Maiêutica

A maiêutica é um método socrático para se alcançar o conhecimento por meio do diálogo.

Você já ouviu falar em maiêutica? Sabe o que significa essa palavra no contexto filosófico? Qual foi o filósofo que cunhou esse termo e em qual obra? Neste texto, vamos trabalhar esse conceito e outros que estão relacionados, como a ética, a verdade, a dialética, a ironia e o próprio conhecimento. Acompanhe.

Maiêutica socrática

A maiêutica é um dos processos do método desenvolvido por Sócrates para se alcançar o conhecimento por meio do diálogo. A palavra maiêutica significa “dar à luz” ou “parir”; no seu sentido socrático, maiêutica é dar à luz ao conhecimento. O conceito de maiêutica foi melhor apresentado no diálogo Teeteto, considerado um dos escritos epistemológicos de Platão, ou seja, um livro que aborda as questões relativas ao conhecimento e à verdade.

A maiêutica parte do pressuposto de que a verdade é inerente ao ser humano. Ou seja, a verdade está em nós, porque temos uma alma eterna capaz de conhecer tudo, mas para extraí-la, é preciso passar pelo processo de questionamento, a ironia. Como em um parto, Sócrates pensava que questionar e confrontar o pensamento original de alguém, era o modo de fazer a verdade aflorar e de se chegar ao conhecimento verdadeiro.

Ironia e maiêutica

A ironia é a primeira parte do método socrático para afastar a doxa (opinião) e atingir a episteme (conhecimento). Ironia significa perguntar, porém, quem pergunta finge não saber a resposta. O objetivo é questionar o interlocutor para contestar e, em seguida, refutar suas opiniões, a fim de mostrá-lo que elas são falseadas e marcadas por pré-julgamentos. Pode ser considerada a fase negativa, pois possui o caráter de negar as opiniões subjetivas pré-estabelecidas e faz o interlocutor perceber a sua própria ignorância.

Já a maiêutica é a fase positiva, a etapa em que, após questionadas diversas vezes, a própria pessoa consegue enxergar as contradições presentes no seu pensamento anterior e extrair a verdade de dentro de si. Para Sócrates, não era possível mostrarmos a verdade a alguém, apenas a pessoa poderia encontrar o conhecimento verdadeiro dentro de si.

O papel do filósofo é, no método socrático, questionar para despir o interlocutor de seus pré-conceitos, fazer as perguntas corretas para que a alma se lembre dos seus conhecimentos anteriores e, por meio da maiêutica, mostrar o caminho certo para que o interlocutor possa “conhecer a si mesmo”, conforme dizia a inscrição no templo de Apolo, na cidade de Delfos.

O conhecimento, para Sócrates, deve ser universal e não pode depender das experiências sensíveis. A frase “só sei que nada sei” guia o pensamento socrático, porque indica que o conhecimento deve ser constantemente buscado e nos mostra que não podemos confiar em nossas opiniões particulares antes de submetê-las à prova de que estão, de fato, corretas.

Maiêutica e ética

Na concepção ética socrática, o homem não é nem bom, nem mau, mas sim ignorante. Por isso, para Sócrates, a ética é uma das faculdades que defende o agir público e cidadão para o exercer do bem e das virtudes, porém, somente o faz na medida em que atinge o conhecimento verdadeiro.

Dessa forma, a maiêutica e ética se encontram. Existe um divisor comum entre maiêutica e ética: a verdade. Para se agir publicamente, é preciso fazê-lo de modo verdadeiro, para alcançar a verdade, é preciso passar pela maiêutica. Para Sócrates, existe uma quase equivalência entre virtude e conhecimento. Virtude é algo que se adquire com tempo e sabedoria, para exercer o bem é necessário conhecer a verdade.

Por exemplo, não é possível tocar bem um instrumento sem conhecer, de fato, tal instrumento. Tal afirmação traz duas consequências: a primeira é que as virtudes são o conhecimento, ao passo que o vício é a ignorância e a segunda é entender que ninguém comete um erro moral voluntariamente, mas sim porque não conhecia o bem.

Maiêutica e dialética

Para entender a relação entre maiêutica e dialética, é preciso saber, primeiramente, que a dialética grega é um processo lógico com um forte suporte discursivo. Ou seja, ocorre por meio do diálogo, diferente da dialética hegeliana que era um método lógico para suplantar seu sistema filosófico. Mas para os gregos a dialética é uma lógica que opera com os contrários, gerando movimento e, consequentemente, um novo conhecimento a partir dessas contradições.

Então, em um diálogo dialético grego, ao se discutir o conceito de Belo na lógica dialética, é preciso contrapor um argumento pré-existente, para gerar um novo resultado: “o belo é uma pessoa bonita”, “mas isso é uma afirmação particular”, “então o belo precisa ser universal”, “mas como uma pessoa determina o que é universal?”.

Quando olhamos por esse exemplo, é mais fácil compreender a relação entre maiêutica e dialética. A maiêutica, pode-se dizer, é um processo que esboça mais o conteúdo, ao passo que a dialética é o processo que comporta a forma. Ou seja, para extrair a verdade e o conhecimento verdadeiro da pessoa, é preciso fazer os questionamentos corretos que instiga e acrescenta informações, até que essas informações se transformem em conhecimento.

Como ela funciona

Veja a seguir um diálogo imaginário foi inspirado no livro Hípias Maior de Platão, em que a noção de Belo é discutida. No momento não vamos nos aprofundar nesse conceito, mas sim no método socrático. Pensemos na seguinte situação: Sócrates (“S”) estava na ágora (praça onde ocorriam as discussões políticas e filosóficas, mas também onde ficavam os mercados e os artesãos) e encontrou uma pessoa (“A”) olhando para uma escultura de Apolo.

Sobre a Beleza
S: O que é belo
A: O belo é uma pessoa bela, um animal belo.
S: Um sapato também pode ser belo?
A: Pode… mas uma pessoa é mais bela do que um sapato!
S: Então uma pessoa comparada a um Deus é feia?
A: Precisamente.
S: Mas você acabou de dizer que uma pessoa é bela, ela não pode ser bela e feia ao mesmo tempo.
A: Sim, mas nessa situação de comparação é assim…
S: Não podemos cair em particularidades, ou é belo ou não é.
A: Então o belo é aquilo que podemos adornar!
S: Qualquer adorno torna algo belo?
A: O ouro é o que torna tudo mais belo.
S: Então um sapato de ouro é mais belo que um de couro?
A: Com certeza!
S: Me diga, o que serve melhor ao nosso caminhar, um sapato de couro ou um de ouro?
A: Um sapato de couro, pois um de ouro queimaria nossos pés se estivesse muito calor e não nos esquentaria se estivesse muito frio. Também nos cansaria se andássemos muito, porque seria muito pesado. Então o belo estaria mais associado à utilidade do que à aparência.

A ironia acontece nas perguntas de Sócrates e nos momentos em que a pessoa “A” muda de ideia a respeito da opinião anterior. ​A maiêutica podemos ver nessa última fala da pessoa A, quando ela consegue esboçar um pensamento mais crítico sobre do conceito de belo. Sócrates não oferece, então, as respostas, mas sim as perguntas para que a pessoa consiga chegar ao conhecimento verdadeiro.

Saiba mais sobre maiêutica

Selecionamos alguns vídeos para te ajudar a fixar alguns conceitos e revisar o método socrático em prática. Acompanhe:

Descomplicando a maiêutica

Esse vídeo mostra, de forma descomplicada, os conceitos de maiêutica e ironia e relaciona com as frases mais conhecidas do filósofo Sócrates. Além disso, explora a questão do lado negativo do diálogo (a ironia) e o positivo (maiêutica).

Sócrates e seu método

Nesse vídeo do professor João Paulo, fala a respeito da vida de Sócrates. O professor mostra de forma divertida o método socrático retomando a história do Oráculo de Delfos.

Arte da maiêutica

Aqui selecionamos mais um vídeo sobre o assunto para que você não fique com nenhuma dúvida. Confira no vídeo mais detalhes sobre o processo de desenvolvimento da maiêutica por Sócrates.

Agora que você sabe como funciona o método socrático e sua lógica discursiva, o que acha de tentar aplicar essa técnica argumentativa? Então, saiba como fazer uma boa redação.

Referências

CAMPOS, Antônio José Vieira de Queirós. A Eironeía de Sócrates e a Ironia de Platão nos primeiros diálogos: (uma visão crítica sobre a noção de Vlastos de “ironia complexa”). Tese (doutorado)–Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Filosofia, 2016.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.
PLATÃO. Teeteto — Crátilo. In: Diálogos de Platão. Tradução do grego por Carlos Alberto Nunes. 3a. ed., Belém: Universidade Federal do Pará, 2001.
QUINALIA, Rineu. Sobre o Belo em Platão: um estudo a respeito do Hípias Maior. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2013.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga. Tradução Ivo Storniolo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2007.

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduanda do 4º ano de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Maiêutica. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/maieutica. Acesso em: 07 de May de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [Unimontes -2011]

Lembremos a figura de Sócrates. Dizem que era um homem feio, mas, quando falava, exercia estranho fascínio. Podemos atribuir a Sócrates duas maneiras de se chegar ao conhecimento. Essas duas
maneiras são denominadas de
a)doxa e ironia.
b)ironia e maiêutica.
c)maiêutica e doxa.
d)maiêutica e episteme.

A alternativa B é a correta.

Como vimos, Sócrates combatia a doxa (opinião) para chegar à episteme (conhecimento verdadeiro) usando o método socrático, composto pela ironia e pela maiêutica.

2. [Unicentro 2010]

Após as primeiras discussões dos filósofos “pré-socráticos” no século VI a.C. (período
cosmológico), surge outro movimento muito importante na história da filosofia. Passa a ser bordado uma nova modalidade de problemas e discussões (período antropológico), e assim teremos não só as figuras principais do novo cenário da filosofia grega, mas de toda a história da razão ocidental: Sócrates, Platão e Aristóteles. Com
Sócrates, a filosofia ganha uma nova “roupagem”. Sócrates
viveu em Atenas no momento de apogeu da cultura grega, o chamado período clássico (séculos V e IV a.C.), fase de grande expressão na política, nas artes, na literatura e na filosofia. O que há de mais forte na filosofia de Sócrates é o seu método e a maneira pela qual ele buscava discutir os problemas relacionados à filosofia.
A partir desta informação, e de seus conhecimentos sobre a
filosofia socrática, analise as assertivas e assinale a alternativa que aponta as corretas.
I. Sócrates sempre buscava pessoas em praça pública para
dialogar e questionar sobre a realidade de seu tempo.
II. A célebre frase de Sócrates, que caracterizava parte de
seu método é: “só sei que nada sei”, por isso
questionava as ideias de seus interlocutores.
III. Sócrates oferecia grande importância às experiências sensíveis, o que caracterizou fortemente o seu método filosófico.
IV. Para fazer com que os seus interlocutores enxergassem a verdade por si próprios, Sócrates elaborou um método composto de duas partes centrais: a ironia e a
maiêutica.
a) Apenas I e II estão corretas.
b) Apenas I, II e IV estão corretas.
c) Apenas III e IV estão corretas.
d) Apenas I, II e III estão corretas.
e) Apenas I e IV estão corretas.

A alternativa B está correta.

Sócrates procurava as pessoas em praças públicas (ágora) para conversar sobre Filosofia. A fim de alcançar o conhecimento verdadeiro e contrapor a doxa (opinião), que é particular e as experiências sensíveis (que também são particulares), Sócrates desenvolveu o método socrático, composto pela ironia e pela maiêutica.

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