Pré-Modernismo

Nas duas primeiras décadas do século XX, a literatura brasileira passou por um processo de transição chamado Pré-Modernismo, que possuiu diversos autores e englobou uma vasta gama de características.

O Pré-Modernismo foi um período de transição entre a literatura do século XIX e o Modernismo. Seus vários autores eram de diversas vertentes ideológicas e literárias, o que culminou em uma ampla variedade de obras. Neste texto, você aprenderá sobre esses escritores, suas características e o porquê do Pré-Modernismo não ser uma escola literária.

Contexto histórico e conceito

O Pré-Modernismo (1900 – 1922) foi marcado, principalmente, pela mistura de tendências, visões e estilos. Como consequência, há uma dificuldade em apresentá-lo como uma escola literária em si, de forma didática. A produção literária nas duas primeiras décadas do século XX no Brasil foi marcada pelos antecedentes culturais do século XIX e um desejo de renovação que culminaria na Semana de Arte Moderna de 1922. Nesse período, quatro grupos distintos de autores estavam produzindo: os parnasianos; os simbolistas; os realistas; e os intérpretes do Brasil. Em maior ou menor grau, os escritores do Pré-Modernismo marcaram em suas obras as contradições da época em que viveram.

O contexto de produção desses autores foi marcado pela Belle Époque, pelo início do neocolonialismo e pela Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918). Além disso, diversas vanguardas europeias consolidavam-se, entre elas, o Futurismo, o Cubismo, o Dadaísmo e o Surrealismo. Já no Brasil, a política do café com leite, a ascensão de São Paulo como centro econômico do país e o surto urbanístico marcaram a época. Entretanto, esse processo modernizante nacional não escondia a insatisfação popular e a crescente desigualdade. É nesse período que ocorrem a Guerra dos Canudos (1896 – 1897), a Revolta da Vacina (1904) e a Revolta da Chibata (1910), por exemplo.

Características do Pré-Modernismo

Como um amplo período de transição na literatura brasileira, o Pré-Modernismo possuiu características bem distintas. Entre elas, podem-se citar:

  • Mescla de estilos: como já citado, o Pré-Modernismo foi marcado por escritores realistas, parnasianos, simbolistas e intérpretes do Brasil. Dessa forma, a variedade de estilos é visível e demonstra o processo de transição que o período representou.
  • Denúncia social: o Brasil passava por um processo modernizante, mas a desigualdade e a insatisfação populares inflavam-se. Nesse contexto, as diferenças sociais e o preconceito eram temas recorrentes na literatura da época, em que os autores denunciavam as mazelas sociais.
  • O caráter regional: o principal representante foi Euclides da Cunha, mas outros autores preocupavam-se em deixar explicitamente marcados os locais em que as histórias ocorriam e se utilizavam de seus traços físicos e humanos para elaborar as narrativas.
  • Embate entre a ficção e a realidade: devido aos embates políticos, econômicos e sociais do Brasil, há uma busca em examiná-los a partir da literatura. Por isso, diversas obras conversam diretamente com seu contexto real de produção.

Apesar de haver algumas características que se sobressaem no Pré-Modernismo, o que fica mais agradável é a diferença entre os vários autores que compuseram esse período literário. A seguir, você poderá conferi-los e verificar suas características primordiais.

Principais autores

O Pré-Modernismo no Brasil foi um período rico em produção literária, acompanhado de um contexto social e político que permitia obras críticas e que conseguiam descrever a realidade brasileira da época. Perceba na listagem abaixo como havia diferenças de cunho estilístico e temático entre os principais autores abordados e como isso não permite uma padronização consistente do Pré-Modernismo como escola literária.

Autores do Pré-Modernismo
Euclides da Cunha à esquerda; Graça Aranha ao centro; e Lima Barreto à direita. Imagens em domínio público.

Euclides da Cunha (1866 – 1909)

O autor fluminense foi o principal integrante dos intérpretes do Brasil. Esse termo é utilizado, pois as obras fundiam o contexto de produção com a estrutura ficcional do romance para debater os problemas nacionais. Com uma linguagem áspera, mas ainda sim brilhante, em Os sertões há a tentativa de compreender o que ocorreu na Guerra dos Canudos, por exemplo. Respeitado como autor e jornalista, Euclides da Cunha entrou na Academia Brasileira de Letras e foi convidado a integrar o quadro do Itamarati.

Obras de destaque: Os sertões (1902); Contrastes e confrontos (1907); À margem da história (1909).

Graça Aranha (1868 – 1931)

Maranhense, Graça Aranha foi o único intelectual do Pré-Modernismo a apoiar a Semana de Arte Moderna em 1922, não necessariamente pelo seu conhecimento sobre a arte moderna, mas pelo entusiasmo. Trabalhou como magistrado e fez várias missões diplomáticas importantes. Conhecido por sua linguagem retórica, ingressou na Academia Brasileira de Letras, mas rompeu sua filiação em 1924. Em Canaã, um romance de tese, discorre sobre o atraso social brasileiro. Se Euclides da Cunha demonstrava pessimismo em relação ao futuro do país, Graça Aranha era otimista.

Obras de destaque: Canaã (1902); A estética da vida (1921).

Lima Barreto (1881 – 1922)

Lima Barreto, em meio aos letrados tradicionais, sofreu revezes para produzir uma literatura desvinculada dos padrões dominantes. Por meio da denúncia social e da caricatura, aliada a uma simplicidade de estilo, demonstrava certa ternura pelas classes menos abastadas da sociedade brasileira. Seu principal romance, Triste fim de Policarpo Quaresma, possui um realismo completo, ao equilibrar o cômico e o trágico.

Obras de destaque: Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909); Triste fim de Policarpo Quaresma (1911); Numa e a Ninfa (1915); Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Os Bruzundangas (1923); Clara dos Anjos (1924); Cemitério dos vivos (1957, edição póstuma).

Autores do Pré-Modernismo
Monteiro Lobato à esquerda; Simões Lopes Neto ao centro; e Augusto dos Anjos à direita. Imagens em domínio público.

Monteiro Lobato (1882 – 1948)

O autor paulista apostou em uma temática renovadora, o mundo rural de São Paulo. Mesmo possuindo uma linguagem conservadora, fez amizades com os modernistas radicais, principalmente Oswald de Andrade. Ficou conhecido, primordialmente, pela literatura infanto-juvenil, que resguarda grande parte de sua produção. Monteiro Lobato modernizou a literatura voltada às crianças e aos jovens no Brasil, sabia equilibrar a ficção com a realidade e utilizou de elementos brasileiros para constituir sua escrita. Mesmo com altos e baixos em sua carreira, dono de momentos polêmicos, o escritor é um dos grandes nomes da literatura brasileira.

Obras de destaque: Urupês (1918, contos); Cidades mortas (1919, contos); Negrinha (1920, contos).

Obras de destaque na literatura infanto-juvenil: Reinações de Narizinho (1931); Viagem ao céu (1932); As caçadas de Pedrinho (1933); Geografia de dona Benta (1935); Histórias de tia Nastácia (1937).

Simões Lopes Neto (1865 – 1916)

Pelotense e descendente de uma família da elite rural do Rio Grande do Sul, Simões Lopes Neto foi um grande regionalista. Sua escrita foca-se no universo gauchesco e na visão sobre o gaúcho, com uma linguagem regional (manteve a cor local sem romper com a norma urbana culta) e uma expressão artística criada a partir dela. Dominou a técnica de produção de contos e abraçava o drama humano em suas narrativas.

Obras de destaque: Cancioneiro guasca (1910); Contos gauchescos (1912); Lendas do Sul (1913); Casos do Romualdo (1952, edição póstuma).

Augusto dos Anjos (1884 – 1914)

Augusto dos Anjos nasceu na Paraíba e publicou apenas uma obra. O autor consiste em um ponto fora da curva na poesia brasileira, pois apresenta um tom único em sua produção. O gosto pelo soneto, pela morte, a linguagem cientificista, o mórbido, o grotesco e a angústia cósmica são as principais características do autor. Entre os pré-modernistas, talvez seja o que mais mereça essa classificação devido à mistura de estilos e à sua singularidade linguística.

Obras de destaque: Eu (1912).

Outros autores

Além dos autores citados acima, podem-se mencionar:

  • Coelho Neto (1864 – 1934): O turbilhão (1906); Rei negro (1914).
  • Alcides Maya (1878 – 1944): Ruínas Vivas (1910); Alma bárbara (1922).
  • Valdomiro Silveira (1909 – 1941): Os caboclos (1920).
  • Afonso Arinos (1868 – 1916): Pelo sertão (1898).

Como se pode notar, o Pré-Modernismo brasileiro ainda se caracterizou como um período longo, cerca de 20 anos, e diversos autores podem ser encaixados nesse contexto. De temáticas e estilos distintos, escritores como Monteiro Lobato, Simões Lopes Neto e Euclides da Cunha sedimentaram terreno para a prosa regionalista da segunda geração modernista.

Pré-Modernismo em Portugal

Assim como no Brasil, o Pré-Modernismo não é considerado uma escola literária em Portugal. No início do século XX, a estrutura governamental portuguesa era a monarquia e o país vivia um atraso econômico e político em relação ao restante da Europa. Nesse contexto, foi proclamada a República Portuguesa em 1910, acompanhada de outros eventos como a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa.

Em termos literários, o Pré-Modernismo português (1910 – 1915) constituiu-se, essencialmente, de um grande movimento: a Renascença Portuguesa. O forte apelo nacionalista, principalmente relacionado à necessidade de reconstruir Portugal como a grande nação que fora no passado, era a vertente ideológica dos autores. Nesse período, havia o saudosismo relacionado principalmente ao misticismo atrelado à saudade e a uma linguagem mais conservadora. Os principais autores foram Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra.

Saiba mais sobre o Pré-Modernismo em 3 vídeos

Apesar de ser considerado um período de transição entre o Simbolismo e o Modernismo, o Pré-Modernismo possui diversas características e a maleabilidade de estilos e temáticas demonstra sua complexidade. Nos vídeos abaixo, você poderá sedimentar o seu conhecimento sobre o conteúdo, além de conhecer um pouco mais sobre os autores que compuseram o movimento.

O Pré-Modernismo no Brasil

Vários autores, vários estilos e várias temáticas moldaram o Pré-Modernismo brasileiro. Nesse vídeo, você verá um amplo contexto e um caldeirão de informações para aprender mais e estar preparado para entrar em contato com as obras produzidas.

Qual é o contexto do Pré-Modernismo no Brasil?

Para compreender melhor sobre o Pré-Modernismo no Brasil, é importante relembrar o momento histórico que os autores estavam inseridos. Para isso, assista ao vídeo acima.

E o Pré-Modernismo em Portugal?

Se o Pré-Modernismo no Brasil durou cerca de vinte anos, em Portugal o movimento foi breve, cerca de cinco anos. Assista ao vídeo para compreender como a Renascença Portuguesa influenciou os autores do período.

Portanto, o Pré-Modernismo foi rico em temáticas, autores e estilos literários. Essa riqueza, porém, não permite uma classificação didática em termos de uma escola literária. Lembre-se de revisar os autores individualmente e conhecer um pouco mais sobre o contexto histórico, pois a partir disso você estará mais preparado para responder questões sobre o conteúdo e ler as obras do período.

Referências

Curso de literatura brasileira – Sergius Gonzaga;
História concisa da literatura brasileira – Alfredo Bosi;
Literatura – Fábio D’Ávila. E Danton Pedro dos Santos.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [UFRGS/RS]

Uma atitude comum caracteriza a postura literária de autores pré-modernistas, a exemplo de Lima Barreto, Graça Aranha, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha. Pode ela ser definida como:

a) a necessidade de superar, em termos de um programa definido, as estéticas românticas e realistas.
b) pretensão de dar um caráter definitivamente brasileiro à nossa literatura, que julgavam por demais europeizada.
c) uma preocupação com o estudo e com a observação da realidade brasileira.
d) a necessidade de fazer crítica social, já que o Realismo havia sido ineficaz nessa matéria.
e) aproveitamento estético do que havia de melhor na herança literária brasileira, desde suas primeiras manifestações.

Correta: c.
Justificativa: Os pré-modernistas possuíam um olhar atento às mazelas sociais da época. Um exemplo é o romance Os sertões, de Euclides da Cunha.

2. [UEL/PR]

Nas duas primeiras décadas de nosso século, as obras de Euclides da Cunha e de Lima Barreto, tão diferentes entre si, têm como elemento comum:

a) a intenção de retratar o Brasil de modo otimista e idealizante.
b) a adoção da linguagem coloquial das camadas populares do sertão.
c) a expressão de aspectos até então negligenciados da realidade brasileira.
d) a prática de um experimentalismo linguístico radical.
e) o estilo conservador do antigo regionalismo romântico.

Correta: c.
Justificativa: Euclides da Cunha e Lima Barreto tinham a preocupação de ver o contexto brasileiro da época e o analisar. Obras como Os sertões e Triste fim de Policarpo Quaresma são exemplos disso.

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