Tomás de Aquino

É o príncipe da Escolástica, conhecido por elaborar as cinco vias que provam a existência de Deus. Conheça os principais pensamentos do filósofo italiano do século XIII.

Tomás de Aquino, conhecido como o Príncipe da Escolástica, foi um dos principais filósofos do século XIII e o responsável por reintroduzir o pensamento aristotélico na filosofia ocidental. Autor da famosa Suma Teológica, Aquino tinha como principal ideia estabelecer uma relação entre a fé e a razão e entre a essência e a existência.

Biografia

Tomás de Aquino, representado pelo pintor Benozzo Gozzoli

O filósofo e teólogo italiano Tomás de Aquino nasceu em 1225, em Roccasecca, no condado de Aquino e morreu na cidade de Fossanova, Itália, em março de 1274. Era filho do Conde Landulf de Aquino e de Teodora Rossi, ambos de famílias aristocráticas e ricas, por isso, Tomás de Aquino recebeu uma ótima formação. Estudou na abadia de Roccasecca, no Mosteiro da Ordem de São Bento de Cassino, na Universidade de Nápoles, na Cátedra “Artes Liberais”, depois foi para Universidade de Paris e para Colônia, na Alemanha.

Na Universidade de Nápoles, Tomás de Aquino foi introduzido aos estudos de Aristóteles e Averróis, filósofos que influenciaram seu pensamento. Na Universidade de Paris foi onde conheceu o dominicano Alberto Magno, outro estudioso que influenciou o pensamento teológico tomista. Tomás de Aquino volta a Paris para ministrar aulas na Universidade de Paris e é consagrado como Doutor Angélico.

Tomás de Aquino é o principal representante da tradição Escolástica (durante a Baixa Idade Média) e seu pensamento é majoritariamente influenciado pelas ideias aristotélicas, por isso a Escolástica é uma escola filosófica conhecida como uma filosofia aristotélico-tomista, cuja principal característica era a constante busca pela verdade por meio de demonstrações argumentativas.

Principais ideias

Sendo o principal defensor da Escolástica e sendo fortemente influenciado por Aristóteles, Tomás de Aquino fundamentou sua filosofia de acordo com as seguintes ideias:

  • União da fé e da razão para obtenção do conhecimento por meio das verdades da fé (obtidas pela revelação cristã) e das verdade naturais teológicas (obtidas pela razão).
  • Divisão das leis em: lei natural (que preserva a vida), lei positiva (que preserva a sociedade) e lei divina (responsável por conduzir os homens à vida cristã e ao paraíso, é, também a que guia as outras leis).
  • A felicidade é o fim último da vida humana e é um fim em si mesmo. A felicidade só é alcançada por meio de ações virtuosas.
  • Defesa da faculdade do intelecto no ser humano.
  • A centralidade da vontade deliberada na constituição do ato moral.

Aristóteles influenciou todo o pensamento tomista, desde os fundamentos epistemológicos até os estéticos, passando pela política e pela ética. A tentativa do filósofo de unir os conceitos da filosofia grega com a filosofia cristã é o que revolucionou o pensamento do século XIII.

Fé e razão

Tomás de Aquino se empenhou em estabelecer uma relação entre fé e razão, de modo a acabar com o dualismo entre essas duas categorias. Para ele, elas eram complementares na obtenção do conhecimento. A fé é capaz de conhecer coisas que a razão não pode atingir, como as verdades reveladas do cristianismo, dentre elas, a doutrina da Santíssima Trindade.

A razão pode comprovar tanto fatos da vida terrena quanto algumas crenças religiosas, como a existência de Deus. Portanto, para Tomás de Aquino, não existe uma dicotomia entre fé e razão, mas sim uma relação de complementariedade. Segundo ele, para a teologia contribuir para a produção de conhecimento, ela deveria basear-se em argumentos racionais como procedimento prioritário, não poderia resolver as questões apenas usando a autoridade divina.

Principais obras de Tomás de Aquino

O filósofo escreveu muitas obras e hinos eucarísticos. Suas principais obras são:

  • Suma Teológica (1266-1273);
  • Suma contra os gentios (1259-1265);
  • O Ente e a Essência (1248-1252);
  • Compêndio de Teologia (1258-1259);
  • Comentário às Sentenças;
  • Comentários ao Evangelho de São João;
  • Comentários da Epístola de São Paulo;

Escreveu, também, diversas Questões e diversos Sermões, no entanto, suas principais obras são a Suma teológica e o Ente e a Essência.

Suma Teológica (1266-1273)

É o trabalho mais importante do filósofo, dividido em 3 partes, com 512 questões. Cada questão tem perguntas individuais, que representam 2669 capítulos. Nessa obra, Tomás de Aquino aborda os temas referentes à natureza de Deus e à dos homens, além de questões morais. Também é nessa obra em que encontramos a passagem das Cinco Vias que provam a existência de Deus.

As Cinco Vias que provam a existência de Deus

Esse é o argumento construído por Tomás para explicar a existência de Deus a partir dos aspectos do mundo. As cinco vias são: o movimento, a causalidade, a contingência, a perfeição e o governo do mundo.

  1. O movimento do motor primeiro: o movimento existe em todo o universo. Segundo Aristóteles, existe um motor que dá a propulsão e o movimento para o corpo movido. No entanto, deve existir um motor primeiro, ou seja, que não é movido por ninguém (o motor imóvel) se não, ao procurarmos um motor para cada movimento, levaríamos esse processo ad infinitum e não encontraríamos a causa primeira.
  2. A primeira causa eficiente: seguindo a lógica da primeira via, é necessário entender que tudo foi causado no mundo, exceto uma primeira causa, que não teve um evento anterior. É o primeiro momento. Uma causa não causada, ou seja, Deus.
  3. Ser necessário e seres contingentes: existem os seres que podem ou não existir, que foram criados e podem deixar de existir, esses seres estão em constante transformação. Mas existe um ser que é necessário e que não se transforma, ele foi, é e sempre será. Esse ser necessário, que gera os contingentes, é Deus.
  4. Graus de perfeição: para Tomás de Aquino, existe uma hierarquia entre os graus de perfeição que pode classificar seres. Se existe hierarquia, portanto, é necessário que haja um padrão de excelência, que é Deus.
  5. Governo ou desígnio supremo do mundo: no universo, existe uma organização das coisas e dos seres materiais. A matéria, mesmo que inconscientemente, orienta-se para um fim. Essa ordenação é um desígnio supremo, ordenado por Deus.

O Ente e a Essência (1248-1252)

Nesta obra, Tomás de Aquino explora as questões metafísicas com base na filosofia aristotélica. Para ele, existe o ente lógico e o ente real/extra-mental. A essência faz parte do ente extra-mental, ela denomina e indica o que é uma coisa. A existência, por sua vez, é o ato de ser, ou seja, diz sobre o que existe de fato. Segundo Aquino, ser é aquilo que se identifica com a sua essência e existência, portanto, apenas Deus é um ser e por isso é chamado de ato puro. Apenas em Deus é que essência e existência coincidem, porque ele é. Todos os demais seres são contingentes, não necessários. A criatura (seres humanos) tem existência e não é existência.

A essência e a existência é uma das questões cuja influência aristotélica mais se aflora. Para Aristóteles, não existia uma relação com a essência (o que é) e a existência (o que existe de fato) do ser. Tomás de Aquino propõe essa relação ao defender que aquilo que é em essência existe de alguma forma, ainda que de modo ontológico.

Nessas duas obras, é possível entender as duas maiores preocupações de Tomás no que se refere à epistemologia, ao unir fé e razão e à ontologia, ao tratar do ser e sua relação com a essência e a existência, problema que existe desde a Antiguidade Clássica.

7 frases de Tomás de Aquino

Essas são algumas das frases mais famosas do filósofo:

  1. “Nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos.”
  2. “Para aqueles que tem fé, nenhuma explicação é necessária. Para aqueles sem fé, nenhuma explicação é possível.”
  3. “Deus é uno, simples, perfeito, infinito, dotado de inteligência e vontade.”
  4. “A filosofia trata das coisas existentes de acordo com conceitos derivados de objetos criados […], mas há outro conhecimento que considera as coisas existentes de acordo com noções recebidas por inspiração de uma luz divina”
  5. “A humildade é o primeiro degrau para a sabedoria”
  6. “Não se opor eu erro é aprová-lo, não defender a verdade é negá-la”
  7. “Se a meta principal de um capitão fosse preservar seu barco, ele o conservaria no porto para sempre”.

Nessas frases, é possível alguns dos posicionamentos éticos de Tomás de Aquino, além da defesa da comunhão entre fé e razão. A metáfora do barco, na última frase, está relacionada à ideia de governar. Para ele, governar é similar ao ato do capitão de um barco, que conduz a tripulação diante das adversidades do mar até seu destino.

3 vídeos para se inteirar sobre Tomás de Aquino e sua obra

Estes três vídeos vão elucidar melhor alguns dos conceitos trabalhados nessa matéria, além disso, trazem informações sobre a vida e o contexto de produção das obras de Tomás.

Sobre as cinco vias

Neste vídeo, o professor Carlos Nougué explica as cinco vias que provam a existência de Deus de modo sintético, mas de forma bem clara.

Por dentro da Suma Teológica

Nesse vídeo do canal do professor Mateus Salvadori, ele e o convidado Gabriel Guilherme Frigo conversam sobre a Suma Teológica de Tomás de Aquino e sobre o contexto de produção dessa obra. Na conversa, também passam pela influência de Tomás ao longo da história.

Para aprender a ler Tomás de Aquino

No vídeo, o professor Guilherme Freire ensina como ler a obra de Tomás a partir dos filósofos que o influenciaram, sobretudo Aristóteles e Agostinho. Ele também dá dicas de materiais de apoio.

Nessa matéria vimos os principais pensamentos de Tomás de Aquino, sobretudo a comunhão entre fé e religião e a questão da existência e essência, já colocada desde a Antiguidade Clássica.

Gostou dessa matéria? Leia mais sobre as questões epistemológicas em Kant, um filósofo que também trabalhou sobre a razão.

Referências

ARANHA, M. L. A., MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 4ª ed. São Paulo: Moderna, 2009.
JOSAPHAT. F. C. Fé e razão. Ide (São Paulo) vol.36 no.56 São Paulo jun. 2013.
MARTINES, P. O ato moral segundo Tomás de Aquino. Trans/Form/Ação, Marília, v. 42, p. 249-264, 2019, Edição Especial.
TEIXEIRA, C. & SILVA, A. W. C. Premissas do pensamento ético de Tomás de Aquino. Revista Eletrônica Espaço Teológico ISSN 2177-952X. Vol. 5, n. 7, jan/jun, p. 32-45, 2011.

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduanda do 4º ano de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Tomás de Aquino. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/tomas-de-aquino. Acesso em: 23 de September de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [UFU 2012]

1. A teologia natural, segundo Tomás de Aquino (1225-1274), é uma parte da filosofia, é a parte que ele elaborou mais profundamente em sua obra e na qual ele se manifesta como um gênio verdadeiramente original. Se se trata de física, de fisiologia ou dos meteoros, Tomás é simplesmente aluno de Aristóteles, mas se se trata de Deus, da origem das coisas e de seu retorno ao Criador, Tomás é ele mesmo. Ele sabe, pela fé, para que limite se dirige, contudo, só progride graças aos recursos da razão.

GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 657.

De acordo com o texto acima, é correto afirmar que

a) a obra de Tomás de Aquino é uma mera repetição da obra de Aristóteles.

b) Tomás parte da revelação divina (Bíblia) para entender a natureza das coisas.

c) as verdades reveladas não podem de forma alguma ser compreendidas pela razão humana.

d) é necessário procurar a concordância entre razão e fé, apesar da distinção entre ambas.

Alternativa D é a correta. Como vimos, um dos principais objetivos da filosofia tomista é encontrar uma relação entre fé e razão.

2. [UFU 2011]

Considere o seguinte texto sobre Tomás de Aquino (1226-1274).

Fique claro que Tomás não aristoteliza o cristianismo, mas cristianiza Aristóteles. Fique claro que ele nunca pensou que, com a razão se pudesse entender tudo; não, ele continuou acreditando que tudo se compreende pela fé: só quis dizer que a fé não estava em desacordo com a razão, e que, portanto, era possível dar-se ao luxo de raciocinar, saindo do universo da alucinação.

Eco, Umberto. “Elogio de santo Tomás de Aquino”. In: Viagem na irrealidade cotidiana, p.339.

É correto afirmar, segundo esse texto, que:

a) Tomás de Aquino, com a ajuda da filosofia de Aristóteles, conseguiu uma prova científica para as certezas da fé, por exemplo, a existência de Deus.

b) Tomás de Aquino se empenha em mostrar os erros da filosofia de Aristóteles para mostrar que esta filosofia é incompatível com a doutrina cristã.

c) o estudo da filosofia de Aristóteles levou Tomás de Aquino a rejeitar as verdades da fé cristã que não fossem compatíveis com a razão natural.

d) a atitude de Tomás de Aquino diante da filosofia de Aristóteles é de conciliação desta filosofia com as certezas da fé cristã.

Alternativa D é a correta. Como vimos, um dos principais papeis de Tomás no cenário filosófico do medievo foi reintroduzir a filosofia aristotélica.

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