Identidade cultural

A identidade cultural é um modo de identificação e união entre pessoas, mas pode também ser usada para mais preconceitos.

Como nos vemos? Como os outros nos veem? Qual é a imagem que prevalece sobre “nós”? Essas são algumas perguntas que envolvem a identidade cultural. Ou seja, trata-se de fazer parte de uma “cultura” aos olhos de outros e também se identificar com ela. Saiba mais sobre esse assunto a seguir.

O que é identidade cultural?

A identidade cultural diz respeito às representações de um “povo” ou uma “cultura”, bem como o sentimento de pertencimento em relação a eles. Desse modo, ela não vem com o indivíduo ao nascer, mas é construída ao longo da vida em relação aos outros.

Assim, a identidade cultural serve para unir diferentes pessoas em torno de uma representação de sua cultura. Em muitos casos, ela é importante para defender direitos de sobrevivência, como é o caso dos povos indígenas no Brasil.

Identidade cultural brasileira

A identidade cultural no Brasil é comumente atribuída a uma origem: a miscigenação entre brancos, negros e indígenas. No entanto, a realidade não é tão simples assim. Afinal, apesar de mais de 50% da população brasileira ser negra, pouco sabemos sobre a história da África, por exemplo.

Além disso, é importante lembrar que os povos indígenas geralmente não fazem parte do imaginário sobre a identidade brasileira. Erroneamente, os indígenas são considerados o “passado” do país, como se estivessem destinados a desaparecer em algum momento – o que não é verdade.

Então, como se constrói a identidade cultural? Isso ocorre sobretudo por um processo político. Ou seja, a imagem do “brasileiro” não representa toda a diversidade existente no país – qual, então, prevalece na fala das pessoas? Com qual “cultura” nos identificamos?

No Brasil, esse é um tema importante e retratado por muitos autores. Confira, por exemplo, a obra literária Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

Identidade cultural no séc. XXI

Se no Brasil é difícil estabelecer qual é a identidade cultural – e nem devemos impor uma, já que o processo é político –, o mundo todo enfrenta uma efervescência de identidades. Uma das causas são as novas tecnologias de informação e comunicação.

Atualmente, pessoas de diversos lugares trocam informações e compartilham experiências. Logo, indivíduos de origens muito diferentes podem se identificar com “culturas” que antes poderiam nem conhecer.

Assim, mesmo que um indivíduo saiba o que é a identidade de um povo e se sinta pertencente a uma, ele pode se identificar com várias outras. Ou, ao contrário, pode acabar caindo em um fundamentalismo de modo racista, sendo intolerante com as diversas culturas.

Principais conceitos

A essa altura, é possível notar que vários conceitos estão implicados no tema da identidade cultural. Assim, veja abaixo alguns termos destrinchados que são importantes de entender para debater esse assunto:

  • Cultura: é a forma simbólica em que seres humanos organizam e deixam para as futuras gerações seus modos de vida. No entanto, não se pode pensar que as culturas são coisas rígidas e imutáveis. Na verdade, dentro de uma própria “cultura”, existe uma variedade de padrões de comportamento, bem como irregularidades.
  • Identidade: é algo que se é em relação aos outros; por exemplo: ser mãe, ser mulher, ser professora etc. Nessa dinâmica, é possível identificar alguns como iguais a você, e outros como diferentes, ou até mesmo opostos. É importante notar que as identidades não vêm ao nascer, mas são construídas ao longo da vida e também variam.
  • Representações socias: são discursos e imaginários sobre algo que são compartilhados por várias pessoas. Logo, nem sempre a representação social que mais circula na sociedade corresponde à realidade. Por exemplo, é comum que indígenas sejam considerados erroneamente como atrasados, exóticos e inadaptados à modernidade.
  • Política: de modo geral, é possível definir política como uma forma de lidar com a diversidade. Ou seja, tanto quem se define dentro de uma identidade cultural como quem define o outro em uma identidade estão fazendo política. Nesse contexto, é necessário observar as relações de poder entre as identidades.

Sendo assim, o tema das identidades gera uma série de debates importantes na atualidade. Afinal, essa tem sido uma das grandes ferramentas políticas no mundo todo. No tópico abaixo, saiba mais sobre como a identidade cultural tem sido tratada globalmente.

Globalização e identidade cultural

A globalização é um processo mundial de conexão de diferentes comunidades ao redor do planeta, permitindo a troca de informações e experiências entre pessoas distantes. Certamente, esse fenômeno causou um impacto nas identidades culturais.

Com a globalização, as pessoas enfrentam cada vez mais o desafio da alteridade, ou seja, a necessidade de conviver com indivíduos que são frequentemente muito diferentes de si. Nesse contexto, nem sempre as pessoas estão dispostas a lidar com a diversidade, e partem para atitudes violentas.

Assim, observa-se alguns grupos que estão levantando em suas bandeiras uma identidade cultural fundida com um nacionalismo, patriotismo e racismo. Em suas ações, eles buscam eliminar a diferença, por exemplo, pautados em uma ideologia sobre a “pureza racial” ou a uma intolerância a estrangeiros.

É necessário pontuar que esse tipo de reação contrária à diversidade não favorece a construção de uma sociedade democrática, menos desigual e violenta. De fato, é preciso promover debates que favoreçam o respeito e a boa convivência com quem é diferente.

Vídeos para se aprofundar sobre a dinâmica das identidades

Talvez mais do que definir o que é identidade cultural, é mais produtivo falar sobre como esse fenômeno ocorre no mundo todo. Assim, esse é um assunto interessante porque todas as pessoas podem contribuir de algum modo. A seguir, confira a uma seleção de vídeos sobre o tema:

Identidade no Brasil atual

Há muitos anos, intelectuais pensaram o Brasil tentando buscar sua identidade nacional, ou qual seria sua “cultura” essencial. Entretanto, o debate hoje está mais amplo do que isso. Entenda mais sobre como as identidades configuram uma dinâmica política importante.

Culturas indígenas não são coisa do passado

As culturas não são fixas, nem são algo pronto – ou seja, elas são passíveis de transformação e reinvenção. Como qualquer outra, os povos indígenas mantêm suas culturas vivas até hoje, apesar das violências.

Japonês no Brasil, brasileiro no Japão

A identidade cultural é algo que gera um sentimento de pertencimento, e é reivindicada para lutar por direitos – como é o caso dos indígenas. Entretanto, ela é também algo que perpassa pelo julgamento dos outros. Saiba mais sobre como esse processo acontece.

Identidade cultural e etnocentrismo

No mundo globalizado, é cada vez mais importante a discussão sobre o etnocentrismo. Esse é um fenômeno que pode se transformar em intolerância e violência contra pessoas de “culturas” diferentes que a sua.

Desse modo, as identidades culturais fazem parte de uma discussão presente e urgente a ser feita na contemporaneidade. Sendo assim, é preciso entender os conceitos e como eles funcionam na realidade social para debater com responsabilidade.

Referências

As identidades culturais: proposições conceituais e teóricas – Luciano dos Santos;

Cultura com aspas – Manuela Cunha;

Identidade cultural na pós-modernidade – Stuart Hall.

Mateus Oka
Por Mateus Oka

Cientista social pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), realiza pesquisas na área da antropologia da ciência.

Como referenciar este conteúdo

Oka, Mateus. Identidade cultural. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/sociologia/identidade-cultural. Acesso em: 30 de September de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [ENEM]

A hibridez descreve a cultura de pessoas que mantêm suas conexões com a terra de seus antepassados, relacionando-se com a cultura do local que habitam. Eles não anseiam retornar à sua “pátria” ou recuperar qualquer identidade étnica “pura” ou absoluta; ainda assim, preservam traços de outras culturas, tradições e histórias e resistem à assimilação.
CASHMORE, E. Dicionário de relações étnicas e raciais. São Paulo: Selo Negro, 2000 (adaptado).
Contrapondo o fenômeno da hibridez à ideia de “pureza” cultural, observa-se que ele se manifesta quando:
a) criações originais deixam de existir entre os grupos de artistas, que passam a copiar as essências das obras uns dos outros.
b) civilizações se fecham a ponto de retomarem os seus próprios modelos culturais do passado, antes abandonados.
c) populações demonstram menosprezo por seu patrimônio artístico, apropriando-se de produtos culturais estrangeiros.
d) elementos culturais autênticos são descaracterizados e reintroduzidos com valores mais altos em seus lugares de origem.
e) intercâmbios entre diferentes povos e campos de produção cultural passam a gerar novos produtos e manifestações.

Resposta: e

Justificativa: com a globalização, fenômenos como a hibridez começam a se tornar mais evidentes, gerados pela relação entre diferentes povos.

2. [ENEM]

A recuperação da herança cultural africana deve levar em conta o que é próprio do processo cultural: seu movimento, pluralidade e complexidade. Não se trata, portanto, do resgate ingênuo do passado nem do seu cultivo nostálgico, mas de procurar perceber o próprio rosto cultural brasileiro. O que se quer é captar seu movimento para melhor compreendê-lo historicamente.
MINAS GERAIS. Cadernos do Arquivo 1: Escravidão em Minas Gerais. Belo Horizonte: Arquivo Público Mineiro, 1988.
Com base no texto, a análise de manifestações culturais de origem africana, como a capoeira ou o candomblé, deve considerar que elas
a) permanecem como reprodução dos valores e costumes africanos.
b) perderam a relação com o seu passado histórico.
c) derivam da interação entre valores africanos e a experiência histórica brasileira.
d) contribuem para o distanciamento cultural entre negros e brancos no Brasil atual.
e) demonstram a maior complexidade cultural dos africanos em relação aos europeus.

Resposta: c

Justificativa: o resgate de uma identidade cultural africana pelos movimentos negros no Brasil trata-se de uma forma de valorizar os elementos africanos na história brasileira – uma influência que tem sido apagada, apesar do discurso corrente.

3. [ENEM]

Na regulamentação de matérias culturalmente delicadas, como, por exemplo, a linguagem oficial, os currículos da educação pública, o status das Igrejas e das comunidades religiosas, as normas do direito penal (por exemplo, quanto ao aborto), mas também em assuntos menos chamativos, como, por exemplo, a posição da família e dos consórcios semelhantes ao matrimônio, a aceitação de normas de segurança ou a delimitação das esferas pública e privada — em tudo isso reflete-se amiúde apenas o autoentendimento ético-político de uma cultura majoritária, dominante por motivos históricos. Por causa de tais regras, implicitamente repressivas, mesmo dentro de uma comunidade republicana que garanta formalmente a igualdade de direitos para todos, pode eclodir um conflito cultural movido pelas minorias desprezadas contra a cultura da maioria.
HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. São Paulo: Loyola, 2002.

A reivindicação dos direitos culturais das minorias, como exposto por Habermas, encontra amparo nas democracias contemporâneas, na medida em que se alcança
a) a secessão, pela qual a minoria discriminada obteria a igualdade de direitos na condição da sua concentração espacial, num tipo de independência nacional.
b) a reunificação da sociedade que se encontra fragmentada em grupos de diferentes comunidades étnicas, confissões religiosas e formas de vida, em torno da coesão de uma cultura política nacional.
c) a coexistência das diferenças, considerando a possibilidade de os discursos de autoentendimento se submeterem ao debate público, cientes de que estarão vinculados à coerção do melhor argumento.
d) a autonomia dos indivíduos que, ao chegarem à vida adulta, tenham condições de se libertar das tradições de suas origens em nome da harmonia da política nacional.
e) o desaparecimento de quaisquer limitações, tais como linguagem política ou distintas convenções de comportamento, para compor a arena política a ser compartilhada.

Resposta: c

Justificativa: as democracias contemporâneas devem incentivar a coexistência das diferenças e a criação de um diálogo por meio da argumentação e do debate público. Essa necessidade aumenta com a globalização e os conflitos em relação à diversidade.

4. [UNESP]

Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor, e a buscar a simbiose do melhor de todas as culturas. A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas também segundo o comportamento de uma potência que, como seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emancipação. Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais.
(Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.)

No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin desenvolve
a) reflexões elogiosas acerca das consequências do etnocentrismo ocidental sobre outras culturas.
b) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da Revolução Francesa na história.
c) argumentos que defendem o isolamento como forma de proteção dos valores culturais.
d) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental e outras culturas na história.
e) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da Revolução Francesa.

Resposta: d

Justificativa: conflitos entre povos diferentes sempre existiram; entretanto, a violência da colonização da civilização ocidental acabou submetendo várias culturas a uma posição de subordinação no plano mundial. Assim, o etnocentrismo passa a constituir a violência e a intolerância.

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