Orson Welles

A história do cinema encontra em Orson Welles um dos maiores cineastas de todos os tempos. O artista explorou a linguagem cinematográfica em sua essência.

Sucesso do rádio ao cinema, seja como ator ou diretor, Orson Welles é um legado para o mundo artístico. Sua obra é reflexiva, humana e inconfundível. No decorrer da matéria, conheça as contribuições, características e principais filmes desse ícone.

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Biografia

Wikipedia

“Lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo pra ela”, dizia Orson Welles. Nascido em Kenosha, em 1915, Welles enfrentou o luto muito cedo: aos 9 anos quando sua mãe morreu; e aos 15 anos com a morte de seu pai. Na arte, ele encontrou seu refúgio como ator e logo formou sua própria companhia de teatro.

A temática da infância triste aparece em alguns de seus filmes, como em “Cidadão Kane”. Aos 23 anos, tornou-se mais conhecido por produzir uma espécie de “radionovela”, intitulada “Guerra dos Mundos” (adaptação da obra homônima de Herbert Wells), que confundiu vários ouvintes com um tom documental sobre invasão alienígena. Orson Welles faleceu em 10 de outubro de 1985.

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O que faz Orson Welles icônico

Orson Welles se tornou um artista consagrado por causa das suas singularidades. Abaixo, confira algumas características recorrentes em suas obras:

  • Apelo visual: o jogo de luz e sombra elaborado pelo cineasta sempre chamou a atenção e vai além da questão estética. O efeito possui um significado dentro da narrativa, na construção das personagens e na subjetividade das cenas.
  • Corrupção: personagens transgressores são muito presentes em suas obras, seja como anti-heróis, protagonistas ou coadjuvantes. Por meio dessas figuras, Welles consegue a ambiguidade necessária para dar mistério à trama e deixar o espectador intrigado.
  • Investigação: os maiores exemplos do apreço de Orson Welles por trama investigativa estão em “Cidadão Kane” e em “A marca da maldade”. Entretanto, essa característica também aparece em “O Estranho”, “A dama de Xangai” e “O processo”.
  • Narrativa não linear: certamente a narrativa não linear é uma das características de Welles que mais chamou a atenção do público e da crítica desde o seu primeiro filme. As idas e vindas da história desafiam o espectador a ligar os pontos do roteiro.
  • Tecnicidade: algumas técnicas, como “profundidade de campo” e “angulação de câmera”, já eram utilizadas, mas foram ressignificadas por Orson Welles e são exemplos natos para quem quer entender a arte do cinema.

As características acima marcam o estilo de Welles. Seus filmes transpõem a realidade para as telas. No próximo tópico, confira algumas frases que ilustram como o diretor se relacionava com o cinema.

Frases que ilustram a filosofia de Welles

A relação de Orson Welles com o cinema era muito profunda e desafiadora. Em diversas situações, o diretor enfrentou duras críticas antes de atingir seu apogeu. Além disso, ele demonstrou ser um grande pensador. Conheça algumas de suas frases:

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  1. O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho.
  2. É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos.
  3. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos.
  4. A ausência de limites é inimiga da arte.
  5. Mesmo quando não havia nenhuma esperança, sempre procurei dar o melhor de mim.

Sobre sua profissão, Welles disse: “este é o maior trem elétrico que um menino já teve”. Com certeza, ele foi um diretor que soube brincar com a linguagem para extrapolar as regras e inovar no cinema. No próximo tópico, conheça alguns títulos da sua filmografia.

As obras de um gênio

Por causa de sua petulância, Welles fez diversos inimigos no mundo do cinema. Muitos filmes ficaram engavetados por anos e outros quase morreram no roteiro. Abaixo, conheça algumas obras que marcaram a carreira do diretor:

Cidadão Kane (1941)

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A maior e mais polêmica obra de Welles. Para muitos especialistas, “Cidadão Kane” é considerado o melhor filme de todos os tempos. A produção revolucionou a linguagem cinematográfica e hoje é exemplo para mostrar diversas técnicas do cinema. Entre as inovações, está o jogo de luz que retrata o estado psicológico das personagens.

A estrutura narrativa também chama bastante atenção por ter uma narração em off (semelhante às locuções radialistas), bem como o uso constante de flashbacks – técnica que mais tarde ganhou popularidade. No enredo, um jornalista investiga a morte de um rico magnata que, como última palavra, diz “Rosebud”. O termo é o enigma a ser desvendado pelo investigador.

Essa primeira obra de Orson Welles rendeu 9 indicações ao Oscar, porém venceu apenas na categoria de melhor roteiro original. Welles também é protagonista do longa e foi indicado na categoria principal dos atores. O filme, apesar do sucesso de crítica, falhou na bilheteria. Após alguns anos, foi relançado e alcançou seu devido sucesso. “Cidadão Kane” é uma obra que chegou perto de não sair do papel e consagrou-se um dos melhores filmes da história do cinema.

Soberba (1942)

Imagine a responsabilidade de um diretor que estreou em alto patamar com “Cidadão Kane”! “Soberba” também teve sua criação e lançamento com muitos impasses: a produtora exigiu cortes de mais 1h de gravação e, na estreia, o filme foi alvo de vaias e piadas. Entretanto, assim como no seu primeiro trabalho, o longa foi mais bem reconhecido pela crítica e pelo público com as devidas revisões.

A linguagem cinematográfica continua com um forte jogo de luz e sombra que favorece o desenrolar da narrativa. No enredo, uma mulher, dona da maior mansão de Indianápolis, precisa lidar com seu filho narcisista enquanto tenta se reaproximar do seu grande amor. Apesar de tantos pesares, o longa recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo melhor filme.

O estranho (1946)

Os dois primeiros filmes de Welles tiveram uma recepção ruim na estreia. Contudo, o terceiro, “O estranho”, fez o caminho contrário: a narrativa mais convencional, sem toda a complexidade técnica presente em Kane e Soberba, tornou o filme acessível e agradável aos espectadores. Entretanto, não foi o suficiente para suprir todos os gastos da produção.

O enredo acompanha a história do investigador Wilson em busca de um fugitivo nazista refugiado nos Estados Unidos. A desconfiança recai sobre um professor universitário casado com a filha de um oficial de justiça. A trama é típica do cinema noir, subgênero que nasceu na França sob influência do expressionismo alemão. O longa recebeu a indicação ao Oscar de melhor roteiro original e pode ser assistido pelo Youtube.

A dama de Xangai (1942)

Uma cena de tiroteio dentro de uma casa de vidro é o ápice da quarta obra de Orson Welles. Além disso, “A dama de Xangai” é o seu menor filme até aqui. Ele segue a cartilha do subgênero noir: Elsa, uma atraente mulher, está entre homens ambiciosos e transgressores, que almejam forjar um óbito para receberem um seguro de vida. No decorrer, traições acontecem e a trama se torna misteriosa.

Macbeth (1948)

A vontade de Orson Welles de adaptar uma peça de Shakespeare para o cinema era tão grande que, além de produzir, ele pagou os custos adicionais. Sua ideia inicial era adaptar Otello, porém, por recusa das produtoras, ficou com Macbeth.

O filme segue a tradicional história, entretanto Welles fez algumas mudanças, talvez um tanto drásticas, como a inclusão da personagem Homem Santo, e a alteração dos atos (a frase inicial da peça está no final). Como a maioria dos filmes do cineasta, esse também enfrentou obstáculos: teve vários cortes e regravação das vozes dos atores anos depois.

Otello (1952)

No sexto filme, Welles não deixou de ter problemas com as gravações. Por falta de dinheiro, a produção foi paralisada três vezes. Outra vez, o cineasta investiu dinheiro do próprio bolso na obra. Nessa adaptação, a originalidade foi respeitada com pequenas alterações. O esforço valeu muito a pena, pois o longa ganhou o grande prêmio do júri em Cannes, foi sucesso de bilheteria pela Europa e ganhou versão remasterizada em 1992.

A marca da maldade (1958)

“A marca da maldade” é um dos maiores clássicos do cinema. Todavia, sua produção também foi tumultuada. Ao terminar o filme, a produtora reprovou o resultado, fez um grande recorte na obra e demitiu Welles. Após 40 anos, o estúdio lançou a versão do diretor.

No enredo, um agente policial mexicano começa a desconfiar que dois policiais americanos estão plantando comprovações falsas para incriminar uma pessoa inocente que estava em um atentado na fronteira entre México e EUA. Porém, revelar a corrupção afeta diretamente a sua segurança e a de sua esposa. O filme contém um longo plano-sequência (uma cena filmada sem cortes aparentes) que se tornou uma cena clássica do cinema.

O processo (1962)

Baseado no romance de Franz Kafka e protagonizado por Anthony Perkins (ator de Psicose), “O processo” apresenta uma premissa simples: um homem tentando provar sua inocência. Orson Welles consegue expressar toda a complexidade do texto de Kafka com apuramento visual na fotografia e direção de arte. Assim, o tom nonsense leva o espectador para um universo estranho e angustiante. O filme está disponível no Telecine.

Falstaff: o toque da meia-noite (1965)

Outra adaptação de Shakespeare. Além de dirigir, Welles interpreta Falstaff, um anti-herói construído a partir das características da tragicomédia. Ele e seu amigo, o príncipe Hal, se divertem na vida boêmia e entram em algumas aventuras. Tudo muda quando Hal se torna o rei da Inglaterra. A atuação do cineasta é uma das melhores de sua carreira. O filme recebeu dois prêmios em Cannes e foi exibido em Veneza.

O outro lado do vento (2018)

“O outro lado do vento” é uma obra póstuma de Orson Welles. O filme foi gravado durante a década de 70, mas não foi finalizada por questões financeiras. Em 2018, a Netflix e a produtora detentora dos direitos autorais montaram os pedaços do filme e lançaram na plataforma. O longa mostra o ímpeto do cineasta em continuar fazendo da linguagem cinematográfica um jogo de diversas possibilidades narrativas e imagéticas. De modo não convencional e metalinguístico, o enredo conta a história de um diretor de cinema que tenta terminar o último trabalho de sua carreira no seu último dia de vida. O filme está disponível na Netflix.

Orson Welles dirigiu 14 filmes em sua carreira, além de alguns curtas-metragens. Como ator, ele atuou em mais de cem produções. Salve os títulos acima e assista para entender melhor as características da sua obra.

Descobrindo Orson Welles

Para não perder nenhum detalhe enquanto assiste aos filmes, vale estudar sobre o estilo e a complexidade de Welles. Abaixo, confira uma seleção de vídeos com informações biográficas, resenhas e análises de obras.

A obra-prima noir de Orson Welles

Quando o assunto é Orson Welles, “Cidadão Kane” é o primeiro filme a ser lembrado. Contudo, “A marca da maldade” também é um dos grandes títulos da história do cinema. Assista ao vídeo para conhecer a obra.

A técnica que fez Cidadão Kane ser revolucionário

As técnicas apresentadas em “Cidadão Kane” foram revolucionárias para o cinema e ainda são utilizadas. Veja mais detalhes desse feito de Welles.

A vida e a (principal) obra de Orson Welles

Poucos diretores na história do cinema estrearam com uma obra tão grande. Orson Welles tem essa conquista no seu currículo. Confira mais sobre o autor e o filme “Cidadão Kane”.

Orson Welles sabe como prender o espectador em um filme seu. Aproveite para conhecer outro gênio do cinema, o Alfred Hitchcock, que também explora o mistério em suas produções.

Referências

A história do cinema para quem tem pressa (2018) – Celso Sabadin.

A arte do cinema (2018) – David Bordwell e Kristin Thompsom.

Dicionário teórico e crítico de cinema (2010) – Jacques Aumont e Michel Marie

Alyson Santos
Por Alyson Santos

Professor, mestre em Letras, especialista em Cinema e Linguagem Audiovisual e História do Cinema.

Como referenciar este conteúdo

Santos, Alyson. Orson Welles. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/artes/orson-welles. Acesso em: 29 de February de 2024.

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