Auguste Comte

Conhecido como o grande pensador do positivismo, Auguste Comte foi importante na fundação da sociologia e influenciou outros autores

Auguste Comte é um dos grandes expoentes do positivismo, uma doutrina filosófica que influenciou os pensamentos de diversos autores. Ele foi um defensor de um modelo de metodologia científica que proporcionaria o progresso da humanidade.

Assim, Comte propôs um projeto teórico e político bastante explícito e foi engajado em suas propostas. O positivismo contiano chegou a inspirar, por exemplo, a bandeira nacional brasileira, com o lema de “Ordem e Progresso”. Veremos mais em detalhes do que se tratou esse autor e suas ideias.

Biografia: quem foi Auguste Comte?

Fotografia de Auguste Comte

Auguste Comte foi um francês nascido em 19 de janeiro de 1798 e faleceu em 1857. Registros de sua vida contam que ele tinha uma relação bastante conturbada com sua família. Esse tipo de relacionamentos conflituosos acompanhou a vida de Comte, até com Saint-Simon, que era seu chefe.

Ele estudou na Escola Politécnica de Paris, fundada como resultado da Revolução Francesa. Foi essa instituição que lhe deu um treinamento científico que mais tarde ele defendeu como o mais verdadeiro. Em uma carta a John Stuart Mill, escreveu que todas as pessoas no ensino superior deveriam ter uma formação tal qual ele teve.

Comte teve dificuldades em se estabelecer na instituição acadêmica, não conseguindo ser aprovado em concursos. Lecionou então cursos particulares de filosofia, mas teve que parar suas atividades devido às suas crises mentais.

Nesses cursos, entretanto, Comte começar a publicar o que ficou conhecido como uma de suas obras mais relevantes. Foi o Curso de Filosofia Positiva, que começou a ser publicado em 1830, completando seis volumes ao final.

No mesmo ano em que rompeu com Saint-Simon, em 1824, casou-se com Caroline Massin, com quem acabou também se separando em 1842. Em 1844, conheceu Clotilde de Vaux, que se tornou uma musa inspiradora para o filósofo, mesmo que ela o considerasse apenas um amigo íntimo.

Essa admiração cresceu mais ainda quando, um ano depois, Clotilde veio a falecer. Nessa época Comte formulou mais fortemente suas propostas de uma Igreja Positivista ou uma Igreja da Humanidade, onde Clotilde se tornou a musa inspiradora da religião.

Essa nova religião proposta por Comte foi desenvolvida, assim, entre 1851 e 1854. Foi uma obra de quatro volumes, chamada Política Positiva ou Tratado de Sociologia Instituindo a Religião da Humanidade.

Uma doutrina religiosa como ele propunha acabou não agradando um de seus mais fieis discípulos, o Littré. Outro admirador do filósofo era John Stuart Mill, que compôs um grupo de pessoas interessadas nos pensamentos de Comte que passaram a lhe dar retornos financeiros.

O filósofo foi, entretanto, um dos importantes formuladores de uma sociologia. Ele entendia essa ciência na posição intelectual mais elevada, incluindo nela os estudos da psicologia, da economia, a ética e a filosofia.

Para Comte, as disciplinas científicas eram classificadas de acordo com seu grau de complexidade. Do menor para o maior, a ciência começava na matemática, passando para a astronomia, física, química, biologia e, finalmente, a sociologia. Todas essas ciências não são opostas nem diferentes em sua natureza, mas variam apenas em sua complexidade.

Essa ideia pode ser encontrada de maneira influente em Émile Durkheim, que proporcionou a institucionalização da sociologia. Para Durkheim, os objetos da sociologia poderiam ser estudados com ferramentas similares ao das ciências naturais, já que elas não se diferem essencialmente.

Além disso, já que os pensamentos de Comte tinham explicitamente um projeto político em defesa, eles entraram em conflito direto com outras ideias. Por exemplo, sua proposta era divergente de Karl Marx, pois não defendia a eliminação da propriedade privada. Para ele, os capitalistas deveriam ser humanizados apenas.

Assim, as ideias de Comte tiveram grande repercussão. Seja em concordâncias ou discordâncias, o filósofo se tornou uma referência para uma metodologia científica e também um projeto de sociedade baseada no culto à ciência e a humanidade.

Pensamento e teorias de Auguste Comte

O autor possuía, em suas teorias, uma concepção sobre o progresso da humanidade e das ciências. Levando adiante suas ideias, Auguste Comte propôs também uma ciência social que organizasse e unisse as demais disciplinas científicas. Portanto, é um autor importante que proporcionou um contexto específico para o surgimento da sociologia.

Física Social

Auguste Comte viveu uma época na França que foi marcada como desorganizada, imoral e caótica. O autor, com sua filosofia, tentou inspirar uma renovação e uma organização da sociedade. O progresso da humanidade pelo desenvolvimento científico guiou essa filosofia.

Para Comte, a crise da sociedade era consequência de uma anarquia intelectual. O desenvolvimento social seria guiado pela produção do conhecimento, e a filosofia positiva proporcionaria a ordem e o progresso da humanidade.

A filosofia positiva está, para Comte, no topo do progresso humano. E, no auge do desenvolvimento do conhecimento, estaria a fundação da física social: a disciplina científica mais complexa que traria a unidade entre as demais.

A ciência mais simples era a matemática, seguindo em ordem de complexidade a astronomia, física, química, biologia e a sociologia, ou a física social. Esta última disciplina científica estudaria o fenômeno social, que é o mais complexo. Mais tarde, Durkheim, inspirado em Comte, conseguiria fundar, finalmente, a sociologia como uma ciência.

A Lei dos Três Estados

Esse é um ponto fundamental na teoria de Comte, a partir do qual se desenvolve toda a lógica de seu pensamento. Essa lei descreve três estados progressivos pelos quais os seres humanos pensam o mundo.

Primeiramente, há o estado teológico ou fictício. Nesse estado do conhecimento humano sobre algo, é atribuído sentimentos e intenções exteriores ao objeto para explica-lo. Isso se faz geralmente por antropomorfização, ou seja, atribuindo às coisas um caráter humano. Por exemplo, explicar que as coisas acontecem pela vontade de um deus é uma forma teológica de pensamento.

Em seguida, vem a fase metafísica ou abstrata. Nesse estado, o conhecimento progride passando a não atribuir mais a explicação das coisas aos deuses ou entidades divinas, mas sim a elementos abstratos como a “natureza” ou uma “força vital”. Assim, o elemento teológico é dissolvido para dar lugar às ideias e as forças.

O estado metafísico é um intermediário, pois logo em seguida vem a fase positiva do conhecimento. Nesse momento, o pensamento é guiado pela observação empírica dos fenômenos. Assim, a produção de conhecimento não depende mais de deuses ou de abstrações de ideias, mas de uma metodologia científica.

Basear o conhecimento na observação e no método científico significa também se esquivar, à princípio, de leis gerais ou universais. Um fenômeno será melhor conhecido se partir primeiro de formas mais simples para entender, progressivamente, o mundo de maneira mais complexa.

Esse progresso histórico do pensamento humano e o estado final, positivo, é também o objetivo político de Auguste Comte. O positivismo é, desse modo, a filosofia do autor que merece ser mais detalhada.

Positivismo

Fotografia da Igreja Positivista do Brasil.
Fotografia da Igreja Positivista do Brasil, em Porto Alegre.

O positivismo é a filosofia de Auguste Comte, baseada em uma concepção progressiva da história do conhecimento humano. Esse progresso é descrito pela Lei dos Três Estados. O estado positivo é o estágio mais superior na produção de conhecimento pela humanidade.

É nesse estado positivo que um conhecimento mais verdadeiro e confiável da realidade é produzido. Em grande parte, o positivismo surgiu em decorrência do avanço das ciências naturais e o espanto com esse progresso. Comte tentou, assim, unir e aplicar essas disciplinas às ciências humanas.

Seguindo a Lei dos Três Estados e a proposta de que o conhecimento deve ser produzido a partir da forma mais simples de um fenômeno, Comte considerou a ciência sobre a sociedade a mais complexa nesse progresso. Consequentemente, todo o conhecimento está integrado e devem levar ao desenvolvimento ascendente da humanidade.

O positivismo trazia, assim, esse espírito renovador e esperançoso no progresso. Essa filosofia influenciou e criou grupos diversos que se denominavam positivistas. No Brasil, o positivismo inspirou também alguns grupos no momento da instauração da República.

Nessa época, o desejo era a criação de uma nação e uma identidade nacional. Nesse anseio pela renovação e a construção de um país, o positivismo inspirou, por exemplo, a frase destacada na bandeira do Brasil: Ordem e Progresso. Além disso, foram fundadas instituições como a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro ou mesmo a Igreja Positivista do Brasil.

Desse modo, o positivismo emerge em diversos grupos, acabando por ser uma filosofia que não se restringiu a Auguste Comte. Entretanto, seu grande representante de precursor é de fato Comte, que acabou inspirando segmentos da sociedade que buscavam um progresso da humanidade por meio do desenvolvimento científico.

Principais obras de Auguste Comte

As obras de Auguste Comte influenciaram uma série de pensadores em suas teorias e projetos de sociedade. Suas ideias foram razão, inclusive, de conflitos nas relações pessoais do autor. Essas teorias comtianas podem ser encontradas na íntegra em suas principais obras, listadas a seguir.

  • Curso de filosofia positiva (1830/42): uma das principais obras de Comte, é onde ele fundamenta a Lei dos Três Estados e a sua Física Social.
  • Cartas à John Stuart Mill (1841-1844): John Stuart Mill foi um dos mais conhecidos admiradores do pensamento de Comte, com quem mantinha correspondências.
  • Discurso sobre o espírito positivo (1844): nessa obra, o autor explica em profundidade os estados teológico, metafísico e positivo.
  • Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo (1848): essa produção trata-se de um resumo do positivismo fundamentado por Comte.
  • Catecismo positivista (1852): aqui, Comte apresenta a sua proposta de uma religião positivista ou da humanidade.
  • Apelo aos conservadores (1855): sendo um filósofo engajado, Comte mostra as suas ideias a respeito de uma sociedade ideal que não estaria baseada na eliminação dos capitalistas.
  • Síntese subjetiva (1956): nessa obra, Comte trata de diversos temas como a lógica e a pedagogia, mas não consegue termina-la por razões de saúde.

Para além de suas obras, as interpretações feitas das teorias de Comte também são relevantes. Por isso, é possível abranger uma vasta área de estudo a respeito das ideias desse filósofo que marcou o pensamento ocidental.

10 frases de Auguste Comte

Auguste Comte baseou suas propostas de um ideal de sociedade a partir de sua teoria a respeito do progresso da humanidade. Algumas de suas afirmações podem nos ajudar a entender melhor essas ideias que sustentavam suas defesas políticas. Confira algumas delas a seguir.

  1. “Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e o caráter próprio da filosofia positiva, é indispensável ter, de início, uma visão geral sobre a marcha progressiva do espírito humano, considerado em seu conjunto, pois uma concepção qualquer só pode ser bem conhecida por sua história”.
  2. “Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro vôo mais simples até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei fundamental”.
  3. “Ora, cada um de nós, contemplando sua própria história, não se lembra de que foi sucessivamente, no que concerne às noções mais importantes, teólogo em sua infância, metafísico em sua juventude e físico em sua virilidade? Hoje é fácil esta verificação para todos os homens que estão ao nível de seu século”.
  4. “A razão humana está agora suficientemente madura para que empreendamos laboriosas investigações científicas, sem ter em vista algum fim estranho, capaz de agir fortemente sobre a imaginação, como aquele que se propunham os astrólogos e os alquimistas”.
  5. “A teologia e a física são de tal modo incompatíveis, suas concepções possuem caracteres tão radicalmente opostos, que, antes de renunciar a umas para empregar exclusivamente outras, a inteligência humana precisou servir-se de concepções intermediárias, de caráter bastardo, adequadas, por isso mesmo, para operar gradualmente a transição”.
  6. “A finalidade principal que se deve ter em vista em todo trabalho enciclopédico é, com efeito, dispor as ciências na ordem de seu encadeamento natural, seguindo sua dependência mútua, de tal sorte que se possa expô-las sucessivamente, sem nunca cair no menor círculo vicioso”.
  7. “A tendência constante do espírito humano, quanto à exposição dos conhecimentos, é, pois, substituir progressivamente a ordem histórica pela ordem dogmática, a única conveniente ao estado aperfeiçoado de nossa inteligência”.
  8. “O problema geral da educação intelectual consiste em fazer com que, em poucos anos, um único entendimento, muitas vezes medíocre, chegue ao mesmo ponto de desenvolvimento atingido, durante uma longa série de séculos, por um grande número de gênios superiores, que aplicaram, sucessivamente, durante a vida inteira, todas as suas forças ao estudo de um mesmo assunto”.
  9. “É claro, com isto, que, apesar de ser infinitamente mais fácil e mais curto aprender do que inventar, seria certamente impossível atingir o fim proposto se pretendêssemos sujeitar cada espírito individual a percorrer sucessivamente os mesmos passos intermediários que teve de seguir necessariamente o gênio coletivo da espécie humana”.
  10. “Estamos por certo convencidos de que o conhecimento da história das ciências é da mais alta importância. Penso, ainda, que não conhecemos completamente uma ciência se não conhecemos sua história”.

A inserção de uma ideia histórica na organização do desenvolvimento científico foi um dos pontos principais na filosofia de Comte. Esse progresso intelectual ao longo da história da humanidade deveria ser acompanhada pelas pessoas, com as instituições educacionais – e até uma religião – incentivando e proporcionando esse desenvolvimento.

Entenda mais sobre Auguste Comte

O pensamento de Auguste Comte pode ser ainda aprofundado a partir de outros aspectos. Além disso, é importante revisitar algumas ideias tratadas nesse resumo. Confira abaixo uma lista de vídeos com conteúdo audiovisual para ajudar no seu estudo.

Sobre a Lei dos Três Estados em Comte

Nesse vídeo da Sociologia Animada, as principais ideias sobre a Lei dos Três Estados em Comte são revisadas.

Uma aula sobre Auguste Comte

O professor Salviano Feitoza apresenta uma aula sobre Auguste Comte nesse vídeo. Se você gosta de um formato mais expositivo para estudar, esse pode ser um bom recurso.

Sobre o positivismo

Nesse vídeo Auguste Comte é tratado mais sob uma perspectiva filosófica, o que pode ser interessante a depender de seu interesse.

O positivismo e o contexto brasileiro

Blenda Andrade explica mais especificamente sobre o positivismo tratado dentro do contexto brasileiro, especialmente na República emergente.

Auguste Comte é, portanto, um importante autor que marcou historicamente a filosofia ocidental e o surgimento da sociologia. É uma parte muito relevante a ser tratada no desenvolvimento das ciências humanas e nos projetos políticos republicanos.

Referências

Auguste Comte – Os pensadores;

A postura do positivismo com relação às ciências humanas – Ana Rute Pinto Brandão;

Augusto Comte e o “positivismo” redescobertos – Gustavo Biscaia de Lacerda;

O positivismo na poesia de Augusto dos Anjos – Márcia Peters Sabino.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UEG]

A sociologia nasce no séc. XIX após as revoluções burguesas sob o signo do positivismo elaborado por Augusto Comte. As características do pensamento comtiano são:
a) a sociedade é regida por leis sociais tal como a natureza é regida por leis naturais; as ciências humanas devem utilizar os mesmos métodos das ciências naturais e a ciência deve ser neutra.
b) a sociedade humana atravessa três estágios sucessivos de evolução: o metafísico, o empírico e o teológico, no qual predomina a religião positivista.
c) a sociologia como ciência da sociedade, ao contrário das ciências naturais, não pode ser neutra porque tanto o sujeito quanto o objeto são sociais e estão envolvidos reciprocamente.
d) o processo de evolução social ocorre por meio da unidade entre ordem e progresso, o que necessariamente levaria a uma sociedade comunista.

Resposta: A

Justificativa: Comte defendia uma continuidade e uma unidade entre as ciências, o que quer dizer que a física social ou a sociologia poderia ser estudada assim como são estudados os fenômenos naturais na época. É defendida assim uma neutralidade científica. Os três estágios de Comte são o teológico, metafísico e positivo. Além disso, ele não defendia uma solução comunista para o caos social que ele observava em sua época.

2. [Unicentro]

Seu esquema sociológico era tipicamente positivista, ele acreditava que toda a vida humana tinha atravessado as mesmas fases históricas distintas e que, se a pessoa pudesse compreender esse progresso, poderia prescrever os remédios para os problemas de ordem social. Era um grande defensor da moderna sociedade capitalista. Essa descrição está relacionada com o perfil de
a) Karl Marx.
b) Max Weber.
c) Auguste Comte.
d) Émile Durkheim.
e) Herbert Spencer.

Resposta: C

Justificativa: Nem Marx ou Weber podem ser enquadrados enquanto positivistas. Embora Durkheim e Spencer possam ser também considerados afins ao positivismo, a descrição quanto ao progresso da humanidade, a ordem social e a defesa da sociedade moderna cabem mais tipicamente ao Auguste Comte.

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