Augusto dos Anjos

Poeta com uma linguagem completamente distinta e complexa, Augusto dos Anjos é reconhecido como um dos principais nomes da Literatura Brasileira.

Augusto dos Anjos é oriundo do estado da Paraíba e, apesar de ser formado em Direito, atuou como professor. Interessou-se desde muito jovem pela Literatura e escreveu seu primeiro soneto, Saudade, aos sete anos. Publicou Eu, em 1912, com 58 poemas de grande esmero formal e com uma linguagem completamente nova, o que certamente causou grande alvoroço na época.

Biografia

Augusto dos Anjos
“Augusto dos Anjos”, de Flávio Tavares. Acrílica sobre tela, 1985. A tela, com a representação de Augusto dos Anjos ao fundo, demonstra a estranheza e a morbidez características do poeta paraibano.

Infância e primeiros contatos com a Literatura

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no dia 20 de abril de 1884, no Engenho Pau d’Arco, atualmente conhecido como munícipio de Sapé, no Estado da Paraíba. Seus pais, Alexandre Rodrigues dos Anjos e Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos, eram proprietários de engenhos que viriam a ser perdidos anos depois devido ao fim da monarquia e consequente abolição da escravatura, bem como a implantação da República.

Sua educação, durante a primeira infância, ficou ao encargo do pai. Aos seis anos, em 1900, iniciou os estudos no Liceu Paraibano. Viveu envolvido pelos livros da biblioteca pessoal de seu pai. Desde muito cedo, dedicou-se à literatura. Seus primeiros versos foram escritos aos sete anos de idade, dentre eles o soneto Saudade. Já na adolescência, o escritor publicava algumas de suas poesias no jornal O Comércio. Entretanto, por conta do conteúdo delas, o autor era taxado como louco e causava alvoroço e polêmicas.

Carreira literária

Entre 1903 e 1907, estudou Direito na Faculdade de Direito de Recife. Todavia, nunca exerceu a profissão de sua formação. Depois disso, regressou a João Pessoa, na Paraíba, e começou a dar aulas particulares de Literatura Brasileira. Em 1908, recebe o cargo de professor do Liceu Paraibano, onde estudou na infância; entretanto, dois anos depois, é afastado por um desentendimento com o governador.

No ano de 1910, casou-se com Ester Fialho, com quem teve três filhos, e mudou-se para o Rio de Janeiro. Em terras cariocas, o autor enfrentou o desemprego e a crise financeira da família até conseguir o cargo de professor; deu aulas de literatura, além de aulas de geografia na Escola Normal, no Instituto de Educação e no Ginásio Nacional. No ano seguinte, 1911, atuou com professor de geografia no Colégio Pedro II. Nessa época, publicou vários poemas em jornais.

Foi em 1912 que publicou seu primeiro livro Eu, com 58 poemas, muito criticado em razão do conteúdo mórbido e tido como absurdo. Em 1914, devido à nomeação de diretor do Grupo Escolar de Leopoldina, indicação de um cunhado, Augusto dos Anjos mudou-se para Minas Gerais, onde morou apenas alguns meses até morrer.

O escritor faleceu em 12 de novembro de 1914, aos 30 anos de idade, vítima de uma pneumonia. O autor também é patrono da cadeira número 1 da Academia Paraibana de Letras (APL) e patrono da Academia Leopoldinense de Letras e Artes.

Curiosidades

Dentre as curiosidades sobre a vida e a obra de Augusto dos Anjos, pode-se citar a dificuldade de enquadrá-lo em um movimento literário, pois sua poética é completamente distinta e complexa de tudo que já se havia produzido até então. Contemporâneo ao Parnasianismo e ao Simbolismo, o escritor certamente possui influências desses movimentos, como o apego formal, rigor estético, objetivismo, racionalismo, aspectos espirituais e musicalidade.

Além de conter forte caráter realista ao tratar de temas recorrentes como a morte e a decomposição da matéria morta, sem contar que, ao cunhar termos científicos como carbono, amoníaco, hipocondríaco, cadáver, verme, entre outros. O autor também revela o caráter naturalista de sua obra, desvelando sobre o ser humano como ele é, sem floreios, a realidade nua e crua.

Não é de se espantar que tais características causassem grande impacto na sociedade, uma vez que todos estavam acostumados a obras literárias que não abordavam sobre a vida e a morte com tamanha crueza. Devido a essas questões, o poeta passou a ser denominado como inclassificável. Entretanto, alguns estudiosos, entre eles o próprio Ferreira Gullar, preferem classificá-lo como um pré-modernista, tendo em vista a sua forma inovadora de fazer poesia.

Sua única obra publicada Eu foi bastante criticada por conta do choque causado pelo vocabulário e pela agressividade das palavras. Por isso, o escritor não alcançou o devido reconhecimento em vida nem pelo público, tampouco pela Academia. Sua poesia permaneceu pelo interesse do povo nordestino em sua obra, até que ela passou a ser reconhecida pela comunidade literária.

Características

Como visto anteriormente, o interesse de Augusto dos Anjos pela Literatura se deu pelo acesso que tinha à biblioteca particular do pai, local em que desenvolveu uma forma única de fazer poesia. O escritor possui elementos que são específicos de sua escrita e que a torna inconfundível, entre eles estão:

  • Linguagem científica;
  • Melancolia;
  • Crítica ao idealismo egocêntrico;
  • Apego formal;
  • Mistura do vocabulário popular com o erudito;
  • Pessimismo;
  • Realidade nua e crua.

Tais aspectos causaram grande alvoroço em sua época, rendendo-lhe o título de “Doutor Tristeza” e “Poeta da morte”. Entretano, atualmente, são elementos que foram reconhecidos por enaltecer e diferenciar a obra de Augusto dos Anjos e torná-lo um dos grandes nomes da Literatura Brasileira, influenciando os movimentos literários que sucederiam.

Principais obras

Augusto dos Anjos possui apenas uma obra publicada, o que só foi possível com a ajuda de seu irmão. O livro, na época de sua primeira publicação, contava com 58 poemas do autor:

  • Eu (1912)

Dentre os poemas presentes em Eu, alguns ficaram mais famosos por canta da própria linguagem e conteúdo, entre eles estão:

Versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Fonte: ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 42.

Saudade

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noite quando em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,

Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.

Fonte: ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 83.

O deus-verme

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Fonte: ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 7.

5 frases de Augusto dos Anjos

Seguem abaixo algumas frases muito famosas do autor, para conhecer mais sobre a escrita e o conteúdo dos poemas de Augusto dos Anjos:

  1. “Que ninguém doma um coração de poeta!”
  2. “Hoje eu carrego a cruz de minhas dores!”
  3. “Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!”
  4. “Que a mais alta expressão da dor estética / Consiste essencialmente na alegria.”
  5. “Ah! Dentro de toda a alma existe a prova / De que a dor como um dartro se renova”

Até aqui, você conheceu sobre a vida do autor, as características de sua obra, além de ler alguns de seus poemas mais famosos. No tópico a seguir, você poderá revisar o conteúdo e sedimentar o seu conhecimento.

Que tal conhecer mais sobre Augusto dos Anjos?

Para conhecer um pouco mais a respeito da vida, da história e, principalmente, da obra poética de Augusto dos Anjos confira os vídeos destacados.

Um pouco mais sobre o Pré-Modernismo

O Pré-Modernismo não é considerado uma escola literária, mas um período de transição anterior ao Modernismo brasileiro. Durou aproximadamente vinte anos e conta com diversos autores, de diversas linhas temáticas e de diversos estilos literários. Veja o vídeo e adquira ainda mais conhecimento sobre a Literatura Brasileira.

Uma conversa sobre a poesia de Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos é um poeta enigmático, que causa estranheza nos leitores. Fruto de um período de transição, a poesia do autor é densa e possui diversos traços que a tornam inconfundível no universo da Literatura Brasileira.

Augusto dos Anjos e sua única obra, “Eu”

Neste vídeo, você conseguirá conhecer um pouco mais sobre Augusto dos Anjos e a sua forma de fazer poesia. Apesar de ter deixado apenas um livro, o poeta paraibano é universal e sempre é requisitado nos principais vestibulares do país.

Agora que você aprendeu sobre esse autor incrível que é Augusto dos Anjos, o que acha de começar a ler a obra “Eu” e se apaixonar pelo estilo do poeta? Além disso, não deixe de estudar sobre o Pré-Modernismo e conhecer outros grandes escritores do período.

Referências

A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos – Montgômery Vasconcelos;
Augusto dos Anjos e sua época – Humberto Nóbrega;
Curso de literatura brasileira – Sergius Gonzaga;
Eu – Augusto dos Anjos;
História concisa da literatura brasileira – Alfredo Bosi;
Literatura – Fábio D’Ávila e Danton Pedro dos Santos.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Como referenciar este conteúdo

Ferrari, Leonardo. Augusto dos Anjos. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/augusto-dos-anjos. Acesso em: 09 de August de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [UFRS]

Versos íntimos
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Considere as seguintes afirmações em relação ao poema de Augusto dos Anjos.
I – O poema comenta sarcasticamente o fim da vida e contradiz os ideais de solidariedade humana.
II – Os versos demonstram que os animais são os principais responsáveis pela violência sobre a terra.
III – O poeta serviu-se da imagem do fósforo para transmitir ao eleito uma mensagem de luz e de esperança.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e II.
d) Apenas I e III.
e) I, II e III.

Resposta: a.

Justificativa: no poema Versos Íntimos, Augusto dos Anjos aborda sobre a desilusão e desesperança perante à morte, sempre extremamente realista e crítico quanto às relações humanas. Logo, a afirmação I é a única correta, uma vez que o texto não trata sobre os animais, sendo que a única referência animalesca é a citação das “feras” que possui apenas um sentido figurado. Além disso, o poema não transmite uma mensagem de luz, muito pelo contrário.

2. [ENEM]

Psicologia de um vencido
Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

(ANJOS, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.)

A poesia de Augusto dos Anjos revela aspectos de uma literatura de transição designada como pré-modernista. Com relação à poética e à abordagem temática presentes no soneto, identificam-se marcas dessa literatura de transição, como

a) a forma do soneto, os versos metrificados, a presença de rimas, o vocabulário requintado, além do ceticismo, que antecipam conceitos estéticos vigentes no Modernismo.
b) o empenho do eu lírico pelo resgate da poesia simbolista, manifesta em metáforas como “Monstro de escuridão rutilância” e “Influência má dos signos do zodíaco”.
c) a seleção lexical emprestada do cientificismo, como se lê em “carbono e amoníaco”, “epigênesis da infância”, “frialdade inorgânica”, que restitui a visão naturalista do homem.
d) a manutenção de elementos formais vinculados à estética do Parnasianismo e do Simbolismo, dimensionada pela inovação na expressividade poética e o desconcerto existencial.
e) a ênfase no processo de construção de uma poesia descritiva e ao mesmo tempo filosófica, que incorpora valores morais e científicos mais tarde renovados pelos modernistas.

Resposta: d.

Justificativa: Augusto dos Anjos viveu em um período em que predominava as produções dos movimentos parnasiano e simbolista, o que de certa forma influenciou em suas obras, mas não ao ponto de caracterizá-lo como autor de um dos movimentos, pois o poeta tratava sobre temas existenciais com uma linguagem única e com cunho cientificista.

3. [MACK]

Assinale a alternativa onde aparece uma característica que não se aplica à obra de Augusto dos Anjos.

a) referência à decomposição da matéria.
b) pessimismo diante da vida.
c) amor reduzido a instinto.
d) incorporação de vocabulário científico.
e) nacionalismo exaltado.

Resposta: e.

Justificativa: Os temas abordados pelo autor eram de cunho existencial e nada tinham a ver com o nacionalismo exaltado.

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