Manoel de Barros

Manoel de Barros foi um importante poeta brasileiro que elegeu o inútil como forma de conhecer o mundo por um viés poético.

Manoel Wenceslau Leite de Barros (1916-2014) foi um poeta mato-grossense conhecido por transformar “inutilidades” em poesia, ou seja, mostrou que a poesia está nas coisas mais simples e que há beleza onde menos se espera, como em insetos e cacos de vidro. Saiba mais nesta matéria!

Biografia

(Fonte: Blog da Companhia)

Manoel de Barros nasceu em Cuiabá no ano de 1916, onde viveu boa parte de sua vida, sobretudo na área rural e pantaneira. Estudou em um colégio interno, onde teve seu primeiro contato com Literatura. Seu primeiro livro foi publicado artesanalmente aos 21 anos, chamado Poemas concebidos sem pecados (1937).

Pouco depois, foi viver no Rio de Janeiro, onde estudou e formou-se em Direito. Também nessa época filou-se ao Partido Comunista e, durante a ditadura militar de Getúlio Vargas, passou um tempo na Bolívia, Peru e Nova York, dedicando-se a atividades culturais diversas, como pintura e cinema.

O poeta voltou ao Brasil somente nos anos 60 e passou a viver da criação de gado na cidade de Corumbá (MT). Essa atividade permitiu que ele “comprasse o ócio”, conforme salientou em entrevistas. Com a publicação de A face imóvel (1942), começou a ter maior visibilidade, chegando a se tornar um dos maiores poetas brasileiros da contemporaneidade.

Manoel de Barros faleceu em 2014, aos 97 anos, em decorrência de uma falência múltipla dos órgãos. Embora tenha partido, restou para nós, leitores e estudantes, uma vasta obra poética, que mereceu prêmios importantes: Prêmio APCA, Prêmio Jabuti e Prêmio Nestlé. Também foi traduzido para outras línguas e recebeu prêmios literários internacionais.

Principais características da poesia de Manoel de Barros

A crítica literária tem certa dificuldade de enquadrar Barros como um poeta pertencente à terceira geração do Modernismo, visto que suas produções destoam das temáticas e estruturas recorrentes desse período literário. Veja as características da poesia do autor a seguir:

  • Recuperação de objetos inúteis: o poeta versava sobre coisas comuns e vistas como inúteis pelas pessoas, ou seja, sapatos, baratas, bules, entre outras coisas, eram transformados em arte. Por meio desses elementos, Barros propunha um conhecimento poético do mundo.
  • Dessacralização da poesia: ao falar sobre elementos vistos como inúteis, o autor dessacralizava a poesia, no sentido de mostrar que ela não é algo inacessível, complexo e para poucos.
  • Questionamento sobre o mundo moderno e mercadoria: ao dar valor a coisas simples, como a natureza, o mato e as vivências da infância, a poesia de Manoel de Barros acaba por confrontar o modelo de vida moderno baseado no ter e no ser. Assim, questiona a valorização de mercadorias e do consumo desenfreado, que deixa de lado o que realmente importa na vida, como o canto dos pássaros e a imaginação.
  • Reinvenção de sentido e neologismos: para além da valorização da insignificância, o poeta também atingiu a reinvenção do sentido das palavras e criou alguns neologismos, sendo até comparado a Guimarães Rosa. É uma característica muito comum em seus poemas a associação de seres, objetos e/ou sensações que, a princípio, parecem não associáveis, tais como “lodo das estrelas”, “pedras que cheiram água”, dentre outros inúmeros versos.
  • Oralidade: outra característica muito marcante na poesia de Barros é a presença da oralidade, marcada por um tom coloquial-rural, ou seja, apropriando-se de expressões presentes no cotidiano, na sua vivência entre seres humanos e a natureza.

Agora que você conhece um pouco das características mais marcantes da poesia de Manoel de Barros, confira, na sequência, os seus principais poemas e obras publicadas.

Principais obras

Leia, a seguir, alguns versos de Barros para compreender as características listadas anteriormente. Saiba também quais obras do escritor são indispensáveis para conhecer melhor sua produção poética.

Matéria de poesia [Trecho]
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore serve para poesia

Terreno de 10 x 20, sujo de mato — os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo tem seu lugar
na poesia ou na geral
(Manoel de Barros)

Biografia do orvalho
A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
(Manoel de Barros)

Poema
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
(Manoel de Barros)

Principais livros do autor:

  • Compêndio para uso dos pássaros (1960)
  • Gramática expositiva do chão (1966)
  • O guardador das águas (1989)
  • O livro das ignorãças (1993)
  • O fazedor do amanhecer (2001)

Vale ressaltar que, recentemente, foi publicada a Poesia completa (2010) de Manoel de Barros. A partir dessa obra, é possível conhecer toda a produção poética do autor e compreender ainda mais a valoração da inutilidade das coisas por ele proposta.

3 frases de Manoel de Barros

Que tal ler mais um pouco? Confira frases retiradas de belos poemas do poeta mato-grossense:

  1. “Não quero a boa razão das coisas./ Quero o feitiço das palavras” (Trecho do poema “Deus disse”).
  2. “Prefiro as palavras obscuras que moram nos/ fundos de uma cozinha — tipo borra, latas, cisco/ Do que as palavras que moram nos sodalícios —/ tipo excelência, conspícuo, majestade” (Trecho do poema “A borra”).
  3. “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira” (Trecho do poema “Livro sobre nada”).

Agora que você já conhece um pouco sobre a vida e obra de Manoel de Barros, aprofunde seus conhecimentos por meio dos vídeos abaixo.

Vídeos sobre vida e obra do poeta

A partir destes vídeos, você verá professores e pesquisadores falando tanto sobre a produção poética de Manoel de Barros quanto acerca da biografia do poeta. Aprofunde os conhecimentos abordados nesta matéria!

Quem foi Manoel de Barros e sobre o que ele escrevia?

A partir desse vídeo da Cabine Literária, você saberá mais detalhes sobre a vida de Manoel de Barros, sobretudo sobre como ele foi descoberto no mundo literário. Saiba, também, alguns detalhes sobre o processo de escrita dele.

Manoel de Barros e o olhar infantil

Nesse vídeo, a professora Camila Zuchetto aborda a vida e obra de Manoel de Barros, com foco no ENEM. Além disso, ela tece comentários acerca da linguagem simples de seus textos, que traziam temáticas profundas, pelo olhar infantil. Confira!

Manoel de Barros e Modernismo

A partir dessa aula da professora Paolla, você terá algumas dicas sobre as principais características da poesia de Manoel, situando-o como escritor modernista. Essas informações te ajudarão muito, sobretudo se pretende prestar o ENEM.

Se você ainda não conhece a geração de 45, na qual está inserido Manoel de Barros, não deixe de ler também sobre o Modernismo no Brasil.

Referências

Poesia completa (2010) – Manoel de Barros

Tendências Contemporâneas – Rodrigo Marques de Oliveira

Estela Santos
Por Estela Santos

Doutoranda em Letras - Estudos Literários (UEM), professora, redatora e mediadora do #LeiaMulheres - Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Santos, Estela Pereira dos. Manoel de Barros. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/manoel-de-barros. Acesso em: 25 de November de 2020.

Exercícios resolvidos

1.

Sobre o autor Manoel de Barros, é correto afirmar que:

A) Há uso de vocabulário coloquial e de uma sintaxe pautada na oralidade.
B) A poesia de Manoel de Barros não é uma leitura fácil, visto que as possibilidades de comunicação são dificultadas pelos neologismos.
C) Em sua poesia não há reflexões voltadas para os seres humanos em relação com a natureza e a linguagem.
D) A arte literária de Manoel de Barros não procura transfigurar a realidade.
E) A metalinguagem não é uma característica da poesia de Manoel de Barros.

Resposta correta: A

Justificativa:
A oralidade é uma das principais características do autor, conforme abordado nesta matéria. A oralidade é uma espécie de ferramenta de expressão da linguagem, que busca ser acessível para qualquer leitor, de modo a mostrar um mundo pautado na simplicidade.

2. [UNEMAT]

Leia o poema “As lições de R. Q.”, de Manoel de Barros, abaixo transcrito, e resolva o que se pede.

“Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):
A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas. Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.
Isto seja:
Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo […]”.

Considerando no contexto das tendências dominantes da poesia de Manoel de Barros, no Livro sobre nada, pode-se afirmar que, neste texto, o “eu lírico” vê o mundo como:

A) Oportunidade de manifestar seu desapego tanto pelo sagrado como pelo profano.
B) Ânsia de integração em uma sociedade em que o sujeito só é reconhecido pela excentricidade e estranheza.
C) Transfiguração do mundo, que corresponde à experiência dos próprios sentidos.
D) Frustração, uma vez que o artista é um derrotado, e Deus, uma ameaça.
E) Esvaziamento do sentido de Arte, de Natureza e da ausência de sonhos.

Resposta correta: C

Justificativa:
Dentre as principais características da produção de Manoel de Barros, está a intenção de metamorfosear o real, isto é, ver o mundo com os olhos livres, como uma criança o vê, livre de pré-conceitos, complexidades, ganância etc.

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