Paródia

A paródia é uma releitura de um texto anterior que subverte os sentidos desse e traz novos significados.

É comum retomar textos já existentes – e das mais diversas naturezas – para expressar nossas ideias e criar outros conteúdos. Nesse processo, ativamos a intertextualidade, ou seja, estabelecemos o diálogo entre diferentes textos a partir das construções visíveis no conteúdo do segundo texto, produzido com base em um anterior. A paródia é um gênero que expressa essa relação. Acompanhe a seguir!

Índice do conteúdo:

O que é paródia

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A paródia aciona a intertextualidade como recurso de linguagem na criação de conteúdos, logo, é um texto que traz influências de outro texto (criado antes), interligando-se a ele pela repetição do conteúdo verbal, pela forma ou pela temática do primeiro texto. A paródia pode ser feita a partir de diversos materiais, como literatura, música, pintura, cinema, fotografia e artes plásticas.

Também é possível que um texto composto em determinada materialidade seja conteúdo de uma paródia construída em outro suporte. É o caso do exemplo da imagem acima, em que a canção “Garota de Ipanema” (texto primeiro) é acionada em uma peça publicitária (texto segundo).

Principais características

Em seu livro “Paródia, Paráfrase & Cia”, o escritor e estudioso Affonso Romano de Sant’Anna desenvolveu estudos sobre a apropriação literária e estabeleceu as seguintes classificações para a paródia:

  • Paródia verbal: ocorre a alteração de uma ou outra palavra do texto.
  • Paródia formal: em que o estilo e os efeitos técnicos de um escritor são usados para promover zombaria.
  • Paródia temática: em que se faz a caricatura da forma e do espírito de um autor.

A paródia caracteriza-se, assim, por subverter o sentido do texto primeiro trazendo novos significados, seja com um objetivo crítico, sarcástico, irônico ou humorístico.

Exemplos de paródia

Separamos exemplos de paródia em diferentes materialidades para melhor ilustrar a teoria. Confira a seguir:

Exemplo de paródia verbal em um poema

O texto abaixo foi escrito por Millôr Fernandes através de uma paródia verbal com o poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira. Millôr mantém a estrutura e algumas palavras do poema de Bandeira para que o texto primeiro seja facilmente recuperado pelo leitor, entretanto, propõe outros sentidos em sua releitura.

Que Manuel Bandeira me perdoe, mas VOU-ME EMBORA DE PASÁRGADA
Vou-me embora de Pasárgada
Sou inimigo do Rei
Não tenho nada que eu quero
Não tenho e nunca terei
Vou-me embora de Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
A existência é tão dura
As elites tão senis
Que Joana, a louca da Espanha,
Ainda é mais coerente
Do que os donos do país […].
(FERNANDES, Millôr. Mais! Folha de S. Paulo, mar. 2001.)

Exemplo de paródia verbal em uma música

A letra a seguir, denominada “Instapoã”, é uma paródia que o humorista Marcelo Adnet fez da canção “Tarde em Itapoã”, do compositor Toquinho. Adnet manteve a melodia e o esquema de rimas da primeira canção, alterando algumas palavras.

Na fonte tomando banho
Um dia pra fotografar
Vou ajustar o tamanho
E o fundo eu vou desfocar
Depois na Piazza di Spagna
Um pôr do sol muito louco
Em frente de uma vitrine
Tiro uma foto com um ovo
É bom!
Postar uma foto no Instagram
O sol clareia o Instagram
Botar um filtro no Instagram
Foto do almoço no Instagram […]

Exemplo de paródia formal em um poema

Neste texto, o poeta Chacal constrói uma paródia formal a partir do estilo de escrita de Oswald de Andrade, autor que o influenciou. Assim, percebemos o uso da linguagem coloquial e do recurso de diálogo, como no poema “Vício na fala”, de Oswald, em um texto lúdico e descontraído.

Ai de mim, aipim
– Ai de mim, aipim.
– Ó inhame, a batata é uma puta batata.
Deixe ela pro nabo nababo que baba de bobo.
Transa uma com a cebola.
– Aquele hálito? Que habito, me faz chorar.
– Então procura uma cenoura.
– Coradinha, mas muito enrustida.
– A abóbora tá aí mesmo.
– Como eu gosto de abóbora.
– Então namora uma
– Falô. Vou pegar meu gorrinho e saí poraí pra procurar uma abóbora
maneira. Te mais, aipim.
– Té mais, inhame.

Exemplo de paródia temática em um meme

Este meme faz intertextualidade com quatro pinturas famosas. Da esquerda para a direita, a primeira imagem é do quadro “O grito”, de Edvard Munch; a segunda é de “Moça com brinco de pérola”, de Johannes Vermeer; a terceira é de “Mona Lisa”, de Leonardo Da Vinci. Já a imagem ao fundo do meme corresponde ao quadro “Noite estrelada”, de Van Gogh.

StreetArtRio

Ao juntar personagens e estilos de quatro obras consagradas na arte mundial, a paródia produz uma caricatura desses quadros de forma bem humorada (uma característica do gênero meme), com a selfie de Mona Lisa.

Exemplo de paródia em uma charge

Nesta charge, intitulada “O Pequeno Abaporu”, o cartunista brasileiro Adao Iturrusgarai constrói uma relação entre o quadro “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, e o personagem do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry.

Iturrusgarai

Conforme vimos, a paródia é uma ruptura do texto primeiro. Assim, o autor ou autora traz as suas experiências e o seu conhecimento cultural na construção de sua releitura. Agora, que tal aprender mais sobre outro uso da intertextualidade? Saiba mais sobre a paráfrase!

Referências

Bandeira a vida inteira (1986) – Manuel Bandeira
Belvedere (2007) – Chacal
Paródia, Paráfrase & Cia (1985) – Affonso Romano de Sant’Anna
Poesias reunidas (1971) – Oswald de Andrade

Érica Paiva Rosa
Por Érica Paiva Rosa

Professora, redatora e produtora cultural. Mestre em Letras pela UEM.

Como referenciar este conteúdo

Paiva Rosa, Érica. Paródia. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/portugues/parodia. Acesso em: 28 de November de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [IBFC]

Em “O brasileiro adia; logo existe.”, nota-se uma relação de intertextualidade promovida pelo seguinte mecanismo:

A) Paráfrase
B) Citação direta
C) Paródia
D) Metalinguagem
E) Exemplificação

Resposta: C

Justificativa: A frase é uma paródia da expressão “Penso, logo existo”, do filósofo Descartes. A paródia subverte os sentidos da expressão original, promovendo uma ironia para definir o sujeito brasileiro.

2. [ENEM]

Quem não passou pela experiência de estar lendo um texto e defrontar-se com passagens lidas em outros? Os textos conversam entre si em um diálogo constante. Esse fenômeno tem a denominação de intertextualidade. Leia os seguintes textos:

TEXTO 1
Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai Carlos! Ser “gauche na vida”
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964)

TEXTO 2
Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.
(BUARQUE, Chico. Letra e música. São Paulo: Companhia das Letras, 1989)

TEXTO 3
Quando nasci um anjo esbelto
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Carga muito pesada pra mulher
Essa espécie ainda envergonhada.
(PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986)

Adélia Prado e Chico Buarque estabelecem intertextualidade em relação a Carlos Drummond de Andrade por:

A) reiteração de imagens
B) oposição de ideias
C) falta de criatividade
D) negação dos versos
E) ausência de recursos

Resposta: A

Justificativa: As paródias são promovidas pela reiteração da imagem do anjo, que aparece nos textos secundários de Adélia Prado e de Chico Buarque.

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