Florbela Espanca

Subjetivismo, intensidade e sentimentalismo caracterizam a obra da poeta portuguesa Florbela Espanca.

Florbela Espanca escreveu poemas, contos, diários e cartas, além de ter traduzido muitos romances para a língua portuguesa. Compôs seu primeiro poema aos 8 anos de idade e tem diversas publicações, a maioria póstumas. Conheça um dos nomes mais importantes da literatura portuguesa!

Biografia

(Fonte: WikiMedia)

Flor Bela Lobo (Vila Viçosa, 1894 — Matosinhos, 1930) foi uma poeta portuguesa. Ela se autonomeou como Florbela d’Alma da Conceição Espanca e ficou famosa como Florbela Espanca. Seu pai, João Maria Espanca, era casado com Mariana do Carmo Inglesa Toscano, que era estéril. Ele se relacionou com a empregada Antónia da Conceição Lobo para ter filhos e, assim, nasceram Florbela e seu irmão Apeles, criados pelo pai e sua esposa.

Por outro lado, somente anos após morrer, Florbela foi reconhecida em cartório por seu pai. A escritora cursou a escola primária e foi uma das primeiras mulheres a fazer o curso secundário em Portugal. Em 1913, ela se casou com um colega de escola e, em 1916, lançou seu primeiro projeto de poesia, a coletânea Trocando Olhares. Trabalhou como jornalista em revistas e jornais e se formou em Letras.

Florbela também estudou Direito na Universidade de Lisboa, mas não concluiu o curso. A poeta foi uma mulher inovadora para o seu tempo, estudou, trabalhou, participou de um grupo de escritoras e se divorciou duas vezes. Após um aborto involuntário, Espanca apresentou sintomas de neurose, doença que se agravou após o trágico falecimento de seu irmão. A poeta tentou o suicídio duas vezes e, após o diagnóstico de um edema pulmonar, o fez.

Características literárias

Florbela conseguiu transformar os seus sentimentos mais íntimos em literatura. Escreveu diversos gêneros, mas foi pela poesia que se tornou conhecida. Veja algumas características da escritora, a seguir:

  • Em seus livros abordou temas diversos como: tristeza, solidão, saudade, sedução, erotização, feminilidade, panteísmo e morte. O patriotismo também compõe sua obra, como exemplo, o soneto “No meu Alentejo” é uma homenagem à terra natal da autora.
  • Na prosa, produziu contos, um diário (próximo ao momento de sua morte) e cartas. Nos contos, a figura de seu irmão Apeles é muito presente, devido à forte ligação que eles tinham.
  • A poeta colocou em tensão a condição feminina e a marginalidade, principalmente, através dos temas sobre sensualidade e erotismo. Assim, construiu reflexões sobre os direitos das mulheres à liberdade, ao prazer e às decisões político-sociais.
  • Os poemas são muito sonoros esteticamente, devido ao planejamento na composição das rimas, assonâncias e aliterações. Alguns de seus textos, foram musicados e ficaram famosos pelas vozes de cantores portugueses e brasileiros.
  • As produções de Florbela apresentam um caráter sentimental e, por vezes, confessional, marcado pela presença do “eu”.
  • A escritora utilizou uma linguagem singular no meio literário da época, composto, sobretudo, por homens, mostrando a potencialidade da autoria feminina no trabalho com temas clássicos como o amor.
  • A obra de Florbela também dialoga com a produção intelectual de seu tempo, pois a poesia e a prosa da escritora se revestem da mesma “teatralidade”, que caracterizou os movimentos das vanguardas europeias, no início do século XX.

A seguir, confira a presença de algumas dessas características nas principais obras de Florbela Espanca!

Principais obras

A segunda publicação de Florbela foi Livro de Mágoas, um livro de sonetos lançado em 1919, que esgotou rapidamente. A preferência pelo soneto marca a obra da autora, leia alguns de seus sonetos famosos:

A mulher
Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Amor que morre
O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!

Ser poeta
Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

Abaixo, confira a lista de obras de Florbela Espanca, por ano de publicação:

  • Trocando olhares (1916)
  • Livro de Mágoas (1919)
  • Livro de Sóror Saudade (1923)
  • Charneca em Flor (1931)
  • As Máscaras do Destino (1931)
  • Juvenília (1931)
  • Reliquiae (1934)
  • O Dominó Preto (1982)
  • Diário do Último Ano (1981)

Somente duas obras, “Livro de Mágoas” e “Livro de Sóror Saudade”, foram publicadas pela poeta em vida. As demais obras foram todas organizadas postumamente.

5 frases de Florbela Espanca

Separamos algumas frases e trechos dos poemas de Florbela Espanca que mostram o caráter sentimental e reflexivo dessa poeta portuguesa:

  1. “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”
  2. ”A vida e a morte são/ O sorriso lisonjeiro/ E o amor tem o navio/ E o navio o marinheiro” (Poema A vida e a morte)
  3. “Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui… além… / Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente… / Amar! Amar! E não amar ninguém!” (Poema Amar)
  4. ”Passei a vida a amar e a esquecer…/ Atrás do sol dum dia outro a aquecer/ As brumas dos atalhos por onde ando…” (Poema Inconstância)
  5. “Acho o casamento uma coisa revoltante! (…) que revolta tudo o que tenho de delicado e de bom no íntimo da minha alma” (Trecho de uma carta à sua amiga Júlia Alves).

Conforme as próprias frases de Espanca, ela foi uma mulher que viveu intensamente e empregou essa energia para escrever sobre os sentimentos no plano literário.

Vídeos sobre a poeta da subjetividade

Para fixar o que você aprendeu até aqui, confira esta seleção de vídeos que apresentam diversos detalhes sobre a vida de Florbela Espanca, além de poemas e comentários sobre a obra dessa escritora portuguesa.

Florbela: vida e obra

Nesta videoaula, a professora Silvia comenta sobre os principais acontecimentos da vida de Florbela, o contexto sociopolítico em que a poeta viveu e escreveu, além de apresentar e analisar alguns poemas. Confira!

50 fatos sobre Florbela Espanca

Acompanhe os 50 fatos que Tarcila Tanhã apresenta sobre a escritora portuguesa, passando pela sua biografia, principais temas e relações entre eles e a vida de Florbela, além de seu acolhimento pela crítica. Acompanhe!

Florbela: uma poeta livre

Neste vídeo, a Professora Juliana comenta como Florbela foi uma mulher que transgrediu as normas sociais de seu tempo, seja por suas atitudes ou pelos temas abordados em sua obra. Veja alguns poemas que expressam isso!

Quer conhecer mais autores portugueses? Então, leia a nossa matéria Romantismo em Portugal e continue aprendendo!

Referências

A Vida Ignorada de Florbela Espanca (1964) – Maria Alexandrina.
Florbela Espanca: uma estética da teatralidade (2003) – Renata Soares Junqueira

Érica Paiva Rosa
Por Érica Paiva Rosa

Professora, redatora e produtora cultural. Mestre em Letras pela UEM.

Como referenciar este conteúdo

Paiva Rosa, Érica. Florbela Espanca. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/florbela-espanca. Acesso em: 19 de June de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [UFRS]

Leia os seguintes poemas:

Fumo
Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram… choram…
Há crisântemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!

Neurastenia
Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza …

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza …

Chuva … tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento … tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!! …

Leia as seguintes afirmações sobre os sonetos “Fumo” e “Neurastenia”.
I – Em ambos os sonetos, a natureza é solidária aos sentimentos dos sujeitos líricos.
II – Em “Fumo”, o estado de alma do sujeito lírico é comparado à primavera.
III- Em “Neurastenia”, o sujeito lírico pede ajuda à natureza para dizer o que sente.

Quais estão corretas?
A) Apenas I.
B) Apenas II.
C) Apenas III.
D) Apenas I e III.
E) I, II e III.

Resposta: D
Justificativa: Apenas as afirmações I e III apresentam informações corretas. A afirmação II é equivocada, pois, em “Fumo”, o estado de alma do sujeito lírico é comparado ao outono e ao inverno.

2. [UFRS]

Ser poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Assinale a alternativa correta sobre o poema “Ser poeta”.
A) O sujeito lírico canta a condição de inferioridade do poeta em relação às outras pessoas.
B) A intensidade de sentimentos impede o poeta de cantar o ser amado.
C) O poeta é capaz de sentir e viver com mais intensidade os acontecimentos da vida.
D) O poeta canta suas certezas.
E) O poeta é Rei de todos os reinos.

Resposta: C
Justificativa: O poema versa sobre a capacidade que o poeta tem de viver com intensidade e transformar a vida em poesia.

3. [UFRS]

Leia trechos dos poemas “Fanatismo”, de Florbela Espanca, e “Imagem”, de Cecília Meireles.

Fanatismo
(…)
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”

Imagem
Tão brando é o movimento
das estrelas, da lua,
das nuvens e do vento,
que se desenha a tua
face no firmamento.

Desenha-se tão pura
como nunca a tiveste,
nem nenhuma criatura.
Pois é sombra celeste
da terrena aventura.
(…)

Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre os poemas.
( ) Ambos os sujeitos líricos comparam o ser amado à perfeição divina.
( ) Ambos os sujeitos líricos veem o amor de modo idealizado.
( ) Ambos os sujeitos líricos falam diretamente ao ser amado.
( ) Ambos os poemas citam diretamente a voz da opinião pública.

A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
A) V – V – V – F.
B) V – V – F – V.
C) F – F – V – V.
D) F – V – F – V.
E) V – F – V – F.

Resposta: A
Justificativa: Ambos os sujeitos líricos comparam o ser amado à perfeição divina, veem o amor de modo idealizado e falam diretamente ao ser amado, mas apenas o primeiro poema cita diretamente a voz da opinião pública.

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