Indústria cultural

O conceito de indústria cultural é uma crítica ao capitalismo que transforma expressões culturais em mercadoria.

A cultura é produzida por todas as sociedades humanas, mesmo sem intenções prévias. Entretanto, o que acontece se aspectos culturais – como o cinema, a música ou as formas de se vestir – passam a ser fabricadas intencionalmente a partir de uma lógica do mercado? É sobre isso que o conceito de indústria cultural trata. Veja mais a seguir.

O que é a indústria cultural na sociologia

A indústria cultural é um conceito que descreve o processo que torna a cultura uma mercadoria. Para isso, uma expressão cultural é retirada de seu contexto de origem para entrar na lógica industrial e do consumismo.

Ou seja, assim como em uma indústria são produzidos alimentos ou automóveis, a cultura também passa a ser fabricada em larga escala. Para os autores da escola de Frankfurt, isso só aumenta o grau de alienação das pessoas em uma sociedade capitalista.

Características

Uma das características mais relevantes da indústria cultural é a padronização. Por exemplo, a montagem de carros em uma fábrica visa produzir essa mercadoria em grande escala, da maneira mais rápida e eficiente – igualmente, a indústria cultural produz cultura em massa.

Com isso, produzir cultura se transforma em uma questão de técnica. Ou seja, basta ter os equipamentos, saber quais os gostos do consumidor e o que gera sensações prazerosas para fabricar uma música ou um filme. Isso quer dizer que qualquer pensamento crítico e questionador está ausente nesse produto.

Ao contrário, as mercadorias da indústria cultural serviriam à ideologia dominante da burguesia, alienando as pessoas da realidade de serem exploradas dentro do capitalismo. Os gostos das pessoas se tornam cada vez mais parecidos, já que todos consomem a mesma cultura fabricada pela indústria burguesa.

A indústria cultural e a cultura de massa

A metáfora da “massa” – por exemplo, uma massa de pão – traz a imagem de algo amplo e homogêneo. Em outras palavras, quando se fala sobre cultura de massa, estamos descrevendo uma cultura toda unificada, sem diversidade, consumida igualmente por todas as pessoas.

Nesse sentido, é importante frisar que a cultura é consumida, já que apenas mercadorias são objeto de consumo. Portanto, a transformação de expressões simbólicas como a música, o teatro e a pintura em produto de venda permite a sua compra pela grande parte do público.

Por exemplo, o estilo musical blues deixa de ser uma manifestação simbólica e cultural de comunidades negras para ser agora produzida por uma indústria da música. Assim, é consumido por diversas pessoas que não têm ideia do seu significado, tornando-o apenas uma mercadoria como qualquer outra.

Indústria cultural no Brasil

Uma das principais críticas dos pensadores da escola de Frankfurt sobre a indústria cultural é que a cultura que se torna mercadoria é produzida a partir da lógica da burguesia. Afinal, são esses grandes proprietários que são donos das empresas e indústrias. Assim, as expressões culturais tornam-se meios de reproduzir a ideologia da classe dominante.

No Brasil, essa discussão se torna bastante relevante quando pensamos nos diversos momentos de ditadura no país. Nesses regimes autoritários, a mídia foi bastante utilizada como uma forma de propaganda do governo que estava no poder.

Ainda hoje, há muitas discussões sobre o papel da mídia e do jornalismo com relação à indústria cultural. Nesse sentido, é importante levantar outras questões: as pessoas são de fato tão alienadas quanto essa teoria frankfurtiana propõe? O que o público tem a dizer sobre? E, mais importante, é necessário sempre manter um debate responsável e plural sobre esse tema.

A arte e a indústria cultural

A partir do fenômeno da indústria cultural, muitos autores questionam, afinal, o que é arte. Uma vez que a própria arte se torna uma mercadoria no capitalismo, é possível que ela seja fabricada apenas para agradar e alienar as pessoas da realidade social.

Contra essa tendência, alguns pensadores defendem que a arte deve ser crítica e questionar as ideologias dominantes da sociedade. Nesse sentido, há uma diferença entre a arte produzida como uma mercadoria e aquela feita a partir de um pensamento crítico.

Entretanto, atualmente, há muitas formas de pensar o que é arte, e a própria noção de indústria cultural é questionada em algumas teorias. De toda essa diversidade, é importante que haja espaço e incentivo para as manifestações culturais e artísticas. Elas são imprescindíveis para instigar a curiosidade, a inspiração e um debate democrático.

Principais autores

O conceito de indústria cultural foi pensado na década de 1940 por autores da escola de Frankfurt, na Alemanha. Posteriormente, essa teoria foi desenvolvida por muitos pensadores que ampliaram ou até criticaram a ideia original. Veja a seguir alguns principais:

  • Theodor Adorno
  • Max Horkheimer
  • Walter Benjamin
  • John B. Thompson
  • Gabriel Cohn

Adorno e Horkheimer

Theodor Adorno nasceu em 1903 em Frankfurt – foi filósofo e sociólogo e, além disso, era conhecido por ser musicólogo. Assim, essa formação em música explica em parte a sua preocupação com a indústria cultural.

Também alemão, Max Horkheimer é da primeira geração da escola de Frankfurt, juntamente com Adorno, e nasceu em 1895. Ele era um dos grandes críticos do nazismo e viveu o contexto da Segunda Guerra Mundial, fugindo do país quando Hitler ascendeu ao poder.

Adorno e Horkheimer foram os grandes autores da escola de Frankfurt e desenvolveram o conceito de indústria cultural. Apesar de não estarem diretamente envolvidos com movimentos sociais, eles possuíam uma formação intelectual fortemente marxista.

Vídeos sobre como pensar a indústria cultural

Uma vez que o conceito foi formulado em uma época e um lugar distante dos nossos contextos, pode ser difícil pensá-lo e compreendê-lo. Por isso, confira abaixo uma seleção de vídeos que podem ajudar a conectar o assunto com elementos culturais que conhecemos:

Recapitulando o conceito

Acima, você poderá retomar os principais aspectos do conceito de indústria cultural que já foram trabalhados. Associar o tema a elementos visuais e auditivos pode ajudar a lembrar do conteúdo e escrever sobre ele.

Para contextualizar o tema

Se você ainda está com dúvida a respeito do conceito, pode ajudar revisar o termo com exemplos bastante próximos da cultura brasileira. Assim, no vídeo acima o assunto será abordado com elementos culturais conhecidos.

Um aprofundamento sobre a indústria cultural

Agora, é possível detalhar mais sobre o que é a indústria cultural. No vídeo selecionado são dadas aplicações mais abrangentes dessa ideia em diferentes áreas.

A escola de Frankfurt

A fonte de pensamento sobre a indústria cultural está nos autores da escola de Frankfurt. Consequentemente, torna-se bastante relevante entender quem são, as suas ideias gerais e em que contexto histórico produziram suas teorias.

Pensando a indústria cultural hoje

Como são moldados os nossos gostos? É o mercado quem decide o que vai ser vendido ou é o público quem demanda pelo conteúdo? Essas questões são uma forma de pensar a indústria cultural na atualidade. Veja sobre isso no vídeo acima.

Portanto, embora o uso da ideia de indústria cultural atualmente seja controverso, é um conceito importante para pensar o que consumimos na sociedade contemporânea. Assim, esse tema pode gerar debates interessantes no campo da sociologia.

Referências

A indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas – Max Horkheimer; Theodor Adorno;

Indústria cultural: algumas determinações políticas, culturais e sociais na educação – Leda Aparecida Pedroso;

Theodor Adorno: uma crítica à indústria cultural – Tamires Dias dos Santos.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [UEL]

Leia os Textos V e VI.

Texto V

Eis aqui, portanto, o princípio de quando se decidiu fazer o homem, e quando se buscou o que devia entrar na carne do homem.
Havia alimentos de todos os tipos. Os animais ensinaram o caminho. E moendo então as espigas amarelas e as espigas brancas, Ixmucaná fez nove bebidas, e destas provieram a força do homem. Isto fizeram os progenitores, Tepeu e Gucumatz, assim chamados.
A seguir decidiram sobre a criação e formação de nossa primeira mãe e pai. De milho amarelo e de milho branco foi feita sua carne; de massa de milho foram feitos seus braços e as pernas do homem. Unicamente massa de milho entrou na carne de nossos pais.
(Adaptado: SUESS, P. Popol Vuh: Mito dos Quiché da Guatemala sobre sua origem do milho e a criação do mundo. In: A conquista espiritual da América Espanhola: 200 documentos – Século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 32-33.)

Texto VI

“Se você é o que você come, e consome comida industrializada, você é milho”, escreveu Michael Pollan no livro O Dilema do Onívoro, lançado este ano no Brasil. Ele estima que 25% da comida industrializada nos EUA contenha milho de alguma forma: do refrigerante, passando pelo Ketchup, até as batatas fritas de uma importante cadeia de fast food – isso se não contarmos vacas e galinhas que são alimentadas quase exclusivamente com o grão.
O milho foi escolhido como bola da vez devido ao seu baixo preço de mercado e também porque os EUA produzem mais da metade do milho distribuído no mundo.
(Adaptado: BURGOS, P. Show do milhão: milho na comida agora vira combustível. Super Interessante. Edição 247, 15 dez. 2007, p. 33.)

De acordo com a crítica à “indústria cultural”, na sociedade capitalista avançada, a produção e a reprodução da cultura se realizam sob a égide da padronização e da racionalidade técnica.
No contexto dessa crítica, considerando o fast food como produto cultural, é correto afirmar:
a) A racionalidade técnica e a padronização dos valores alimentares permitem ampliar as condições de liberdade e de autonomia dos cidadãos.
b) A padronização dos hábitos e valores alimentares obedece aos ditames da lógica material da sociedade industrializada.
c) A massificação dos produtos alimentares sob os ditames do mercado corresponde à efetiva democratização da sociedade.
d) O consumo dos produtos da indústria do fast food e a satisfação dos novos hábitos alimentares contribuem com a emancipação humana.
e) A homogeneização dos hábitos alimentares reflete a inserção crítica dos indivíduos na cultura de massa.

Resposta: b

Justificativa: a indústria cultural visa a padronização e a retirada do senso crítico, ou seja, um movimento contrário à democratização.

2. [UNIOESTE]

O ensaio “Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas”, de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, publicado originalmente em 1947, é considerado um dos textos essenciais do século XX que explicam o fenômeno da cultura de massa e da indústria do entretenimento. É uma das várias contribuições para o pensamento contemporâneo do Instituto de Pesquisa Social fundado na década de 1920, em Frankfurt, na Alemanha. Um ponto decisivo para a compreensão do conceito de “Indústria Cultural” é a questão da autonomia do artista em relação ao mercado.
Assim, sobre o conceito de “Indústria Cultural” é CORRETO afirmar:

a) A arte não se confunde com a mercadoria, e não necessita da mídia e nem de campanhas publicitárias para ser divulgada para o público
b) Não há uniformização artística, pois, toda cultura de massa se caracteriza por criações complexas e diversidade cultural.
c) A cultura é independente em relação aos mecanismos de reprodução material da sociedade.
d) A obra de arte se identifica com a lógica de reprodução cultural e econômica da sociedade.
e) Um pressuposto básico é que a arte nunca se transforma em artigo de consumo.

Resposta: d

Justificativa: na indústria cultural, a arte acaba adentrando na lógica mercadológica já existente na sociedade capitalista.

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