Função fática

A função fática é utilizada para estabelecer o contato entre emissor e receptor dentro de um texto.

A função fática é uma das funções da linguagem estudadas pelo linguista russo Roman Jakobson.

O linguista russo tornou-se famoso pelas seis funções que apontou para a linguagem. São elas: referencial, emotiva, conativa (ou apelativa) poética, fática e metalinguística.

Essas funções, segundo ele, não esgotariam o papel da língua, pois tais funções dizem respeito ao papel maior, que é o da comunicação.

As funções da linguagem, apontadas por Jakobson, dizem respeito, na verdade, aos usos particulares da língua que podem estar total ou parcialmente presentes em uma situação comunicativa.

Função fática – ênfase no canal

Quando o objetivo da mensagem é simplesmente o de estabelecer ou manter a comunicação, ou seja, o contato entre o emissor e o receptor dizemos que função predominante é a fática.

As fórmulas de abertura de diálogos, quase sempre feitas, são exemplos típicos da função fática da linguagem.

Neste caso, sua finalidade é marcar o início e/ou encerramento de um diálogo.

Para exemplificar o uso da linguagem fática, as autoras Maria Luiza Abaurre e Marcela Pontara analisam um trecho de um texto de Walcyr Carrasco.

Função fática
Imagem: Reprodução

Exemplificando a função

“Lembro de todo mundo que conheci. Só não sei de onde. Nem faço ideia do nome. É grave. […]
Seria de pensar que me recordo de pessoas especiais, Não é uma memória seletiva. Esqueço do peito, amores… e me lembro de alguém com quem falei uma ou duas vezes! Pior: chego a pensar que conheço pessoas totalmente estranhas. Já passei por cada situação!
– Oi, tudo bem?
O outro se espanta. Franze o cenho, acha que é gafe é dele.
– É … E… Como vai?
– Vou indo… E você?
Acabamos nos despedindo como velhos amigos, sem a menor ideia de quem seja quem!”
(CARRASCO, Walcyr. Ah, que memória! Veja SP, p. 218. In Veja. São Paulo: Abril, ano 38. n. 47, 23 nov. 2005 – fragmento)

No trecho acima, o encadeamento de uma série de “fórmulas”, geralmente usadas para estabelecer contato entre os interlocutores (Oi, tudo bem?”; “É… E… Como vai?”; “Vou indo…E você?”), releva o embaraço provocado pela situação: uma pessoa é abordada por um estranho como se fossem velhos conhecidos, deixando claro a utilização da linguagem fática.

Referências

Roman Jakobson – Adriano Steffler

Gramática: texto e construção de sentido – Maria Luiza M. Abaurre, Marcela Pontara

Ah, que memória! – Walcyr Carrasco

Luana Bernardes
Prof. Luana Bernardes

Graduada em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pós-graduada em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela mesma Universidade.

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01. [IBMEC]:

Me devolva o Neruda
(que você nem leu)
Quando o Chico Buarque escreveu o verso acima, ainda
não tinha o “que você nem leu”. A palavra Neruda – prêmio
Nobel, chileno, de esquerda – era proibida no Brasil. Na
sala da Censura Federal o nosso poeta negociou a
proibição. E a música foi liberada quando ele acrescentou o
“que você nem leu”, pois ficava parecendo que ninguém
dava bola para o Neruda no Brasil. Como eram burros os
censores da ditadura militar! E coloca burro nisso!!!
Mas a frase me veio à cabeça agora, porque eu gosto
demais dela. Imagine a cena. No meio de uma separação,
um dos cônjuges (me desculpe a palavra) me solta esta: me
devolva o Neruda que você nem leu! Pense nisso.

Pois eu pensei exatamente nisso quando comecei a escrever
esta crônica, que não tem nada a ver com o Chico, nem com
o Neruda e, muito menos, com os militares.
É que eu estou aqui para dizer um tchau. Um tchau breve
porque, se me aceitarem – você e o diretor da revista -, eu
volto daqui a dois anos. Vou até ali escrever uma novela na
Globo (o patrão vai continuar o mesmo) e depois eu volto.
Esperando que você já tenha lido o Neruda.
Mas aí você vai dizer assim: pó, escrever duas crônicas por
mês, fora a novela, o cara não consegue? O que é uma
crônica? Uma página e meia. Portanto, três páginas por mês
e o cara me vem com esse papo de Neruda?
Preguiçoso, no mínimo.
Quando faço umas palestras por aí, sempre me perguntam o
que é necessário para se tornar um escritor. E eu sempre
respondo: talento e sorte. Entre os 10 e 20 anos, recebia na
minha casa O Cruzeiro, Manchete e o jornal Última Hora. E
lá dentro eu lia (me invejem): Paulo Mendes Campos,
Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, Nelson
Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Heitor Cony. E
pensava, adolescentemente: quando eu crescer, vou ser
cronista.
Bem ou mal, consegui meu espaço. E agora, ao pedir de
volta o livro chileno, fico pensando em como eu me sentiria
se, um dia, um desses aí acima escrevesse que iria dar um
tempo. Eu matava o cara! Isso não se faz com o leitor
(desculpe, minha amiga, não estou me colocando no mesmo
nível deles, não!)
E deixo aqui uns versinhos do Neruda para as minhas
leitoras de 30 e 40 anos (e para todas):
Escuchas otras voces en mi voz dolorida
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas,
Amame, compañera. No me abandones. Sigueme,
Sigueme, compañera, en esa ola de angústia.
Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas
Voy haciendo de todas un collar infinito
Para tus blancas manos, suaves como las uvas.
Desculpe o mau jeito: tchau!

(Prata, Mario. Revista Época. São Paulo. Editora Globo,
Nº- 324, 02 de agosto de 2004, p. 99)

Relacione os fragmentos abaixo às funções da linguagem predominantes e assinale a alternativa correta.

I – “Imagine a cena”.
II – “Sou um homem de sorte”.
III – “O que é uma crônica? Uma página e meia.
Portanto, três páginas por mês e o cara me vem com esse
papo de Neruda?”.

a) Emotiva, poética e metalingüística, respectivamente.
b) Fática, emotiva e metalingüística, respectivamente.
c) Metalingüística, fática e apelativa, respectivamente.
d) Apelativa, emotiva e metalingüística, respectivamente.
e) Poética, fática e apelativa, respectivamente.

 

02. [PUC-SP]:

A questão é começar.

Coçar e comer é só começar. Conversar e escrever também.
Na fala, antes de iniciar, mesmo numa livre conversação, é necessário quebrar o gelo. Em nossa civilização apressada, o “bom dia”, o “boa tarde, como vai?” já não funcionam para engatar conversa. Qualquer assunto servindo, fala-se do tempo ou de futebol. No escrever também poderia ser assim, e deveria haver para a escrita algo como conversa vadia, com que se divaga até encontrar assunto para um discurso encadeado. Mas, à diferença da conversa falada, nos ensinaram a escrever e na lamentável forma mecânica que supunha texto prévio, mensagem já elaborada.
Escrevia-se o que antes se pensara. Agora entendo o   contrário: escrever para pensar, uma outra forma de conversar. Assim fomos “alfabetizados”, em obediência a certos rituais.

Fomos induzidos a, desde o início, escrever bonito e certo. Era preciso ter um começo, um desenvolvimento e um fim predeterminados. Isso estragava, porque bitolava, o começo e todo o resto. Tentaremos agora (quem? eu e você, leitor) conversando entender como necessitamos nos reeducar para fazer do escrever um ato inaugural; não apenas transcrição do que tínhamos em mente, do que já foi pensado ou dito, mas inauguração do próprio pensar. “Pare aí”, me diz você. “O escrevente escreve antes, o leitor lê depois.” “Não!”, lhe respondo, “Não consigo escrever sem pensar em você por perto, espiando o que escrevo. Não me deixe falando sozinho.”
Pois é; escrever é isso aí: iniciar uma conversa com interlocutores invisíveis, imprevisíveis, virtuais apenas, sequer imaginados de carne e ossos, mas sempre ativamente presentes. Depois é espichar conversas e novos interlocutores surgem, entram na roda, puxam assuntos.
Termina-se sabe Deus onde.

(MARQUES, M.O. Escrever é Preciso, Ijuí, Ed. UNIJUÍ,
1997, p. 13).

Observe a seguinte afirmação feita pelo autor: “Em nossa civilização apressada, o “bom dia”, o “boa tarde” já não
funcionam para engatar conversa. Qualquer assunto servindo, fala-se do tempo ou de futebol.” Ela faz referência à função da linguagem cuja meta é “quebrar o gelo”. Indique a alternativa que explicita essa função.

a) Função emotiva

b) Função referencial

c) Função fática

d) Função conativa

e) Função poética

01. [IBMEC]

Resposta: D

As funções predominantes nos fragmentos apresentados são apelativa, emotiva e metalingüística, respectivamente, conforme a alternativa D.

 

02. [PUC-SP]

Resposta: C

A função que o texto faz referência é a função fática. Aquela na qual há a “conversa” entre emissor e receptor.

 

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