Gênero Lírico

O gênero lírico é um texto onde há subjetividade e linguagem figurada e, normalmente, aparece escrito em versos, ou seja, em forma de poema.

O gênero lírico se faz sobre um fundo subjetivo. O centro de sua atenção é o eu expresso nas emoções que refletem o mundo interior.

O adjetivo “lírico” vem do nome da lira, instrumento musical utilizado pelos gregos para acompanhar seus cantos.

Daí surgem também as expressões “poema lírico” e “poesia lírica”. Até o final da Idade Média, os poemas eram cantados, mas pouco a pouco foram afastando-se do acompanhamento musical, e o texto passou a ser mais trabalhado formalmente através da divisão estrófica, da medida dos versos e do esquema rítmico.

Em relação ao conteúdo, a poesia lírica traz sempre um eu confessando suas emoções, seu estado de espírito. O lírico está associado ao emotivo, ao subjetivo.

Entretanto, esse “eu” não deve ser confundido com o poeta enquanto pessoa viva, mas enquanto um dado do discurso que centraliza a razão de ser dos ditos do poema. Leia a seguir um exemplo do gênero lírico:

Procurei-me nesta água da minha memória
que povoa todas as distâncias da vida
e onde, como nos campos, se podia semear, talvez,
tanta imagem capaz de ficar florindo…
Procurei minha forma entre os aspectos das ondas,
para sentir, na noite, o aroma da minha duração.
(Cecília Meireles, Medida de significação )

É o eu lírico atraindo todas as atenções para ele. Assim, os sentimentos postos no poema são um trabalho de linguagem e não uma experiência real da vida na história privada do poeta.

gênero lírico
Imagem: Reprodução

Apesar do gênero lírico ser característico da poesia, ele também está presente na prosa sempre que nela são encontrados termos de forte carga emotiva, que suscitam imagens visuais e sonoras pelo significado e pela combinação dos sons postos no texto.

Quando isso ocorre, damos o nome de “prosa poética” ou “poema em prosa”.

Principais características do gênero lírico

  • A base do gênero lírico é a subjetividade. Isto é, é sempre um eu confessando seu estado de espírito.
  • Quando o lírico aborda a realidade externa, é apenas como um caminho para chegar ao sujeito e não como fatos de uma história a ser relatada.
  • Compõem o gênero lírico: a musicalidade, a repetição, a lógica interna, a construção coordenada e a independência gramatical:
  • A musicalidade é o trabalho feito com os fonemas, com a combinação de termos, com as figuras de harmonia;
  • A repetição é o emprego das mesmas palavras, dos mesmos versos ou da mesma ideia. Mas essa repetição não traz algo novo, antes remete o leitor ao mesmo aspecto numa recorrência constante ao mundo interior do eu lírico;
  • A lógica interna é a independência em relação à racionalidade do discurso. Não se procura uma lógica de causa e efeito no que está dito no poema. Entra-se nele como se fosse uma comunhão com o espírito do sujeito que fala;
  • A construção coordenada (ou paratática) se faz constante porque o interesse está em mostrar estados de espírito, sentimentos. Assim, as construções subordinativas ficam em segundo plano;
  • A independência gramatical é a liberdade sobre várias exigências do discurso prático: uso livre das inversões, das repetições; possibilidade de cortar a frase e até mesmo as palavras; aplicação livre da metáfora e da metonímia; uso de jogos sonoros etc.

Referências

Teoria da Literatura: O gênero lírico – Antonio Cardoso Filho

Luana Bernardes
Prof. Luana Bernardes

Graduada em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pós-graduada em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela mesma Universidade.

Exercícios resolvidos

1. [UFSCAR]

Soneto de fidelidade
(Vinicius de Moraes)

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Nos dois primeiros quartetos do soneto de Vinicius de Moraes, delineia-se a ideia de que o poeta

a) não acredita no amor como entrega total entre duas pessoas.

b) acredita que, mesmo amando muito uma pessoa, é possível apaixonar-se por outra e trocar de amor.

c) entende que somente a morte é capaz de findar com o amor de duas pessoas.

d) concebe o amor como um sentimento intenso a ser compartilhado, tanto na alegria quanto na tristeza.

e) vê, na angústia causada pela ideia da morte, o impedimento para as pessoas se entregarem ao amor.

Resposta: D
O “eu lírico” do poema concebe o amor como um sentimento intenso a ser compartilhado, tanto na alegria quanto na tristeza, conforme apresentado na alternativa D.

2. [UFSC]

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

De acordo com as suas características, o poema pode ser classificado como um texto

a) lírico.

b) épico

c) narrativo.

d) dramático.

Resposta: A
O soneto mais conhecido de Luís de Camões, um dos principais nomes da literatura em língua portuguesa, apresenta uma temática lírica que envolve a emoção, estado de alma e os sentimentos do eu lírico, principais características do gênero lírico.

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