Jean-Paul Sartre

Filósofo existencialista, dedicou-se a questões referentes à existência humana, assim como a liberdade e a angústia que dela advém.

Jean-Paul Sartre (1905-1980), considerado o pai da corrente filosófica Existencialismo, é certamente um dos nomes mais lembrados dentre os filósofos do Século XX. Ao longo de sua obra, trata de temas inerentes à existência humana, como liberdade, possibilidades e angústia. De acordo com ele, o homem está condenado a ser livre e isso o torna o único responsável por suas ações.

Biografia

Jean-Paul Sartre, por Moshe Milner. Fonte: Wikimedia Commons

Jean-Paul Sartre nasceu em Paris no dia 21 de junho de 1905 e lá passou a maior parte de sua vida. Aos 19 anos, ingressou na Escola Normal Superior, onde conheceu Simone de Beauvoir. Alguns anos depois, em 1936, publicou seus primeiros ensaios filosóficos, concomitantemente à produção de seus primeiros textos de ficção. Dois anos mais tarde, publicou seu primeiro romance, A Náusea, que já denotava os traços existencialistas do filósofo.

Durante a 2ª Guerra Mundial, serviu ao exército francês e, na ocasião, foi capturado e enviado a um campo de concentração na Alemanha, no qual ficou preso por um ano. Posteriormente, além da dedicação à literatura ficcional, à filosofia e ao teatro, tornou-se muito ativo politicamente. Em decorrência disto, fundou um influente jornal de opinião chamado Les Temps Modernes, junto com Beauvoir, Merleau-Ponty e outros intelectuais. Neste meio tempo, apoiou a militância estudantil francesa nos protestos de Maio de 1968 e colaborou com diversos jornais de esquerda e órgãos da imprensa libertária. Por outro lado, viveu uma relação de amor e ódio com o Partido Comunista Francês.

Ademais, destaca-se em sua biografia a recusa em receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1964, pois não desejava ter seu nome confundido com o da instituição. Por fim, sobre seu falecimento em 1980, um jornal parisiense teria lamentado: “a França perde sua consciência”.

Um amor necessário dentre amores contingentes

Da juventude à sua morte, Sartre teve um famoso relacionamento com a também filósofa Simone de Beauvoir. Ambos contestavam os ideais burgueses, inclusive a tradição matrimonial. Por isso, optaram por viver um relacionamento aberto. Neste ínterim, chegaram a viver juntos por dois anos sob um contrato, porém, após finalizado o prazo, passaram a se relacionar também com outras pessoas. Apesar disso, persistiram em seus laços de amor e amizade, além da parceria intelectual. Afinal, a respeito da peculiaridade deste relacionamento, Sartre teria dito a Beauvoir: “trata-se de um amor necessário; convém que conheçamos também amores contingentes”.

A filosofia de Sartre

Em síntese, na filosofia sartreana, o homem não foi concebido a partir de uma essência, isto é, a partir de características preestabelecidas que fundamentam seu ser. Pelo contrário, Sartre afirma que a existência precede a essência . Ou seja, o homem só é algo a partir do momento em que ele se projeta no mundo e faz de si alguma coisa, a partir do momento em que ele passa a existir. Isso significa que, antes disso, ele não é nada. A seguir, destacamos dois conceitos fundamentais para se entender este princípio filosófico, a saber: existencialismo e liberdade.

Existencialismo

Este termo indica um conjunto de filosofias ou correntes de pensamento que se dedicam à análise da existência. A respeito disto, Abbagnano (2007) afirma: “existir significa relacionar-se com o mundo, ou seja, com as coisas e com os outros homens e, como se trata de relações não-necessárias em suas várias modalidades, as situações em que elas se configuram só podem ser analisadas em termos de possibilidades”. Acerca disto, de acordo com Sartre, a possibilidade última do homem é o “projeto fundamental”: neste projeto, estão todas as ações e as vontades do ser humano que só são possíveis por sua liberdade absoluta e incondicional.

Liberdade

Conforme Sartre, a liberdade faz parte do projeto do ser humano. Além disso, o homem está condenado a ser livre. Isso significa que o ser humano é o único responsável por suas escolhas. O ônus desta liberdade, entretanto, é a angústia. O fato de não haver um plano superior a quem se deva nosso destino, como o Deus cristão, causa o sentimento de estarmos à deriva. Em outras palavras, há a percepção de estarmos constantemente fazendo escolhas e, consequentemente, aniquilando tantas outras alternativas. Esta liberdade que dá ao homem tanto poder sobre si gera medo e desejo de não mais possuir tal liberdade. Neste caso, o homem desiste de exercer sua liberdade e fazer escolhas o que, no entanto, é impossível, pois mesmo o ato de se conformar é uma escolha.

Estes, portanto, são alguns conceitos-chave para começar a compreender Jean-Paul Sartre. Deste modo, é importante ter em mente ao se falar do filósofo francês que o ser humano existe e é algo a partir do momento que age. Embora o ato de constantemente fazer escolhas (e, assim, deixar para trás tantas possibilidades) cause angústia, estar alheio a si e deixar a existência fluir, isentando-se de tomar decisões e resignando-se, não exime o homem das responsabilidades que possui consigo e com os outros.

Principais obras

Jean-Paul Sartre foi um grande escritor, tendo contemplado e obtido êxito em diversos gêneros literários, como: ensaio filosófico, romance, conto, teatro, crônica, crítica literária, análise política e jornalismo. Abaixo, listamos algumas de suas principais obras:

  • A transcendência do ego (1937): ensaio considerado a primeira obra filosófica de Sartre, onde a consciência é analisada sob o viés da fenomenologia.
  • A náusea (1938): o primeiro romance de Sartre e um de seus escritos mais famosos em que apresenta de forma ficcional os princípios do existencialismo.
  • O ser e o nada (1943): neste ensaio fenomenológico, o filósofo se aprofunda nas questões existenciais e lida com a complexidade da consciência e do ser, entre outros conceitos ontológicos.
  • A idade da razão (1945): um romance – o primeiro de uma trilogia – no qual as escolhas dos personagens são analisadas, expondo conceitos da filosofia sartreana referentes à liberdade, bem como sua aplicação social.
  • O existencialismo é um humanismo (1946): neste texto, Sartre busca esclarecer alguns pontos de seu existencialismo e responde a seus críticos.
  • As palavras (1964): autobiografia, na qual o filósofo relata sua infância e seu encontro com a literatura.
  • Cartas a Castor e a alguns outros (1983): correspondências de Sartre organizadas por Simone de Beauvoir, a quem Sartre chamava carinhosamente de Castor, e publicadas após a morte do autor.

Em formatos diversificados, estas obras demonstram a complexidade da existência humana e revelam nuances da vida do filósofo.

7 frases de Sartre

O filósofo parisiense dedicou grande parte de sua obra à existência humana e ao conceito de liberdade intrínseco a ela. Dito isto, listamos algumas frases que expressam seu pensamento:

  1. “A existência precede e comanda a essência”. (O ser e o nada)
  2. “Eu estou condenado a ser livre”. (O ser e o nada)
  3. “Eu sou responsável por tudo, salvo por minha própria responsabilidade, porque eu não sou o fundamento de meu ser”. (O ser e o nada)
  4. “É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém”. (A idade da razão)
  5. “O inferno são os outros” (Entre quatro paredes)
  6. “Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre”. (O existencialismo é um humanismo)
  7. “O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo”. (O existencialismo é um humanismo)

Nota-se que algumas destas frases são bastante conhecidas e amplamente reproduzidas. Lembramos, todavia, que para a compreensão de qualquer escritor é fundamental saber contextualizar suas citações de acordo com a obra. Cabe ressaltar, portanto, que sempre que possível, deve-se buscar ter contato com seus textos integrais.

Vídeos sobre Jean-Paul Sartre e sua obra

Após apresentarmos os principais aspectos da filosofia de Sartre, selecionamos alguns vídeos para aprofundar seus conhecimentos sobre as principais obras e conceitos aqui mencionados.

O existencialismo é um humanismo

Neste vídeo, Bruno Neppo apresenta o existencialismo de Sartre, assim como seus principais conceitos e críticas.

O ser e o nada

O doutorando em filosofia contemporânea Romeu Ivolela fala sobre “O ser e o nada”, célebre livro de Sartre.

A náusea

Em forma de diário, este romance de Sartre é, na opinião do próprio filósofo, um de seus melhores trabalhos. Aqui, Mateus Salvadori mostra o motivo.

A liberdade em Sartre

Com irreverência e exemplos cotidianos, Salviano Feitoza explica o conceito de liberdade na obra de Sartre.

Afinal, Jean-Paul Sartre foi um grande filósofo, romancista e militante. Por isso, sua filosofia, fundamentada no existencialismo, permanece até hoje como uma das mais marcantes do Século XX. Contudo, outro movimento que marcou sua época e teve muita influência em sua obra foi a Fenomenologia, assim como os filósofos Martin Heidegger e Edmund Husserl.

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. – 5ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ABRÃO, Bernadette Siqueira (org.). A História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

FLYNN, Thomas. Jean-Paul Sartre. In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2013 Edition), Edward N. Zalta (ed.). Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/fall2013/entries/sartre/. Acesso em: 24 de abril de 2020.

SANTOS, Magda Guadalupe dos. Cartas de Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre e a Nelson Algren: amor necessário e amor contingente?. Sapere Audi, Belo Horizonte, v.2, n.4, pp. 76-88. 2º semestre 2011.

Thaís Bravin Carmello
Por Thaís Bravin Carmello

Licenciada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá.

Exercícios resolvidos

1. [UFU]

Escolha a alternativa correta.
Segundo Sartre, “a existência precede a essência”. Isso pode ser interpretado como:
A) O homem se define pelo caminho que vai trilhando em sua existência e não pelo significado do conceito de homem.
B) A existência humana depende do plano que Deus determina a cada criatura.
C) O materialismo define a vida e o espírito não existe.
D) O entendimento que se tem de “natureza humana” é o que vai direcionar a existência humana.
E) A liberdade não participa do contexto da existência do homem.

Resposta: A
Justificativa: A célebre frase de Jeal-Paul Sartre expressa a ideia de que antes de o homem existir enquanto homem, não há nada que defina o seu ser. Isso significa que não existe uma essência, natureza, ou vontade divina que guie seus atos e o torne o que ele é. O que define o homem é o que ele faz de si por meio de suas próprias escolhas e sua liberdade absoluta.

2. [Unioeste]

“Quando dizemos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe a si próprio; mas com isso queremos também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não há de nossos atos um sequer que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo em que construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade”.
Sartre.
Considerando o texto citado e o pensamento sartreano, é INCORRETO afirmar que
A) O valor máximo da existência humana é a liberdade, porque o homem é, antes de mais nada, o que tiver projetado ser, estando “condenado a ser livre”.
B) Totalmente posto sob o domínio do que ele é, ao homem é atribuída a total responsabilidade pela sua existência e, sendo responsável por si, é também responsável por todos os homens.
C) O existencialismo sartreano é uma moral da ação, pois o homem se define pelos seus atos e atos, por excelência, livres, ou seja, o “homem não é nada além do conjunto de seus atos”.
D) O homem é um “projeto que se vive subjetivamente”, pois há uma natureza humana previamente dada e predefinida, e, portanto, no homem, a essência precede a existência.
E) Por não haver valores preestabelecidos, o homem deve inventá-los através de escolhas livres, e, como escolher é afirmar o valor do que é escolhido, que é sempre o bem, é o homem que, através de suas escolhas livres, atribui sentido a sua existência.

Resposta: D
Justificativa: Na própria alternativa incorreta há uma contradição em relação ao excerto, onde se lê que “a essência precede a existência”, quando, na verdade, o filósofo afirma o oposto.

3. [UFU]

Leia o excerto abaixo e assinale a alternativa que relaciona corretamente duas das principais máximas do existencialismo de Jean-Paul Sartre, a saber:
I. “a existência precede a essência”
II.“estamos condenados a ser livres”
Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. […] Estamos condenados a ser livres. Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. 3ª. ed. S. Paulo: Nova Cultural, 1987.
A) Se a essência do homem, para Sartre, é a liberdade, então jamais o homem pode ser, em sua existência, condenado a ser livre, o que seria, na verdade, uma contradição.
B) A liberdade, em Sartre, determina a essência da natureza humana que, concebida por Deus, precede necessariamente a sua existência.
C) Para Sartre, a liberdade é a escolha incondicional, à qual o homem, como existência já lançada no mundo, está condenado, e pela qual projeta o seu ser ou a sua essência.
D) O Existencialismo é, para Sartre, um Humanismo, porque a existência do homem depende da essência de sua natureza humana, que a precede e que é a liberdade.

Resposta: C
Justificativa: As alternativas A, B e D erroneamente mencionam a essência como anterior e determinante à existência humana. Para Sartre não há uma essência que defina o que é o homem, pelo contrário, é a partir do momento em que ele existe e faz suas escolhas, exercendo sua liberdade, que o seu ser é projetado ao mundo. Portanto, a alternativa correta é a C.

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