Etnocentrismo

O etnocentrismo é visto como a dificuldade de pensar a diferença. No plano afetivo, é percebido por meio dos sentimentos de hostilidade.

Em linhas gerais, pode-se compreender o etnocentrismo como um modo de ver e se relacionar com o “outro”, com o diferente. Uma postura que interpreta o mundo e a realidade tomando como ponto de partida a ideia de que a cultura e o lugar do observador é superior à realidade cultural observada.

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O que é o etnocentrismo

Etnocentrismo é uma palavra formada por dois termos, o prefixo etno, que designa etnia, e centrismo, que advém da posição de se colocar no centro. Sendo assim, o etnocentrismo é um modo de ver e pensar o mundo e as diferenças, sejam elas culturais, religiosas ou étnicas, partindo da posição de que o lugar social e cultural de quem observa outras realidades culturais são qualitativamente superiores.

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O ponto de partida do etnocentrismo é inferiorizar povos, comportamentos, hábitos, crenças e formas de pensar simplesmente por serem considerados diferentes e causarem estranhamento ao observador. O sujeito etnocêntrico julga a sua realidade cultural correta e central. Tal postura causa julgamentos, preconceitos e a noção de que aquilo que difere necessita ser dominado, reparado e moldado à imagem da cultura considerada central.

Origem do etnocentrismo: entre a noção de cultura e civilização

O etnocentrismo é uma das raízes das posturas preconceituosas e intolerantes na sociedade contemporânea. Para analisar o surgimento dessa forma de enxergar o mundo e o “diferente”, primeiro, é preciso entender dois termos inter-relacionados, são eles: cultura e civilização.

Geralmente, a cultura é entendida como sinônimo de erudição, ou seja, uma forma de cultivar o espírito e o imaginário do indivíduo, por meio da arte, educação e outras manifestações culturais. Entretanto, no século XIX, o antropólogo britânico Edward Tylor definiu a cultura como a totalidade de conhecimentos, crenças e expressões emocionais, somadas aos hábitos, comportamentos e habilidades apreendidas no meio social.

Segundo o sociólogo britânico Anthony Guiddens, há na cultura uma relação de interdependência de aspectos intangíveis (ideias, crenças e valores) e aspectos tangíveis (objetos produzidos pelo ser humano, como o trabalho, técnicas, costumes etc.). É na relação com o seu meio que, socialmente e historicamente, os indivíduos definem e incorporam vivências. Mas qual a relação entre o etnocentrismo e a ideia de civilização?

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Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, a ideia de sociedade “civilizada” surgiu com a determinação de regras e comportamentos que os indivíduos devem seguir em prol do “bem-estar” social. Um exemplo disso é o imperialismo, no século XIX e início do XX. Os europeus se denominavam “civilizados” em detrimento de outros povos.

O etnocentrismo, portanto, surge e se perpetua a partir de posturas como essas anteriormente citadas. A naturalização de um modo de vida, percebido como único e correto, é tomada como padrão de análise na comparação com outras culturas.

Como ocorre o etnocentrismo

O etnocentrismo ocorre de diversas maneiras, seja por meio da intolerância, rejeitando fortemente manifestações culturais ou religiosas de um determinado grupo, seja pela aversão àqueles que são vistos como estrangeiros. Independentemente das situações, é certo que todas elas têm como base os indivíduos que, partindo das suas concepções, julgam o outro. A seguir, confira alguns exemplos.

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Exemplos de etnocentrismo na sociedade

O etnocentrismo não se limita a uma mera visão de mundo, ele também orienta ações e práticas responsáveis por muitas formas de preconceito e intolerância. Entre elas, estão:

Intolerância religiosa

Geralmente, a intolerância religiosa ocorre quando uma religião é considerada majoritária e todas as outras minoritárias. Assim, ela é vista como superior e digna de ser difundida, já as outras são percebidas como hostis e inferiores. O etnocentrismo está presente nessa prática, pois o diferente não é aceito, muitas vezes, sofrendo retalhamento social.

Intolerância cultural

A intolerância cultural ocorre quando há o julgamento ou a inferiorização de valores, comportamentos, crenças, ideais, técnicas e hábitos de uma determinada cultura. Essa postura é, em suma, a negação da diversidade cultural existente nas diferentes sociedades.

Xenofobia

Em linhas gerais, a xenofobia é a aversão ao estrangeiro, inferiorizado em seus hábitos, costumes e crenças. Aqueles que habitam o lugar de referência, portanto, central, julgam-se superiores e melhores a ponto de agirem com hostilidade e violência, menosprezando o contexto social e cultural exterior. A xenofobia é fruto de uma concepção etnocentrista.

Racismo

O racismo é baseado em um ideal etnocêntrico, pois entende a superioridade ou qualidade de um sujeito a partir da sua “raça” — termo já em desuso na Antropologia e Sociologia. A concepção de que existem “raças” superiores fez com que muitos grupos e sociedades criassem hierarquias entre culturas, países e povos.

Perceba o quanto uma visão de mundo etnocentrista é perigosa e agride a diversidade das vivências humanas. Essa prática também é comum no Brasil. A seguir, entenda melhor.

Etnocentrismo no Brasil

No Brasil, embora ainda seja pouco abordado, o etnocentrismo está, muitas vezes, naturalizado no cotidiano. Abaixo confira alguns exemplos recorrentes:

  • Etnocentrismo cultural: no Brasil, é possível notar o etnocentrismo cultural na inferiorização das religiões que não possuem uma vertente atrelada ao cristianismo. Além disso, há uma supervalorização da cultura europeia, historicamente herdada, e uma desvalorização das culturas originárias, por exemplo, os grupos indígenas.
  • Etnocentrismo regional: nesse caso, os habitantes de determinadas regiões são inferiorizados em comparação às regiões centrais. No Brasil, o Nordeste e o Norte, muitas vezes, sofrem preconceitos, estereotipadas como “atrasadas”, um povo preguiçoso e pobre. São muitos os casos em que pessoas oriundas dessas regiões relatam situações preconceituosas realizadas pelos indivíduos dos estados das regiões Sul e Sudeste.
  • Etnocentrismo linguístico: outra manifestação de etnocentrismo está relacionada a uma questão linguística. Em linhas gerais, essa situação ocorre quando um grupo de indivíduos aponta uma forma de fala como errada ou feia, por exemplo, o dialeto mineiro e a sonoridade do dialeto do interior do Paraná, considerado caipira ( o “r” puxado).

É interessante notar que todos os exemplos refletem, de alguma maneira, uma noção etnocentrista. Vale ressaltar que essas formas de preconceitos estão enraizadas na sociedade, por isso, é dever de todo ser humano repensar suas atitudes e buscar aprender mais sobre o assunto.

Vídeos sobre as raízes do Etnocentrismo

Abaixo, confira alguns vídeos complementares que te ajudarão a entender melhor o significado e as manifestações do etnocentrismo.

Existe uma cultura superior?

Nesse vídeo, o pessoal do Guia Sociológico discute o que é etnocentrismo e analisa as raízes dessa concepção de mundo e sociedade.

O etnocentrismo e o estranhamento

O canal “Sociologia Animada” aborda as características do etnocentrismo, explicando como ele exclui e menospreza a diversidade. Além de muito didático, o vídeo animado é superinteressante!

O significado do etnocentrismo

Você consegue imaginar as implicações práticas do etnocentrismo? É isso que a professora do canal “Historizando” explica de uma forma muito simples e didática.

O assunto é complexo e exige fôlego para um entendimento total, por isso, a fim de compreender melhor essa temática, conheça os aspectos que caracterizam o preconceito social.

Referências

Identidade & etnia (1986) — Carlos Brandão
Gramática das civilizações (1989) — Fernand Braudel
Cultura: um conceito antropológico (1988) — Roque Laraia
A sociedade em Rede (1999) — Manuel Castells
Sobre História (2013) —Eric Hobsbawm

Thiago Abercio
Por Thiago Abercio

Historiador e mentor educacional formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor de História e de Repertório cultural e Ideias, redator e analista de conteúdo. Atualmente realiza pesquisas na área de História da arte e das mentalidades.

Como referenciar este conteúdo

Abercio, Thiago. Etnocentrismo. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/historia/etnocentrismo. Acesso em: 22 de July de 2024.

Exercícios resolvidos

1. [UNESPAR]

Diz uma anedota que o Sir James Frazer, importante antropólogo da época, ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem, respondeu muito simples e sinceramente: Deus me livre! De fato, a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”, qualquer “trabalho de campo”, pois que tudo já estava pronto.
ROCHA, Everaldo. O que é Etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense. 2000, p. 32-33.

De acordo com o texto é correto afirmar que:

A) O etnocentrismo não considera o “outro”, independentemente de sua condição;

B) O etnocentrismo considera o “outro”, bem como o valoriza a partir de sua localização cultural;

C) O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria;

D) O etnocentrismo estava em achar que o “outro” não era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria;

E) Nenhuma das alternativas.

Alternativa correta: C

Segundo o texto, o etnocentrismo estava tão naturalizado na prática teórica da antropologia de então, que o fazer científico dispensava todo contato com povos diferentes.

2. [UFPR]

Sobre a questão do etnocentrismo, Roque de Barros Laraia escreve que “o fato de o indivíduo ver o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida mais correto e o mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. O etnocentrismo, de fato, é um fenômeno universal. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade, ou mesmo sua única expressão. […] A dicotomia ‘nós e os outros’ expressa em níveis diferentes essa tendência. Dentro de uma mesma sociedade, a divisão ocorre sob a mesma forma de parentes e não parentes. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. […] Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais”.

(LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 73-74.)

Em resumo, Laraia tenta nos mostrar que:

A) o etnocentrismo é um conceito amplamente difundido nas ciências humanas, mas incapaz de explicar de forma pormenorizada a construção das identidades nacionais, das práticas culturais e as relações formadas pelo “estranhamento” do contato entre diferentes grupos sociais. Afinal, quem dispõe dos instrumentos de análise pode escolher, conforme seus critérios próprios, como catalogar o outro.

B) a cultura tem um papel fundamental na elaboração de visões de mundo, e que o problema maior em considerar o etnocentrismo está no fato de que esse conceito não possui uma perspectiva cultural, mas apenas política, muito embora o autor não deixe claro essa contradição, já que ele próprio é etnocêntrico.

C) um dos pontos centrais que define o etnocentrismo, conceito amplamente difundido nos estudos antropológicos, é compreender como determinadas práticas culturais constituídas pelo “estranhamento” se tornam elementos fundamentais na construção das identidades de grupo, comunitárias, societárias e nacionais. Identidades que, por sua vez, estruturam-se por distinção, em que o observador assume para si e seu grupo a centralidade cognitiva.

D) para entendermos o real significado do etnocentrismo nas culturas ocidentais, será necessário pressupor que a dicotomia entre o “nós e os outros” é um aspecto que deve ser superado por todos que desejam construir uma visão genuinamente etnocêntrica.

E) não há problema em observar, agir e interagir a partir da seus próprios referenciais culturais. O conceito de etnocentrismo possui certa legitimidade, pois resguarda na centralidade cultural aquilo que uma raça tem de mais puro quando confrontada com outra.

Alternativa correta: C

A razão de “ser” do etnocentrismo está no posicionamento de um grupo de indivíduos que se considera central ou superior. Tudo aquilo que está fora da realidade desse grupo causa estranhamento e, em uma visão etnocêntrica, não merece respeito.

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