Eudaimonia

Eudaimonia: felicidade ou a finalidade da vida humana? Ou ambos? Entenda o que é esse conceito tão importante para a ética.

Normalmente a palavra eudaimonia é traduzida como felicidade. Porém, para a filosofia esse conceito simboliza atingir o estado de plenitude. Se interessou? Então conheça mais sobre este termo e fique por dentro da definição de eudaimonia para Sócrates, Platão e Aristóteles!

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O que é eudaimonia

Eudaimonia é uma palavra grega formada por dois vocábulos: Eu (‘bem’ ou ‘aquilo que é bom’) e Daimon (‘gênio’ ou ‘espírito’). Vale destacar que a tradução de daimon como demônio, feita por algumas ideologias, está completamente equivocada. Para a cultura grega, daimon é uma entidade com as características da natureza humana, como a Ira ou a Loucura. Ou seja, não existe um daimon bom e outro mau, pois pode se apresentar como bom ou mau dependendo da situação.

Nesse sentido, eudaimonia é estar acompanhado de daimon que se apresenta como bom, daí se traduz convencionalmente o termo como ‘felicidade’. Entretanto, para os gregos essa palavra é mais que isso, pois simboliza o estado de bem supremo que o homem pode atingir, a vida plena.

Outra palavra para designar felicidade é ‘olbos’ e/ou ‘olbios’, que significa ‘prosperidade dada pelos deuses’. Em ambos os casos, o estado de bem-estar e prosperidade está relacionado com uma dádiva divina. No entanto, com o desenvolvimento do pensamento filosófico, o termo se tornou mais ‘humano’, no sentido de demandar ações humanas para ser atingido.

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Características da eudaimonia

  • Agir voltado para a felicidade
  • Ter um posicionamento contemplativo
  • Agir com moderação
  • Agir conforme a justiça
  • Visar o bem comum

O conceito de eudaimonia para Sócrates

Como Sócrates não deixou textos escritos, só se conhece de seu pensamento por meio de outros filósofos, sobretudo por Platão. Em suma, uma das grandes propostas de Sócrates era a busca pela verdade, a fim de livrar a população dos dogmas e preconceitos.

O filósofo considerava o daimon como algo próprio do homem, uma inspiração para o bem agir. Assim, o que Sócrates concebia como eudaimonia, uma vida boa e feliz, estava diretamente associado ao bem comum e à justiça. Isso significa que apenas agindo com moderação, prudência, guiando-se pela razão, pelo eterno questionar é que se pode chegar ao estado de bem comum.

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O conceito de eudaimonia para Platão

Platão, por sua vez, deixou muitos textos escritos e refletiu sobre a eudaimonia principalmente em seu livro A República. Porém, o filósofo só considerou que o conceito de eudaimonia está diretamente relacionado ao bem comum. Assim, a felicidade só pode ser obtida por meio da justiça, a justiça só pode se efetivar na polis e, para isso, é preciso que essa polis seja ideal.

Na República, Platão discorrerá sobre as condições necessárias para a cidade ideal, como a existência das três classes (artesãos, guerreiros e governantes), os tipos de almas e as virtudes necessárias a cada classe. Em suma, para Platão, a eudaimonia é um conceito mais objetivo, pois depende de uma estrutura social e uma virtude coletiva para ser efetiva.

O conceito de eudaimonia para Aristóteles

Aristóteles foi o primeiro filósofo a sistematizar uma ética (campo da filosofia que estuda a moral para refletir e determinar como o homem deve agir). Em seu livro Ética a Nicômacos, Aristóteles defende que todas as ações visam algum bem (todas têm uma finalidade) e todas as ações humanas são voltadas para a felicidade. Ou seja, a eudaimonia é um telos (um fim), enquanto a eudaimonia é o bem supremo, pois tem o fim em si mesmo.

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Mas para chegar à eudaimonia, é preciso cultivar a areté (virtude), no campo teórico e prático, por meio da sophia e da phronesis (saber agir em diferentes situações), respectivamente. Como a ética está no plano da razão prática, pois diz respeito a como se deve agir em determinada circunstância, é preciso tirar a sabedoria da experiência e do hábito, agindo pelo princípio do justo meio (ou mediania).

O justo meio é agir da melhor forma possível entre dois extremos (entre o excesso e a falta). O princípio, no entanto, não deve ser entendido como uma média aritmética entre os extremos, haja vista que cada situação exigirá um nível diferente de ação.

Por exemplo, a coragem é a virtude entre a ousadia e a covardia, mas dependendo da situação, o justo meio estará mais próximo da covardia do que da ousadia. Se uma pessoa, desprovida de armas e instrumentos, se deparasse frente a frente com um leão faminto, agir conforme o justo meio é correr em direção a uma árvore e fugir e não tentar lutar contra o leão com as próprias mãos.

Embora Aristóteles defenda a importância do justo meio e da phronesis, a eudaimonia só pode ser atingida por meio da sophia (sabedoria teórica), pois essa não depende das contingências. Assim, apenas uma sabedoria autônoma e contemplativa, o exercício filosófico, livre das mudanças é que pode alcançar a vida plena.

Eudaimonia e hedonismo

O conceito de eudaimonia, ainda que diferente para os três filósofos, serviu como base para diversos conceitos éticos nas filosofias que sucederam à Antiguidade Clássica. Um exemplo comum é o período helênico, com a ideia de hedonismo.

Hedonismo é uma doutrina que incentiva a busca pelo prazer para alcançar a felicidade. A escola filosófica mais conhecida dessa doutrina é o epicurismo. Para Epicuro, era preciso buscar o prazer para alcançar a felicidade, mas por meio da moderação e da razão. Assim, o hedonismo significa a busca pelo prazer e a eudaimonia significa a busca pela vida plena.

Existem outras versões do hedonismo que não consideram a moderação um fator necessário. É o caso do pensamento de Marquês de Sade, cuja procura pelo prazer causava dor e sofrimento em si e no outro.

3 vídeos para entender o que é eudaimonia

Nestes três vídeos, você poderá entender com mais detalhes o que é eudaimonia conforme os três principais filósofos da Antiguidade Clássica: Sócrates, Platão e Aristóteles. Acompanhe as explicações e reforce seus conhecimentos:

Eudaimonia, Aristóteles e areté

Neste vídeo, o professor explica o conceito de eudaimonia para Aristóteles, contemplando os termos daimon, areté, bem supremo e relativo. Aula sensacional para entender a base da eudaimonia segundo este pensador.

Aristóteles e a teleologia do homem

Nesse vídeo você poderá entender o que é eudaimonia para Aristóteles, pela perspectiva da teleologia aristotélica. Ou seja, o motivo de ser de cada coisa, a finalidade das coisas. Acompanhe o raciocínio e se encante por essa perspectiva diferente de pensar.

O meio-termo para Aristóteles

Como você viu, Aristóteles acredita que para atingir a eudaimonia é preciso ter ações equilibradas. Entretanto, ser equilibrado não é apenas achar o ponto neutro entre duas ações extremas. Acompanhe a explicação e entenda.

Como você percebeu, a eudaimonia também está muito relacionada com o viver em sociedade. Por isso, confira outro filósofo muito importante no campo da ética, Immanuel Kant.

Referências

De Eudaimonia à felicidade. Visão geral do conceito de felicidade na antiga cultura grega, com alguns vislumbres dos tempos modernos. (2006) – Rossana Lauriola
Eudaimonia em Platão e Aristóteles (2017) – Brucy Nobre Aguiar
Ética a Nicômacos (1992) – Aristóteles
República (1983) – Platão

Marilia Duka
Por Marilia Duka

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá em 2016. Graduada em Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá em 2022.

Como referenciar este conteúdo

Duka, Marilia. Eudaimonia. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/eudaimonia. Acesso em: 29 de February de 2024.

Exercícios resolvidos

1.

Como podemos interpretar a seguinte citação de Aristóteles: “O bem é aquilo a que todas as coisas tendem” (Aristóteles, 1973, p. 249)?

a) Na “Ética a Nicômaco”, a finalidade será identificada com o “bem”, ou seja, dizer que todas as ações tendem a um fim é o mesmo que dizer que todas as coisas tendem a um bem.

b) Na “Ética a Nicômaco”, a finalidade será identificada com o “prazer”, ou seja, dizer que todas as ações tendem a um fim é o mesmo que dizer que devemos buscar uma vida de satisfação dos impulsos.

c) Na “Ética a Nicômaco”, a finalidade será identificada com a “honra”, ou seja, dizer que todas as ações tendem a um fim é o mesmo que dizer que é preciso realizar grandes feitos para ser reconhecido e isso é a verdadeira felicidade.

d) Na “Ética a Nicômaco”, a finalidade será identificada com a “riqueza”, ou seja, dizer que todas as ações tendem a um fim é o mesmo que dizer que é preciso acumular a maior quantidade de dinheiro possível, pois só assim é possível prevenir-se da pobreza.

Alternativa A está correta.
Para Aristóteles, o bem é um fim, um telos. A eudaimonia é o bem supremo.

2. [ENEM (2013)]

A felicidade é, portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas a melhor, nós a identificamos como felicidade.

ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

Ao reconhecer na felicidade a reunião dos mais excelentes atributos, Aristóteles a identifica como:

A) busca por bens materiais e títulos de nobreza.

B) plenitude espiritual e ascese pessoal.

C) finalidade das ações e condutas humanas.

D) conhecimento de verdades imutáveis e perfeitas.

E) expressão do sucesso individual e reconhecimento público.

Alternativa C está correta.
Como visto, a felicidade, para Aristóteles é a finalidade de todas as ações humanas.

3. [Unespar (2015)]

Um dos textos mais importantes da história da filosofia que trata do tema da moral e da ética é a Ética a Nicômaco, de Aristóteles. Nesta obra, o pensador analisa a natureza e o caráter das ações humanas e, ao final, sugere que há um bem supremo, que é a finalidade última das ações humanas. Este bem supremo é:

A) A virtude;

B) A justiça;

C) A felicidade;

D) A liberdade;

E) O meio termo.

Alternativa C está correta.
A felicidade, para Aristóteles, é o bem supremo, pois é um bem em si mesmo, autônomo.

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