Revolução Pernambucana

A Revolução Pernambucana de 1817 foi mais do que uma revolta que surgiu numa relação de causa e efeito. Os seus ideais e motivações baseavam-se em insatisfações e buscas por uma nova ordem política.

Ao contrário do que se costuma pensar, a Revolução Pernambucana foi mais que uma simples relação de causa e efeito entre esta província e a corte portuguesa. O núcleo central dessa insurreição se assenta num conflito de interesses políticos e econômicos que visavam a sustentação do poder de grupos distintos.

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História da revolução: Pernambuco em armas

Geralmente, a Revolução pernambucana é datada a partir de 1817, isto é, pelo seu ápice e manifestação concreta na sociedade imperial que vivenciava um novo status e ordem política, tendo em vista que o Brasil já havia sido elevado à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves, em 1815. Contudo, esse marco, apesar de importante para entender o evento histórico, é apenas a ponta do “iceberg”.

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A principal característica da Revolução Pernambucana — Insurreição de 1817, como também é conhecida — foi a busca pela ruptura com Portugal e a independência do Brasil; haviam motivações separatistas no movimento.

Com a vinda da família real, em 1808, a realidade política e econômica do Brasil passou por algumas mudanças, dentre elas a decisão de abrir novamente os portos para as relações comerciais exteriores, em 1810; tal decisão, ligada a outros fatores, movimentou as atividades comerciais, especialmente em Pernambuco. Essa posição ocupada por Pernambuco incentivou a sua lucratividade, principalmente entre a elite rural.

Por Pernambuco ocupar essa posição de certo prestígio, a corte portuguesa passa a cobrar altos impostos aos comerciantes nativos com a finalidade de financiar os gastos da corte e as guerras em que o príncipe regente estava envolvido. Houve, claramente, um aumento significativo no custo de vida na província, o que gerou grande insatisfação, visto que os comerciantes portugueses foram favorecidos.

Lentamente, os altos impostos começaram a ser vistos com descontentamento. Essa reação, inicialmente alimentada por senhores de engenho e comerciantes, foi agravada após a seca ocorrida em Pernambuco entre os anos 1815 e 1816, ocasionando uma forte crise na produção de açúcar e algodão que, com a insatisfação da população quanto aos altos impostos e contra o domínio do comércio pelos comerciantes portugueses. Em 6 de março de 1817, Pernambuco pegou em armas.

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Vale mencionar também que as maiores armas da revolução pernambucana não foram apenas as armas físicas, mas as ideias que motivaram esse movimento separatista; isso porque Pernambuco era um grande centro de ideias revolucionárias sob influência dos ideais iluministas, sendo o Recife, por exemplo, um polo de discussão e difusão de ideias liberais e republicanas.

Causas: a insatisfação como motor da Revolução

A revolta separatista ocorrida em Pernambuco foi impulsionada por fatores políticos, sociais e econômicos, e dela fizeram parte vários grupos sociais distintos, como os padres, militares, senhores de escravizados, homens livres, além dos senhores de engenho e comerciantes locais.

O movimento, descoberto pelo governo português, foi logo desestabilizado com a prisão de alguns dos seus líderes. A revolução começou quando o militar, José de Barros Lima, matou um oficial de alta patente que lhe deu voz de prisão. Tal ação motivou um levante no quartel resultando na captura do governador, que havia outrora se refugiado no Forte do Brum. Após esses acontecimentos, houve a libertação dos líderes da revolução presos no Forte das Cinco Pontas; no mesmo dia, ocorreu a formação do Governo Provisório que anunciava, pelo menos por 74 dias, a independência de Pernambuco de Portugal.

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Em 1817, após a destituição do governo da província, os revolucionários uniram-se e proclamaram a Lei Orgânica, uma espécie de esboço da Constituição republicana, e junto a isso construíram trincheiras de modo a impedir as investidas militares das tropas portuguesas.

Os insurretos também enviaram alguns comissários para outras regiões próximas a Pernambuco (Paraíba, Alagoas, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte), e até mesmo para o exterior — Estados Unidos, Argentina e Inglaterra. Percebe-se, portanto, tentativas diplomáticas por parte dos revolucionários.

Durante um certo tempo, a busca pela instituição dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), a liberdade de imprensa e culto, o fim dos altos impostos, os ideais republicanos e a preservação do sistema escravista foram algumas das motivações dos revolucionários, mostrando, inclusive, algumas das suas contradições.

Principais líderes da revolução

O governo provisório foi formado por alguns integrantes que, além de atuarem como representantes dos setores envolvidos, exerceram um papel de forte liderança, conforme verá a seguir. São eles:

  • José de Barros Lima;
  • Cruz Cabugá (Antonio Gonçalves da Cruz);
  • Padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro;
  • Domingos José Martins;
  • José Luís de Mendonça;
  • Manuel Correa de Araújo;
  • Domingos Theotônio Jorge Martins Pessoa.

Esses foram os principais líderes da Revolução que, por sinal, também formam o governo provisório na província enquanto representantes dos setores existentes no período, como os comerciantes, magistrados, agricultura, militares, entre outros.

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Consequências da revolução pernambucana

Mesmo com o prolongamento da Revolução durante 74 dias, no dia 19 de maio a insurreição foi derrotada por tropas armadas enviadas pela corte portuguesa. Os principais líderes foram executados, e os demais presos.

Uma das motivações para a derrota do movimento foi o não reconhecimento e apoio externo da revolta separatista; a reação do governo português seguiu da Bahia e do Rio de Janeiro para o Recife, tanto por mar como por terra. Após sangrentos combates e conflitos, a cidade recifense foi ocupada pelas tropas portuguesas.

Esse momento “final” da revolução foi uma resposta da corte imperial visando demonstrar aos revolucionários a ordem e os ideais monárquicos enquanto ainda fortes e implacáveis. E para isso, houve a necessidade de fortalecer as tropas militares já existentes.

Apesar disto, a Revolução pernambucana deixou marcas na história, conforme verá nos próximos tópicos.

Importância da revolução pernambucana

A Revolução ocorrida em Pernambuco em 1817 mostra o quanto os sujeitos sociais tinham ativa participação e envolvimento nas questões políticas do Brasil. Geralmente, esse período é demonstrado como um momento em que a corte portuguesa veio ao Brasil e pacificamente governou a partir do Rio de Janeiro. Mas como pôde-se notar, muitos sujeitos também exerciam influencia e mudanças na história.

O ato de combater a coroa portuguesa e, sobretudo, os ideais monárquicos centralizados, demonstram o quanto as ideias republicanas e iluministas estavam em efervescência a ponto de mover os revolucionários em suas insatisfações quanto aos altos impostos cobrados pela corte, as crises ocorridas, etc.

Embora a corte tenha restaurando a “ordem” política na província, as tensões e insatisfações não deixaram de ser cultivadas, reforçando ainda mais a fragilidade da então estrutura colonial existente. Tal instabilidade reforça, por exemplo, outra revolução importante ocorrida na província, a Confederação do Equador, em 1824.

Vídeos sobre a Revolução Pernambucana

Visando complementar o conhecimento construído até aqui, veja alguns vídeos a seguir que tratam sobre aspectos importantes da Revolução que instabilizou o contexto histórico brasileiro no século XIX.

A revolução de Pernambuco pelas telas do cinema

Aprender é um processo muito bom, mas imagina aprender através de um filme sobre a Revolução de Pernambuco? Veja o filme “1817: A revolução esquecida” dirigido por Tizuka Yamasaki. O documentário vai contar a história da paixão de Domingos José Martins e Maria Teodora da Costa que eram apaixonadíssimos, mas havia uma grande barreira entre eles, e ela tem relação com a revolução!

A Insurreição pernambucana desde sua origem

Neste vídeo, o historiador Eduardo Bueno faz uma análise geral das causas da Revolução Pernambucana, relacionando diversos aspectos motivadores da revolta.

A Revolução Pernambucana em 5 minutos

Entenda todo o processo de Revolução Pernambucana de 1817 em 5 minutos, contada pelos traços do chargista Miguel e narrado por Ingrid Cordeiro.

Agora que você já pôde conhecer todo o processo que envolveu a Revolução Pernambucana de 1817, entendendo também que esse evento não foi simplesmente uma relação de causa e efeito, conheça um dos possíveis motivadores da insurreição, a vinda da corte portuguesa ao Brasil!

Referências

O Governo Eclesiástico na Revolução de 1817. In: Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. (1949) – Mário Melo
Aspectos da Revolução de 1817 (1953) – Luís da Rasa Oiticica

Thiago Abercio
Por Thiago Abercio

Historiador e mentor educacional formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor de História e de Repertório cultural e Ideias, redator e analista de conteúdo. Atualmente realiza pesquisas na área de História da arte e das mentalidades.

Como referenciar este conteúdo

Abercio, Thiago. Revolução Pernambucana. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/historia/revolucao-pernambucana. Acesso em: 12 de August de 2022.

Exercícios resolvidos

1.

A Inconfidência Mineira não foi um fato isolado. Ela está integrada ao contexto social, político e econômico do Brasil colonial. Na Capitania de Minas Gerais, houve muitos outros, e também importantes movimentos rebeldes. Considerando a História do Brasil como um todo, a Inconfidência Mineira também não foi única: ela se coloca ao lado de movimentos como a Conjuração dos Alfaiates (Bahia, 1798), a Conjuração do Rio de Janeiro (1794) e a Revolução Pernambucana de 1817, entre outros que também enfrentaram o domínio colonial.

Adaptado de ANASTASIA, Carla. Os temas da liberdade e da República na Inconfidência Mineira. São Paulo: Ática, 1995.

A esse respeito é incorreto afirmar que:

A) Ao contrário do movimento de Vila Rica, fortemente marcado pela participação das elites locais, a Conjuração Baiana teve um cunho essencialmente popular.
B) Todos os movimentos citados no texto inscrevem-se no quadro geral do antigo sistema colonial, quadro esse que também refletia as transformações vividas pela Europa a partir da Revolução Industrial e das revoluções liberais burguesas.
C) A Revolução Pernambucana de 1817, que eclodiu durante a permanência do Estado Português no Brasil, traçou uma linha libertária que teve prolongamento na Confederação do Equador, dois anos após a Independência.
D) A imagem de Tiradentes, cultuada durante o período monárquico, sofreu forte oposição por parte daqueles que proclamaram a República, pelo que poderia inspirar contra o novo regime.

D) A imagem de Tiradentes, cultuada durante o período monárquico, sofreu forte oposição por parte daqueles que proclamaram a República, pelo que poderia inspirar contra o novo regime.

Ao contrário do que afirmou a alternativa, Tiradentes foi considerado herói nacional pelos republicanos.

2.

“Eis que uma revolução, proclamando um governo absolutamente independente da sujeição à corte do Rio de Janeiro, rebentou em Pernambuco, em março de 1817. É um assunto para o nosso ânimo tão pouco simpático que, se nos fora permitido [colocar] sobre ele um véu, o deixaríamos fora do quadro que nos propusemos tratar.”
(F. A. Varnhagen. História geral do Brasil, 1854.)

O texto trata da Revolução pernambucana de 1817. Com relação a esse acontecimento é possível afirmar que os insurgentes:

A) pretendiam a separação de Pernambuco do restante do reino, impondo a expulsão dos portugueses desse território.
B) contaram com a ativa participação de homens negros, pondo em risco a manutenção da escravidão na região.
C) dominaram Pernambuco e o norte da colônia, decretando o fim dos privilégios da Companhia do Grão-Pará e Maranhão.
D) propuseram a independência e a república, congregando proprietários, comerciantes e pessoas das camadas populares
E) implantaram um governo de terror, ameaçando o direito dos pequenos proprietários à livre exploração da terra.

D) propuseram a independência e a república, congregando proprietários, comerciantes e pessoas das camadas populares

Conforme foi estudado, a Revolução Pernambucana alcança vários adeptos de diversos setores e camadas sociais.

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