Gêneros literários

Do latim, genus-eris, significa origem, classe, espécie.

Estudos afirmam que a literatura surgiu juntamente à escrita, mas há os que a abordam como algo muito além do papel: alguns pesquisadores consideram a literatura das canções e das lendas, a literatura anônima e coletiva passada de boca em boca até então tomar forma e ganhar autores por meio do surgimento da escrita. Consideremos, então, que a literatura:

“É universal, mas não está ligada em particular a este ou àquele país ou período histórico. É de fato tão antiga quanto a raça humana e é inerente ao homem, como são parte dele os olhos ou os ouvidos, a fome e a sede.” (LEDO apud VAN LOON, 2001)

Independente de concordarmos com a literatura como algo inato ao homem ou como algo que nasceu apenas com a escrita, não podemos negar que, de fato, está enraizada à nossa natureza, pois expressamos por esse meio os significados que criamos através de nossa imaginação, nossa visão de mundo e nosso talento.

Se é possível simplificar algo tão grandioso, podemos dizer que a literatura é apenas a junção de palavras com intenções estética dividida pelos gêneros lírico, épico e dramático. Vejamos suas classificações:

1. Gênero lírico

Muito antes de nós, os gregos usavam cantar suas poesias, daí seu nome (lira era o insturmento usado para acompanhar e dar ritmo a essas “canções”) e suas características de versos, rimas, métricas e tantos outros recursos responsáveis pelo ritmo desse gênero. Esses recursos são imprescindíveis para realizar o papel fundamental dos textos líricos: expressar os sentimentos humanos por meio do eu-lírico, que fala de amor, tristeza, alegria, fatalidade e tantos outros. Os principais tipos de poesias desse gênero são a ode, elegia, idílio, écloga, epitalâmio e sátira.

Exemplo de texto lírico:

  • POEMA DE SETE FACES
    Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra
    disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
    As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres.
    A tarde talvez fosse azul,
    não houvesse tantos desejos.
    O bonde passa cheio de pernas:
    pernas brancas pretas amarelas.
    Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
    Porém meus olhos
    não perguntam nada.
    O homem atrás do bigode
    é serio, simples e forte.
    Quase não conversa.
    Tem poucos, raros amigos
    o homem atrás dos óculos e do bigode.
    Meu Deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus
    se sabias que eu era fraco.
    Mundo mundo vasto mundo,
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
    mais vasto é meu coração.
    Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
    botam a gente comovido como o diabo.
    (Carlos Drummond de Andrade)

2. Gênero épico (ou narrativo, segundo alguns autores)

Diferente do lírico, o gênero épico aborda o mundo exterior, geralmente com um narrador que conta, em forma de versos, um fato apresentando elementos de espaço, tempo e personagens – quase sempre carregam um herói que caracteriza as qualidades de um povo, como Camões fez em sua epopeia Os Lusíadas. Veja o trecho a seguir:

  • “Nesta frescura tal desembarcaram
    Já das naus os segundos argonautas,
    Onde pela floresta se deixavam
    Andar as belas deusas, como incautas
    Algüas doces cítaras tocavam,
    Algüas harpas e sonoras flautas;
    Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
    Seguir os animais que não seguiam.”

    (Camões. Os Lusíadas, canto IX)

3. Gênero dramático

Associado à representação, nesse gênero os personagens se comunicam diretamente, não apenas por descrições como nos textos narrativos. Veja o seguinte trecho d’O Chapeuzinho Verde, de Jô Soares:

(Cenário: Interior – noite. Delegacia de Polícia Distrito do Bosque. Setor de contrabando de Biscoitos.)

Locutor: (off) O caso da menina do chapeuzinho verde é uma história real. Apenas a cor do chapeuzinho foi trocada, depois da queda do Muro de Berlim.

(Câmara aproxima-se da mesa do inspetor Lobo Mau.)

Lobo Mau – Meu nome é Lobo Mau, mas podem me chamar de Lobo. Tinha acabado de resolver o caso dos Três Parquinhos. O chefe felicitou-me e afagou minha cabeça dizendo que eu era um bom policial. Eu disse que não era um policial, eu era um lobo.

Sonoplastia: acorde de suspense.

O relógio bate 8 horas.

Lobo Mau – Oito horas. Tenho de fazer minha ronda pelo bosque. Escovo meu pêlo e saio para a floresta.

Referências

LEDO, Teresinha de Oliveira. Manual de literatura. São Paulo: DCL, 2001.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. 7 ed. São Paulo: Ática, 2007.

Bárbara Neves
Por Bárbara Neves

Graduada em Letras Português - Licenciatura (UEM)

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1. [ENEM/2009] Gênero dramático é aquele em que o artista usa como intermediária entre si e o público a representação. A palavra vem do grego drao (fazer) e quer dizer ação. A peça teatral é, pois, uma composição literária destinada à apresentação por atores em um palco, atuando e dialogando entre si. O texto dramático é complementado pela atuação dos atores no espetáculo teatral e possui uma estrutura específica, caracterizada: 1) pela presença de personagens que devem estar ligados com lógica uns aos outros e à ação; 2) pela ação dramática (trama, enredo), que é o conjunto de atos dramáticos, maneiras de ser e de agir das personagens encadeadas à unidade do efeito e segundo uma ordem composta de exposição, conflito, complicação, clímax e desfecho; 3) pela situação ou ambiente, que é o conjunto de circunstâncias físicas, sociais, espirituais em que se situa a ação; 4) pelo tema, ou seja, a ideia que o autor (dramaturgo) deseja expor, ou sua interpretação real por meio da representação.
COUTINHO, A. Notas de teoria literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973 (adaptado).

Considerando o texto e analisando os elementos que constituem um espetáculo teatral, conclui-se que:

a) A criação do espetáculo teatral apresenta-se como um fenômeno de ordem individual, pois não é possível sua concepção de forma coletiva.
b) O cenário onde se desenrola a ação cênica é concebido e construído pelo cenógrafo de modo autônomo e independente do tema da peça e do trabalho interpretativo dos atores.
c) O texto cênico pode originar-se dos mais variados gêneros textuais, como contos, lendas, romances, poesias, crônicas, notícias, imagens e fragmentos textuais, entre outros.
d) Importante é a expressão verbal, base da comunicação cênica em toda a trajetória do teatro até os dias atuais.
e) A iluminação e o som de um espetáculo cênico independem do processo de produção/recepção do espetáculo teatral, já que se trata de linguagens artísticas diferentes, agregadas posteriormente à cena teatral.

2. [PUC/2013]
Toda viagem é interior
Embora
por fora
se vista o carro ou o trem
e se aprenda a nadar
com o navio
e a voar
pelos ares, com as bombas
e os aviões;
toda viagem
se faz por dentro
como as estações
se fabricam, invisíveis
a partir do vento
silenciosas
como quando um pensamento
muda de tempo e de marcha
distraído de si, e entra
em outro clima
com a cabeça no ar:
psiu, míssil, além do som
e de qualquer mapa
ou guia que desenrolo
míope, sobre a estrada
que passa
sob meu pé-pneumático
sob o célere céu azul
do meu chapéu;
toda viagem
avança e se alimenta
apenas de horizontes
futuros, infinitos, vazios
e nuvens:

toda viagem é anterior.

(FREITAS FILHO, Armando.Longa vida. Nova Fronteira, 1982, PP.115 – 116)

Determine o gênero literário predominante no texto, justificando a sua resposta com aspectos que o caracterizam.

1. [C]
Como menciona o trecho de Afrânio Coutinho, o espetáculo teatral é uma composição literária, cujo texto dramático possui uma estrutura específica, sendo caracterizado de maneira geral pela forma como é contado (pela ação e diálogo dos personagens, e não por um narrador), e não por seu conteúdo, que pode ser oriundo de diversas fontes. Portanto, a alternativa correta é a C.

2. O gênero literário predominante no poema de Armando Freitas Filho é o lírico, caracterizado pela presença do eu-poético, pelo tom intimista e pela utilização de uma linguagem que produz sensações. Observe também a utilização de pronomes na 1ª pessoa do singular: “meu chapéu, meu pé-pneumático” e o verbo desenrolar em: “que desenrolo”.

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