Manguebeat

A lama, o caranguejo, a mistura da cultura popular com a cultura de massa e as críticas sociopolíticas marcam o movimento manguebeat.

O manguebeat surgiu inovando o cenário artístico brasileiro como um movimento cultural que trouxe a “manguetown”, ou seja, a cidade, para o protagonismo das produções. Os rios, as pontes, os becos sujos, os ônibus velhos e os sujeitos marginalizados compõem o repertório artístico que denuncia as contradições econômicas e sociais do Brasil. Conheça este movimento que completou 30 anos em 2021!

O que é manguebeat

O manguebeat (manguebit ou mangue beat) é um movimento cultural que surgiu na década de 1990 em Recife (Pernambuco), em um contexto de desigualdade social e abandono econômico. Jovens das camadas populares ligadas à vida nos manguezais criaram uma linguagem artística que mistura elementos da cultural popular e tradicional com a cultura pop.

Através de uma arte engajada na denúncia dos problemas sociais, esses jovens desenvolveram uma forma de expressão e de afirmação da cidadania, fazendo das experiências de vida da população marginalizada os temas de suas produções. Além de renovar o cenário cultural em Pernambuco e no Brasil, o manguebeat buscou reconstruir a identidade do mangue e de sua população, além de promover formas de inclusão por meio da arte.

Origem do nome

O nome manguebeat foi criado através da junção das palavras “mangue”, que se refere ao manguezal – ecossistema típico das áreas litorâneas brasileiras -, com a palavra “beat”, que significa batida, ou “bit”, relacionada ao mundo eletrônico. Recife é uma cidade composta por mangues nos quais trabalhadores capturam e vendem caranguejos para subsistência, por isso, tanto a lama quanto o caranguejo se tornaram símbolos do movimento.

Principais características

Por meio da arte, os jovens recifenses puderam construir um movimento cultural que expressa as experiências de vida de suas comunidades. Conheça outras características a seguir:

  • Mistura de ritmos da cultura regional (como o repente, o maracatu, o coco e a ciranda) com outras influências internacionais (como o rock, o punk, o hip hop e a música eletrônica).
  • Visão global da música sem perder de vista os aspectos sociais e humanos, assim, o movimento apresenta uma crítica à desvalorização e à falta de incentivo para a cultura fora do eixo Rio-São Paulo.
  • Revolta com a marginalização, a violência e o abandono econômico, social e cultural das comunidades pobres no Brasil. Temas esses muito presentes nas letras das canções.
  • Estilo visual que mescla vestimentas modernas, como óculos escuros e camisas estampadas com roupas tradicionais da região, como o chapéu de palha e o colar de coco.
  • A lama e o caranguejo foram elementos-chave nas capas de discos, cartazes de eventos e cenários dos shows. Inclusive, alguns artistas como Chico Science e a Nação Zumbi se cobriam de lama para as apresentações.
  • Uso de gírias e de expressões populares de Recife nas canções e no vocabulário dos artistas, buscando mostrar a identidade da cidade com seu sotaque, personagens, espaços e imaginário.

Conforme você viu, os artistas recifenses criaram uma linguagem musical e cultural para pensar sobre o presente, a sociedade e suas relações com a cidade.

Manifesto manguebeat

Em 1992, o músico e jornalista pernambucano Fred Zero Quatro escreveu o manifesto Caranguejos com cérebro dividido em três partes. “Mangue, o conceito” explica o mangue enquanto um ecossistema fundamental para a biodiversidade global; “Manguetown, a cidade” discute os efeitos da colonialidade em Recife com a destruição dos manguezais e os quadros de miséria urbana; Por fim, “Mangue, a cena” mostra o desenvolvimento de uma cena cultural ligada ao mangue que renovou a vida da cidade.

Principais artistas

O manguebeat mistura elementos diversos para a criação de uma nova linguagem cultural e tem produções na música, na fotografia e no cinema, dentre outras artes. Veja alguns de seus principais representantes:

Chico Science

Francisco de Assis França (Olinda, 1966 — Recife, 1997), conhecido Chico Science, foi vocalista da banda Chico Science & Nação Zumbi que alcançou sucesso internacional. O músico deixou dois discos gravados, “Da Lama ao Caos” e “Afrociberdelia”, antes de falecer em um acidente de carro. Confira algumas de suas composições:

(Fonte: Wikipedia)

Da lama ao caos
Da lama ao caos, do caos a lama
O homem roubado nunca se engana
O Sol queimou, queimou a lama do rio
Eu vi um xié andando devagar
E um aratú pra lá e pra cá
E um caranguejo andando pro sul
Saiu do mangue e virou gabiru
Ô Josué eu nunca vi tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça
Peguei um balaio fui na feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia e pegou a minha cenoura
Aê minha véia deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia eu não consigo dormir
E com o bucho mais cheio comecei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me desorganizando posso me organizar

A cidade
E a cidade se apresenta
Centro das ambições
Para mendigos ou ricos
E outras armações
Coletivos, automóveis,
Motos e metrôs
Trabalhadores, patrões,
Policiais, camelôs
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

Banditismo Por Uma Questão De Classe
Oi sobe morro, ladeira, córrego, beco, favela
A polícia atrás deles e eles no rabo dela
Acontece hoje e acontecia no sertão
Quando um bando de macaco perseguia Lampião
E o que ele falava outros hoje ainda falam
Eu carrego comigo: coragem, dinheiro e bala
Em cada morro uma história diferente
Que a polícia mata gente inocente
E quem era inocente hoje já virou bandido
Pra poder comer um pedaço de pão todo fudido
Banditismo por pura maldade
Banditismo por necessidade

Fred Zero Quatro

Fred Rodrigues Montenegro (Jaboatão dos Guararapes, 1965), conhecido como Fred Zero Quatro, é um compositor e cantor brasileiro. Fundou a banda Mundo Livre S/A em 1984, da qual é cantor e compositor. O termo “manguebit” apareceu pela primeira vez em sua composição:

Zeroquatro Montenegro

Manguebit
Sou eu transistor
Recife é um circuito
O país é um chip
Se a terra é um rádio
Qual é a música?
Manguebit
Um vírus contamina pelos olhos, ouvido
Línguas narizes fios elétricos
Ondas sonoras, vírus conduzidos a cabo
UHF, antenas agulhas
Antenas agulhas
Mangue manguebit

Samba Esquema Noise
A felicidade como a morte
É como um concurso milionário da Tv
Existe um globo infinito
Com bilhões de bolinhas
Girando
Em algum lugar
A cada instante uma deusa
Retira um número
Que pode ser o meu
Dá pra entender?
Por isso,
Nada de pudores
Dá pra entender?
Ou você explora o próximo
Ou o próximo é você
Esta é a única moral
Do mundo
Dá pra entender?

Jorge du Peixe

Jorge José Carneiro de Lira (Recife, 1967), mais conhecido como Jorge Du Peixe é um cantor e compositor. Integra a banda Nação Zumbi e, desde a morte de Chico Science é vocalista e sampler no grupo. Du Peixe também produz trabalhos com as bandas Los Hooligans e Los Sebosos Postizos. Veja algumas de suas famosas composições:

(Fonte: Wikipedia)

Na hora de ir
Chegou na hora de voltar
Voltou na hora de ir
O tombo já denunciado no susto
Aumenta o grito
A conversa suspensa no ar
Lançado o roubo
Foi na prova sem suspeito
À queima-roupa
A olho nu
Foi-se o ladrão
A fome não vai rir por tão pouco
E a fatura embolsando
O bocado que der pra levar

Hoje, amanhã e depois
Do começo ao fim
Quem vai ficar, quem vai ouvir, quem vai ver
O amanhã já sabe, vive-se hoje então
E de lá, sempre daqui pro que foi
E aquele que esquece lembra tudo depois
E se antes do filme isso ainda começar
Um olho aceso dentro da escuridão
Deixado vivo e bem atento no chão
Na estica do dia dançando o furacão
Pagou e devendo ainda assim foi
Hoje correndo atrás do amanhã e depois
Uns play, outros pray e outros nem sei

Siba

Sérgio Roberto Veloso de Oliveira (Recife, 1969), mais conhecido como Siba, é um cantor e compositor brasileiro. Começou tocando guitarra e rabeca na banda Mestre Ambrósio, pioneira do movimento manguebeat, e em 2002 formou a banda Fuloresta do Samba com músicas influenciadas pela ciranda e pelo maracatu de baque solto.

S I B A

Se Zé Limeira Sambasse Maracatu
Vi Zé Limeira descendo do firmamento
Um batalhão de jumento
Vinha tocando corneta
Mais de cem anjo perneta
Celebrando um casamento
Vem pra fazer negócio de confiança
Pra ver pesar na balança
Cinco véi num dá um quilo
Mais de cem grama de grilo
No bucho de uma criança

Pé-de-calçada
Mas eu fui num forró no pé duma serra
Nunca nessa terra vi uma coisa igual
Mas eu fui num forró no pé duma serra
Cume quente, baiano sensacional
Rabeca véia do pinho de arvoredo
Espalhava baiano no salão
O pandeiro tremia e maquinada
Eu via a poeira subir do chão
Hoje eu faço forró em pé-de-calçada
No meio da zuada, pela contramão
Eu fui lá na mata e voltei pra cidade
De caboclo eu sei minha situação

Cláudio Assis

Cláudio Assis (Caruaru, 1959) é um cineasta brasileiro. Seu filme Amarelo Manga (2002) mostrou em cenários, cores e sons a estética do manguebeat no audiovisual com o ambiente caótico da cidade em constante mutação. A trilha sonora desse filme, feita por Jorge Du Peixe em conjunto com Lúcio Maia, e a obra ganharam diversos prêmios.

Poster de divulgação do filme Amarelo Manga, (Fonte: Wikipedia)

Abaixo, listamos outros artistas que também participaram do movimento:

  • Gilmar Bola 8
  • Otto
  • Lúcio Maia
  • Toca Ogan
  • Gustavo da Lua
  • Pupilo

O lema do manguebeat é injetar energia na lama, por isso a imagem da antena parabólica afundada na lama é um símbolo do movimento para mostrar a união entre a natureza e a tecnologia e toda a potencialidade que elas podem produzir juntas.

Vídeos sobre um movimento local-global

Para aprofundar seus conhecimentos sobre o manguebeat, separamos três vídeos com detalhes desse movimento cultural que demonstram a importância dele na história e na cultura brasileiras. Assista!

Movimento Manguebeat

Neste vídeo, você acompanha informações sobre o surgimento do manguebeat e outros artistas, suas influências, a cena cultural de Pernambuco nos anos 1990, além de várias curiosidades sobre o movimento. Confira!

A história do Manguebeat

Filipe Drescher contextualiza o cenário de criação do manguebeat, apresenta as características musicais e visuais do movimento e fala sobre as carreiras dos principais artistas. Acompanhe!

Manguebeat em 1 minuto

Para revisar tudo o que você aprendeu até aqui, assista este vídeo do Reverb que resume a história do manguebeat em 1 minuto!

Agora que você já conhece o manguebeat, que tal continuar estudando sobre os movimentos culturais brasileiros? Para isso, leia a matéria sobre o Tropicalismo!

Referências

Leia o manifesto ‘Caranguejos com cérebro’ (2009) – G1
Mangue Beat: húmus cultural e social (2007) – Paula Tesser
Memorial Chico Science – http://www.recife.pe.gov.br/chicoscience
O cavaquinho turbinado de Fred Zero-Quatro: Uma análise da Banda Mundo Livre S/A e o uso de suas canções para entender a constituição do Manguebit (2011) – Esdras Carlos de Lima Oliveira
O manguebeat cinematográfico de Amarelo Manga: energia e lama nas telas – Alexandre Figueirôa

Érica Paiva Rosa
Por Érica Paiva Rosa

Professora, redatora e produtora cultural. Mestre em Letras pela UEM.

Como referenciar este conteúdo

Paiva Rosa, Érica. Manguebeat. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/artes/manguebeat. Acesso em: 20 de September de 2021.

Exercícios resolvidos

1. [UPE]

O Movimento Manguebeat surge no início da década de 90 do século passado, em Recife, num contexto marcado pela ofensiva econômica neoliberal, que deixou de lado as demandas sociais e abriu, assim, espaço para um “caldo” sociopolítico, propício ao surgimento de movimentos de rebeldia e contestação.

Fonte: CARVALHO, Cristina; GAMEIRO, Rodrigo. O Movimento Manguebeat na mudança da realidade sociopolítica de Pernambuco. In: http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/462.pdf/Adaptado.

Esse movimento teve como característica principal a:
A) articulação com as manifestações culturais da periferia.
B) institucionalização do movimento por meio de parcerias com a CUT e o MST.
C) junção da cultura popular e erudita, retomando o movimento regionalista.
D) construção de uma vanguarda intelectual e cultural nos padrões socialistas.
E) radicalização e luta com a adesão a movimentos sociais urbanos, como os sem-teto.

Resposta: A
Justificativa: A característica central do movimento manguebeat foi a articulação entre a crítica ao abandono social/econômico e as manifestações culturais da periferia do Recife.

2. [FBN]

Mangue – O conceito: Estuário. Em suas margens se encontram os manguezais, que estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo. Para os cientistas os mangues são tidos como os símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown – A cidade: Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex) cidade “maurícia” passou a crescer desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição dos seus manguezais. Nos últimos trinta anos a síndrome da estagnação, aliada à permanência do mito da “metrópole”, só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue – A cena: Emergência! Um choque rápido, ou o Recife morre de enfarte! O modo mais rápido de enfartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife, é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. Como devolver o ânimo e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco da energia e engendrar um “circuito energético”, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo, uma antena parabólica enfiada na lama.

(Adaptado. Nação Zumbi. Manifesto Mangue 1 – Caranguejos com Cérebro, 1992).

Manguebeat é um movimento cultural que surgiu no início da década de 1990, em Recife e, protagonizado pelas bandas Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. As alternativas a seguir apresentam exemplos da associação entre meio
ambiente, cultura e sociedade, contidos no manifesto manguebeat, à exceção de uma. Assinale-a.

A) Do caos, da lama e da miséria é possível tirar uma nova e revitalizante proposta cultural.
B) A metáfora do ecossistema do mangue relaciona meio ambiente e sociedade.
C) A moderna manguetown deve superar a pobreza e a estagnação cultural da “cidade maurícia”.
D) A “antena parabólica enfiada na lama” é a simbiose entre formas musicais regionais e o pop, capaz de produzir uma cultura global.

Resposta: C
Justificativa: Segundo o manifesto, a manguetown é descrita como a cidade que não superou os problemas deixados pela colonialidade holandesa e, como consequência, vivenciou o agravamento deles.

3. [SEDUC - CE]

O texto-manifesto escrito por Fred Zero Quatro, que inspira o movimento Manguebeat, intitula-se:

a) Raízes Locais.
b) Maracatu Atômico.
c) Caranguejos com Cérebro.
d) Modernidade Internacional.
e) Antena Parabólica Enfiada na Lama.

Resposta: C
Justificativa: O texto-manifesto se intitula “Caranguejos com Cérebro”.

4. [UEM]

Sobre os movimentos musicais no Brasil, assinale o que for correto.

01) O movimento manguebeat traz uma forte crítica social nas letras de suas músicas, abordando temas como fome, desigualdade social e busca pela identidade cultural, entre outros.
02) Os festivais de música surgiram no Brasil no início da década de 1940, junto com a popularização do rádio e da televisão.
04) Artistas do tropicalismo, como Caetano Veloso e Rita Lee, romperam com as influências estrangeiras nas suas músicas, negando a utilização de instrumentos musicais comuns no rock, como as guitarras elétricas.
08) Músicas de protesto foram apresentadas em festivais de música no Brasil; uma das mais famosas foi a canção intitulada Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré.
16) A banda Nação Zumbi mistura ritmos regionais, como o maracatu, com o pop e o rock; foi liderada por Chico Science e faz parte do movimento manguebeat.

Resposta: Somatória = 25
Justificativa: As alternativas corretas são as de numeração 01, 08 e 16.

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