Democracia racial

O mito da democracia racial dissimula o racismo existente na sociedade brasileira, que deve ser entendido de maneira estrutural, e não apenas individual.

O mito da democracia racial é uma ideologia bastante antiga, mas ainda persistente no discurso de muitos brasileiros, mesmo sem perceber. Atualmente, ela é mais criticada graças aos avanços dos movimentos negros e dos estudos sobre relações étnico-raciais no Brasil. Saiba mais sobre o que essa ideia significa a seguir.

O que é democracia racial

Uma democracia racial significaria, supostamente, a existência de uma sociedade em que todas as raças convivem harmoniosamente, ou seja, sem racismo. Ela é uma ideologia formulada para descrever o Brasil, que seria marcado pela mestiçagem entre brancos, indígenas e negros.

Já em 1838, Karl von Martius argumentava que o Brasil era formado por três rios: um branco, o maior; um vermelho, menor; e um negro, ainda menor, defendendo uma hierarquia entre essas “raças”.

A questão racial no Brasil, de fato, incomodava as lideranças do país que tinham fortes influências eurocêntricas. Assim, após o fim da escravidão em 1888, o grande número de pessoas negras que formava a nação – e que, na verdade, construíram ela – era visto como algo negativo.

Foi em 1933 que Gilberto Freyre defendeu que essa mestiçagem não deveria ser considerada prejudicial ao país. Conforme o autor, essa era a identidade nacional brasileira e as relações raciais aqui seriam harmoniosas e democráticas.

O mito da democracia racial

Embora Gilberto Freyre tenha dado um passo que pode ser considerado importante – o de não enxergar a presença de diversas etnias no Brasil como algo ruim, e provar isso –, a ideia de uma “democracia racial” causou vários prejuízos.

O sociólogo Florestan Fernandes foi um dos que mostraram convincentemente que a ideia da democracia racial é, na verdade, um mito. Conforme seu estudo, a população negra no Brasil está longe de estar integrada ao mercado de trabalho, aos espaços de poder e à representação política.

Em outras palavras, existe um racismo estrutural no Brasil que, apesar das relações supostamente amigáveis entre “raças”, faz com que exista uma desigualdade e uma exclusão social de pessoas negras na sociedade brasileira.

Portanto, o que o mito da democracia racial acaba fazendo é dissimular o racismo que constitui as relações sociais no Brasil. Logo, torna-se mais difícil combater a violência racial se as pessoas não admitem a sua existência, encobertando a desigualdade com o mito.

Existe democracia racial no Brasil?

No Brasil, as pessoas negras (compostas por pretos e pardos, conforme a classificação do IBGE), apesar de constituírem mais de 53% da população, são também as menos incluídas socialmente. Por exemplo, dentre o número de desempregos, 64,2% são negros (1).

Uma pesquisa (2) identificou que, embora pessoas negras tenham um maior engajamento no empreendedorismo que pessoas brancas, recebem salários menores. Assim, a questão ultrapassa o esforço individual – há uma desigualdade de oportunidades em toda a sociedade.

Portanto, não é possível sustentar que existe democracia racial no Brasil. O racismo estrutural que se encontra no cotidiano e que é atestado por diversos estudos são prova disso. Assim, a falácia da democracia racial deve ser problematizada.

Questionando o mito da democracia racial

Conforme uma famosa pesquisa realizada em 1996 (3), 97% das pessoas entrevistadas responderam que não são racistas. Contudo, 98% desses mesmos indivíduos afirmaram que conhecem alguém próximo (um namorado, um familiar, um amigo) que mostra atitudes racistas.

Pelo menos duas coisas são interessantes nesse estudo: primeiro, o racismo é considerado sempre um problema do outro, como uma má conduta; em segundo, esse racismo é tolerado, pois ele é demonstrado por indivíduos que são próximos.

Contudo, como já é possível notar, o racismo não é simplesmente uma atitude individual e preconceituosa. Ao contrário, ele é estrutural: ou seja, ele constitui a sociedade, sendo histórico, e causa a exclusão e a desigualdade social.

Para além do trabalho, basta olhar ainda os locais de lazer e consumo no Brasil, como os shoppings. Qual é a cor das pessoas que estão consumindo os produtos e das que estão prestando serviços, como nos de limpeza? (4).

Assim, admitirmos a existência do racismo é também abrirmos possibilidades de sermos críticos a essa violência e exclusão social. Consequentemente, esse é um problema de toda a sociedade, e não apenas individual, ou dos “outros”.

Vídeos sobre racismo no Brasil

O racismo, portanto, não é uma “questão de opinião”. De fato, a opinião de que não há racismo no Brasil está carregada, mesmo inconscientemente, de uma ideologia prejudicial para o combate da violência: a da democracia racial. Abaixo, confira vídeos que ampliarão o assunto:

Afinal, o que é democracia racial?

No vídeo acima, revise o que significa a “democracia racial” e como ela não se sustenta na realidade social brasileira.

As políticas de branqueamento

Após a escravidão no Brasil, houve a formulação de ideologias racistas. Nesse contexto, as políticas de branqueamento foram consequências práticas que afetaram nossas relações.

Eugenia

Você sabe o que é eugenia? Ela está ligada globalmente a uma série de ideologias e políticas que hierarquizaram a humanidade em termos de “raça”. Saiba mais.

Colorismo

O colorismo é um termo que revela como a violência racial opera no Brasil – o chamado racismo de marca, conforme o sociólogo Oracy Nogueira.

A ideologia racista na arte

A ideologia racista no Brasil com sua ideia de mestiçagem e democracia racial foi formulada em diversos âmbitos; na arte, por exemplo. Entenda no vídeo acima.

Desse modo, o mito da democracia racial faz com que diversos assuntos importantes sobre o que forma a sociedade brasileira sejam tratados. Para continuar o assunto, confira outros temas relacionados como racismo e movimento negro.

Referências

A integração do negro na sociedade de classes – Florestan Fernandes;

O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil do século XIX – Lilia Moritz Schwarz;

Racismo de origem e racismo de marca – Oracy Nogueira;

Racismo e sexismo na cultura brasileira – Lélia Gonzalez.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Cientista social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UENP]

Do ponto de vista sociológico, o Brasil se constituiu sobre o mito da democracia racial principalmente depois da publicação de Casa grande e senzala de Gilberto Freyre (2003). De acordo com Florestan Fernandes (1965) o ideal de miscigenação fora difundido como mecanismo de absorção do mestiço não para a ascensão social do negro, mas para a hegemonia da classe dominante. O mito da democracia racial assentou-se sobre dois fundamentos: 1) o mito do bom senhor; 2) o mito do escravo submisso. Analise as afirmações:
I. A crença no bom senhor exalta a vulgaridade das elites modernas, como diria Contardo Calligaris, e juntamente com uma espécie de pseudocordialidade seriam responsáveis pela manutenção e o aprofundamento das diferenças sociais.
II. O mito do escravo submisso fez com que a sociedade de um modo geral não encarasse de frente a violência da escravidão, fez com que os ouvidos se ensurdecessem aos clamores do movimento negro, por direitos e por justiça.
III. As proposições legislativas sobre a inclusão de negros vão desde o Projeto de Lei que reserva aos negros um percentual fixo de cargos da administração pública, aos que instituem cotas para negros nas universidades públicas e nos meios de comunicação.
Assinale a alternativa correta:
a) todas as afirmações são verdadeiras.
b) apenas a afirmação II é verdadeira.
c) as afirmações I e III são verdadeiras.
d) as afirmações I e II são falsas.
e) todas as afirmações são falsas.

Resposta: a
Justificativa: o mito da democracia racial não fez com que as desigualdades raciais no Brasil diminuíssem; ao contrário, crer que no país não existe racismo – ao contrário do que muitos intelectuais e líderes já denunciavam há muito tempo – só corrobora para a manutenção dele.

2. [UNESP]

Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor, e a buscar a simbiose do melhor de todas as culturas.
A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas também segundo o comportamento de uma potência que, como seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emancipação.
Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais.
(Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.)
No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin desenvolve
a) reflexões elogiosas acerca das consequências do etnocentrismo ocidental sobre outras culturas.
b) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da Revolução Francesa na história.
c) argumentos que defendem o isolamento como forma de proteção dos valores culturais.
d) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental e outras culturas na história.
e) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da Revolução Francesa.

Resposta: d
Justificativa: o contato da cultura ocidental ou europeia sobre as demais, principalmente por meio da colonização, não foi um fenômeno amigável – ao contrário, foi gerada uma série de violências a partir desse contato eurocêntrico.

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