Racionalismo

"Penso, logo existo", uma das frases mais conhecidas da filosofia pertence a um dos grandes racionalistas: René Descartes.

Racionalismo vem do termo latino ratio, que significa razão. É uma corrente filosófica que privilegia o uso da razão como forma de obter conhecimento, de chegar à verdade e de explicar a realidade. Oposto ao empirismo, o racionalismo se propõe a responder o problema do conhecimento pela razão, e não a partir da experiência. Seu principal filósofo foi René Descartes.

Resumo

O racionalismo surge com o advento da modernidade, período com início no Renascimento, e atinge seu ápice no Iluminismo, no século XVIII. Essa corrente filosófica é uma resposta ao pensamento da época, que apresentava uma mudança paradigmática na forma de abordar os problemas filosóficos.

Durante a Idade Média, a visão de mundo era teocêntrica, ou seja, Deus e as religiões eram a base para tratar das questões filosóficas, políticas e sociais. Com o início da modernidade, a visão de mundo passa a ser antropocêntrica, de modo que o homem se torna o ponto de partida para responder às questões humanas. Por isso, a razão, nesse novo período, é fundada sobre a própria subjetividade e deixa de ser fundamentada pela autoridade religiosa ou estatal.

O racionalismo, portanto, é uma corrente filosófica que compreende a razão como categoria primária ou como faculdade essencial para a obtenção do conhecimento. Por ser uma doutrina filosófica compreendida em um período de quebra de paradigma, o racionalismo influenciou diversas esferas da vida: a arte, a política, a ética, a moral, a ciência e a própria religião.

Características

O racionalismo, como corrente filosófica, tem características que o diferenciam de outras correntes, como, por exemplo:

  • A questão do método: o racionalismo tem um grande interesse pelo método. Se antes os filósofos se preocupavam com o problema do ser, durante a modernidade, a principal questão era a do conhecimento. A preocupação racionalista com o método está relacionada a entender se podemos e como podemos conhecer um objeto;
  • Prevalência da razão: o racionalismo, como o próprio nome sugere, privilegia o uso da razão na obtenção de conhecimento em detrimento da experiência;
  • Prevalência da intuição: o racionalismo também privilegia a intuição em detrimento dos sentidos para obter conhecimento;
  • Inatismo: a maior parte das ideias, para a corrente racionalista, é inata, ao invés de serem apreendidas com o tempo e com a experiência;
  • Realidade da substância: para os racionalistas, a substância existe e ela é o princípio da unidade das coisas;
  • Superioridade do método dedutivo: no racionalismo, o método dedutivo é superior ao método indutivo para se fazer uma investigação filosófica, portanto, a lógica dedutiva é preferida;
  • Causa inteligível: os racionalistas defendem que tudo o que existe tem uma causa inteligível, mesmo que essa causa não possa ser provada empiricamente, ou seja, pela experiência. Dessa forma, para eles, apenas o pensamento racional é capaz de alcançar a verdade absoluta.

Muitas são as características que contemplam o posicionamento racionalista, no entanto, as mais importantes são a primazia da razão, a causa inteligível e a questão do método.

Racionalismo e empirismo

Enquanto o racionalismo é uma corrente filosófica que privilegia o papel da razão na obtenção do conhecimento, o empirismo é a doutrina filosófica que opta pela primazia da experiência sensível. O racionalismo utiliza o método dedutivo para realizar suas investigações, já o empirismo, prefere o indutivo. A dedução é um processo lógico que parte do geral e vai ao particular, ao passo que a indução parte das particularidades para atingir a verdade universal.

Etimologicamente essas duas correntes já se mostram contrárias: racionalismo vem de “razão”, empirismo vem de termo grego empiria, que significa “experiência”. No limite, essas correntes filosóficas partem de pressupostos (razão e experiência) completamente diferentes para compreender o conhecimento humano.

Racionalismo e o renascimento

O Renascimento foi um movimento político, cultural e econômico que aconteceu no século XV e marcou o fim da Idade Média. Esse movimento foi o responsável por abrir as portas para a mudança paradigmática que o pensamento ocidental sofreu.

As Grandes Navegações, a chegada dos europeus aos outros continentes, a revolução comercial propiciada pelo começo do capitalismo e ascensão da burguesia, as monarquias nacionais, todas essas mudanças que ocorreram durante o Renascimento e na Idade Moderna foram cruciais para que o modo de pensar também mudasse. Foi por causa desse contexto que os filósofos pararam de dar autoridade aos argumentos religiosos e começaram a enfatizar a razão humana como principal faculdade para obter conhecimento.

O Renascimento, então, é um dos principais movimentos que possibilitaram a postura racionalista na filosofia.

Racionalismo na arte

Na arte, o racionalismo também encontrou muita aderência, não só durante Renascimento e a Idade Moderna, mas até o período contemporâneo. Antes mesmo de Descartes, Leonardo da Vinci já expressava algumas das características racionalistas em suas telas, como a proporção do “Homem vitruviano”. Outra obra muito lembrada é a escultura “O Pensador”, de Rodin.

A escola de Bauhaus também teve grande influência para a construção de uma arquitetura racionalista, uma tendência europeia do século XX.

Principais autores

Os grandes autores do racionalismo na filosofia são: René Descartes, Baruch Spinoza, Wilhelm Leibniz.

Descartes

Retrato de René Descartes, de Frans Hals

René Descartes (1596-1650) é considerado o pai da filosofia moderna e autor da famosa frase “penso, logo existo”. Sua filosofia tinha por objetivo encontrar um método exato o bastante para se chegar à verdade indubitável. O principal contexto de debate de Descartes era rebater os argumentos céticos, o filósofo francês defendia ser possível, sim, conhecer e alcançar a verdade.

Para ele, o ponto de partida para elaborar seu método era a res cogitans (um ser pensante), dotado de cogito (pensamento), pois nada poderia abalar o postulado de que “eu existo”, obtido por uma intuição. A partir desse primeiro argumento é que Descartes desdobra os demais argumentos para provar que é possível conhecer.

Outra característica marcante em Descartes é o postulado do dualismo entre mente e corpo. Para ele, mente e corpo eram substâncias distintas por isso, deveriam ter métodos de abordagem distintos para se fazer as investigações filosóficas sobre cada um delas. A mente, por exemplo, poderia trabalhar com a intuição, o corpo e as coisas materiais, para serem provados, precisariam do método dedutivo.

Além dos estudos metafísicos e epistemológicos, Descartes foi responsável por elaborar o plano cartesiano e também fez comentários sobre física e mecânica. Suas principais obras são “Meditações sobre a filosofia primeira” (1641) e “Discurso sobre o método” (1637).

Spinoza

Retrato de Baruch Spinoza

Baruch Spinoza foi um filósofo holandês. Nasceu em Amsterdã em 1632 e morreu em Haia em 1677. Sua principal obra é a “Ética”, finalizada em 1675. A noção central desse livro é a substância. Diferente de Descartes (que definia substância como algo cuja existência não dependia de nada mais), para Spinoza só existia uma substância, Deus. Segundo o filósofo, a Natureza e Deus eram nomes distintos para uma mesma realidade. Concepção chamada de monismo.

Essa conclusão partiu das seguintes premissas: 1) Deus é perfeito, ou seja, tem todos os atributos; 2) Se as substâncias fossem distinguidas por seus atributos, então só pode existir uma substância – Deus -, pois nada poderia faltar nos atributos de Deus; 3) Mente e corpo, portanto, são a mesma substância, o que muda é o modo que os concebemos; 4) Se Deus tem todos os atributos e está em todos os lugares, então Deus é a própria Natureza.

Para Spinoza, Deus não era o Deus judaico-cristão. Na verdade, segundo o filósofo, Deus é imanente, ou seja, ele está presente na materialidade do universo, porque Deus é uma substância e uma substância é e existe. Logo, o Deus de Spinoza não tem vontade nem finalidade, não exige preces nem religião. Por essas afirmações, o filósofo foi expulso de Amsterdã pela comunidade judaica.

Leibniz

Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig em 1646 e morreu em Hanôver, no ano de 1716. Foi filósofo e matemático. Sua maior contribuição na matemática foi o desenvolvimento do cálculo infinitesimal, que se desdobraria no cálculo diferencial e integral. Na filosofia, a discussão central de Leibniz é sobre as mônadas.

As mônadas são, na metafísica, o que são os átomos para a a física. Segundo Leibniz, em “Monadologia” (um dos seus livros mais importantes) as mônadas são: “uma substância simples, que entra nos compostos; simples, quer dizer, sem partes […] onde não há partes, não há extensão, nem figura, nem divisibilidade possível […] Não há nenhuma maneira concebível pela qual uma substância simples possa perecer naturalmente […] Assim, pode dizer-se que as Mônadas não poderiam começar nem acabar senão abruptamente, quer dizer, elas apenas poderiam começar por criação e acabar por aniquilação”.

Outro conceito atrelado às mônadas é o de harmonia pré-estabelecida. Para Leibniz, existe uma harmonia no mundo que faz com que cada mônada siga o caminho que deveria seguir. Assim como as leis naturais atua sobre os átomos, a harmonia pré-estabelecida atua sobre as mônadas. Quando as mônadas interagem entre si, forma-se o conhecimento racional.

Na filosofia de Leibniz, Deus existe e é um ser perfeito e essencialmente bom. Para o filósofo, o mundo que existe é “o melhor dos mundos possíveis”, visto que foi Deus o criador. De acordo com Leibniz, Deus, ao criar o mundo, poderia tê-lo criado de outra forma, mas não o fez. Essa escolha tem uma razão, a qual Leibniz explica pelo princípio da razão suficiente. Segundo esse princípio, Deus fez a melhor escolha possível para criar esse mundo, haja vista que Ele é essencialmente bom e não poderia criar algo diferente da sua essência.

Esses três filósofos são considerados os grandes racionalistas. Descartes com o seu dualismo entre mente e corpo e a ideia de que o cogito garante a existência. Spinoza com o pensamento de que Deus é a Natureza. Por fim, Leibniz, com a noção de que as mônadas são os elementos que deu origem ao universo e ao conhecimento racional.

Racionalismo cartesiano

O racionalismo cartesiano foi desenvolvido por Descartes e tem como foco a dúvida metódica e a natureza das ideias. Na filosofia cartesiana, a dúvida ou o ato de duvidar é elemento fundamental para se obter conhecimento. Na sua Primeira Meditação, Descartes já expõe a importância de duvidar de absolutamente tudo para se conseguir chegar ao cerne do conhecimento, por meio de uma ideia clara e distinta.

Por ser racionalista, Descartes nega o uso de seus sentidos para usá-los como prova de conhecimento, pelo fato de os sentidos poderem nos enganar. É preciso, para Descartes, questionar tudo, toda a realidade que vivemos e tudo o que julgamos conhecer. Nesse aspecto, o método cartesiano é similar ao dos céticos, mas a grande diferença reside no fato de que, para Descartes, é possível atingir o conhecimento verdadeiro e a verdade absoluta.

O racionalismo de Descartes, portanto, é formado pelo pensamento e pelo exercício da dúvida. Para isso, ele separa as ideias entre as ideias claras e distintas, e as ideias duvidosas presentes no mundo. As primeiras são consideradas as ideias inatas, portanto, verdadeiras, porque têm origem no próprio sujeito. As segundas são as ideias adventícias, que obtemos pelos sentidos.

Outra característica importante do racionalismo cartesiano é o desenvolvimento das quatro regras para aplicação do método para se chegar à verdade e ao conhecimento, dominado pela razão. São elas: da evidência, da análise, da ordem e da enumeração. A primeira acolhe apenas o que se mostra como claro e evidente, ou seja, o que é evidente é necessariamente verdadeiro. A segunda regra diz que para se resolver um problema é preciso dividi-lo em questões menores.

A regra da ordem está relaciona à ordem dos pensamentos, eles devem começar do mais simples e mais fáceis para depois partir para os compostos. Por fim, a quarta regra propõe que sempre se revise os procedimentos realizados durante a resolução de algum problema, de modo a evitar erros e omissões.

Veja mais sobre o racionalismo

Veja 3 vídeos que explicam sobre o método em Descartes, a Ética de Spinoza e sobre o racionalismo em geral.

Racionalismo cartesiano

No vídeo do canal Filosofando com Gabi, a professora explica a filosofia de Descartes, enfatizando a dúvida metódica e como ocorre o processo para se chegar ao conhecimento e à verdade. Ela também explica sobre a não confiabilidade dos sentidos.

Como conhecer pelo racionalismo

O vídeo do canal Conexão Filosófica, o professor Marcos Ramon explica os princípios lógicos racionalistas para se considerar o conhecimento como conhecimento verdadeiro. Além disso, ele explica o argumento do cogito cartesiano.

Sobre Spinoza

Mateus Salvadori, em seu vídeo, explica sobre a grande obra de Spinoza – Ética – quais os principais elementos e quais os conceitos movidos na obra, como o monismo e a equivalência de Deus à Natureza.

Nos vídeos, vemos os conceitos expostos, sobretudo de Descartes e Spinoza. Que tal conhecer melhor o matemático e filósofo René Descartes, e entender seu papel de forma mais profunda no racionalismo, a corrente filosófica que enfatiza a razão.

Referências

ARANHA, M. L. A., MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 4ª ed. São Paulo: Moderna, 2009.
DESCARTES, R. Meditações sobre filosofia primeira. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
LEIBNIZ, G. W. Monadologia. Lisboa: Edições Colibri, 2016.
PAPINEAU, D. Filosofia: grandes pensadores, principais fundamentos e escolas filosóficas. São Paulo: Publifolha, 2009.

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduanda do 4º ano de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Racionalismo. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/racionalismo. Acesso em: 23 de September de 2021.

Exercícios resolvidos

1.

(UNICAMP/2014)
A dúvida é uma atitude que contribui para o surgimento do pensamento filosófico moderno. Neste comportamento, a verdade é atingida através da supressão provisória de todo conhecimento, que passa a ser considerado como mera opinião. A dúvida metódica aguça o espírito crítico próprio da Filosofia.

(Adaptado de Gerd A. Bornheim, Introdução ao filosofar. Porto Alegre: Editora Globo, 1970, p. 11.)

A partir do texto, é correto afirmar que:

A – A Filosofia estabelece que opinião, conhecimento e verdade são conceitos equivalentes.

B – A dúvida é necessária para o pensamento filosófico, por ser espontânea e dispensar o rigor metodológico.

C – O espírito crítico é uma característica da Filosofia e surge quando opiniões e verdades são coincidentes.

D – A dúvida, o questionamento rigoroso e o espírito crítico são fundamentos do pensamento filosófico moderno.

Alternativa correta é a D.
A Filosofia Moderna é marcada pelo Racionalismo, privilegiando o uso do método e o uso rigoroso da razão para a busca do conhecimento e esclarecimento de dúvidas.

2.

05. (UFPR) Nas primeiras linhas das Meditações Metafísicas, Descartes declara que “recebera muitas falsas opiniões por verdadeiras” e que “aquilo que fundou sobre princípios mal assegurados devia ser muito duvidoso e incerto”.

(DESCARTES, R. Meditações Metafísicas, In: MARÇAL, J. CABARRÃO, M.; FANTIN, M. E. (org.) Antologia de textos filosóficos, Curitiba: SEED-PR, 2009, p. 153.)

A fim de dar bom fundamento ao conhecimento científico, Descartes entende que é preciso:

A) confiar nas próprias opiniões.
B) certificar-se de que os outros pensam como nós.
C) seguir as opiniões dos mais sábios.
D) aceitar que o conhecimento é duvidoso e incerto.
E) partir de princípios seguros e proceder com método.

Alternativa E é a correta. Descartes tem por objetivo estabelecer um método que parta de princípios seguros, como as ideias inatas e as proposições matemáticas.

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