Cultura indígena

As culturas indígenas são uma importante parte da riqueza cultural humana a ser reconhecida, sobretudo no Brasil.

Quando europeus chegaram no território que viria a ser chamado de Brasil, havia mais de 1000 povos indígenas. Atualmente, esse número foi reduzido para 256 povos, com mais de 150 línguas diferentes, incluindo histórias e modos de vida variados. Portanto, não faz sentido falar de cultura indígena mas, pelo menos, de culturas indígenas, no plural. Entenda mais:

O que é a cultura indígena

As culturas indígenas se referem aos modos de vida e as trajetórias históricas de vários povos descendentes das populações originárias ao redor do mundo, sendo elas um contraponto ao poder colonial ou dominante.

Assim, “indígena”, conforme o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, quer dizer uma “comunidade fundada em relações de parentesco ou vizinhança entre seus membros, que mantém laços histórico-culturais com as organizações sociais indígenas pré-colombianas.” (1).

Por “pré-colombianas”, entende-se toda a história desses povos anterior à colonização. Portanto, ainda atualmente essas comunidades questionam a violência colonial, e defendem o direito de autonomia pela sua própria história e cultura.

Principais características da cultura indígena

Quando se fala de cultura indígena, no singular, pode ser comum pensarmos em religião, trabalho, moradia, enfim, um modo de vida e organização social que seja específico de todos os povos indígenas. Entretanto, basta pensarmos nas centenas de etnias indígenas para percebermos que essa generalização não é possível.

Afinal, a definição apresentada que une essa diversidade de povos é somente a sua relação com a colonização – os povos indígenas são “originários”, no sentido de que habitavam o seu território muito antes dos colonizadores os explorarem. Assim, falamos sobre culturas indígenas, no plural.

Sendo assim, se há algo em comum entre as culturas indígenas, é que elas não podem ser resumidas a suas “características”, vestimentas ou idiomas. Pertencer a uma cultura indígena significa ter um modo de ser, de pensar e de viver que vai além das aparências ou estereótipos.

Costumes e elementos da cultura indígena

As culturas indígenas não são “coisa do passado”. Assim como qualquer cultura, elas são atualizadas, preservadas ou reinventadas conforme aquilo que faz sentido em seu contexto social e histórico. A seguir, veja alguns exemplos desse processo:

Alimentação

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Os Apurinã são um povo indígena com práticas de cultivo de mandioca bastante ricas culturalmente. Assim, as famílias se organizam em todo o processo, com homens, mulheres e os filhos desempenhando papeis distintos em cada etapa. (2)

Para os membros da etnia terena, o nome da mandioca é exetina xúpu, e atualmente alguns grupos se organizam com outros setores da sociedade para a plantação da raiz, combinando tecnologias de empresas e suas técnicas tradicionais (3).

Arte e artesanato

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Os artesanatos produzidos por algumas comunidades indígenas chamam bastante a atenção, e podem ser encontrados em lojas ou até museus (4). No campo mais amplo da arte, bons exemplos são dos muitos indígenas que têm se aventurado no campo cinematográfico (5).

Dança

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Assim como todas as culturas, os povos indígenas possuem uma diversidade de danças. Elas podem ser manifestações rituais que influenciam outras práticas. Os Parasí, por exemplo, possuem uma festa em que dançam e cantam seus mitos, geralmente no contexto de um ritual de passagem (6).

A relação com a natureza

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As diversas culturas indígenas não possuem uma relação capitalista de exploração dos recursos naturais, como é introduzida com a colonização europeia. Atualmente, órgãos internacionais ambientalistas e pesquisas de ponta estão ligados aos movimentos indígenas com o objetivo de proteção do meio ambiente (7).

Línguas

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No Brasil, conta-se que há mais de 150 línguas faladas por diferentes povos indígenas, fazendo parte de suas culturas. Entretanto, a que ficou mais conhecida é o Tupinambá, incorporada pelos missionários e colonizadores e influenciou o vocabulário brasileiro, que contém muitas palavras de origem indígena (8).

Desse modo, os povos indígenas não estacionaram no passado, nem são retrógrados em relação aos “tempos modernos”. Logo, devemos ser críticos em relação aos discursos que colocam essa população em uma desvalorização ou em um lugar de defasagem.

A influência da cultura indígena no Brasil

Embora não sejam devidamente reconhecidas, muitas são as influências e raízes indígenas nas culturas brasileiras. Um dos aspectos bastante notáveis é na língua.

Inicialmente, o Tupinambá, uma das línguas indígenas, foi adotada por portugueses que vinham ao “novo” território. Ela era chamada de Brasílica, sendo ensinada aos seus próprios filhos, já que muitos acabavam gerando sua descendência com mulheres indígenas.

Mais tarde, a Brasílica transformou-se na chamada Língua Geral, tendo uma variação paulista que influenciou o vocabulário utilizado atualmente. Hoje, é possível notar palavras de raízes indígenas em nomes de lugares, estados, animais e alimentos.

A cultura indígena no Brasil atual

Comumente, as culturas indígenas são consideradas algo relegado ao passado; por exemplo, diz-se que alguns índios deixaram sua identidade, são adaptados, aculturados ou ocidentalizados, se adequando à “modernidade”.

Entretanto, é necessário entender de onde vem essa percepção equivocada. Ao contrário do discurso acima, as culturas indígenas não estacionaram no passado, mas reinventam e transformam suas práticas e organizações até hoje.

O que se confirma contemporaneamente é a continuidade de um processo de colonização – ou seja, de extermínio e apagamento de diversas culturas em prol de uma “nacional”. Para alguns líderes políticos, os indígenas deveriam ser adaptados a um modelo cultural dominante.

Esse modelo dominante é considerado como o mais “moderno” ou “avançado”. Entretanto, o que haveria de avanço e desenvolvimento em práticas de poder que exterminam culturas e os recursos naturais? Esse é um dos questionamentos dos movimentos indígenas na atualidade.

Vídeos sobre o “indígena” da “cultura indígena”

Com as discussões levantadas acima, é necessário duvidar de algumas premissas e preconceitos envolvendo o que é “indígena” e sua “cultura”. A seguir, confira uma seleção de vídeos com as próprias pessoas indígenas falando sobre o assunto:

As mistificações sobre o “indígena”

Quando ser “indígena” importa? O que isso significa? Saiba mais sobre o assunto e como as pessoas não devem ser resumidas a um estereótipo.

Sobre a “identidade”

Atualmente, existem pessoas indígenas inseridas em diversos espaços de poder. Entenda a importância desse movimento para os povos indígenas.

Povos indígenas

Quando falamos sobre indígenas, devemos ter em mente que esse termo não resume a diversidade cultural dos povos que estão implicados. Confira uma discussão sobre esse tema.

A “cultura” na “cultura indígena”

A cultura de nenhum grupo humano é estática ou rígida. Logo, elas devem ser entendidas honestamente em sua complexidade.

Ensino de História e Cultura Indígena

No vídeo acima, veja uma explicação sobre o ensino de história e cultura indígena é importante para as instituições de ensino no Brasil.

Consequentemente, é importante ampliar a nossa sensibilidade a respeito das questões que os povos indígenas levantam no país. Para se aprofundar no tema, confira ainda a uma explicação sobre o etnocentrismo e o eurocentrismo.

Referências

Cultura com aspas – Manuela da Cunha;

Línguas – Povos Indígenas do Brasil (PIB);

No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é – Eduardo Viveiros de Castro.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Cientista social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UNESP]

Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor, e a buscar a simbiose do melhor de todas as culturas.
A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas também segundo o comportamento de uma potência que, como seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emancipação.
Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais.
(Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.)
No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin desenvolve

a) reflexões elogiosas acerca das consequências do etnocentrismo ocidental sobre outras culturas.
b) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da Revolução Francesa na história.
c) argumentos que defendem o isolamento como forma de proteção dos valores culturais.
d) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental e outras culturas na história.
e) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da Revolução Francesa.

Resposta: d

Justificativa: o contato da cultura ocidental ou europeia sobre as demais, principalmente por meio da colonização, não foi um fenômeno amigável – ao contrário, foi gerada uma série de violências a partir desse contato eurocêntrico.

2. [UEM]

Acerca do tema “etnocentrismo”, assinale o que for correto.

01) O avanço da globalização diminuiu a manifestação do etnocentrismo no mundo.
02) A xenofobia se configura como uma das consequências práticas do etnocentrismo no dia a dia.
04) O etnocentrismo é uma expressão característica de culturas orientais, que tendem a desprezar as influências vindas do ocidente.
08) A posição etnocêntrica toma a cultura a que se pertence como medida de julgamento e de análise do mundo.
16) Muitos processos de genocídio e de extermínio de populações étnicas foram justificados, ao longo da história, como imposição e conquista de uma cultura supostamente mais forte sobre outra, mais débil e fraca.

Resposta: 02 + 08 + 16 = 26

Justificativa: a globalização avançou com a manifestação do etnocentrismo pautado no eurocentrismo no mundo todo; assim, a postura etnocêntrica, que é comum em qualquer sociedade humana, tomou proporções violentas realizadas pelas civilizações europeias. Com isso, surgem violências como a xenofobia e o extermínio de outras culturas consideradas supostamente como “inferiores”.

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