Lima Barreto

Escritor carioca criticava os vícios da recém instaurada República Brasileira. Sua principal obra é "Triste Fim de Policarpo Quaresma".

Considerado um dos percursores da literatura negra e afro-brasileira, Lima Barreto foi um autor do Pré-Modernismo e escreveu romances, contos e crônicas em que criticava a sociedade brasileira. Neste texto, você conhecerá mais sobre o autor e a sua obra.

Biografia

Lima Barreto
Lima Barreto, na época da 1ª edição do Recordações do Escrivão Isaias Caminha (1909). Imagem em domínio público.

Afonso Henriques de Lima Barreto, filho do tipógrafo João Henriques de Lima Barreto e da professora Amélia Augusta, nasceu no Rio de Janeiro no dia 13 de maio de 1881. O autor era neto de Geraldina Leocádia da Conceição, escrava liberta e descendente de africanos escravizados. De origem afrodescendente e pobre, Lima Barreto teve que enfrentar o preconceito e o racismo da sociedade brasileira do século XX.

Aos sete anos de idade, o escritor enfrentou o falecimento da mãe por conta de uma tuberculose. João Henriques de Lima Barreto, pai do autor, trabalhou como operário gráfico em jornais renomados, como o Jornal do Comércio, para poder sustentar os três filhos pequenos. Contou também com a ajuda do benfeitor Visconde de Ouro Preto, padrinho de Lima Barreto, o que permitiu que o autor completasse o ensino ginasial e ingressasse na Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1897.

A família do escritor enfrentou grandes dificuldades financeiras, após a morte da mãe e os problemas mentais que o pai desenvolveu. Tais dificuldades fizeram com que, no terceiro ano, o autor abandonasse a Escola Politécnica e o futuro como engenheiro e passasse a trabalhar para sustentar a família.

No ano de 1904, foi aprovado no concurso para o cargo na Secretaria da Guerra, ano em que também inicia a primeira versão do romance Clara dos Anjos, publicado somente em 1948. Em 1905, Lima Barreto passa a se dedicar ao jornalismo, publicando com frequência em jornais, como o Correio da Manhã. Ocupa-se também com a literatura e no mesmo ano escreve Recordações do escrivão Isaías Caminha.

Durante esse período, Lima Barreto dedicou-se a leitura dos clássicos mundiais, especificamente as obras realistas e romances russos, o que influenciou na escrita de livros como Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, publicado em 1919 e Triste fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1911. O escritor enfrentou problemas graves como alcoolismo durante a vida, o que resultou em sua internação no hospital psiquiátrico em 1917.

No ano seguinte, foi diagnosticado com epilepsia tóxica o que o afastou de seu trabalho. Ainda assim, candidatou-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras por três vezes, mas foi recusado e recebeu menção honrosa na categoria de melhor livro do ano pelo romance Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. No dia 1 de novembro de 1922, faleceu aos 41 anos por conta de um colapso cardíaco.

Características

Toda a obra de Lima Barreto é diretamente influenciada pelos movimentos que floresciam no Brasil no começo do século XX. Tais movimentos marcaram a fase de transição entre a antiga ordem literária estabelecida e a ruptura com os moldes europeus, além da busca de uma literatura plenamente brasileira. Classificado como Pré-Modernista, o autor desenvolveu uma escrita fora dos padrões instituídos e seguidos fielmente por grandes escritores do período.

Lima Barreto apresenta uma obra que contempla questões sociais, como o racismo; tendo nascido sete anos antes da abolição da escravidão no país, conviveu em uma sociedade onde predominava a desigualdade. Transformou a realidade dos subúrbios em pano de fundo para suas produções; deu destaque às camadas populares a que também pertencia e denunciou os problemas da república, os privilégios das famílias mais abastadas e a corrupção e hipocrisia da época. Tudo isso lançando mão de uma escrita até então inovadora que fugia das regras gramaticais, mas que corroboravam com o espírito subversivo do autor.

Lima Barreto e o Pré-Modernismo

O momento sócio-histórico-cultural a que se nomeia Pré-Modernismo compreende os anos de 1902 a 1922, em que se estabeleceu o Movimento Modernista. Esse período diz respeito a transição entre Simbolismo e Modernismo e coexistiu junto a outros movimentos literários, como o Parnasianismo. O Brasil vivia a instauração da República, o que resultou em diversos movimentos sociais voltados a busca de justiça e igualdade.

O contexto é assinalado pelas críticas sociais e isso refletiu nas produções literárias marcadas pelo rompimento formal e estético, valorizando a regionalidade e nacionalidade, agora não mais idealizada como antes. O movimento contou com escritores como Euclides da Cunha, Graça Aranha, Monteiro Lobato, além do próprio Lima Barreto.

Principais obras

Triste Fim de Policarpo Quaresma foi a principal obra de Lima Barreto, mas o autor carioca publicou diversas outros livros em vida.

Triste Fim de Policarpo Quaresma

O romance é ambientado no Rio de Janeiro, no início do século XIX e narra a história de Policarpo Quaresma, funcionário público e patriota idealista, conhecido pelos vizinhos pelo seu patriotismo exacerbado. Propõe ao Ministro que o tupi-guarani seja reconhecido como língua oficial do Brasil e defende que os índios seriam os verdadeiros brasileiros.

Passa um tempo internado em um hospital psiquiátrico, por ser tido como louco. Depois, se afasta da sociedade para morar no campo, mas não demora muito até que se envolva com política e acaba por ser preso e condenado ao fuzilamento, acusado de traição.

Classificada como a grande obra de Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma teve sua primeira publicação em três partes no ano de 1911 no Jornal Comércio, sendo publicada integralmente em 1915. É uma importante obra do movimento Pré-Modernista e considerada um clássico da Literatura Brasileira.

Outras obras

  • Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909);
  • O homem que sabia javanês (1911);
  • Numa e a Ninfa (1915);
  • Triste fim de Policarpo Quaresma (1915);
  • Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919);
  • Cemitério dos Vivos (1919);
  • Os Bruzundangas (1912);
  • Clara dos Anjos (1948).

Como você pode notar, Lima Barreto escreveu muito e sua linha temática, sobre os problemas sociais do Brasil após a Proclamação da República, tornam sua obra importantíssima para entender o passado brasileiro.

5 frases de Lima Barreto

Apesar de Triste Fim de Policarpo Quaresma ser a principal obra de Lima Barreto, o autor teve uma carreira literária prolífera. Abaixo, você pode conferir alguns trechos das obras do escritor carioca.

  1. “Não se sabia onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele algum regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro”. (Triste fim de Policarpo Quaresma)
  2. “Quem tem inimigos deve ter também bons amigos”. (Triste fim de Policarpo Quaresma)
  3. “(…) Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa”. (Diários íntimos)
  4. “De onde em onde, ela punha os olhos sobre mim, denotando uma grande vontade de me adivinhar, e eu fugia deles com medo de me trair”. (Cemitério dos vivos)
  5. “O Brasil não tem povo, tem público”. (Lima Barreto)

Vamos aprender mais sobre Lima Barreto?

Você leu um pouco sobre quem foi Lima Barreto, o que fez de sua literatura algo especial e quais foram suas principais obras. Agora é momento de revisar sobre este autor, considerado um dos maiores da Literatura Brasileira.

O que foi o Pré-Modernismo?

O Pré-Modernismo contempla diversos autores que, juntos, não possuem uma linha que permita sua classificação em nenhuma escola literária da época. Não são parnasianos, simbolistas ou modernistas, mas possuem diversas características comuns entre eles. Lima Barreto é um desses autores.

O cronista de uma jovem República

Lilia Schwarcz nos situa sobre as motivações do autor. Neste vídeo, vemos Lima a vivência de Barreto durante a consolidação da república no Brasil. Escrevia sobre seus vícios e os grandes problemas sociais que abalavam toda a estrutura da sociedade da época. Era crítico e sabia que, mesmo após a Proclamação da República, o Brasil tinha muito a evoluir.

Triste Fim de Policarpo Quaresma

A principal obra de Lima Barreto foi Triste Fim de Policarpo Quaresma. Além de requisitada por vários vestibulares do Brasil, a obra demonstra o senso crítico apurado do autor e é uma das formas de revisitar a sociedade brasileira do início do século XX.

Lima Barreto, portanto, deixou vasta obra composta por romances, contos, crônicas, sátiras e diversos periódicos. O autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma ficou conhecido pelas críticas sociais e denúncia a desigualdade racial em seus escritos. Conheça também o Simbolismo e Parnasianismo no Brasil, escolas literárias que coexistiram e foram contemporânea ao escritor, para entender o espírito de época.

Referências

Curso de literatura brasileira – Sergius Gonzaga;
História concisa da literatura brasileira – Alfredo Bosi;
Lima Barreto – Triste visionário – Lilia Schwarcz;
Literatura – Fábio D’Ávila. e Danton Pedro dos Santos.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Como referenciar este conteúdo

Ferrari, Leonardo. Lima Barreto. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/lima-barreto. Acesso em: 04 de August de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [UFRRJ]

Fragmento de Triste fim de Policarpo Quaresma “Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da Pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. (…) o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro de Brasil. (…) Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de tudo brasileiro.”
(BARRETO, Lima. “Triste fim de Policarpo Quaresma”. São Paulo: Scipione, 1997)

Este fragmento de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” ilustra uma das características mais marcantes do Pré-Modernismo que é o:

a) Desejo de compreender a complexa realidade nacional.
b) Nacionalismo ufanista e exagerado, herdado do Romantismo.
c) Resgate de padrões estéticos e metafísicos do Simbolismo.
d) Nacionalismo utópico e exagerado, herdado do Parnasianismo.
e) Subjetivismo poético, tão bem representado pelo protagonista.

Resposta: a.

Justificativa: Um dos principais tópicos do Pré-Modernismo é o regionalismo e o nacionalismo, o que também é tratado no romance de Lima Barreto.

2. [UFRGS]

Lima Barreto é um autor que se caracteriza por criar tipos:

a) rústicos, ligados ao campo.
b) aristocratas, ligados ao campo.
c) aristocratas, ligados à cidade.
d) burgueses, ligados à cidade.
e) populares, ligados ao subúrbio.

Resposta: e.

Justificativa: Lima Barreto ficou conhecido justamente por dar luz às classes mais baixas e colocá-las como protagonistas em suas histórias.

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