Anáfora

Anáfora é uma figura de linguagem do aspecto sintático amplamente utilizada em textos literários e consiste na repetição de elementos no início de uma sentença.

Quando um texto é escrito, em especial no meio literário, é possível utilizar ferramentas para alcançar uma maior expressividade. A anáfora, uma figura de linguagem ligada ao aspecto sintático, é um desses instrumentos que encontramos em músicas, em poemas e em romances, por exemplo. Neste texto, você aprenderá como reconhecê-la a partir de diversos exemplos.

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O que é anáfora?

A anáfora é, essencialmente, uma figura de linguagem do aspecto sintático da língua. Ela consiste na repetição de uma mesma estrutura no início de um conjunto textual. Essa reprodução pode ser de apenas uma palavra ou mesmo de uma expressão completa.

Como recurso expressivo, a anáfora auxilia na cadência temática de um texto, ao criar um ritmo imposto pela repetição. O leitor sente-se impelido a dar ênfase à repetição da estrutura em destaque. No tópico a seguir, você encontrará exemplos do uso da anáfora. Assim, perceba o ritmo de leitura em cada um deles.

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Exemplos de anáfora

Encontrada principalmente no meio artístico, a anáfora está presente em poemas, em romances, em contos e até mesmo em músicas. Muitas vezes, não percebemos o seu uso explicitamente, mas sentimos o ritmo imposto pela repetição sintática.

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Neste trecho da canção “Construção”, de Chico Buarque, perceba como temos a repetição da conjunção aditiva “e” nos três primeiros versos dessa estrofe.

Quem, senão ela, há de expulsar do templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco? quem, senão ela, exterminar da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? quem, senão ela, banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? quem, senão ela, varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão público? quem, senão ela, precipitar do governo o negocismo, a prostituição política, ou a tirania? quem, senão ela, arrancar a defesa da pátria à cobardia, à inconfidência ou à traição? quem, senão ela, ela a cólera do celeste inimigo dos vendilhões e dos hipócritas? a cólera do Verbo da verdade, negado pelo poder da mentira? a cólera da santidade suprema, justiçada pela mais sacrílega das opressões?

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Neste parágrafo do discurso “Oração aos Moços”, de Rui Barbosa, há a repetição da expressão “quem, senão ela” no início de diversos períodos.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

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É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor

No poema “Amor é fogo que arde sem se ver”, do poeta português Luís de Camões, é possível notar a ênfase que a repetição do verbo “é” causa na descrição do sentimento amoroso que o eu lírico nos traz.

Como podemos ver, a anáfora é um recurso muito útil para conferir expressividade a um conjunto textual, inserindo uma cadência sintática e sonora.

Anáfora e catáfora

Além de ser uma figura de linguagem, a anáfora também é, juntamente com a catáfora, um marcador de coesão textual. A primeira exerce a função de recuperar um elemento previamente citado em um texto; a segunda, em contrapartida, refere-se a um elemento que ainda aparecerá no fio discursivo. Veja dois exemplos:

Agora, os franceses enfrentam a Argentina na final, que acontece no domingo (18), quando jogará para repetir o título obtido no Mundial da Rússia em 2018. (Disponível em Nexo Jornal)

O pronome relativo “que”, em destaque, retoma o substantivo “final”. Esse tipo de coesão é denominado anáfora.

Só lhe saiu este pequeno verso: “Mudaria o Natal, ou mudei eu?”. (Machado de Assis)

O pronome demonstrativo “este”, em destaque, projeta a expressão após os dois pontos. Esse tipo de coesão é denominado catáfora.

Anáfora, aliteração e assonância

Você aprendeu que a anáfora é a repetição de uma estrutura sintática no início de uma sentença. Temos, porém, outros tipos de repetição que auxiliam na estética de um texto: a assonância e a aliteração, que são figuras de linguagem do aspecto fonético. Veja dois exemplos:

Segue o seco sem sacar que o caminho é seco
Sem sacar que o espinho é seco
Sem sacar que seco é o ser sol
Sem sacar que algum espinho seco secará
E a água que sacar será um tiro seco
E secará o seu destino secará

Neste trecho da canção “Segue o seco”, de Marisa Monte, é possível perceber a repetição do fonema consonantal /s/ (temos, portanto, uma aliteração). É interessante notar como o uso desse som remete a algo seco e áspero, o que combina com a temática da composição.

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No Sol de quase dezembro
Eu vou

Nessa canção de Caetano Veloso, “Alegria, Alegria”, temos, no segundo verso principalmente, a repetição do fonema vocálico /e/ (o que constitui uma assonância).

Ou seja, temos pelo menos mais esses três tipos de repetições que podem ocorrer em termos estilísticos em um texto.

Vamos revisar e aprender mais sobre o conteúdo?

Agora que você conferiu sobre a anáfora e sobre os conceitos relacionados, nada mais importante do que revisar o conteúdo e aprofundar ainda mais o entendimento sobre ele. Nos vídeos a seguir, você encontrará explicações adicionais sobre o que aprendeu até aqui.

Como é definida a anáfora?

Neste vídeo, você poderá conferir um resumo sobre a figura de linguagem denominada anáfora. São apresentados alguns exemplos para fixar ainda mais o conteúdo.

Qual é a diferença entre anáfora e catáfora?

Além de ser uma figura de linguagem, a anáfora também é um dos fatores de coesão. Com isso em mente, assista a essa aula para compreender melhor esse conceito e a relação dele com a catáfora.

Há muitas outras figuras de linguagem…

Além da anáfora, há outras figuras de linguagem. Neste vídeo, você encontrará a explicação de algumas delas, até porque não basta saber de apenas uma, não é mesmo?

Ufa! Quantas informações sobre a anáfora e os seus usos estilísticos. Agora, você com certeza conseguirá reconhecer essa figura de linguagem com mais facilidade nos textos que ler. Em tempo, lembre-se de também estudar as outras figuras de linguagem.

Referências

Dicionário de Termos Literários (2013) – Massaud Moisés.
Gramática Normativa da Língua Portuguesa (2021) – Rocha Lima.
Interpretação de Texto (2015) – Renato Gomes de Carvalho.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres, dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Como referenciar este conteúdo

Ferrari, Leonardo. Anáfora. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/portugues/anafora. Acesso em: 29 de February de 2024.

Exercícios resolvidos

1. [Integrado]

Leia a seguir o trecho de um poema de Vinicius de Moraes e assinale o item que identifica corretamente e figura de linguagem presente nele:

Tende piedade, senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.

a) Zeugma.
b) Metonímia.
c) Gradação.
d) Anáfora.
e) Eufemismo.

Gabarito: [D].

Explicação: Temos, no poema, a repetição da estrutura “Que ninguém mais”, o que caracteriza a figura de linguagem anáfora.

2. [ETEC]

Leia a cantiga de roda.

Se esta rua,
se esta rua fosse minha
eu mandava,
eu mandava ladrilhar
com pedrinhas,
com pedrinhas de brilhantes
para o meu,
para o meu amor passar.

Nesta rua,
nesta rua tem um bosque
que se chama,
que se chama solidão
dentro dele,
dentro dele mora um anjo
que roubou,
que roubou meu coração.

Se eu roubei,
se eu roubei teu coração
tu roubaste,
tu roubaste o meu também
se eu roubei,
se eu roubei teu coração
é porque,
é porque te quero bem.

Na cantiga, há a presença de uma figura de linguagem de construção denominada anáfora.
Assinale a alternativa que apresenta outro exemplo dessa mesma figura de linguagem.

a) “Não se sente no braço do sofá.”
b) “A vida é como o mundo dá voltas.”
c) “As flores, na primavera, dançam com o vento.”
d) “Este sempre foi meu lema: aproveitar as oportunidades ao máximo.”
e) “Passou um tempo. Passou um tempo. Passou um tempo desde que te vi.”

Gabarito: [E].

Explicação: Temos a repetição da estrutura “Passou um tempo”, o que caracteriza o uso da anáfora. Nas demais alternativas, não há nenhum padrão de repetição relevante.

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