Senso crítico

Expressão bastante difundida, o senso crítico está relacionado com habilidades de argumentação e raciocínio, necessárias, por exemplo, para fazer ciência.

O senso crítico é uma expressão que pode ter muitos significados, mas é recorrentemente usada de maneira vaga. Considerada como o oposto de senso comum, ela diz respeito a saber olhar ao redor com atenção. Sendo que entender a maneira como o mundo funciona, ter a habilidade de formular argumentos e participar ativamente da realidade social são capacidades que podem ser chamadas de críticas.

Na democracia liberal, a capacidade dos cidadãos saberem argumentar e perceber os problemas da sociedade é bastante valorizada. Portanto, a escola é uma das instituições que tentam ensinar o senso crítico. Entenda mais sobre esse assunto a seguir!

O que é senso crítico

O senso crítico é a capacidade de questionar e não aceitar prontamente o que nos é dito, imposto ou o que está no senso comum. Nesse sentido, ele envolve o exercício da racionalidade, da argumentação e da ciência.

Senso crítico nas escolas

As escolas modernas têm como um de seus objetivos disciplinar os membros da sociedade. Saber controlar seus impulsos, sentimentos individuais, e balancear com a razão e o bem coletivo são habilidades desejáveis a elas em uma sociedade democrática e liberal.

Isso ocorre porque o projeto de sociedade moderna tem como premissa a participação popular na política. Além da existência de uma pluralidade de opiniões. Entretanto, os cidadãos precisam ser ensinados a participar, a argumentar e a respeitar os pensamentos diferentes. Dessa forma, a escola cumpre o papel fundamental de ensinar o senso crítico.

Senso crítico político

Ter um senso crítico é saber também participar da política. Ou seja, argumentar, defender ideias e organizar grupos. E uma vez que na democracia todos devem ter a capacidade de fazer política, o Estado também oferece diversas formas de inclusão nesse mundo.

Por exemplo, como participar da política se ninguém entende o que você diz? A população surda enfrenta esse desafio porque, apesar de a libras ser o segundo idioma oficial no Brasil, poucos sabem sobre essa língua. Assim, oferecer mais escolas bilíngues é uma forma de proporcionar essa inserção.

Outro exemplo é em relação às camadas mais pobres da sociedade. Muitas crianças ainda se submetem ao trabalho infantil porque sua família necessita de força de trabalho para sobreviver. A existência de programas educacionais para que estudem e desenvolvam o senso crítico é uma boa opção, ao invés de se confinar ao trabalho.

Como desenvolver senso crítico

Seu desenvolvimento envolve uma diversidade de atitudes. Todavia, a maioria delas envolve o uso da razão, da argumentação e até de uma linguagem científica. Como pontua o sociólogo Pierre Bourdieu, é necessário que as pessoas tenham acesso aos bens culturais e intelectuais da sociedade. Para dessa forma saírem de uma condição desprivilegiada.

Livros que estimulam o senso crítico

Os livros escritos por pesquisadores, estudiosos e pensadores são resultados de um senso crítico. Apesar de não serem o único caminho para alcançá-lo, são uma importante fonte para o conhecimento humano.

  • Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras (Rubem Alves): escrito por um pensador muito importante no Brasil, esse é um livro bastante didático sobre a ciência e o senso crítico.
  • O mundo assombrado pelos demônios (Carl Sagan): escrita por um dos físicos mais conhecidos mundialmente. Nela, é possível entender melhor da ciência e opiniões críticas sobre a nossa sociedade.
  • Quarto de despejo. Diário de uma favelada (Carolina de Jesus): um pensamento crítico é produzido apenas por cientistas? Essa obra foi escrita por uma mulher que morou muitos anos na favela e conta sobre sua percepção a respeito do mundo.
  • Shakespeare no mato (Laura Bohannan): apesar de não ser propriamente um livro, é uma história bastante interessante. Útil para pensarmos criticamente sobre as diferenças culturais. O texto pode ser encontrado aqui.

Para desenvolver o senso crítico, é importante ler e ter contato com realidades que estimulem nossa imaginação. Nesse sentido, produzir um pensamento crítico pode ser prazeroso ou até mesmo divertido!

Senso comum e senso crítico

O senso crítico é geralmente considerado o oposto do senso comum. Nessa visão, existem dois polos: de um lado, um pensamento compartilhado por todos, sem reflexão, baseado nos costumes (o senso comum). E de outro, um pensamento racional e fundamentado na ciência (o senso crítico).

Atualmente, essa divisão rígida é questionada. Afinal, não é porque uma pessoa não costuma ler livros e entender de ciência – talvez por não ter acesso a esse mundo – que ela não reflete sobre a sociedade. Há muita riqueza de conhecimento em todo o planeta, e é necessário compreendê-la e entender de onde ela vem.

Frases sobre senso crítico

Vários pensadores falam sobre o senso crítico. Para entender a abrangência dessa expressão, veja a seguir uma lista de frases de diferentes autores sobre esse assunto.

“Acreditamos que a prática relativa à identificação ou seleção de argumentos pode ser uma excelente oportunidade para o desenvolvimento do senso crítico” (Elisabeth Ramos da Silva)

“[…] ‘pensamento crítico’ e da ‘argumentação sólida’, dois aspectos de uma classe mais geral de comportamento: o comportamento “criticar”, algo constante na vida de acadêmicos, pesquisadores, professores e psicólogos mas nem sempre suficientemente conhecido para não ser confundido com comportamentos de senso-comum, também usualmente denominados por esse mesmo nome: criticar.” (Gabriel Gomes de Luca; Silvio Paulo Botomé)

“Seja no âmbito acadêmico ou no dia a dia de pessoas comuns, incentivar o senso crítico em dada sociedade é elevar o seu nível de desenvolvimento, é possibilitar menos enganos, menos falácias, proporcionando uma visão mais clara da realidade.” (Patrícia Bianchi)

“[…] a que nos permite sermos capazes de ler e escrever frases gramaticalmente corretas, aquela de realizar cálculos matemáticos, a de organizar os dados para realizar os trabalhos acadêmicos: todas estas habilidades são tão importantes e imprescindíveis para sucesso acadêmico quanto o pensamento crítico.” (Rodrigo Canal)

“Se o pensamento crítico pode produzir uma melhoria na educação, será porque aumenta a quantidade e a qualidade do significado que os alunos retiram daquilo que lêem e percebem, e que expressam através daquilo que escrevem e dizem.” (Matthew Lipman)

“Um indivíduo que possui a capacidade de analisar e discutir problemas inteligente e racionalmente, sem aceitar, de forma automática, suas próprias opiniões ou opiniões alheias, é um indivíduo dotado de senso crítico.” (David Carraher)

“Cabe salientar que nem mesmo o (a) Trabalhador (a) Social possui o conhecimento crítico, pois este não se obtém como uma propriedade, ele está em processo de construção em todos os indivíduos, independente de sua posição na sociedade.” (Janaina da Silva Guerra)

“Assim, a noção de senso crítico também engloba a sensibilidade dos leitores para refletir sobre suas próprias ideias, crenças, sentimentos, concepções e conjecturas a respeito dos dados interpretados.” (Carlos Eduardo Monteiro)

“Essas características podem envolver os mais diferentes adjetivos dependendo do contexto em que estão sendo empregadas, tais como: reflexivo, autônomo, eficiente, crítico, empreendedor, consciente, participativo, educado.” (Aline de Goes)

“O pensamento crítico, assim entendido, encontra-se integrado por um conjunto de vozes dissidentes que, sem constituir-se, ainda, em um sistema de categorias, propõe um conglomerado de enunciações apto a produzir um conhecimento do direito, capaz de fornecer as bases para um questionamento social radical.” (Luís Alberto Warat)

Como consequência, o senso crítico é um tipo de pensamento muito importante para a sociedade em que vivemos. Estar atento ao mundo, respeitar as diferenças e tentar se basear em argumentos sólidos são algumas das atitudes que o incluem.

Referências

O significado de pensamento crítico – Rodrigo Canal;

Senso crítico – Patrícia Bianchi;

A relação entre ciência e senso comum – Sandra Siqueira da Silva.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Exercícios resolvidos

1. [Mackenzie]

“Acho que não pode haver discriminação racial e religiosa de espécie alguma. O direito de um termina quando começa o do outro. Em todas as raças, todas as categorias, existe sempre gente boa e gente má. No caso particular dessa música, não posso julgar, porque nem conheço o Tiririca. Como posso saber se o que passou na cabeça dele era mesmo ofender os negros? Eu, Carmen Mayrink Veiga, não tenho idéia. Mas o que posso dizer é que se os negros acharam que a música é uma ofensa, eles devem estar com toda razão.”
Revista Veja

a) A argumentação, desenvolvida por meio de clichês, subtende um distanciamento entre o eu /
enunciador e o ele / negros.
b) A argumentação revela um senso crítico e reflexivo, uma mente que sofre com os preconceitos e, principalmente, com a própria impotência diante deles.
c) A argumentação, partindo de visões inusitadas, mas abalizadas na realidade cotidiana, aponta para a total solidariedade com os negros e oprimidos.
d) O discurso, altamente assumido pelo enunciador, a ponto de autocitar-se sem pejo, ataca
rebeldemente a hipocrisia social, que mascara os preconceitos.
e) Impossível conceber, como desse mesmo enunciador, essa frase: “sempre trabalhei como uma negra”, publicada semanas antes na mesma revista.

Resposta: a

Justificativa: na frase, há uma separação entre o eu e o outro. As demais alternativas, menos a última, se relacionam com um senso crítico do indivíduo.

2. [CESPE]

De acordo com o pensador G. Vico, o senso comum é um julgamento sem qualquer reflexão, comumente sentido por toda uma classe, todo um povo, toda uma nação, ou por todo o gênero humano. Segundo Heidegger, nós nos movimentamos no nível de compreensão do senso comum à medida que nós cremos em segurança no seio das diversas “verdades” da experiência da vida, da ação, da pesquisa, da criação e da fé.
M. Heidegger. Sobre a essência da verdade. São Paulo 1970, p. 18 (com adaptações).

A propósito dessas informações acerca do significado do senso comum, problematizado pela filosofia, assinale a opção correta:

a) Enquanto o senso comum é um conhecimento seguro, a filosofia é um pensamento inseguro. Logo, a filosofia deve ser rejeitada como perigosa para o homem do cotidiano.
b) O senso comum reflete, argumenta e justifica suas crenças.
c) O senso comum é convicção arraigada, crença partilhada com segurança pelos homens, na vida, na ação, na pesquisa, na criação e na fé. A convicção é fundamental ao pensamento e, portanto, o senso comum se identifica com o pensamento filosófico.
d) É com o senso comum que o homem enfrenta, no cotidiano, os seus problemas imediatos. O senso comum antecede todo o filosofar. Devido a essa anterioridade e ao seu caráter de convicção inquestionada, ele deve ser considerado como critério de julgamento, como princípio dirimente de todas as dúvidas teóricas.
e) O senso comum é um julgamento irrefletido, que, uma vez compartilhado por muitos homens no âmbito da cultura como crença cotidiana, é tido como óbvio e permanece inquestionado. A filosofia, porém, é um movimento radical de autonomia do homem baseado no exercício do pensamento, do questionamento. Por isso, a filosofia se põe de maneira crítica frente às pretensões do senso comum.

Resposta: e

Justificativa: ao contrário do senso crítico, em uma tese tradicional o senso comum é o pensamento irrefletido e que não questiona o que está posto no mundo.

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