Parnasianismo

O Parnasianismo foi um movimento focado na elaboração de uma “arte pela arte” e na impessoalidade em termos temáticos. Durou cerca de quarenta anos no Brasil.

Influenciado pela Belle Époque e com um ideal antirromântico, o Parnasianismo desenvolveu-se com um grande foco na forma e na impessoalidade em termos temáticos. Apesar de seu percurso na Europa ter sido tímido, o movimento consolidou-se e durou cerca de quarenta anos no Brasil. Neste texto, você conhecerá mais sobre o que foi essa escola literária, suas características e os principais autores brasileiros.

O que é o Parnasianismo?

Parnasianismo, quadro relacionado.
Parnaso (1509-10), pintado por Rafael Sanzio. O afresco mostra o famoso monte grego que deu origem ao nome Parnasianismo. Obra localizada no Palazzi Pontifici, no Vaticano. Imagem disponível em Web Gallery of Art.

Com a publicação de Parnasse Contemporain, revista dirigida por Théophile Gautier, o movimento parnasiano começou a se sedimentar na Europa, especificamente na França, a partir de 1860. Sua expressão no continente europeu, porém, foi incipiente e não chegou a se desenvolver plenamente como no Brasil. É importante salientar que esse movimento ocorreu exclusivamente na poesia.

É possível associar o Parnasianismo à ascensão e ao declínio da Belle Époque na Europa. Era um momento histórico mais descompromissado para as elites europeias, sem grandes preocupações, principalmente após o fim da guerra Franco-Prussiana em 1871. Esse período durou até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o que se aproxima do fim desse movimento estético, que avançou as duas primeiras décadas do século XX.

Contra os ideais românticos, os poetas parnasianos focavam-se na forma e eram indiferentes aos problemas de cunho social. De certa forma, é possível compará-los aos escritores realistas, mas apenas em termos da preocupação estética e da abordagem objetiva; pois, na escola literária de Machado de Assis havia a percepção da crise social pela qual a classe burguesa passava. Se o Brasil sofria grandes mudanças, como a Proclamação da República (1889) e a abolição da escravatura (1888), os poetas parnasianos não utilizavam isso para compor suas obras.

O nome da escola literária faz alusão a um monte grego, Parnaso, onde habitavam os poetas e pastores. A partir disso, é possível compreender o distanciamento que havia entre a poesia parnasiana e a realidade concreta da época.

Características do Parnasianismo

O Parnasianismo foi um movimento antirromântico e diversas de suas características afastam-se da estética da escola de José de Alencar e Gonçalves Dias. Abaixo, você poderá conferir como o objetivismo, o conceito de arte pela arte, o culto à forma e a temática greco-romana são essenciais aos parnasianos.

Objetivismo e impessoalidade

Se no Romantismo a interioridade do escritor era extremamente valorizada, no Parnasianismo essa característica torna-se renegada. O que vale é a objetividade e a neutralidade do poeta em relação à sua obra, isto é, sua posição como criador deve desaparecer frente ao mundo concreto. Nesse contexto, é interessante notar como essa ânsia pela concretude absoluta choca-se com a própria noção geral do subjetivismo atrelado à lírica. Assim, o racionalismo e o universalismo são regras a serem contempladas na elaboração de uma poesia.

Observe, por exemplo, no poema abaixo, de Alberto de Oliveira, a objetividade na descrição de um vaso chinês e o contexto ao ser redor. É como se o poeta compusesse um quadro e escolhesse um ângulo específico para visualizar o objeto retratado e o seu cenário.

Vaso Chinês
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Alberto de Oliveira

Arte pela arte

Relacionado a preceitos latinos, os parnasianos salientavam que a arte é gratuita, ou seja, ela se fecha em si mesma e não possui nenhum objetivo específico. Assim, detalhes que almejam um cunho social ou se relacionam ao mundo convencional não se encaixam na temática propriamente parnasiana; apenas a beleza formal é suficiente para a obra de um escritor.

No trecho do poema abaixo, o poeta Alberto de Oliveira foca-se em descrever outros objetos artísticos, fechando-se em um processo de arte sobre a arte, tornando o texto ainda mais hermético.

Vaso Grego
Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que o suspendia
Então, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois… Mas, o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

Alberto de Oliveira

Culto à forma

Essa é a característica mais ampla do movimento parnasiano. Os autores dessa escola literária celebravam a forma como um instrumento para alcançar a beleza e a verdade dentro da poesia. Entre os elementos que devem ser observados, destacam-se:

  • Metrificação rigorosa: os versos deveriam ter o mesmo número de sílabas poéticas ou uma simetria perfeita;
  • Utilização de rimas ricas: eram evitadas rimas pobres, entre classes gramaticais iguais. Além disso, há uma preferência pela rima do tipo ABBA (interpolada), mas também ocorrem as do tipo ABAB (alternadas);
  • Preferência pelo soneto: a forma fixa do soneto era a preferida entre os parnasianos, isto é, os poemas eram elaborados em dois quartetos e dois tercetos. Aqui é importante salientar o que é chamada a “chave de ouro” do soneto, utilizada para fechar e retomar a mensagem completa do que foi escrito;
  • Descritivismo: como já comentado anteriormente, há uma ênfase na poesia como construção objetiva, portanto há a eliminação do eu e do contexto social inerente a ele. Assim, quadros fechados (objetos no geral) são descritos com frequência; ademais, devido ao preciosismo na linguagem, palavras raras são muito utilizadas nas descrições.

Escrito em versos alexandrinos (doze sílabas poéticas), uma preferência de muitos autores do movimento, o poema abaixo é um ótimo exemplo da rigidez formal encontrada no Parnasianismo.

Pátria
Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!
E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,
E subo do teu cerne ao céu de galho em galho!

Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde,
Do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
Do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,
De ti, – rebento em luz e em cânticos me espalho!

Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes,
No alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!
E eu, morto, – sendo tu cheia de cicatrizes,

Tu golpeada e insultada, – eu tremerei sepulto:
E os meus ossos no chão, como as tuas raízes,
Se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!

Olavo Bilac

Observe também uma rima rica entre o primeiro e terceiro verso, como “onde” (advérbio) rima com “responde” (verbo) ou ainda como o substantivo “fronde” (verso 5) rima com o verbo “esconde” (verso 7). Além disso, verifique que todos os poemas apresentados como exemplos são sonetos, o que demonstra a clara preferência dos autores parnasianos.

Temática greco-romana

Apesar de se esforçarem, os poetas parnasianos não conseguiam criar um poema vazio em conteúdo. Utilizavam a antiguidade clássica e os aspectos de sua mitologia, portanto, para construir uma poética distante dos assuntos políticos e sociais da época. São vários textos que falam de personagens históricos, mitos e objetos da era clássica, desvinculando-se do próprio fervor filosófico que poderiam representar.

Olavo Bilac, no poema abaixo, faz diversas alusões a lugares da cultura grega e ao imperador Nero, mas existe um vazio gigantesco em termos de significado. Foi considerado, porém, um grande poema na época.

A sesta de Neto
Fulge de luz banhado, esplêndido e suntuoso,
O palácio imperial de pórfiro luzente
E mármor da Lacônia. O teto caprichoso
Mostra, em prata incrustado, o nácar do Oriente.

Nero no toro ebúrneo estende-se indolente…
Gemas em profusão do estrágulo custoso
De ouro bordado vêem-se. O olhar deslumbra, ardente,
Da púrpura da Trácia o brilho esplendoroso.

Formosa ancila canta. A aurilavrada lira
Em suas mãos soluça. Os ares perfumando,
Arde a mirra da Arábia em recendente pira.

Formas quebram, dançando, escravas em coréia.
E Nero dorme e sonha, a fronte reclinando
Nos alvos seios nus da lúbrica Pompéia.

Olavo Bilac

Com esses conceitos em mente, é possível analisar a poesia parnasiana pelo seu ponto primordial: a forma e o aparente vazio de conteúdo.

Parnasianismo no Brasil

Ao contrário de vários países europeus, com exceção da França, o Parnasianismo no Brasil mostrou-se um movimento completo e relevante. Surgiu no fim do século XIX, especificamente em 1882, com a publicação de Fanfarras, de Teófilo Dias, e durou até a segunda década do século XX. Entre as características particulares do movimento no Brasil, destacam-se:

  • Desligamento da realidade local: se o Brasil passava por diversos problemas de ordem social, política e econômica, os parnasianos simplesmente ignoravam essa realidade na poesia. Dessa forma, o discurso patriótico ufanista e a Antiguidade Clássica substituíam a realidade brasileira palatável.
  • Durou quase quarenta anos: ao contrário de outros movimentos que durante relativamente poucos anos, o Parnasianismo conseguiu se sustentar durante quase quatro décadas, sendo confrontado apenas pelo Modernismo.
  • Criação literária como esforço, não inspiração: os parnasianos salientavam que a produção poética era, essencialmente, artesanal. Assim, elevam o autor como alguém que não apenas busca inspiração para escrever algo, como os românticos, mas trabalha intensamente para elaborar sua obra.

O movimento foi formado, primordialmente, pelo trio Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Leia um pouco mais sobre cada um nos tópicos abaixo.

Autores do Parnasianismo
Olavo Bilac à esquerda; Alberto de Oliveira ao centro; e Raimundo Correia à direita. Imagens em domínio público.

Olavo Bilac (1865 – 1918)

Bilac foi o principal escritor do período no Brasil. Nasceu no Rio de Janeiro, veio de uma família de classe média e trabalhou em diversas áreas durante sua vida. Era considerado um grande conferencista e se tornou o líder do movimento parnasiano brasileiro.

Além disso, foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Sua obra debruça-se sobre a antiguidade greco-romana, a temática da perfeição, o lirismo amoroso, a reflexão existencial e o nacionalismo ufanista.

Principais obras: Poesia (reunião de Panóplias, Via-Láctea e Sarças de fogo, 1888); e Tarde (1918).

Alberto de Oliveira (1857 – 1937)

Nasceu no Rio de Janeiro e foi formado em Farmácia. Atuou em funções públicas, além de ser professor de literatura brasileira. Foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Entre os parnasianos, foi o mais ligado aos padrões rígidos da escola literária.

Principais obras: Meridionais (1884); Versos e rimas (1895); e O livro de Ema (1900).

Raimundo Correia (1859 – 1911)

Nasceu no Maranhão e cursou a faculdade de Direito. Após trabalhar como magistrado e secretário de finanças, envolve-se com a diplomacia e atua em Lisboa. Da mesma forma como seus parceiros parnasianos, Correia dominava a elaboração dos versos. Em suas obras, há um pessimismo filosofante acentuado. Estudiosos, porém, salientam a falta de originalidade do autor, inundado de influências estrangeiras.

Principais obras: Sinfonias (1883); e Aleluias (1891).

Além da tríade citada acima, Vicente de Carvalho (1866 – 1924) e Francisca Júlia (1874 – 1920) são exemplos de poetas que escreveram dentro dos preceitos da estética parnasiana no Brasil.

Aprenda mais em 3 vídeos

O Parnasianismo foi uma escola literária que se desenvolveu ao mesmo tempo que o Realismo. Além disso, não houve prosa parnasiana, apenas poesia. Nos vídeos a seguir, você poderá revisar, sedimentar seu conhecimento e ficar preparado para responder questões sobre o assunto.

Quando o movimento parnasiano se desenvolveu?

Proclamação da República e abolição da escravatura no Brasil; Belle Époque na Europa. O Parnasianismo ocorreu em meio a um furor cultural no continente europeu e grandes mudanças sociais e políticas em terras brasileiras. Nesse vídeo, você poderá acompanhar um pouco sobre o amplo contexto histórico no qual surgiu a escola literária representada por Olavo Bilac.

O que foi o Parnasianismo?

Quais são as principais características do Parnasianismo? O movimento desenvolveu-se apenas na poesia? Essas e outras perguntas são respondidas nesse vídeo para você aprender ainda mais sobre o assunto.

E no Brasil?

O Parnasianismo foi um grande movimento no Brasil: desenvolveu-se durante cerca de 40 anos. Durou mais que o Realismo e o Simbolismo, por exemplo. As principais características de cada autor do movimento no Brasil são abordados nesse vídeo.

Portanto, o Parnasianismo foi um movimento que focou na estética e na objetividade em termos de conteúdo. Nasceu na Europa, mas foi no Brasil que houve os maiores representantes, além de durar mais que as escolas literárias que se desenvolveram paralelamente.

Referências

Curso de literatura brasileira – Sergius Gonzaga;
História concisa da literatura brasileira – Alfredo Bosi;
Literatura – Fábio D’Ávila. e Danton Pedro dos Santos.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [UF/ES]

O ideal parnasiano do culto da “arte pela arte” significa que o objetivo do poeta é criar obras que expressem:

a) um conteúdo social, de interesse universal.
b) a noção do progresso da sua época.
c) uma mensagem educativa, de natureza moral.
d) uma lição de cunho religioso.
e) o belo, criado pelo perfeito uso dos recursos estilísticos.

Correta: e.
Justificativa: O Parnasianismo focava-se, primordialmente, no fazer estético, na utilização dos recursos literários para criar o belo na poesia. Essa era a verdade dos parnasianos.

2. [FCC/SP]

Os poetas representativos da escola parnasiana defendiam:

a) engajamento político nas causas históricas da época, fazendo delas matéria para uma poesia inflamada e eloquente.
b) a ideia de que a livre inspiração é a garantia maior de que o poema corresponda à expressão direta das emoções mais profundas.
c) a simplicidade da arte primitiva, razão pela qual buscavam os temas bucólicos e uma linguagem próxima da fala rústica dos camponeses.
d) abandono das formas fixas, criando, portanto, as condições para o posterior surgimento dos poemas em verso livre do Modernismo.
e) a disciplina do artista e o trabalho artesanal com a linguagem, de modo a resultar uma obra adequada aos padrões de uma estética clássica.

Correta: e.
Justificativa: O fazer poético para os parnasianos não era relacionado à inspiração, como no Romantismo, mas na elaboração de uma obra por meio do esforço e do trabalho de modelagem contínuo.

3. [CENTEC/BA]

Todos os itens apresentam características do Parnasianismo, exceto:

a) prevalência de formas fixas de composição poética.
b) anseio de liberdade criadora.
c) preocupação com a perfeição formal.
d) gosto pela precisão descritiva.
e) ideal de objetividade no tratamento dos temas.

Correta: b.
Justificativa: Não existia a liberdade criadora no sentido de falar sobre todos os assuntos, pois o poeta deveria ser neutro em relação à concretude do mundo, principalmente no que tangia aos aspectos sociais. Nesse sentido, até mesmo o eu era aglutinado pela rigidez estética e objetividade nas produções poéticas dessa escola literária.

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