Poesia Marginal

A poesia marginal não foi um movimento fechado com objetivos definidos, mas surgiu com o intuito de incomodar e dessacralizar a poesia.

A poesia marginal no Brasil incorpora produções literárias de diferentes épocas, sujeitos e linguagens, mas com a semelhança de serem produzidas em um contexto à margem, seja da academia, do mercado editorial ou da sociedade como um todo. Nesta matéria apresentamos a poesia marginal da geração de 1970 e da contemporaneidade, leia a seguir!

O que é poesia marginal

O conceito de poesia marginal foi criado na década de 1970 por jovens estudantes universitários que questionavam o cânone literário, influenciados pelo Tropicalismo e pelos movimentos de contracultura. De forma artesanal, esses escritores produziam obras à margem do cânone e do mercado editorial que só publicava clássicos, isso também os auxiliou a escapar da censura no contexto da ditadura civil-militar no Brasil.

Características da poesia marginal

Os autores controlavam todo o processo de criação das obras – zines e livretos – desde a escrita, o projeto gráfico, a ilustração, a impressão, a reprodução de cópias no mimeógrafo e a venda. Assim, a poesia marginal também é conhecida como Geração Mimeógrafo. Em termos estéticos, ela apresenta uma linguagem coloquial e antiacadêmica, com versos curtos, uso de gírias, palavrões e humor.

Principais autores da poesia marginal

A poesia marginal da Geração Mimeógrafo aconteceu com maior força na cidade do Rio de Janeiro, mas autores de outros lugares do Brasil também desenvolveram uma produção questionadora, à margem do mercado editorial. Conheça alguns deles abaixo!

Ana Cristina Cesar

Rádio Batuta

Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro, 1952 — Rio de Janeiro, 1983), mais conhecida como Ana C., foi uma intelectual brasileira. Cursou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e mestrado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Crítica literária, professora universitária, tradutora e escritora, Ana C. criou uma poesia intimista e muito reflexiva.

Principais obras literárias de Ana C.

  • Cenas de abril (1979)
  • Correspondência completa (1979)
  • Luvas de pelica (1980)
  • A Teus Pés (1982)
  • Inéditos e Dispersos (1985)

A poesia de Ana C. apresenta uma liberdade estética que seduz o leitor com frases curtas e diretas. A escritora ainda possui diversas outras publicações teóricas, resultado de seu trabalho intelectual.

Chacal

Wikimedia Commons

Ricardo de Carvalho Duarte (Rio de Janeiro, 1951), ou Chacal, é um poeta, cronista, letrista, autor teatral e produtor cultural. Cursou Comunicação Social na UFRJ e mestrado na PUC-RJ. Fundou com alguns colegas o Nuvem Cigana, coletivo artístico que agitou os anos 1970. É diretor do Centro de Experimentação Poética CEP 20.000, evento multi-mídia mensal no Rio de Janeiro.

A poesia mimeografada de Chacal:

  • Muito Prazer, Ricardo (1971)
  • Preço da Passagem (1972)
  • América (1975)
  • Quampérius – Nuvem Cigana (1977)
  • Olhos Vermelhos (1979)
  • Nariz Aniz (1979)
  • Boca Roxa (1979)

Chacal tem 17 livros publicados que exploram a linguagem do cotidiano. Sua autobiografia Uma História à Margem (2010) foi transformada em um monólogo teatral, interpretado pelo próprio escritor em vários países, e deu origem a dois curtas metragens: Chacal palavra filme de Piu Gomes e Proibido fazer poesia de Rodrigo Lopes de Barros, ambos de 2016.

Cacaso

Wikimedia Commons

Antônio Carlos de Brito (Uberaba, 1944 — Rio de Janeiro, 1987), ou Cacaso, foi um professor universitário, poeta e letrista. Cursou filosofia na UFRJ e lecionou teoria literária na PUC-RJ. Também escreveu para alguns jornais cariocas e participou dos movimentos estudantis contra a ditadura civil-militar no Brasil. Na década de 1970, integrou grupos literários que lançaram suas próprias publicações mimeografadas.

Algumas obras de Cacaso:

  • A Palavra Cerzida (1967)
  • Grupo escolar (1974)
  • Beijo na boca (1975)
  • Segunda classe (1975) com Luis Olavo Fontes
  • Na corda bamba (1978)
  • Mar de mineiro (1982)

As obras lançadas em 1975 foram fruto da coleção Vida de Artista, criada por Cacaso em conjunto com poetas como Eudoro Augusto, Carlos Saldanha e Chacal.

Paulo Leminski

Recanto do Poeta

Paulo Leminski Filho (Curitiba, 1944 — Curitiba, 1989) foi um poeta, crítico literário, letrista, tradutor, professor e publicitário. Participou de congressos e concursos de poesia onde encontrou parceiros como Haroldo de Campos. Lecionou em cursos pré-vestibulares e foi professor de judô. Leminski foi influenciado pela cultura japonesa, logo pela literatura do haicai, também foi casado com Alice Ruiz, grande escritora desse gênero.

A poesia irônica de Leminski:

  • Catatau (1976)
  • 80 Poemas (1980)
  • Caprichos e Relaxos (1983)
  • Agora é Que São Elas (1984)
  • 80 Poemas (1980)
  • Toda Poesia (2013)

A poesia de Leminski é repleta de trocadilhos, gírias e brincadeiras com ditados populares. Assim como Chacal e Cacaso, ele compôs diversas canções, mas não manteve relação direta com esses poetas. Leminski é associado à poesia marginal por ter aderido à contracultura e publicado em revistas alternativas, também é considerado por muitos um poeta de vanguarda.

Leila Míccolis


Escritas.org

Leila Míccolis (Rio de Janeiro, 1947) é uma escritora, roteirista, dramaturga e editora. Cursou Direito pela UFRJ e advogou até 1977, quando decidiu dedicar-se exclusivamente à literatura. Anos depois, fez mestrado e doutorado em Ciência da Literatura pela UFRJ. Leila também escreveu roteiros para a televisão e foi co-autora de telenovelas da TV Manchete e da Rede Globo.

Principais obras de Leila Míccolis

  • Gaveta da Solidão (1965)
  • Impróprio para menores de 18 amores (1976)
  • Silêncio Relativo (1977)
  • Mulheres da Vida (1978)
  • MPB (1983)
  • Em perfeito mal estado (1987)
  • Do poder ao poder (1987)
  • Desfamiliares (2013)

A escritora possui mais de 30 livros publicados e escreveu vários poemas com temática lésbica.

Exemplos de poesia marginal

A poesia marginal da Geração Mimeógrafo caracterizou-se pela liberdade estética na escrita e na publicação. Por isso, as produções dos poetas dessa geração podem variar muito em relação ao tema, à linguagem, à extensão dos versos e ao tamanho dos textos. Abaixo, há um poema de cada autor(a) citado(a), boa leitura!

Apaixonada,
saquei minha arma
minha calma.
Só você não sacou nada.
(Ana Cristina Cesar)

Uma palavra
uma
palavra
escrita é uma
palavra não dita é uma
palavra maldita é uma palavra
gravada como gravata que é uma palavra
gaiata como goiaba que é uma palavra gostosa
(Chacal)

Modéstia à parte
Exagerado em matéria de ironia e em
matéria de matéria moderado
(Cacaso)

PRA QUE CARA FEIA?
NA VIDA
NINGUÉM PAGA MEIA.
(Leminski)

TRÊS NÚMEROS DE MÁGICA
O espetáculo começa:
faço sair da cartola
televisão a cores,
automóveis,
e imóveis no Leme
a pagar em 180 prestações.
Depois te serro ao meio no caixão,
para salvar-te a seguir:
surges inteiro e pareces tão ileso
que nem dá para notar a castração.
Por último me cubro – abracadabra! –
e volto aos tempos de menina,
tirando da vagina objetos contundentes
que fizeram a minha vida
e o meu hímem complacentes.
(Leila Miccolis)

Uma publicação importante para a poesia marginal é a antologia 26 poetas hoje, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Segundo Heloisa, a academia demorou muito tempo para aceitar o livro dizendo que ele não era literatura porque era mal feito e cheio de palavrões, mas essas produções são cobradas nos vestibulares atualmente, assim, de marginal tornaram-se cânones na visão dela.

A poesia marginal hoje

A poesia marginal contemporânea é produzida por escritores que compõem grupos marginalizados, sobretudo, pela questão socioeconômica, assim, eles vivem nas periferias, diferentemente dos autores de 1970. Essa literatura corresponde às publicações independentes (zines, livretos e livros) ou de editoras e à poesia do rap e dos slams. Conheça mais sobre esses movimentos a seguir!

Ferréz

Em 2001, o escritor Ferréz organizou uma edição da Revista Caros Amigos intitulada Literatura Marginal: A Cultura da Periferia. Ela foi uma importante publicação, pois apresentou textos de escritores da periferia da cidade de São Paulo e a partir desse momento o conceito de literatura marginal passou a nomear a produção periférica em verso e em prosa.

Rap

O rap é uma poesia da escrita e da voz que apresenta texto em verso, rimas, ritmo, figuras de linguagem e de efeito sonoro. O álbum Sobrevivendo no Inferno dos Racionais MCs, um clássico nacional, é leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp (2020) na categoria poesia. Além disso, Inquérito, Gog, Emicida e o próprio Ferréz são rappers com livros publicados.

Slam

Os slams são campeonatos de poesia falada que têm conquistado a juventude brasileira. Neles, os poetas apresentam textos autorais e recebem notas de um júri popular que avalia poema e performance. Assim, voz e corpo materializam a poesia do slam que pode abordar qualquer tema, mas as questões sociais têm ganhado destaque nesse movimento de expressão popular que se reconhece como literatura marginal.

Vídeos sobre a pluralidade da poesia marginal

Para compreender melhor o conteúdo apresentado até aqui, assista cinco vídeos que exploram a riqueza da literatura marginal no Brasil.

Geração Mimeógrafo em 5 minutos

O vídeo aborda o contexto de desenvolvimento da poesia marginal na década de 1970 e suas principais características.

A literatura marginal como projeto da periferia

O escritor Ferréz explica o surgimento da literatura marginal e sua importância para as pessoas da periferia.

Slam: um movimento literário, político e social

A poeta e organizadora do Slam BR, Roberta Estrela D’Alva, explica o que é o movimento dos slams no Brasil.

A Poesia do Slam

Confira a perfomance da poeta e slammer Vic Sales na final do Slam das Minas 2017.

Conforme você viu, a poesia marginal nomeia literaturas de diferentes épocas e estéticas, mas que se assemelham por serem produzidas à margem e terem como projeto a dessacralização da poesia. Agora, continue seus estudos e leia sobre Quarto de despejo que é outra obra produzida por uma escritora brasileira marginalizada!

Referências

Caros Amigos – Literatura Marginal: A Cultura da Periferia (2001) – Ferréz (org.)
POESIA MARGINAL: antologia poética. Geração mimeógrafo – anos 1970 (2018) – Amador Ribeiro Neto.
Toda Poesia (2013) – Paulo Leminski
Tudo (e mais um pouco): poesia reunida (1971-2016) (2016) – Chacal
26 poetas hoje (1975) – Heloisa Buarque de Hollanda (org.)

Érica Paiva Rosa
Por Érica Paiva Rosa

Professora, redatora e produtora cultural. Mestre em Letras pela UEM.

Como referenciar este conteúdo

Paiva Rosa, Érica. Poesia Marginal. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/poesia-marginal. Acesso em: 22 de September de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [ENEM]

Reclame

Se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
… ou transforme o mundo

ótica olho vivo
agradece a preferência

CHACAL et al. Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006.

Chacal é um dos representantes da geração poética de 1970. A produção literária dessa geração, considerada marginal e engajada, de que é representativo o poema apresentado, valoriza:

A) o experimentalismo em versos curtos e tom jocoso.
B) a sociedade de consumo, com o uso da linguagem publicitária.
C) a construção do poema, em detrimento do conteúdo.
D) a experimentação formal dos neossimbolistas.
E) o uso de versos curtos e uniformes quanto à métrica.

Resposta: A

Justificativa: A poesia marginal da década de 1970 caracterizou-se por elementos como o experimentalismo, a brincadeira com as palavras, a linguagem coloquial e divertida etc.

Jocoso = Que provoca o riso; que faz rir; cômico, divertido, engraçado.

2. [PUC-PR]

Para responder à questão a seguir, leia o poema de Paulo Leminski, que consta no seu livro Poemas.

Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.

Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.

I. O poema faz referência à poesia marginal, movimento ao qual Leminski é associado.
II. O humor, uma das marcas da poesia leminskiana, remete o leitor ao fazer poético.
III. É um haicai, nos moldes japoneses.
IV. No poema, Leminski faz uma crítica à marginalização do poeta na sociedade.

A) Apenas as assertivas I e II estão corretas.
B) Apenas as assertivas I, II e III estão corretas.
C) Apenas a assertiva I está correta.
D) Todas as assertivas estão corretas.
E) Apenas a assertiva II está correta.

Resposta: A

Justificativa: A partir de metáforas ligadas ao processo de escrita, o poema fala sobre a experiência de ser um poeta marginal de forma bem humorada, uma característica da poesia de Leminski. Por outro lado, o poema não é um haicai nem apresenta uma crítica à marginalização do poeta na sociedade.

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