadeiras transformações no mundo, ao contrário de instituições religiosas ou crenças sem fundamentos.

É também nesse livro que Bacon fala sobre os ídolos, defende o seu método e a importância da experimentação. Assim, sua tentativa é de chegar, por meio da ciência, à verdade sobre o funcionamento da natureza.

No entanto, deve-se lembrar também da centralidade da religião cristã na época. Conforme o autor, “Pelo pecado o homem perdeu a inocência e o domínio das criaturas. Ambas as perdas podem ser reparadas, mesmo que em parte, ainda nesta vida; a primeira com a religião e a fé, a segunda com as artes e com a ciência.” (1)

Vídeos sobre vida e obra de Bacon

Bacon é bem conhecido pela influência do seu método nas ciências modernas. Todavia, nem sempre suas ideias e textos são aprofundados. Para ampliar o seu conhecimento sobre o autor, confira a seguir uma seleção de vídeos:

Introduzindo o autor

No vídeo acima, revise algumas ideias gerais sobre Bacon para aprofundá-las adiante. Logo, outras noções importantes poderão ser aprofundadas.

As ideias de Francis Bacon

A vida do autor é interessante porque a dualidade entre a política e a filosofia eram bem marcadas. Saiba mais sobre como suas preocupações filosóficas foram aprofundadas.

Saber é poder?

Uma das célebres frases de Francis Bacon é a que dá o nome ao subtítulo. Que pensamento o autor intencionou exprimir com ela? Quais as interpretações? Entenda.

Sobre os ídolos

Os tipos de ídolos são uma tese bem conhecida de Bacon. Afinal, ela está no cerne de uma tentativa de produzir uma ciência fiel à realidade.

Os métodos científicos após Bacon

Quais os autores e as filosofias que apareceram após Bacon? Veja alguns exemplos e como as ideias do filósofo foram revisadas ou criticadas.

Assim, conhecer Bacon é uma base importante para compreender mais sobre o que é a ciência (ou ciências) na atualidade. Para ampliar seus estudos, veja as matérias sobre conhecimento científico e conhecimento filosófico.

Referências

Aspectos e fundamentos da pesquisa científica – Romis Attux;

História da filosofia: do humanismo a Descartes – Giovanni Reale; Dario Antiseri;

Máquinas, gênios e homens na construção do conhecimento: uma interpretação heurística do método indutivo de Francis Bacon – Sergio Hugo Menna.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Cientista social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [ENEM]

Os produtos e seu consumo constituem a meta declarada do empreendimento tecnológico. Essa meta foi proposta pela primeira vez no início da Modernidade, como expectativa de que o homem poderia dominar a natureza. No entanto, essa expectativa, convertida em programa anunciado por pensadores como Descartes e Bacon e impulsionado pelo Iluminismo, não surgiu “de um prazer de poder”, “de um mero imperialismo humano”, mas da aspiração de libertar o homem e de enriquecer sua vida, física e culturalmente.
CUPANI, A. A tecnologia como problema filosófico: três enfoques, Scientiae Studia. São Paulo, v. 2, n. 4, 2004 (adaptado).

Autores da filosofia moderna, notadamente Descartes e Bacon, e o projeto iluminista concebem a ciência como uma forma de saber que almeja libertar o homem das intempéries da natureza. Nesse contexto, a investigação científica consiste em

a) expor a essência da verdade e resolver definitivamente as disputas teóricas ainda existentes.
b) oferecer a última palavra acerca das coisas que existem e ocupar o lugar que outrora foi da filosofia.
c) ser a expressão da razão e servir de modelo para outras áreas do saber que almejam o progresso.
d) explicitar as leis gerais que permitem interpretar a natureza e eliminar os discursos éticos e religiosos.
e) explicar a dinâmica presente entre os fenômenos naturais e impor limites aos debates acadêmicos.

Resposta: c

Justificativa: é com filósofos como Francis Bacon que surge a ciência moderna, pautada em ideais de progresso e da Razão como o sinal da excepcionalidade humana. É com esse modelo de ciência que a humanidade poderá progredir.

2. [UFF]

Segundo o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), o ser humano tem o direito de dominar a natureza e as técnicas; as ciências são os meios para exercer esse poder.
Que processo histórico pode ser diretamente associado a essas ideias?

a) Os ideais de retorno à vida natural.
b) O bloqueio continental imposto à Europa por Napoleão Bonaparte.
c) A Contrarreforma promovida pela Igreja Católica.
d) O surgimento do estilo barroco nas artes.
e) A Revolução Industrial.

Resposta: e

Justificativa: a Revolução Industrial deu maior fôlego às invenções científicas, se servindo também das ideias baconianas e de outros autores como sustentação de sua prática.

3. [PUCPR]

São de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, assinalamos os nomes: Ídolos da Tribo, Ídolos da Caverna, Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro.”
Fonte: BACON. Novum Organum…, São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.33.

É correto afirmar que para Bacon:

a) Os Ídolos da Tribo e da Caverna são os conhecimentos primitivos que herdamos dos nossos antepassados mais notáveis.
b) Os Ídolos do Teatro são todos os grandes atores que nos influenciam na vida cotidiana.
c) Os Ídolos do Foro são as ideias formadas em nós por meio dos nossos sentidos.
d) Através dos Ídolos, mesmo considerando que temos a mente bloqueada, podemos chegar à verdade.
e) Os Ídolos são falsas noções e retratam os principais motivos pelos quais erramos quando buscamos conhecer.

Resposta: e

Justificativa: conforme Bacon, a ciência é o tipo de conhecimento que permite superar os saberes falsos e enganosos, chegando mais próxima da realidade.

4. [UEL - Adaptado]

A figura do homem que triunfa sobre a natureza bruta é significativa para se pensar a filosofia de Francis Bacon (1561-1626). Com base no pensamento de Bacon, considere as afirmativas a seguir.
I. O homem deve agir como intérprete da natureza para melhor conhecê-la e dominá-la em seu benefício.
II. O acesso ao conhecimento sobre a natureza depende da experiência guiada por método indutivo.
III. O verdadeiro pesquisador da natureza é um homem que parte de proposições gerais para, na sequência e à luz destas, clarificar as premissas menores.
IV. Os homens de experimentos processam as informações à luz de preceitos dados a priori pela razão.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas II e IV são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
e) Somente as afirmativas I, III e IV são corretas.

Resposta: a

Justificativa: conforme Bacon, o homem, detentor da Razão e produtor da ciência, é quem consegue interpretar verdadeiramente a natureza. Esse tipo de leitura do autor também acaba justificando uma série de explorações dos recursos naturais de modo indevido. Atualmente, sabe-se que a humanidade não é uma excepcionalidade na natureza e que é preciso mudar os rumos como o “desenvolvido” tem se encaminhado.

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