Kung Fu

Kung Fu é um termo usado para se referir a uma filosofia de vida, sendo popular e amplamente associado às artes marciais chinesas, conhecidas como Wushu.

Kung Fu é uma expressão de sentido amplo, popularmente utilizada para se referir a artes marciais chinesas. Além disso, essas artes marciais assumem diferentes configurações ao longo da história, apresentando-se em múltiplos estilos e/ou modalidades. Pensando nessas questões, preparamos esta matéria para que você entenda melhor o Kung Fu, seus estilos e outras características. Acompanhe!

História e significado

Embora popularmente o termo aluda às artes marciais chinesas, a expressão “Kung Fu” significa a aquisição de uma habilidade pelo esforço. Logo, é uma expressão com sentido amplo. Entretanto, a despeito desse caráter mais abrangente, o termo é comumente utilizado para descrever um conjunto de métodos e técnicas de origem chinesa voltados à defesa pessoal, ou seja, refere-se majoritariamente às artes marciais chinesas.

Nesse sentido, vale pontuar que, na cultura chinesa, os termos “Kung Fu” e “Wushu” são tratados como sinônimos, sendo o segundo o nome original dessa “arte marcial” (ou “arte da guerra”). Além disso, é importante notar a contribuição grandiosa do cinema do século XX para sua popularização. Tal contribuição se deve aos roteiros que mostravam atores praticantes de Wushu realizando acrobacias com grande beleza em cenas de luta de “Kung Fu”.

É importante ter em mente tanto esse caráter amplo, filosófico e cultural, quanto o envolvimento da arte marcial com o cenário midiático e cinematográfico para entender o panorama de desenvolvimento esportivo dessa arte marcial. Isso porque esses dois elementos influenciaram na constituição e no objetivo originalmente atribuído à prática enquanto esporte. Vejamos, portanto, esses aspectos.

Origens

As origens históricas do Kung Fu são imprecisas. Porém, remetem à formação dos primeiros reinos e exércitos chineses, a partir de 1112 a. C. Assim, essa arte surgiu como um método de preparação para o combate entre os guerreiros da China ocidental. Inicialmente, recebia o nome de Ch’uan Fa, que significa “estilo do punho”. Posteriormente a arte foi denominada Chi Chi Wu e voltou-se à preparação da força física dos guerreiros.

Essas nomenclaturas são exemplos de diferentes formas de organização que essa arte foi desenvolvendo ao longo do tempo, variando conforme se transformavam alguns traços em decorrência, principalmente, de formas de combate próprias de cada dinastia e província chinesa. Nas dinastias Ch’in e Han, por exemplo, a arte passou por transformações nas armas utilizadas, assim como em técnicas e exercícios de respiração. Nesse período, era denominada Chi Ch’iao.

Portanto, o aprimoramento dessa arte com o passar do tempo fez com que a nomenclatura Wushu fosse assumida pelos chineses para se referir aos diferentes estilos de arte marcial desenvolvidos a partir de múltiplos métodos e sistemas de preparação para a guerra. Daí, inclusive o significado específico do termo (“Wushu” = “arte da guerra”).

De arte marcial a esporte

Como indicado inicialmente, o termo Kung Fu é comumente utilizado para se referir às artes marciais de origem chinesa (Wushu), de modo geral. Isso se deve ao caráter filosófico que o perpassa, ou seja, à noção de que a maestria em determinada ação pressupõe disciplina e esforço.

A relação do Kung Fu com o cinema e a televisão deu ampla visibilidade às artes marciais chinesas, somando-se ao movimento de esportivização em curso desde a década de 1950. Nesse período, o presidente da então República Popular da China, Mao Tsé-Tung, estabeleceu que mestres de Wushu deveriam orientar os mais jovens à formação esportiva das artes marciais. Com isso, o Kung Fu adquire um caráter mais acrobático e de entretenimento.

Essa postura, no entanto, compunha uma estratégia do governo chinês, aparando-se na crescente visibilidade do Kung Fu, para afirmar-se como potência mundial no contexto esportivo. Com isso, inúmeros esforços vêm sendo empreendidos pelos governantes chineses para que a modalidade aprimore suas características esportivas. Além disso, destacam-se as ações enfáticas direcionadas à busca pela inclusão desse esporte como modalidade olímpica.

Envolvimento olímpico

Um evento significativo para o conhecimento dessa arte marcial pelos povos ocidentais foi a edição dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936. Isso porque nove atletas da elite chinesa de arte marcial participaram desse evento. Nesse acontecimento, portanto, estreitavam-se as relações entre a modalidade e a cultura ocidental, assim como com o movimento olímpico, visto que o evento marcou a participação da modalidade como esporte de demonstração.

O sucesso da modalidade no evento olímpico repercutiu no governo chinês, levando à adoção de medidas econômicas, educacionais, políticas e desportivas para que o Kung Fu passasse a integrar o quadro olímpico. Logo, essa terminologia passou a aludir ao “estilo olímpico” do Wushu. Além disso, desse investimento na modalidade resultou a fundação da International Wushu Federation – IWUF, entidade que regulamenta a modalidade globalmente.

Por fim, apesar dos esforços do governo chinês para tornar o Kung Fu um esporte olímpico, essa conquista ainda não ocorreu. Contudo, vale lembrar acontecimentos importantes decorrentes da esportivização do Kung Fu. Entre eles, destaca-se sua 2ª participação como esporte de demonstração nos Jogos Olímpico de Pequim 2008 e o convênio diplomático criado entre China e Brasil, em 2010, por intermédio da Confederação Brasileira de Kung Fu Wushu (CBKW).

Características

Como pontuado acima, o Kung Fu pressupõe o esforço para o aprimoramento, visando atingir maestria nas ações. Esse princípio permeia a prática do Kung Fu enquanto arte marcial, seja ela praticada esportivamente ou com outra finalidade. Nesse sentido, algumas características podem ser destacadas quanto a essa arte:

  • Os estilos são inspirados nos movimentos dos animais;
  • Desenvolvimento de habilidades de defesa pessoal;
  • Centra-se na defesa e não no ataque;
  • Requer persistência, determinação, foco e disciplina;
  • Aumenta a concentração do praticante;
  • Contribui para a melhora da respiração e da organização de pensamentos;
  • Desenvolve aspectos físicos e morais;
  • Melhora a energia dos praticantes e a interação energética com o meio e outros sujeitos;
  • Focaliza a integralidade entre corpo, mente e espírito.

Essas são características fundamentais do Kung Fu, representando tanto elementos constituintes quanto benefícios aos praticantes da modalidade.

Como se pratica o Kung Fu?

A essência Kung Fu está relacionada à melhora da energia interior. Assim, sua filosofia propõe que todas as ações realizadas pelo corpo de uma pessoa estão em relação direta com a mente, cuja função principal centra-se em acalmar o espírito. Logo, o praticante dessa arte marcial deve buscar compreender a relação entre a modalidade e a harmonia entre corpo, mente e espírito ao integrar-se a ela.

Os eventos esportivos de Kung Fu, portanto, embora possuam regras variadas, conforme a federação que as regulamentem e/ou o tipo de evento em questão, centralizam-se nessa filosofia. Com isso, ao tratar das regras gerais da prática esportiva dessa arte marcial, sem entrar nas especificidades de seus estilos ou regulamentações, destacam-se as seguintes características:

Regras gerais

  • As competições são organizadas em categorias de peso e idade.
  • As demonstrações ocorrem no Lei Tai, um ringue sem cordas demarcatórias com medidas estiadas em 8 m (largura) x 8 m (comprimento) x 80 cm (altura). Além disso, esse ringue é disposto em cima de uma área de 2 m (comprimento) x 30 cm (altura), cuja função é amortecer quedas que excedam o espaço do ringue.
  • As modalidades envolvem duas categorias de disputas, chamadas de rotinas (Katis). São elas: rotinas de mãos livres (Taolu), centradas na demonstração de golpes e habilidades por meio de exercícios demonstrativos e rotinas de combate com oponentes, com e sem armas (Sanshou), que focalizam o confronto e a demonstração da aplicação de golpes em situação de combate.
  • Os atletas devem trajar o uniforme de Kung Fu e, nas modalidades de combate, utilizar também equipamento de proteção, incluindo capacete, luvas e protetores genitais (em geral) e também caneleira, protetor bucal e torácico (em modalidades específicas).
  • As rotinas de taolu são divididas em rotina obrigatória (definida pelo regulamento da competição) e rotina opcional (em que atleta escolhe as movimentações, em geral, a partir de seu estilo de Kung Fu).
  • Nas rotinas com armas também são definidas duas rotinas. Na rotina obrigatória, as movimentações e as armas são definidas por sorteio, podendo ser armas curtas (espada reta ou facão) ou longas (lança ou bastão). Já na rotina opcional, o atleta pode escolher qualquer tipo de arma para a demonstração.
  • Outros aspectos, como código de pontuação, locais válidos para golpes e critérios de penalização são definidos pelo regulamento específico de cada federação e competição.

Estilos do Kung Fu

Como mencionado, a prática (esportiva ou não) e também as disputas de Kung Fu são determinadas pelos estilos praticados. Desse modo, apresentamos a seguir alguns dos principais estilos de Kung Fu:

Taolu esportivo

O Taolu é um componente das rotinas de competição de Wushu, modalidade esportiva de Kung Fu. Essa rotina possui um conjunto de movimentações técnicas que são coreografadas e realizadas em continuidade, conforme a filosofia da arte marcial e os elementos de defesa e ataque característicos do estilo do praticante. Portanto, as rotinas incluem técnicas de mão, perna, saltos, rasteiras, projeções, imobilizações, equilíbrios e combate direto (corpo a corpo).

As rotinas de Taolu eram inicialmente praticadas com a finalidade de preservar aspectos técnicos e táticos específicos de um determinado sistema ou linhagem de Wushu. No entanto, com o tempo, o treinamento realizado para a melhora desses aspectos constituiu uma identidade técnica às rotinas, realizadas individualmente e/ou em grupo, além de rotinas de duelo.

Desse modo, impulsionado pela busca por tornar-se um esporte olímpico, as rotinas de Taolu adquiriram forte caráter esportivo e competitivo, associando, assim, a busca pelo aprimoramento técnico e tático aos princípios do esporte moderno. Logo, regras específicas que destacam habilidades atléticas foram criadas como critérios de avaliação de performance. Portanto, são avaliados nesse estilo, principalmente, a qualidade dos movimentos e o grau de dificuldade de sua execução.

Shuaijiao

Esse estilo consiste em uma modalidade de wrestling (luta livre) chinesa, em que os atletas combinam diferentes estilos em um combate corpo a corpo. Contudo, embora reúna diferentes estilos, a modalidade congrega técnicas similares de agarre e projeção. Em geral, as disputas de Shuaijiao consistem em uma luta de 6 minutos, dividida em duas rodadas de 3 minutos cada.

No Shuaijiao a pontuação é atribuída conforme a posição da queda e a parte do corpo do atleta que toca o solo, variando de 1 a 3 pontos, a depender da qualidade de realização técnica. Ao final da luta, ganha o atleta que tiver a maior pontuação, uma vantagem de 8 pontos ou que tiver eliminado o oponente da disputa.

O Shuaijiao é um estilo de luta decorrente do desenvolvimento de técnicas com “mãos vazias”, as quais enfatizam, sobretudo, a luta de agarre e as técnicas de ataque com punho e projeções. Esse estilo surge no período do Imperador Amarelo, Huan Ti, em 2.700 a. C., aproximadamente e se desdobra em diferentes estilos, dentre eles: Mongolian, Tientsin, Peking e BaoDin.

Sanda

Essa modalidade também é praticada na forma de combate corpo a corpo, tendo como áreas válidas para golpe a cabeça, o tronco e as pernas. Ela também é conhecida como Sanshou e, mais popularmente, como box chinês. Suas características se assemelham a outras modalidades de combate, como Kickboxing e Muay Thai, tendo como principal distinção o acréscimo de técnicas de projeções e quedas.

O Sanda é a modalidade de luta mais característica do Wushu, sendo traduzida livremente como luta livre. Ela possui um regulamento que foi propriamente desenvolvido para segurar a integridade física dos atletas, dado que se origina como um sistema de combate militar e, posteriormente, desenvolve-se como modalidade que simula o combate real. Portanto, essa modalidade possui traços bastante violentos, obrigatório também o uso de equipamentos de proteção.

O início da prática de Sanda se deu na década de 1990, com a esportivização do Wushu, tendo seleções organizadas, atualmente, em mais de 95 países, incluindo China, Irã, Egito, Brasil, Rússia e Vietnã. Nas competições, o combate ocorre durante três rodadas de 2 minutos cada, sendo considerado vencedor o atleta que ganhar duas rodadas e/ou eliminar o oponente ao longo delas.

Por ser uma modalidade de combate corpo a corpo e também por suas origens, o Sanda é um estilo bastante completo. Desse modo, desenvolve, além de habilidades técnicas e atributos filosóficos característicos das artes marciais chinesas, a velocidade de reação. Frente a isso, no conjunto das competições a pontuação é atribuída conforme a execução correta e completa das técnicas, amparando-se nos critérios de pontuação de cada evento esportivo.

Tai Chi Chuan

Esse estilo é amplamente praticado atualmente com foco na manutenção da saúde, vertendo-se à harmonização física, mental e espiritual, tanto de forma esportiva quanto por meio de uma abordagem terapêutica. Apesar dessa dupla configuração, o Tai Chi Chuan surgiu como uma arte marcial, no século XVII. Desse modo, esse estilo se volta a elementos técnicos de torção, projeção e controle da força do oponente.

Tradicionalmente, assume-se que o Tai Chi Chuan possui cinco estilos, criados, desenvolvidos e transmitidos por diferentes famílias chinesas. Assim, esses estilos recebem os nomes das famílias às quais são atribuídos, sendo eles: Chen, Thssen, Yang, Wu (ou também Hao) e Sun. Apesar disso, esse estilo apresenta desdobramentos além desses cinco tradicionalmente reconhecidos, decorrentes da hibridização com outros estilos de Kung Fu.

Entre os estilos considerados híbridos de Tai Chi Chuan se encontra o estilo de Pequim, desenvolvido com finalidade terapêutica e também esportiva pelo governo chinês. Esse estilo possui formas (rotinas/Taolu) padronizadas para ser praticado, proposto pelo Comitê Nacional de Esportes da China, tornando-se popular no país e no mundo, sobretudo com os investimentos na esportivização do Wushu, como mencionado anteriormente.

Qi Gong

O Qi Gong é uma modalidade que inclui estilos de Kung Fu mais diretamente voltados à manutenção da saúde dos praticantes, a exemplo da prática terapêutica de Tai Chi Chuan. Nesse sentido, envolve estilos que desenvolvem métodos e/ou exercícios com técnicas corporais voltadas ao trabalho do Qi (ou Chi), que representa a energia vital do corpo humano.

Esse estilo se desenvolve a partir da medicina tradicional chinesa, a qual se volta à utilização adequada das energias mais sutis do corpo (o Qi). Sua finalidade, portanto, consiste na harmonização e no reestabelecimento do equilíbrio entre saúde física e emocional. Para isso, propõe exercícios físicos aliados a técnicas de respiração orientados à interação entre corpo e mente.

O Qi Gong deriva também do Tao Yin, caracterizando-se, assim, pela união de habilidades de luta e de conscientização acerca da interação entre o físico e o mental. Nesse sentido, os diferentes etilos que o constituem podem ser definidos como estáticos ou dinâmico. Os estilos estáticos referem-se a práticas como meditações guiadas e visualização criativa, vertendo-se a processos de cura e exercícios que focalizam a alteração da frequência cerebral.

Os estilos dinâmicos de Qi Gong envolvem exercícios físicos centrados em técnicas de visualização e respiração. Entre esses estilos se encontram as artes marciais, promovendo a alteração da frequência mental e a harmonia entre corpo e mente por meio de exercícios que auxiliam tanto na defesa pessoal quanto na melhora de capacidades físicas, como força e resistência muscular e respiratória.

Ying Zhao Fan Zi Men

Esse estilo também é conhecido como Garra de Águia e decorre da fusão de dois sistemas do Wushu do norte chinês: o Fan Zi Quan e o garra de águia. O primeiro sistema se fundamenta em ataques repetitivos e lineares realizados em velocidade. Já o segundo sistema se inspira em características da águia, baseando-se em movimentos de pegadas, imobilizações e chaves, realizados com agilidade, força e precisão.

Assim como a maioria dos estilos de Wushu tradicionais, o estilo Garra de Águia busca o treinamento de habilidades que se assemelhem àquelas percebidas em animais. Desse modo, esse estilo desenvolve a força dos dedos, das mãos e dos braços. Com isso, aprimora técnicas de imobilização do adversário, visando o menor dispêndio energético e a maior funcionalidade dos movimentos executados.

Em decorrência disso, o estilo tem como principal característica a realização de técnicas aplicadas com o formato de garras, com o intuito de controlar o adversário ao imobiliza-lo. No entanto, além de técnicas de imobilização e torção, próprias do sistema de Chin-na (ou Qin Na), esse estilo possui também uma ampla gama de técnicas de chute.

Dragão

Esse estilo também é chamado de estilo do Dragão. Suas técnicas de ataque e defesa aludem aos movimentos místicos e poderosos desse lendário animal chinês, constituindo-se em movimentos mais fechados e destrutivos. Esse é o único estilo de arte marcial baseado em animais místicos. São característicos desse estilo, portanto, movimentos realizados com as articulações, como as de cotovelo, joelho e tornozelo, definidos como movimentos longos, contínuos e coerentes.

Devido às características das movimentações, esse estilo apresenta um treinamento complexo, dado que desenvolve transições entre diferentes posições. Outro aspecto do treinamento desse estilo é a busca por desenvolver golpes simples e compactos, rígidos, blocados, de modo a fortalecer o corpo e desenvolver o Chi. No entanto, as movimentações são realizadas de forma rápida e contínua, sendo os golpes deferidos de modo forte e suave.

A prática esportiva e/ou competitiva desse estilo ocorre no formato de apresentação, sendo voltado a demonstração de capacidades físicas e motoras, e não para o combate. Do mesmo modo, sua prática não-esportiva se volta à manutenção da saúde, pelas mesmas qualidades citadas. Nesse sentido, o lema que orienta esse estilo se baseia no autocontrole como caminho para se conhecer e, do mesmo modo, conhecer e superar o oponente.

Existe uma ampla gama de estilos de Kung Fu, sendo eles desdobrados em práticas de artes marciais, terapêuticas, voltadas à manutenção da saúde, entre outras finalidades. Nesse sentido, além dos estilos mencionados, é importante destacar os estilos Shaolin e Tradicional, dado que comumente surgem dúvidas a respeito das diferenças entre eles. Portanto, vejamos a seguir as características de ambos.

Kung Fu Shaolin e Tradicional

Embora os estilos de Kung Fu tenham se fundido e dado origem a outros estilos e sistemas, alguns traços ainda são observados entre as práticas dessa arte marcial. Com isso, comumente surgem dúvidas a respeito das relações e distinções entre algumas modalidades, dentre elas, as Shaolin e Tradicional.

Kung Fu Shaolin

O Kung Fu shaolin refere-se àquele originado no Templo Budista Shaolin, um mosteiro fundado em 495 d. C., localizado na província chinesa de Henan. Nesse local o indiano conhecido pelo pseudônimo de Tamo transmitiu aos monges budistas dois importantes ensinamentos. O primeiro deles corresponde ao método indiano de autodefesa chamado à época de Vajramushti (atualmente Kalarippayat).

O segundo ensinamento de Tamo foram conhecimentos da anatomia e fisiologia do corpo humano, associados a formas de aprimorá-las por meio de exercícios físicos e mentais. Desses dois ensinamentos nasceu, portanto, o “Kung Fu Shaolin”, uma arte marcial que permitiu ao clero do templo se defender de saqueadores e retomar as forças físicas fragilizadas pelos hábitos de constante oração e meditação.

Kung Fu Tradicional

O termo Kung Fu tradicional é amplamente utilizado para se referir aos estilos que buscam desenvolver técnicas, métodos, princípios e legados das gerações precedentes nos treinamentos. Assim, aludem, principalmente, mas não exclusivamente, as modalidades e/ou estilos que mantém em sua essência a prática de Kung Fu como método de combate, de forma geral.

No entanto, é importante destacar que o Kung Fu tradicional praticado atualmente não possui a mesma configuração de sua origem, em que visava a preparação física e técnica para a sobrevivência e para a guerra. Isso porque, com o passar dos anos e com as reorganizações da vida em sociedade, essa arte marcial foi perdendo a latência de seu caráter guerrilheiro e dando espaço à prática voltada para a defesa pessoal.

Logo, identificam-se traços do Kung Fu tradicional nos diferentes estilos dessa arte, embora eles variem em sua ênfase (ataque, defesa pessoal, melhora da saúde, equilíbrio emocional, aprimoramento técnico-esportivo, etc.). Além disso, é importante ressaltar que tanto as técnicas desenvolvidas pelas gerações originárias quanto as armas herdadas delas recebem tratamentos diferenciados na atualidade em relação ao contexto em que surgiram, conforme a escola e/ou o professor que transmite os ensinamentos.

Kung Fu no cinema

O cinema teve um papel primordial na popularização do Kung Fu entre os povos ocidentais, assim como para seu reconhecimento enquanto elementos constituinte da cultura chinesa, além de prática marcial esportiva. Desse modo, separamos indicações de filmes como sugestões para que você possa explorar um pouco essas questões:

O Mestre Invencível (1978)

Nesse filme, o grande astro de Hollywood e estrela das artes marciais, Jackie Chan, interpreta Wong Fei-hong, um jovem aprendiz de Kung Fu. O filme é uma boa indicação para você conhecer o estilo “punho bêbado” (ou punho embriagado). Esse estilo se caracteriza pela habilidade de enganar o oponente, utilizando-se, para isso, de movimentos de desequilíbrios, giros, saltos, esquivas e acrobacias.

O Templo de Shaolin (1982)

Referência cinematográfica à história do Kung Fu, esse longa retrata a história de um confronto entre o imperador Zheng e discípulos do templo de Shaolin. Entre esses discípulos se encontra Chieh Yuan (interpretado por Jet Li), personagem que busca vingar a morte do pai por guerreiros do imperador. Sua relevância para essa arte marcial consiste na representação da destruição do templo de Shaolin, resultando na popularização do Kung Fu pelos monges sobreviventes.

O Clã das Adagas Voadoras (2004)

A trama se passa em 859, ano em que a dinastia Tang começa a decair em seu poder e a ser derrotada pelos clãs que se rebelam contra seu governo na China. Entre esses grupos de rebeldes está o poderoso Clã das Adagas Voadoras, uma referência chinesa aos cavaleiros e/ou heróis Wuxia.

Shaolin (2011)

Dirigido pelo diretor e produtor honconguês Benny Chan, o filme “Shaolin” retrata a história da China antiga, quando chefes militares buscavam a expansão do poder por meio da invasão de terras vizinhas. Nesse cenário, a obra é uma interessante indicação para explorar a relação entre essa arte marcial e as formas de combate militares ocorridas na China no período de disputas por poder e invasões territoriais.

A Origem do Dragão (2016)

Esse longa faz parte dos filmes que contribuíram para a popularização do Kung Fu por meio do cinema. Ele demonstra duas facetas entre a prática de Kung Fu. De um lado, Philiip Ng (Bruce Lee) representa a arrogância e o egocentrismo entre praticantes da arte marcial. De outro lado, Xia Yu (Wong Jack Man) representa o uso dessa arte para o autoconhecimento e o estudo do oponente.

Essas são algumas indicações de filmes que separamos para você. Com eles é possível entender um pouco da relação entre o Kung Fu e o cinema, assim como aspectos históricos, lendários e filosóficos dessa arte marcial.

Saiba mais sobre o Kung Fu

A seguir estão alguns vídeos que separamos para aprofundar as questões apresentadas nesta matéria e complementar seus estudos acerca do Kung Fu. Não deixe de conferir:

Kung Fu e Wushu

Nesse vídeo, o professor Gabriel Almeida explica a relação entre os termos Kung Fu e Wushu, bem como a diferença entre eles. Assista para complementar o conteúdo apresentado a respeito da origem e do significado desses termos.

Estilos

Conheça os 10 principais estilos de Kung Fu praticados no Brasil. No vídeo, o professor Joel Correia comenta sobre as características técnicas desses estilos e também dá algumas dicas para quem deseja iniciar a prática. Assista e conheça-os melhor.

Sanda

Aqui o professor Gabriel Almeida faz uma introdução ao Sanda, uma das modalidades esportivas do Kung Fu. No vídeo ele também explica as regras dessa modalidade, a área de combate, os golpes válidos e proibidos, assim como as regiões do corpo que podem ou não ser golpeadas. Assista para entender as suas regras básicas.

Regras

Nesse vídeo, o professor Felipe França comenta a respeito das competições dos diferentes estilos de Kung Fu, abordando aspectos relacionados às regras das disputas, às movimentações, aos golpes e também às pontuações. Essa indicação é para que você entenda as peculiaridades desses eventos e também aprofunde as características das artes marciais do Kung Fu.

O Kung Fu refere-se não apenas a uma arte marcial, mas a uma filosofia de vida. Além disso, preza a harmonia entre corpo, mente e espírito nas práticas relacionadas. Para complementar seus estudos, entenda melhor esse envolvimento conferindo também sobre as artes marciais.

Referências

Artes marciais e jovens: violência ou valores educacionais? Um estudo de caso de um estilo de Kung Fu (2011) – Rafael Carvalho da Silva Mocarzel.

Artes marciais: Kung Fu – Rotinas e combate “o papel da preparação física” (1997) – Enrique Miluzzi Ortega.

Confederação Brasileira de Kung Fu Wushu [On-line] – Disponível em: https://cbkw.org.br/. Acesso em: 09 fev. 2021.

Confederação Brasileira de Shuaijiao [On-line] – Disponível em: https://cbshuaijiao.org/. Acesso em 15 fev. 2021.

Federação Paulista de Kung Fu [On-line] – Disponível em: https://www.fpkf.org/. Acesso em: 15

International Wushu Federation [On-line] – Disponível em: http://www.iwuf.org/. Acesso em: 09 fev. 2021.

O Kung Fu Wushu e os Jogos Olímpicos: história e possibilidades de inserção (2013) – Rafael Carvalho da Silva Mocarzel, Maurício Murad e José Maurício Capinussú.

João Paulo Marques
Por João Paulo Marques

Professor mestrando em Educação Física formado pela Universidade Estadual de Maringá. Pesquisador integrante do Grupo de Pesquisa Corpo, Cultura e Ludicidade (GPCCL/UEM/CNPq) e do Grupo de Estudos Foucaultianos (GEF/ UEM/CNPq). Temáticas estudadas envolvem corpo, subjetividade, discurso, cultura e saúde.

Como referenciar este conteúdo

Marques, João Paulo. Kung Fu. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/educacao-fisica/kung-fu. Acesso em: 19 de June de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [PARANA-2020]

O Kung Fu é a mais antiga das artes marciais e teve origem onde?

A) Grécia
B) China
C) Japão
D) Tailândia

A resposta correta é a alternativa B, pois, como explicado no decorrer da introdução histórica do Kung Fu, sua prática se origina na China, a partir do treinamento e/ou da preparação para a guerra.

2. [PARANA-2020]

Qual das Modalidades de Kun-Fu possui combate com duração de 3 rounds de 2 minutos cada?

A) Shuaijiao
B) Tai Chi Chuan
C) Qigong
D) Sanda

A resposta correta é a alternativa D.
A configuração de combate de Kung Fu em três rodadas de dois minutos cada compreende o formato das disputas do estilo Sanda, reconhecido como o estilo de luta livre dessa arte marcial.

3. [PARANA-2020]

Na modalidade Shuaijiao no Kung Fu, quais as maneiras de se vencer uma luta?

Como indicado na matéria, as três formas de se vencer uma luta na modalidade Shuaijiao são:
1- Obtendo maior pontuação ao final de uma luta.
2- Obtendo vantagem de oito pontos em qualquer momento da luta.
3- Quando um lutador é eliminado durante a luta.

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