Parmênides

A ontologia é o estudo do ser enquanto ser, e é exatamente a isso que Parmênides de Eleia se dedica. Em sua única obra escrita, o pré-socrático discorre sobre o ser, a realidade e o conhecimento.

Parmênides, na contramão do pensamento de outros pré-socráticos, compreendia o ser como uma unidade indivisível e imutável, ao contrário do que nossos sentidos possam fazer parecer. Afinal, o mundo nos aparece como uma multiplicidade de seres em constante mudança e movimento. Para o filósofo de Eleia, esses sentidos nos enganam, e todo o movimento é mera aparência e ilusão. Saiba mais sobre o filósofo:

Biografia

Busto de Parmênides no Parque Arqueológico de Velia, Itália. Fonte: Wikimedia

Parmênides é um filósofo pré-socrático que teria nascido por volta de 515 a.C. em Eleia, na Magna Grécia, cujo pai seria um rico aristocrata chamado Piros. É considerado o fundador da Escola Eleata, da qual Zenão de Eleia, Melisso de Samos e Xenófanes de Colofão também faziam parte. Em suma, a Escola que integrava é conhecida por defender que a realidade é uma entidade una e imutável.

Ademais, muito pouco se sabe sobre sua vida além do que restou de registros de filósofos e historiadores antigos. De sua morte, por exemplo, nada se sabe. Por fim, teria escrito uma única obra: um poema cujo título original é contestado por estudiosos, mas estabeleceu-se como “Da Natureza”.

Teorias e pensamentos de Parmênides

A filosofia de Parmênides afirma ser real apenas o que é uno, imóvel, imutável e eterno. Assim, todas as variações e mudanças que nossos sentidos atestam são meras ilusões destes. Por isso, o verdadeiro conhecimento busca o ser, que é o que é.

O que não é, ou seja, as aparências, não existem, são um não-ser e não devem ser objeto do conhecimento, pois são o nada. Mas como alcançar o conhecimento verdadeiro? O eleata afirma que isso só é possível pela via da razão, de maneira lógica e dedutiva.

Além disso, cabe destacar que a teoria de Parmênides entra em conflito com a de Heráclito, também famoso pré-socrático, o qual afirmava que ilusório é o que é fixo, pois tudo flui. Afinal, conforme este, nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio e, tal qual a correnteza, tudo o que é real está em constante movimento.

Para Parmênides, isso soa absurdo, pois, do seu ponto de vista, afirmar que tudo é mutável seria o mesmo que afirmar que as coisas podem ser e podem não ser ao mesmo tempo – algo logicamente impossível.

O ser

Segundo Parmênides, o único ser verdadeiro é uno, infinito e indivisível. Os seres múltiplos que achamos conhecer são ilusões de nossos sentidos, afinal, estes nos enganam o tempo todo. Tendo isso em vista, ao contrário de Heráclito, o eleata não pensava em conceitos opostos, pois, para ele, o contraditório que concebemos é apenas a ausência de algo: o frio é “não quente”, escuro é “não claro”, e por aí vai.

Nesse sentido, também se distingue de Anaximandro, outro filósofo pré-socrático, que buscava explicar a cosmologia e a natureza através de um primeiro princípio (do grego, arché), pelo qual todos os seres se originam após a cisão dos opostos. De certo modo, para Parmênides, a arché não consiste em um elemento diverso do ser, pois ela é o próprio ser que se mantém eternamente em unidade.

Obra: o poema de Parmênides

Parmênides teria escrito apenas um texto, em forma de poema, intitulado Da Natureza. Embora nenhum trecho de nenhuma cópia do texto original tenha sobrevivido, estudiosos foram capazes de reconstituir fragmentos desse texto conforme evidências e testemunhos de outros autores antigos. Desse complexo trabalho de reconstrução, resultaram 154 linhas em hexâmetro dactílico (métrica comum nos poemas da Grécia Antiga), divididas em três partes, conhecidas como Proêmio, Realidade e Opinião.

  • Proêmio: seção introdutória repleta de metáforas, o proêmio narra uma viagem de um jovem por uma estrada divina para se encontrar com uma deusa. Ele é conduzido por uma carruagem de corcéis e guiado por “jovens filhas do Sol”, que o tiram da escuridão e o levam para a luz. Quando acolhido pela sábia deusa, ela narra tudo o que lhe ensinará a respeito da verdade e do ser.
  • Realidade: nessa seção central do texto, a deusa ministra uma aula de ontologia ao jovem. Começa por ensinar que há dois caminhos lógicos para se investigar a realidade: o caminho do ser e o caminho do não-ser. Em seguida, afirma que o primeiro é a única via confiável, pois acompanha a verdade; por outro lado, o caminho do não-ser é logicamente impossível de se conhecer, pois não é.
  • Opinião: na última seção, mais fragmentada e incompleta, o tema passa para a cosmologia. São mencionados elementos como luz e noite, natureza, astros e Via Láctea. A deusa aponta os erros dos mortais ao denominar algumas destas coisas como a luz e a noite, pois discorda que sejam uma oposição dualística – seja porque acredita serem uma coisa só ou porque crê que uma delas não existe (é um não-ser).
  • Portanto, o poema de Parmênides, que alegadamente foi a única obra que o filósofo escreveu, oferece um panorama de sua filosofia ontológica, ou seja, que estuda o ser. Dela, entendemos que o único caminho para a investigação da verdade é o lógico-racional, que visa apenas o ser como uno, imóvel, imutável e eterno. O que não se encaixa nessa definição é engano dos nossos sentidos e deve ser desconsiderado.

    6 frases para entender o ser

    Agora que discorremos sobre sua única obra escrita, Da Natureza, selecionamos algumas das frases mais marcantes do poema, que melhor representam a filosofia do eleata. Acompanhe:

    1. “Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da verdade fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo.”
    2. “Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste – quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar: um que é, que não é para não ser; é caminho de confiança (pois acompanha a verdade); o outro que não é, que tem de não ser, esse te indico ser caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o que não é, não é consumável, nem mostrá-lo […].”
    3. “ […] pois o mesmo é pensar e ser.”
    4. Pois nunca isto será demonstrado: que são coisas que não são; mas afasta desta via de investigação o pensamento, não te force por este caminho o costume muito experimentado […].”
    5. “Sobre esse [caminho que é] são muitos os sinais de que o ser é ingênito e indestrutível, pois é compacto, inabalável e sem fim; não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, uno, contínuo.”
    6. “Mas, uma vez que tudo é chamado luz ou noite e o conforme a estas potencias é dado a isto e aquilo, tudo é igualmente cheio de luz e de noite obscura, ambas iguais, visto cada uma delas ser como nada.”

    Enfim, essas citações representam o fundamento da filosofia de Parmênides: argumentos baseados na lógica e na dedução, em que prevalece um jogo de palavras mais puramente racional do que prático e compreensível aos nossos sentidos. Esses argumentos serão defendidos com veemência por seu discípulo Zenão de Eleia e seus paradoxos.

    Vídeos para fixar o conteúdo

    Após apresentarmos os fundamentos básicos para a compreensão das principais ideias de Parmênides, selecionamos vídeos para complementar seus estudos. Veja abaixo:

    Descomplicando o ser e o não-ser

    O ser é e o não-ser não é. Aqui, o professor Vitor Lima detalha essa afirmação que define e fundamenta toda a filosofia de Parmênides.

    Parmênides e Heráclito

    Tudo flui ou nada se move? Nesse vídeo, o Professor Krauss coloca lado a lado esses dois famosos filósofos pré-socráticos, conhecidos por suas filosofias de argumentos opostos entre si.

    Explicando a arché

    Os pré-socráticos ansiavam por descobrir a origem de todas as coisas. Para denominar o que seria esse princípio, os gregos usavam a palavra arché, conceito que o professor Bruno Neppo explica nesse vídeo.

    Como visto, Parmênides dedicou-se ao estudo do ser e da investigação pela via racional. Além disso, sabemos muito pouco de sua vida, mas, graças ao trabalho de pesquisadores, hoje conhecemos o poema que seria a única obra que o fundador da Escola Eleata teria deixado escrita. Para aprender mais sobre outros pré-socráticos aqui mencionados, não deixe de explorar nosso conteúdo sobre Heráclito, Anaximandro e Zenão de Eleia.

    Referências

    ABRÃO, Bernadette Siqueira (org.). A História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

    DELONG, Jeremy C. Parmenides of Elea. Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://www.iep.utm.edu/parmenid/ Acesso em: 17 de julho de 2020.

    PALMER, John. Parmenides. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2019 Edition), Edward N. Zalta (ed.). Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/fall2019/entries/parmenides/ Acesso em: 17 de julho de 2020.

    PARMÊNIDES. Da Natureza. Tradução de José Gabriel Trindade Santos. 1ª edição – São Paulo: Loyola, 2002.

    RUSSELL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental. 1 vol. – Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2015.

    Thaís Bravin Carmello
    Por Thaís Bravin Carmello

    Licenciada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá.

    Como referenciar este conteúdo

    Carmello, Thaís Bravin. Parmênides. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/parmenides. Acesso em: 09 de August de 2020.

    Exercícios resolvidos

    1. [UFU]

    De um modo geral, o conceito de physis no mundo pré-socrático expressa um princípio de movimento por meio do qual tudo o que existe é gerado e se corrompe. A doutrina de Parmênides, no entanto, tal como relatada pela tradição, aboliu esse princípio e provocou, consequentemente, um sério conflito no debate filosófico posterior, em relação ao modo como conceber o ser.
    Para Parmênides e seus discípulos:

    a) A imobilidade é o princípio do não-ser, na medida em que o movimento está em tudo o que existe.
    b) O movimento é princípio de mudança e a pressuposição de um não-ser.
    c) Um Ser que jamais muda não existe e, portanto, é fruto de imaginação especulativa.
    d) O Ser existe como gerador do mundo físico, por isso a realidade empírica é puro ser, ainda que em movimento.

    Resposta: B
    Justificativa: As alternativas A, C e D ou vinculam o não-ser à imobilidade, ou vinculam o ser à mobilidade e mudança. Desse modo, a única alternativa correta é a B, pois relaciona o movimento e a mudança ao não-ser.

    2. [UFU]

    Leia atentamente o texto a seguir.

    Na filosofia de Parmênides preludia-se o tema da ontologia. A experiência não lhe apresentava em nenhuma parte um ser tal como ele o pensava, mas, do fato que podia pensá-lo, ele concluía que ele precisava existir: uma conclusão que repousa sobre o pressuposto de que nós temos um órgão de conhecimento que vai à essência das coisas e é independente da experiência. Segundo Parmênides, o elemento de nosso pensamento não está presente na intuição mas é trazido de outra parte, de um mundo extrassensível ao qual nós temos um acesso direto através do pensamento.
    NIETZSCHE, Friedrich. A filosofia na época trágica dos gregos. Trad. Carlos A. R. de Moura. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 151. Coleção Os Pensadores

    Marque a alternativa INCORRETA.

    a) Para Parmênides, o Ser e a Verdade coincidem, porque é impossível a Verdade residir naquilo que Não-é: somente o Ser pode ser pensado e dito.
    b) Pode-se afirmar com segurança que Parmênides rejeita a experiência como fonte da verdade, pois, para ele, o Ser não pode ser percebido pelos sentidos.
    c) Parmênides é nitidamente um pensador empirista, pois afirma que a verdade só pode ser acessada por meio dos sentidos.
    d) O pensamento, para Parmênides, é o meio adequado para se chegar à essência das coisas, ao Ser, porque os dados dos sentidos não são suficientes para apreender a essência.

    Resposta: C
    Justificativa: O próprio texto contradiz esta alternativa, quando afirma que “A experiência não lhe apresentava em nenhuma parte um ser tal como ele o pensava”, “nós temos um órgão de conhecimento que vai à essência das coisas e é independente da experiência” e, por fim, “o elemento de nosso pensamento não está presente na intuição mas é trazido de outra parte, de um mundo extrassensível”. Logo, a alternativa C está incorreta ao afirmar que, segundo Parmênides, a verdade só pode ser acessada pelos sentidos.

    3. [UEAP]

    …que é e que não é possível que não seja,/ é a vereda da Persuasão (porque acompanha a Verdade); o outro diz que não é e que é preciso que não seja,/ eu te digo que esta é uma vereda em que nada se pode aprender. De fato, não poderias conhecer o que não é, porque tal não é fatível./ nem poderia expressá-lo.
    (Nicola, Ubaldo. Antologia ilustrada de Filosofia. Editora Globo, 2005.)

    O texto anterior expressa o pensamento de qual filósofo?

    a) Aristóteles, que estabelecia a distinção entre o mundo sensível e o inteligível.
    b) Heráclito de Éfeso, que afirmava a unidade entre pensamento e realidade.
    c) Tales de Mileto, que afirmava ser a água o princípio de todas as coisas.
    d) Parmênides de Eleia, que afirmava a imutabilidade de todas as coisas e a unidade entre ser e pensar, ser e conhecimento.
    e) Protágoras, que afirmava que o homem é a medida de todas as coisas, que o ser é e o não ser não é.

    Resposta: D
    Justificativa: Essa é uma das frases de destaque do poema Da Natureza, de Parmênides. Embora de tradução distinta da que utilizamos em nosso texto, essas são as linhas em que a deusa explica ao jovem viajante que há apenas duas vias para a investigação: a do ser, que é o caminho da verdade; e a do não-ser, que é o caminho do engano e, portanto, o jovem aprendiz deve desconsiderá-lo, pois nada aprenderá dali.

    4. [UFPE]

    As reflexões sobre o mundo e as relações sociais fazem parte da construção da Filosofia, desde os seus primórdios. Na Grécia, o pensamento filosófico foi muito importante para a organização da sua sociedade e o estabelecimento de uma visão crítica de suas manifestações culturais. Uma das figuras marcantes da Filosofia Grega foi Parmênides, que:

    a) defendia a concepção de um universo composto pelos quatro elementos fundamentais da natureza (a água, o fogo, a terra, o ar) em constantes movimentos circulares.
    b) seguiu as teorias de Heráclito sobre a permanência do sagrado e dos mitos, como princípios básicos da realização religiosa da sociedade, em todos os tempos.
    c) se posicionou contra as teorias políticas dos mais democratas, pois achava a escravidão necessária para se explorar as riquezas e facilitar a organização da economia.
    d) influenciou em muito o pensamento idealista da filosofia ocidental, dando destaque à ideia de permanência e considerando o movimento como uma ilusão dos sentidos.
    e) estabeleceu orientações fundamentais para o pensamento de Aristóteles, de quem foi mestre, articulando as bases de uma lógica dualista com a concepção de governo monárquico vitalício.

    Resposta: D
    Justificativa: Parmênides não defendeu o movimento constante do universo, não seguiu as teorias de Heráclito e não deixou registros sobre quaisquer pensamentos políticos. Logo, a única alternativa que descreve adequadamente sua filosofia é a letra D.

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