Poesia Marginal

A Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo surgiu na década de 1970 no Brasil, como um movimento sociocultural que atingiu as artes, sobretudo, a literatura.

A Poesia Marginal ou “poesia de mimeógrafo” ficou conhecida por esse nome,porque muitos poetas recorriam ao mimeógrafo para reproduzirem seus textos e livros.

O método quase artesanal era um processo alternativo de criação, produção e distribuição do poema, que substituía os meios tradicionais de circulação das obras, como editoras e livrarias.

Vendidos de mão em mão, os livros eram comercializados a baixo custo para um público restrito que frequentava eventos relacionados com a cultura marginal, assim conhecida por estar fora dos cânones literários e portanto, à margem da crítica literária.

poesia marginal
Imagem: Reprodução

É na década de 1970 que a Poesia Marginal surge, e por ser algo coletivo, foi caracterizada como um surto poético e um novo movimento cultural, do qual o tropicalismo foi o precursor.

Este novo fazer poético é fruto do choque entre a atmosfera repressiva no plano político interno e a metamorfose comportamental, que se verificava não só no Brasil, mas em toda a esfera mundial.

Nesse movimento, recuperaram-se alguns laços com a produção do primeiro Modernismo (1922), como por exemplo os poemas-minuto, poemas-piada; experimentaram-se técnicas, como a colagem e a desmontagem dadaístas e também praticam-se formas consagradas, como o soneto ou o haicai.

O contexto da Poesia Marginal

Nessa época, o país estava sob o domínio da ditadura, e a pressão social pela redemocratização estava a todo vapor.

Na literatura e na poesia, a “marginália” foi representada por nomes como Paulo Leminski, Ana Cristina César, Casaso, Waly Salomão, Francisco Alvim, Torquato Neto e Chacal.

No campo musical, os principais nomes desse período foram Sérgio Sampaio, Tom Zé, Jorge Mautner, Jards Macalé e Luiz Melodia, que posteriormente foram rotulados pela imprensa como “compositores malditos” da MPB.

O inconformismo com os moldes literários impostos pela academia e com a chamada “cultura oficial” brasileira, responsável por deixar à margem toda produção cultural que estava fora dos padrões, foi a força motriz para esse grupo de artistas criativos que subverteram a mesmice ao propor uma constante inovação poética.

Desse maneira, a Poesia Marginal deixou um legado para diversos poetas e escritores.

Autores e obras da Poesia Marginal

Um poeta não se faz com versos

O poeta se faz do sabor
de se saber poeta
de não ter direito a outro ofício
de se achar de real utilidade pública
no cumprimento de sua missão sobre a terra
escrevendo tocando criando
o que pesa é não se achar louco
patético quixote inútil
como quem fala sozinho
como quem luta sozinho
o que pesa é ter que criar
não a palavra
mas a estrutura onde ela ressoe
não o versinho lindo
mas o jeitinho dele ser lido por você
não o panfleto
mas o jeito de distribuir
quanto a você meu camarada
que à noite verseja pra de dia
cumprir seu dever como água parada
fica aqui uma sugestão:
se engaveta junto com seus sonetos
porque muito sangue vai rolar e não
fica bem você manchar tão imaculadas páginas.
(Chacal)

Ricardo Carvalho Duarte, o Chacal, foi o primeiro a entrar na onda do livro impresso em mimeógrafo e distribuído de mão em mão.

O livro se chamava Muito, prazer, Ricardo (1972). Nele, os versos vão quase rentes à fala cotidiana, incorporando recursos como a linguagem dos jornais e as gírias.

Sua obra foi reunida em 1983 na coletânea Drops de abril. Nascido no Rio de Janeiro em 1951, Chacal continua em plena atividade, fazendo leituras públicas e publicando poemas.

Foi editor da revista de poesia O Carioca e também publicou os livros Comício de tudo (1986), Letra elétrika
(1994) e A vida é curta pra ser pequena (2002).

O BICHO

alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
(Paulo Leminski)

Este poeta nascido em Curitiba, no Paraná, em 1944, foi tradutor, professor de história e de judô, publicitário, romancista e músico.

Sua poesia, altamente elaborada e construída, era sintética, concisa e debochada. Caetano Veloso dizia que ele misturava a poesia concreta com a literatura beatnik dos americanos dos ano 1950.

Foi letrista de MPB e publicou vários livros independentes – reunidos pela primeira vez em 1983, na coletânea
Caprichos & relaxos. Em 1987, lançou Distraídos venceremos.

Leminski morreu em 1989. Entre suas obras póstumas estão L’avie em close (1991) e Winterverno (1994).

Discordância

Dizem que quem cala consente
eu por mim
quando calo dissinto
quando falo
minto
(Francisco Alvim)

Alvim nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1938. É diplomata e atualmente mora na Costa Rica.

Em sua poesia encontra-se uma vertente lírica e outra mais marcada pela reflexão social – presente sobretudo nos textos em que há recorte e montagem de falas e estilos provenientes dos mais diversos extratos da sociedade.

Publicou vários livros, como Passatempo (1974); Lago, Montanha (1981); O corpo fora (1988) e Elefante (2000), entre outros.

Faz três semanas
Espero
depois da novela
sem falta
um telefonema
de algum ponto
perdido
do país
(Ana Cristina Cesar)

Ana Cristina foi a musa absoluta da poesia marginal. Nascida no Rio de Janeiro, em 1952. formou-se em Letras e fez curso de tradução literária na Inglaterra.

Influiu ativamente na vida cultural carioca da década de 1970, escrevendo artigos em jornais e participando de debates.

Em 1982, ela reuniu seus livros publicados de forma independente no volume A teus pés. Em 1983, durante uma crise emocional, Ana C., como assinava, se matou, saltando pela janela, aos 31 anos.

Em 1985, o poeta Armando Freitas Filho reuniu seus inéditos no livro Inéditos e dispersos.

Referências

Uma revisão crítica da poesia marginal brasileira – Luiz Guilherme dos Santos Júnior
Poesia Marginal – C. Bom Jesus
Poesia Marginal – Para Gostar de Ler Vol. 39 – Ana Cristina Cesar; Paulo Leminski; Chacal; Francisco Alvim; Cacaso

Luana Bernardes
Prof. Luana Bernardes

Graduada em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pós-graduada em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela mesma Universidade.

Teste seu conhecimento

01. [FDV]: Acerca da poesia marginal dos anos 70, é INCORRETO afirmar que:

a) ela se desenvolveu em pleno regime militar, porém não ousou contestar quaisquer valores impostos pela ditadura.

b) nasceu do interesse de jovens escritores pela poesia justamente após o AI-5 que, dentre outros procedimentos, impôs uma censura severa aos textos escritos, falados ou cantados.

c) Ana Cristina César, Chacal, Antônio Carlos Brito, Paulo Leminski são alguns de seus representantes.

d) foi considerada “marginal”, dentre outros motivos, pela forma como os textos eram distribuídos, ou seja, à margem da política editorial vigente.

e) alguns textos eram mimeografados, outros xerocopiados ou impressos em antigas tipografias suburbanas.

02. [UFSC]:

As aparências revelam

Afirma uma Firma que o Brasil

confirma: “Vamos substituir o

Café pelo Aço”.

Vai ser duríssimo descondicionar

o paladar

Não há na violência

que a linguagem imita

algo da violência

propriamente dita?

CACASO. As aparências revelam. In: WEINTRAUB, Fabio (Org). Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2004. p. 61. Para gostar de ler 39.

Com base na leitura do poema, assinale a(s) proposição (ões) correta (s) acerca da Poesia Marginal:

I. Entre as temáticas das quais se ocupou a poesia marginal da década de 1970, havia espaço para painéis sociais, para a memória afetiva e a pesquisa poética e para o registro literário da intimidade. Sem grandes exageros, a única regra era atender aos princípios da norma padrão da língua.

II. Os versos “Vai ser duríssimo descondicionar / o paladar” podem ser entendidos metaforicamente como uma referência a sacrifícios impostos à população, obrigada a acomodar-se a uma nova ordem econômica.

III. Nos poemas reunidos em Poesia marginal, os autores enfocam a denúncia e a crítica social de uma maneira sisuda, sem apelar para o humor, pois visam conferir credibilidade ao que é dito.

IV. A frase “Vamos substituir o Café pelo Aço” pode ser interpretada como uma referência à abertura do país para a exportação de minérios, defendida por empresários e pelo Governo à época da Ditadura Militar.

V. No primeiro e segundo versos, no jogo de palavras “Afirma”, “Firma” e “confirma”, repete-se o segmento firma; isso pode ser interpretado como uma referência à influência das grandes empresas nas políticas estatais.

VI. Na estrofe final, observa-se como Cacaso procura desvincular a linguagem das práticas sociais, ao propor que não há violência nas palavras em si, mas apenas na realidade a que elas se referem.

a) II, IV e V.

b) I, III e V.

c) II, V e VI.

d) I, II e IV.

e) Apenas VI.

01. [FDV]
Resposta: A
A Poesia Marginal, ou Geração Mimeógrafo, foi um movimento literário brasileiro que ocorreu entre os anos 1970 e 80, em função da censura imposta pela ditadura civil-militar e como forma de resistência ao regime.

02. [UFSC]
Resposta: A
Os versos “Vai ser duríssimo descondicionar / o paladar” podem ser entendidos metaforicamente como uma referência a sacrifícios impostos à população, obrigada a acomodar-se a uma nova ordem econômica.

A frase “Vamos substituir o Café pelo Aço” pode ser interpretada como uma referência à abertura do país para a exportação de minérios, defendida por empresários e pelo Governo à época da Ditadura Militar.

No primeiro e segundo versos, no jogo de palavras “Afirma”, “Firma” e “confirma”, repete-se o segmento firma; isso pode ser interpretado como uma referência à influência das grandes empresas nas políticas estatais.

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