Angela Davis

A interseccionalidade entre raça, classe e gênero: conheça o pensamento de Angela Davis, filósofa e ativista dos direitos civis norte-americana

Angela Davis é uma filósofa e ativista dos direitos civis norte-americana. Seu pensamento é um dos mais influentes da contemporaneidade, sobretudo nas lutas feministas e contra o racismo. Acompanhe a matéria para conhecer suas principais ideias e obras.

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Biografia

Wikipedia

Angela Yvone Davis é uma filósofa feminista socialista, que nasceu em 26 de janeiro de 1944, em Birmingham, Alabama, nos Estados Unidos. Na época, sua cidade sofria com a política de segregação racial implantada na maior parte dos estados do sul dos Estados Unidos. Desde cedo, Angela Davis sofreu com a violência do racismo, sobretudo aquele praticado pelo grupo de supremacistas brancos, populares no Alabama, a Ku Klux Klan.

A filósofa, além de sofrer com a política oficial de segregação (que separava os espaços públicos para negros e brancos e não reconhecia os direitos civis da população negra), também vivenciou atos atrozes promovidos por brancos contra a população negra, como os linchamentos e incêndios criminosos de casas.

Durante sua adolescência, Davis criou um grupo de estudos sobre as questões raciais, mas esse foi descoberto e proibido pela polícia. Aos 19 anos, ela se mudou para Massachusetts, estado ao norte dos Estados Unidos, para estudar na Universidade de Brandeis, onde teve aulas com Herbert Marcuse, filósofo conhecido da Escola de Frankfurt. Embora a política de segregação racial não existisse no norte do país, é importante entender que o racismo estrutural é uma constante em todo o território nacional.

Em 1963, quando Angela Davis se mudou para Massachusetts, houve um atentado em uma igreja frequentada por negros em Birmingham. Nesse episódio motivado pelo racismo, quatro adolescentes negras morreram, todas elas conhecidas de Angela Davis. Pode-se dizer que esse atentado foi um marco no posicionamento político de Davis e na sua luta pelos direitos civis e pelo fim da desigualdade racial em seu país.

Movimento Panteras Negras

O Partido dos Panteras Negras foi uma organização socialista revolucionária fundada por Bobby Seale e Huey Newton em 1966. Os ideais do grupo eram voltados para uma luta antirracista incisiva, combativa e armada – se preciso. O partido foi muito importante para o movimento negro e para a população que sofria com as políticas de segregação racial, injustiças e violências.

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Os Panteras Negras instituíram diversos programas sociais comunitários, como os Programas de café da manhã grátis para crianças e clínicas de saúde. Angela Davis se filiou ao partido e fazia parte de uma frente pacífica do movimento. Nessa época, a pensadora também se filiou ao Partido Comunista dos Estados Unidos.

Prisão

No ano de 1970, Davis, junto ao Partido dos Panteras Negras, buscava o apoio da sociedade para inocentar três militantes presos, George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette, conhecidos como os “Irmãos Soledad”, porque foram presos na Prisão de Soledad, em Monterey.

Em 7 de agosto de 1970, Jonathan Jackson (irmão de George Jackson) e mais dois homens interromperam um julgamento na tentativa de ajudar a fuga do réu James McClain, acusado de esfaquear um policial. Jonathan e seus amigos renderam todos os presentes no tribunal e depois levaram o juiz, o promotor e alguns jurados para uma van estacionada do lado de fora do Palácio da Justiça. Ao entrar na van, Jackson gritou que queria a liberdade dos Irmãos Soledad em troca da vida dos reféns.

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No entanto, os três foram perseguidos pela polícia e houve troca de tiros. Jonathan e um de seus amigos morreram, o juiz também morreu e o promotor ficou paralítico. No dia 18 de agosto de 1970, durante a investigação do caso, Angela Davis entrou para a Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, acusada de conspiração, sequestro e homicídio por, supostamente, ter ligação com a tentativa de fuga do tribunal. A arma usada por Jonathan estava no nome de Davis.

Davis foi presa depois de dois meses. Isso mobilizou o movimento negro e aumentou as discussões sobre as prisões de pessoas negras, que não passam pelos mesmos processos investigativos pelos quais pessoas brancas passam. O caso foi amplamente discutido na mídia.

Dezoito meses após o início do julgamento, Angela Davis foi inocentada de todas as acusações e libertada. John Lennon e Yoko Ono lançaram a música “Angela” em sua homenagem e os Rolling Stones gravaram “Sweet Black Angel”, na letra da música, a banda pede pela libertação da filósofa.

Principais ideias de Angela Davis

O pensamento de Davis é um dos mais influentes da sociedade contemporânea, sobretudo no campo da política e do feminismo negro. A seguir, veja algumas das suas principais ideias:

  • Intersecção entre raça, classe e gênero: segundo Angela Davis, quando se pensa em um posicionamento revolucionário, a fim de mudar o estado de coisas, é imprescindível que essas três categorias sejam consideradas em sua indissociabilidade. Em resumo, não é possível pensar na superação do capitalismo sem considerar as categorias de gênero e raça, assim como não é possível lutar pelo fim do racismo sem lutar pelo fim do capitalismo e do patriarcado e, por fim, a extinção das estruturas patriarcais só será possível se for alinhada ao fim do capital e do racismo. Essa relação ocorre porque, para Davis, a população negra é a base da pirâmide de um sistema que opera na exploração do homem pelo homem, assim como as mulheres são forçadas a serem a base para a reprodução desse sistema.
  • Ligação entre racismo e violência sexual: de acordo com Davis, a violência sexual e o racismo estão diretamente relacionados e são uma herança da escravidão. O homem branco, senhor de engenho, se via no direito de dominar os corpos de seus escravos, incluindo a dominação sexual das escravas. Essa herança é perpetrada até hoje quando os homens se veem no direito de abusar e violentar sexualmente mulheres. Além disso, a filósofa também pontua sobre a hiperssexualização do corpo negro, sobretudo pela mídia, de modo a tratar o corpo da mulher negra como objeto sexual.
  • Resistência: para a pensadora, resistência é uma palavra obrigatória na luta. É preciso resistir contra o racismo, contra o machismo, contra o patriarcado, contra o capitalismo e contra todas as estruturas de opressão e exploração.
  • Abolição dos presídios: uma das grandes defesas de Davis é a abolição dos presídios. Segundo ela, as cadeias não educam e não reabilitam ninguém, ao contrário, elas só servem para legitimar a violência institucional e para perpetuar o ciclo de criminalidade que, em sua esmagadora maioria, atinge a população negra muito mais do que a branca. Para ela, o aumento das cadeias significa aumentar as chances dos negros serem presos, haja vista que o sistema carcerário é parcial e racista. A proposta de Davis é investir em escolas, espaços de convivência e cultura para as populações periféricas (majoritariamente negra). Isso pode contribuir para diminuir o número de encarceramento, até chegar um momento em que o cárcere não seja necessário. Ela ainda defende que é preciso pensar outros tipos de responsabilização para crimes, diferentes dos atuais que legitimam o uso da violência como “correção moral”.
  • Igualdade racial: Angela Davis defende a igualdade racial e o fim da supremacia branca. Para ela, é preciso ser antirracista e lutar pela igualdade entre os povos, só assim é possível construir uma sociedade justa.
  • Igualdade de gênero: Davis também defende a igualdade de gênero, incluindo a luta da população transgênero. A filósofa entende que a liberdade e a emancipação humana só ocorre quando houver, de fato, igualdade entre todos.

Essas são as ideias mais defendidas por Davis. É importante saber que, segundo seu pensamento, as categorias de raça, classe e gênero são indissociáveis e, para se construir uma sociedade mais justa, não se pode ignorar nenhuma delas.

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5 principais obras de Angela Davis

Confira as principais obras publicadas de Davis, traduzidas para o português:

  • Mulheres, Raça e Classe (2016)
  • Mulheres, Cultura e Política (2017)
  • A liberdade é uma luta constante (2018)
  • Estarão As Prisões Obsoletas? (2018)
  • Angela Davis: Uma autobiografia (2019)

Nesses livros, Davis expõe suas principais ideias, como a interseccionalidade de gênero, classe e raça, bem como a necessidade da abolição do sistema carcerário.

9 frases de Angela Davis

Com essas frases, você poderá observar um pouquinho do pensamento de Davis:

  1. “Temos que falar sobre libertar mentes tanto quanto sobre libertar a sociedade”;
  2. “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”;
  3. “A política não se situa no polo oposto ao de nossa vida. Desejemos ou não, ela permeia nossa existência, insinuando-se nos espaços mais íntimos”;
  4. “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”;
  5. “Precisamos nos esforçar para “erguer-nos enquanto subimos”. Em outras palavras, devemos subir de modo a garantir que todas as nossas irmãs, irmãos, subam conosco”;
  6. “Não são as pessoas individualmente que decidem que a violência é a resposta; são as instituições ao nosso redor que estão saturadas de violência. Se o Estado usa a violência policial para solucionar problemas, há a mensagem de que a violência também pode ser usada para resolver problemas em outras esferas, como os relacionamentos”;
  7. “Esta é uma das mais importantes dimensões do feminismo. Nós reconhecemos que ao falarmos sobre uma questão aparentemente pequena, afetamos o todo. E isso faz parte do entendimento de lutar por liberdade e justiça para todos. Para o feminismo ser relevante, ele precisa ser antirracista e incluir todas as mulheres das mais diversas esferas”;
  8. “Não reivindicamos ser incluídas em uma sociedade profundamente racista e misógina, que prioriza o lucro em detrimento das pessoas. Reivindicar a reforma do sistema policial e carcerário é manter o racismo que estruturou a escravidão. Adotar o encarceramento como estratégia é nos abster de pensar outras formas de responsabilização”;
  9. “Nós nos dedicamos à resistência coletiva. Resistência contra a biolionária especulação imobiliária e sua gentrificação. Resistência contra os que defendem a privatização da saúde. Resistência contra os ataques aos muçulmanos e aos imigrantes. Resistência contra os ataques aos deficientes. Resistência contra a violência do estado perpetrada pela polícia e pelo sistema carcerário. Resistência contra a violência de gênero institucionalizada, especialmente contra as mulheres trans e negras”.

É possível observar as ideias defendidas pela filósofa, como a igualdade de gênero e a igualdade racial, a luta contra um sistema opressor, a necessidade da resistência e a necessidade de abolir o sistema carcerário e buscar outros modos de responsabilização.

Para compreender melhor Angela Davis

A partir destes três vídeos, você conseguirá se aprofundar um pouco mais no pensamento de Angela Davis, entender com detalhes como sua história de vida a encaminhou para seus estudos e, também, como sua teoria é importante para entender a sociedade atual.

A guinada dos anos 70 no pensamento de Davis

Neste vídeo do canal Casa do Saber, a mestra em educação e pedagoga, Jaqueline Conceição, conta como os eventos de 1970 afetaram o pensamento de Angela Davis, o que a prisão provocou em seu entendimento de mundo e como seu posicionamento para lutar contra esse sistema injusto começou.

Vida, obra e pensamento de Angela Davis

O vídeo do canal Meteoro traz detalhadamente a vida de Angela Davis e como os eventos do atentado à igreja, à prisão e muitos outros marcaram a vida da filósofa. O vídeo também mostra falas de Davis sobre seus pensamentos; em uma dessas falas, Angela Davis está no Brasil, falando sobre a situação carcerária brasileira.

Aprofundando mais sobre Angela Davis

O professor Ibsen fala sobre a vida de Angela Davis. Antes, ele faz uma contextualização importante da sociedade americana da época. O professor também dá detalhes da formação de Davis e seu posicionamento sobre o sistema carcerário.

Gostou da matéria? Confira o pensamento do filósofo que escancarou as mazelas do capital: Karl Marx.

Referências

Mulheres, Raça e Classe – Angela Davis (2016)
Mulheres, Cultura e Política – Angela Davis (2017)
Estarão As Prisões Obsoletas? – Angela Davis (2018)
Pequeno manual antirracista – Djamila Ribeiro (2019)

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduanda do 4º ano de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Angela Davis. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/angela-davis. Acesso em: 26 de May de 2022.

Exercícios resolvidos

1. [UFPR 2019]

No livro Mulheres, raça e classe, Angela Davis perfaz um caminho histórico e social da luta das mulheres nos Estados Unidos e como diferentes movimentos e campanhas possibilitaram a construção dos direitos e das pautas políticas de gênero naquele país. Numa das passagens da obra, em que aborda as campanhas pelo direito ao aborto, Davis afirma que “o controle de natalidade – escolha individual, métodos contraceptivos seguros, bem como abortos, quando necessário – é um pré-requisito fundamental para a emancipação das mulheres. […] E se a campanha pelo direito ao aborto do início dos anos 1970 precisava ser lembrada de que mulheres de minorias étnicas queriam desesperadamente escapar dos charlatões de fundo de quintal, também deveria ter percebido que essas mesmas mulheres não estavam dispostas a expressar sentimentos pró-aborto. Elas eram a favor do direito ao aborto, o que não significava que fossem defensoras do aborto. Quando números tão grandes de mulheres negras e latinas recorrem a abortos, as histórias que relatam não são tanto sobre o desejo de ficar livres da gravidez, mas sobre as condições sociais miseráveis que as levam a desistir de trazer novas vidas ao mundo”.

(DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 219-220.)

Com base no texto, é correto concluir que:

A) o feminismo e as pautas antiaborto foram fundamentais para se pensarem novas políticas públicas de controle de natalidade nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a legislação moderna também propiciou que os movimentos das mulheres em busca de emancipação social fossem protegidos pelo Estado.

B) a despeito dos movimentos organizados que buscavam constituir a emancipação social das mulheres, a grande questão de fundo era e continua sendo não colocar-se contra ou a favor do aborto, mas de possibilitar que o direito ao aborto fosse extensivo às mulheres em condições de vulnerabilidade social, a ponto de as impedir de “trazer novas vidas ao mundo”.

C) as campanhas pró-aborto receberam apoio amplo da sociedade norte-americana e a sua prática obteve repercussão, já que até mesmo as mulheres de minorias étnicas conquistaram esse direito, adotando o aborto como método contraceptivo mais eficaz.

D) Angela Davis remete a um aspecto preciso na formação social norte-americana: as mulheres sempre tiveram os mesmos direitos que os homens e nunca houve qualquer forma de distinção por gênero nos Estados Unidos, já que a constituição daquele país é respeitada e protege a todos e todas de forma equânime.

E) embora o livro Mulheres, raça e classe tenha pertinência ao tratar de temas sobre a formação das minorias de gênero, raça e classe e, sobretudo nos Estado Unidos, é uma obra que repercute de forma instigante os temas presentes na década de 1970, tendo pouca relação com o contexto atual de luta por direito das mulheres no cenário global.

A alternativa B está correta.
A questão levantada por Davis diz respeito ao direito das mulheres, em vulnerabilidade social, de escolherem se terão ou não condições para trazer mais uma vida ao mundo, considerando que, por estarem em situação de vulnerabilidade, não terão suporte do parceiro e nem do Estado para cuidarem da criança. Esse direito de escolha é essencial para a emancipação da mulher.

2.

Quais as principais defesas de Angela Davis?

a) interseccionalidade entre raça, gênero e classe e manutenção do sistema capitalista;
b) manutenção do sistema capitalista e do sistema carcerário;
c) interseccionalidade entre raça, gênero e classe e abolição do sistema carcerário;
d) abolição do sistema carcerário e manutenção do sistema capitalista.

A alternativa C está correta.

Como explicado, as principais defesas de Davis são a indissociabilidade entre as categorias de raça, gênero e classe, bem como a abolição do sistema carcerário que perpetua o ciclo de violência institucional, sobretudo contra a população negra.

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