Assonância

Capaz de criar novos sentidos em um texto, essa figura de linguagem fônica corresponde à repetição de sons vocálicos.

Na produção de um texto podem ocorrer o uso de diversas figuras de linguagem. Entre elas, estão as figuras de som ou de harmonia, que ocorrem pela repetição constante de um determinado fonema. Nesse contexto, a reincidência de sons vocálicos recebe o nome de assonância.

Esse recurso estilístico é utilizado primordialmente em textos literários e musicais, e permite aos escritores criarem e transmitirem sensações pelas palavras. Neste texto, você encontrará a definição de assonância, sua diferença em relação à aliteração e exemplos de sua ocorrência.

O que é assonância?

A assonância consiste na repetição de fonemas vocálicos tônicos em um texto de forma a criar um padrão harmônico, e seu uso ocorre principalmente na literatura, música e meio publicitário. Em um poema, canção ou prosa lírica, a repetição de uma determinada vogal ajuda na construção de uma sensação; no texto publicitário, frisa uma mensagem.

A etimologia da palavra assonância remete ao latim, especificamente ao verbo assono que significa produzir eco, ressoar. Há também outras figuras de linguagem em nível fônico, por exemplo, a aliteração, onomatopeia e paronomásia.

Aliteração e Assonância

Se a assonância é a repetição de sons vocálicos em um texto, aliteração é a repetição de sons consonantais. Para identificar corretamente cada um dos casos, é necessário apenas reconhecer os sons durante a leitura de um texto e verificar se há repetição deles. É importante ressaltar que nem sempre os grafemas correspondem aos sons produzidos durante a fala (para relembrar sobre os fonemas clique aqui). Os fonemas vocálicos do português brasileiro são:

Sons vocálicos, assonância
Fonte: Fonética e Fonologia. Cristiane Carneiro Capristano e Sonia Aparecida Lopes Benites (org.). 2011, p. 24.

Para compreender melhor a diferença entre assonância e aliteração, repare no seguinte trecho do poema Cobra Norato, de Raul Bopp. Aqui, é possível verificar a assonância em a e aliteração em m ocorrendo em um mesmo verso.

Ouço miando no mato a alma de gato
Tincuã quando pia é mau agoiro…
(Cobra Norato, Raul Bopp, 2014)

Exemplos

A assonância pode ser encontrada, principalmente, em textos literários, como em poemas e na prosa poética, e em músicas. A seguir estão alguns exemplos para uma melhor sedimentação do conteúdo.

Na música

Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô […]
(A galinha, Chico Buarque e Sergio Bardotti, 1977)

Há a repetição predominante dos fonemas /ɔ/ e /ʊ/ que constroem um paralelo com as duas vogais, e seus respectivos fonemas, da palavra ovo (‘ɔvʊ), que por sua vez remete ao título da canção.

Sou Ana, da cama
Da cana, fulana, bacana
Sou Ana de Amsterdam […]
(Ana de Amsterdam, Chico Buarque e Ruy Guerra, 1977)

Aqui há a repetição do fonema /ə/. Interessante notar como a assonância cria a musicalidade da canção, com Ana rimando com cana, fulana e bacana.

Na prosa poética

Buscava no intercurso o concurso do seu corpo […]
(Lavoura arcaica, Raduan Nassar, 1989)

Lavoura arcaica é um romance lírico, por isso, Raduan Nassar utiliza diversos recursos estilísticos característicos da poesia para compor sua prosa. No trecho selecionado, temos a repetição dos fonemas /u/ e /ʊ/.

Na poesia

A ponte aponta
e se desaponta.
A tontinha tenta
limpa a tinta,
ponto por ponto
e pinta por pinta… […]
(Tanta tinta, Cecília Meireles, 1964)

Neste trecho há a repetição dos fonemas /õ/ (grafemas: on) e / ĩ/ (grafemas: im, in).

lá?
ah!
sabiá
papá
maná
sofá
sinhá
cá?
bah!
(Canção do exílio facilitada, José Paulo Paes, 1973)

Neste poema de José Paulo Paes há o uso primordial do fonema /a/, remetendo a própria musicalidade da palavra sabiá, do poema original de Gonçalves Dias.

Na propaganda

Amo Muito Tudo Isso.
(McDonald’s Brasil)

O uso da repetição do fonema /ʊ/ no slogan brasileiro da rede McDonald’s permite uma maior fixação da mensagem, isto é, possivelmente o leitor se lembrará com mais facilidade da marca.

Portanto, é importante reconhecer a assonância para conseguir realizar uma análise mais completa em textos musicais, literários e até mesmo publicitários, uma vez que essa figura de harmonia permite criar musicalidade e novos sentidos em uma composição textual.

Referências

A estilística do texto publicitário – Diogo D’Ippolito Olio Bartolomeu da Silva;
Dicionário Escolar Latino–Português – Ernesto Faria;
Dicionário Fonético – Portal da Língua Portuguesa;
Fonética e Fonologia – Cristiane Carneiro Capristano, Sonia Aparecida Lopes Benites;
Teoria da Literatura I – Olga Guerizoli Kempiska, Roberto Acízelo Quelha de Souza.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [ENEM]

Tanta Tinta, de Cecília Meireles
Ah! Menina tonta,
toda suja de tinta
mal o sol desponta!

(Sentou-se na ponte,
muito desatenta…
E agora se espanta:
Quem é que a ponte pinta
Com tanta tinta?…)

A ponte aponta
e se desaponta.
A tontinha tenta
limpa a tinta,
ponto por ponto
e pinta por pinta…

Ah! A menina tonta!
Não viu a tinta da ponte!

Na construção de seu poema, a autora empregou alguns recursos fônicos que contribuem para a produção de sentidos. Nos versos, as aliterações (repetição de sons consonantais) e assonâncias (repetição de fonemas vocálicos) têm propósito:

a) rítmico, para que o efeito moralizante do poema seja assimilado pelo público infantil.
b) musical, pois a sonoridade se assemelha a de um trem que passasse pela referida ponte.
c) lúdico, pois é empreendida uma brincadeira poética com os sons das palavras.
d) experimental, pois as palavras são associadas livremente em um automatismo surrealista.
e) estético, o qual objetiva aproveitar o poema do estilo empregado na lírica clássica.

Correta: c.

Justificativa: A letra (a) está errada, pois não existe tom moralizante no poema. Também não existe uma alusão ao som de um trem, o que faz a (b) estar incorreta. O poema possui uma linha narrativa e não possui uma estética clássica, por isso, (d) e (e) podem ser descartadas. A letra (c) está correta, pois o público-alvo são crianças.

2. [COPESE]

Leia o poema a seguir e responda a questão:

S.O.S.
não houve sim
que eu dissesse que não fosse o começo
de um esse o esse
LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 345.

a) paronomásia.
b) assonância.
c) aliteração.
d) pleonasmo.

Correta: b.

Justificativa: Há a repetição do fonema /i/ (grafema: e).

S.O.S.
não houve sim
que eu dissesse que não fosse o começo
de um esse o esse

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