O preconceito linguístico é toda reprovação às variantes linguísticas de menor valor social e está ligado diretamente ao preconceito regional, cultural e socioeconômico. Aprenda, a seguir, mais a respeito das motivações que fazem com que ele exista e, também, como combatê-lo.
O que é preconceito linguístico
O preconceito é compreendido como o ato de julgar algo ou alguém sem um exame crítico – intolerância ao que é diferente do que você conhece. Portanto, o preconceito linguístico é o julgamento dos falantes às variações de fala e escrita de menor prestígio dentro da língua, ocorre quando um falante utiliza conhecimentos a respeito da norma culta gramatical para se colocar como superior a um falante que não utiliza ou conhece essas normas.
Marcos Bagno

O professor, doutor e linguista Marcos Bagno é considerado um ativista e ideólogo politico em questões linguistas. Ele é, atualmente, o maior estudioso do Brasil a respeito do tema, possuindo mais de 30 títulos entre literatura infanto-juvenil, obras técnico-didáticas, discussões a respeito da sociolinguística e questões pedagógicas do Brasil, além de diversos artigos publicados na área.
Causas do preconceito linguístico
Segundo o linguista Marcos Bagno, o preconceito linguístico ocorre por meio de uma comparação indevida entre o modelo idealizado de língua, considerando que apenas uma forma é culta e, por isso, tem maior valor social. Assim criando uma rejeição às inúmeras variedades linguísticas que os falantes apresentam.
O preconceito linguístico está ligado a muitos outros preconceitos presentes na sociedade, veja abaixo os principais:
- Preconceito regional: sujeitos de regiões mais ricas do país apresentam aversão aos costumes e sotaques típicos de regiões mais pobres e menos desenvolvidas. Como a xenofobia, que ocorre com indivíduos nascidos no norte e no nordeste do Brasil.
- Preconceito socioeconômico: relacionado ao poder econômico, ao acesso à renda e, principalmente, à posição social. Esse tipo de preconceito retrata a aversão de pessoas com maiores privilégios e prestígios sociais a indivíduos com menores condições econômicas e sociais.
- Preconceito cultural: discriminação à pessoa marginalizada com a justificativa de elitismo cultural. É uma forma de preconceito que conversa muito com o racismo estrutural, discriminação voltada contra grupos ou classes sociais historicamente desfavorecidas.
- Racismo: é o conjunto de crenças que considera uma raça superior a outra e, assim, melhor e mais merecedora por conta de uma “hierarquia entre raças”. Atinge, principalmente, os povos negros, e mesmo camuflado, no Brasil, os negros são o grupo com menor nível de escolaridade e com menor renda até os dias atuais.
- Homofobia: representa a ódio e a opressão aos indivíduos pertencentes ao grupo LGBTQIA+. Coloca, principalmente, o sujeito homossexual, numa condição de inferioridade, baseado nos princípios da heteronormatividade.
Variedades linguísticas
As variedades linguísticas expressam, na fala do sujeito, a sua cultura e a região onde este nasceu ou mora, mostrando a enorme diversidade regional, territorial e cultural que o país apresenta. De acordo com o IBGE, em 2015, a estatística era de que o português brasileiro era falado por 200 milhões de pessoas.
Dessa maneira, se compreende que a ligação do preconceito linguístico com os outros preconceitos existentes na sociedade não ocorre à toa. Mas sim como uma forma de inferiorizar um indivíduo por conta de sua origem, de sua cultura e por conta de suas escolhas pessoais.
Consequências do preconceito linguístico
Qualquer tipo de preconceito afeta a qualidade de vida de um indivíduo. O preconceito linguístico pode levar, principalmente, ao não desenvolvimento escolar e social. Além disso, pode gerar inúmeros tipos de violências, como as verbais, as físicas e desencadear, muitas vezes, problemas psicológicos decorrentes dessa discriminação social.
Preconceito linguístico na escola
Na escola, há muitas crianças que vivem em ambientes completamente diferentes. Por conta disso, é normal que a criança reproduza palavras e expressões do local em que vive, reproduzindo, por meio delas, o lugar da onde vem: as tradições e as heranças culturais de sua família. Aspectos extremante importantes para a constituição da criança como indivíduo.
Por conta dessas diferenças, que se misturam no ambiente escolar, é muito comum que ocorra o preconceito linguístico como forma de discriminação cultural, social e socioeconômica. Portanto, é muito importante que a diversidade linguística seja trabalhada em sala de aula e que a conscientização sobre a variedade da língua seja feita pelos professores.
Como acabar com o preconceito linguístico
Para que o preconceito com a variedade da língua aconteça cada vez menos é necessário que algumas práticas sejam adquiridas, em diversos ambientes. Por isso, veja abaixo algumas soluções:
- É importante que seja oferecido a educação para todos, para que assim a diferença entre a língua escrita e a falada seja cada vez mais conhecida e divulgada;
- A divulgação sobre estudos sociais sobre a pluralidade da língua devem ser temas abordados cedo, como forma de conscientização, nos espaços de educação;
- Discussões a respeito do preconceito devem acontecer com frequência, abordando o porquê não tratar com aversão quem é diferente ou possui outros costumes;
- As escolas devem ser, cada vez mais, um espaço de acolhimento de diversidades e que ensinem sobre o respeito e a empatia com o outro por meio de práticas;
- Apoio e disseminação de artes regionais, que mostrem a cultura, a língua e o social de todas as regiões do país, para que assim a pluralidade do país seja conhecida e reconhecida.
É fundamental que políticas de conscientização sejam aplicada em escolas, desde de cedo, para que o conhecimento sobre a variedade de culturas do país ocorra. Assim, o preconceito linguístico será cada vez menos praticado, já que a língua e a cultura do outro será conhecida e admirada.
5 indicações para saber mais e combater o preconceito linguístico
Quanto mais se conhece a respeito de um tema, mais fácil fica o entendimento de porque as situações acontecem e, se forem erradas, lutar para que não aconteçam mais. Pensando nisso, abaixo, você encontra indicações de materiais que tem muito a oferecer para seus estudos a respeito do preconceito linguístico:
A língua de Eulália: novela sociolinguística
Nesse livro, o professor Marcos Bagno traz, por meio de uma narrativa reflexiva e divertida, a argumentação de que falar diferente não é falar errado e que o que pode parecer erro tem explicações históricas, culturais e linguísticas. O autor mostra o quão a língua é vasta e plural e que por isso deve valorizá-la.
>Português Brasileiro: a língua que falamos
Escrito pela professora Stella Maris Bortoni-Ricardo, esse livro ajuda o leitor a desconstruir às barreiras que tem com a própria língua. A autora mostra que a língua acompanha desde o bom dia ao boa noite. Assim acaba aproximando o sujeito de sua própria língua de verdade, a que utilizamos em conversas coloquiais e na correria do dia-a-dia.
Língua Franca
Nesse álbum, o cantor e rapper Emicida, na companhia de outros artistas brasileiros e portugueses, desenvolveu um projeto que busca mostrar os laços entre a língua portuguesa – falada em Portugal e a língua portuguesa brasileira – falada no Brasil, por meio do hip hop e do rap. O CD resgada os encontros entre as diferenças que são capazes de unir as duas nações.
Não é errado falar assim
Esse livro reflete que passou da hora de profissionais que trabalham com a língua, como jornalistas, autores de livros e professores pararem de rotular expressões menos consagradas da língua como “erradas”. O autor, Marcos Bagno, defende que todo indivíduo sabe, de forma instintiva, usar a língua de seu país, e que se ele tem um bom funcionamento de seu idioma, essa forma também deve ser considerada como correta e legítima.
Viva a língua brasileira!
Uma declaração de amor à língua portuguesa falada no Brasil. Os autores Sérgio Rodrigues e Francisco Horta Maranhão mostram que está errado quem pensa que só os portugueses detém a língua correta. Esse livro é um manual que mostra a grandeza da língua portuguesa brasileira para ser usado contra qualquer preconceito linguístico.
Com essas obras ricas em detalhes e com leitura fácil, você vai aprender a história da língua portuguesa brasileira e se interessar cada vez mais pela cultura do Brasil. E para dar mais um empurrão em suas pesquisas, alguns vídeos que retratam a pluralidade da nossa língua estão logo abaixo. Dê uma olhadinha!
Vídeos sobre a conscientização a respeito do preconceito linguístico
A língua é plural e como o preconceito linguístico é um reflexo de outros preconceitos existentes na sociedade, é importante conhecer mais sobre a língua potuguesa para que esse preconceito seja cada vez menos aceito e manifestado. Por isso, acompanhe os vídeos para se inteirar mais sobre o tema:
O que é o preconceito linguístico
Nesse vídeo, a professora Jana explica sobre o que é o preconceito linguístico e quais são as suas consequências, além de falar sobre a importância deste tema para provas de vestibulares e para o Enem. Confira!
Variações da Língua Portuguesa no mundo
Neste vídeo, a história do livro “O paraíso são os outros” de Walter Hugo Mãe, escritor e poeta português, é lido por diversos falantes do português ao redor do mundo. Podemos perceber como a língua portuguesa brasileira é plural e até se surpreender com os lugares onde há falantes dela.
Porque combater o preconceito linguístico
Conhecer as variações linguísticas é muito importante para entender que há várias formas de se comunicar dentro de uma língua. Por isso, nesse vídeo, a professora Maria traz conceitos para saber mais a respeito.
Agora que você conhece o preconceito linguístico, conheça o movimento que deu destaque à língua e ao regionalismo brasileiro, o Modernismo no Brasil e se encante ainda mais com a cultura plural do nosso país.
Referências
Preconceito linguístico: o que é, como se faz – Marcos Bagno (2014)
O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos – Renato Basso; Rodolfo Ilari (2011)
Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo – Gabriel Nascimento (2019)