Crônicas

Gênero tipicamente brasileiro, a crônica é descontraída e pode esbarrar em outros gêneros, como o poético, o narrativo e o ensaístico.

A palavra crônica vem do grego chronikós (de chrónos, tempo), e nem sempre teve o mesmo significado que tem hoje. No início da era cristã, a palavra designava uma descrição de acontecimentos cronológicos, sendo mais relacionada à História que à Literatura. Isso mudou no decorrer dos séculos e, no Brasil – já que a crônica é um gênero genuinamente brasileiro -, tornou-se o que é hoje. Vejamos como isso aconteceu e os tipos de crônicas existentes.

Breve histórico da crônica

Como dito anteriormente, no início da era cristã, a palavra crônica designava um tipo de registro histórico. Nesse formato, alcançou seu auge no século XII, com livros que buscavam reunir a história dos reis europeus, bem como, em alguns casos, das manifestações e revoluções populares da época.

Em seu formato atual, a crônica surgiu no século XIX. Nessa época, já não mantinha a preocupação de registro histórico que tivera anteriormente. O que se manteve foi sua relação com fatos do dia a dia.

Com a difusão da imprensa, a crônica passou a ser veiculada nos jornais, como um registro artístico e não jornalístico da realidade. E muitos grandes autores adotaram esse gênero como uma de suas possibilidades de escrita, como Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, João do Rio, Rubem Braga, entre outros.

Hoje, a crônica permanece como um gênero forte e estabelecido – ainda que por vezes menosprezado pela crítica mais tradicional. É o tipo de texto literário mais comumente encontrado em jornais, blogs e sites variados, além de aparecer em postagens de redes sociais e ser facilmente adaptável para o formato vídeo, por muitas vezes se tratar de uma reflexão livre sobre algum tema atual.

Vejamos, agora, algumas de suas principais características.

Características da crônica

Ainda que possa ser encontrada em outros veículos, o habitat da crônica é principalmente o jornal – seja ele físico ou virtual. Nesse sentido, a crônica tende a ser efêmera. Costuma tratar de assuntos bastante contemporâneos à sua produção – o que faz certas crônicas envelhecerem mal e ficarem datadas. Isso, entretanto, vem mudando a partir de sua migração para novas plataformas virtuais e sua cada vez maior abertura para temas perenes e universais. Dentre as características comuns das crônicas, temos:

  • Brevidade: por ser um gênero para o jornal, muitas vezes sua extensão é limitada ao espaço disponível em uma determinada coluna ou página. Isso força o gênero a ser conciso e buscar reunir o máximo de expressão em uma quantidade mínima de texto. É também por essa mesma limitação de extensão que a crônica tende a operar dentro de um recorte de realidade: por vezes somos lançados em meio a um acontecimento e o que vemos é apenas seu desenrolar.
  • Temas cotidianos: também devido à sua origem, a crônica costuma explorar temas do dia a dia. Mas isso não a torna um gênero banal: é comum que se parta de acontecimentos cotidianos para reflexões mais extensas e profundas sobre a vida, política, realidade ou quaisquer outros temas. A crônica é descontraída e descompromissada, mas justamente por isso pode revelar muito sobre a sociedade da qual emerge.
  • Linguagem simples e coloquial: essa é mais uma característica que se deve à sua origem cotidiana e jornalística. A crônica busca sempre ser compreendida pelo maior número de pessoas possível. Por seu ambiente ser o jornal, sua premissa é que seja lida tanto por pessoas muito simples como por pessoas extremamente cultas. Como alcançar ambos grupos igualmente? Por meio de uma linguagem clara, direta, simples e acessível – como se retratasse uma conversa que se poderia ter em um bar ou café.

Há outras características que poderiam ser elencadas, mas muitas delas variam de acordo com o tipo de crônica do qual se está falando. As três características acima são as mais gerais e comuns na crônica, independentemente do tipo.

Tipos de crônica

A crônica é um gênero fluido, que esbarra com tranquilidade em outros gêneros, como a poesia, a narrativa e o ensaio. É desses encontros que surgem os variados tipos de crônicas existentes. Apresentamos alguns deles aqui:

Crônica narrativa

A crônica narrativa é um gênero que esbarra no conto, trazendo todos ou quase todos os elementos na narrativa em sua construção. A diferença desse tipo de crônica e do conto pode ser marcada no fato de a crônica ser mais contemporânea e tratar de assuntos em voga na época de sua produção, além do fato de o narrador da crônica se aproximar um pouco mais do eu do(a) cronista do que acontece no conto.

Crônica jornalística ou ensaística ou dissertativa

A crônica ensaística ou jornalística tende a ser um pouco mais séria, e parte de acontecimentos reais (e, portanto, passíveis de registro jornalístico) para reflexões mais amplas sobre a humanidade, a sociedade, religião, política, entre outros grandes temas.

Crônica poética ou literária

A crônica poética acontece quando o texto tende mais para o lado da poesia. Nesse tipo, há jogos de linguagem, metalinguagem, reflexões sobre o próprio processo de escrita e reflexões sobre grandes temas, com menor vínculo com o cotidiano. Também nesse tipo é possível partir de um pequeno acontecimento que serve de estopim e seguir para outras reflexões filosóficas e de linguagem que estão para além de tal acontecimento.

Crônica humorística

A crônica humorística pode somar características de todos os tipos anteriores, com o adicional de ser uma crônica que trata de quaisquer temas que trate por meio do humor. Esse humor pode tanto ser velado e irônico quanto mais aberto, com piadinhas e chistes mais óbvios e diretos. Esse tipo costuma ser um dos mais apreciados, justamente por sua capacidade de entreter ao mesmo tempo em que faz refletir.

Se formos listar tipos a partir de todos os variados temas que a crônica pode abordar, teremos uma infinidade deles, já que a crônica é um gênero bastante plástico e múltiplo. Os tipos aqui elencados são os mais gerais, capazes de reunir outros tipos menores dentro de si satisfatoriamente.

Exemplos de crônica

Agora, para compreender melhor o que é esse gênero, nada mais útil do que observar uma crônica, na prática. Temos aqui dois exemplos diferentes, um de Luís Fernando Veríssimo e um de Clarice Lispector. Leiamos.

Metamorfose (Luís Fernando Veríssimo)

Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: “Que horror… Preciso acabar com essas baratas…”

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?… Tinha educação?…. Referências?… Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois, mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

Kafka não significa nada para as baratas…

Comentário:

Essa é uma crônica narrativa, com tons humorísticos. É narrativa, pois apresenta uma história, ainda que muito resumidamente. Tem tom humorístico porque usa a transformação da barata para refletir ironicamente sobre a sociedade e humanidade. Outro ponto importante dessa crônica é que ela faz referência à obra Metamorfose, de Franz Kafka, em que o personagem Gregor Samsa também acorda transformado em um inseto (possivelmente um besouro).

O milagre das folhas (Clarice Lispector)

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.

Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.

Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

Comentário:

Essa é uma crônica poética ou literária, com tons ensaísticos. Nela, parte-se de um acontecimento muito banal, como o cair de uma folha, para falar sobre coisas grandes, como milagres e Deus. Note, ainda, como a narradora pode ser facilmente confundida com a autora do texto.

Cronistas contemporâneos

Há diversos cronistas contemporâneos que poderíamos citar aqui. Eles estão espalhados por diversos veículos de comunicação do Brasil, e refletem em seus textos sobre o cotidiano, sociedade, política, entre outros assuntos. Dentre eles, alguns passíveis de menção são: Humberto Werneck, Nélida Piñon, Ruy Castro, Vanessa Bárbara, Victor Simião, Fabrício Corsaletti, Noemi Jaffe, Andressa Barichello, Martinho da Vila, Fernanda Torres, Tati Bernardi, Gregório Duvivier, entre outros. A maioria deles possuem textos disponíveis na internet e redes sociais, bem como, em alguns casos, livros e jornais. Vale conhecer mais sobre esses e outros cronistas contemporâneos para aprofundar suas reflexões sobre o nosso tempo.

Vídeos sobre crônica para entender mais sobre o gênero

Para complementar sua compreensão sobre crônicas, apresentamos aqui alguns vídeos sobre o assunto, cada um com um enfoque ligeiramente diferente do outro:

Crônica como gênero textual

Nessa aula, a professora Pam Brandão explica mais sobre como identificar uma crônica, especialmente no contexto de ENEM ou vestibular.

Os variados tipos de crônica

O professor Luiz Antônio complementa nesse vídeo nossa discussão sobre tipos de crônica, com exemplos. Além disso, reforça alguns traços das características gerais do gênero.

Diferenças entre a crônica e o conto

O conto é um dos gêneros mais facilmente confundidos com a crônica. Pensando nisso, vale a pena ouvir a explicação de Prosa Júnior sobre a diferença entre esses dois gêneros.

BÔNUS: Uma reflexão sobre ler e escrever crônicas

Além dos vídeos acima, trago um vídeo de minha própria autoria sobre o tema, em que explico um pouco mais sobre o gênero, complementando com dicas para quem se interessa também por escrever dentro desse gênero literário.

Para recapitular, podemos dizer que, apesar de ser um gênero antigo, é no Brasil que a crônica ganha os traços característicos que tem hoje. É importante sempre ressaltar isso, porque a literatura brasileira é riquíssima e se torna ainda mais diversificada e potente a partir do Modernismo no Brasil – outro assunto qual vale a pena se aprofundar!

Referências

MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1997.
SANTOS, Joaquim Ferreira dos (org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

Thays Pretti
Por Thays Pretti

Mestre em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e escritora, sendo autora de "A mulher que ri" e "Efêmeras" e de contos e crônicas esparsos em livros, jornais e blogs.

Como referenciar este conteúdo

Pretti, Thays. Crônicas. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/portugues/cronicas. Acesso em: 25 de November de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [ENEM - 2012]

Desabafo

Desculpem-me, mas não dá pra fazer uma cronicazinha divertida hoje. Simplesmente não dá. Não tem como disfarçar: esta é uma típica manhã de segunda-feira. A começar pela luz acesa da sala que esqueci ontem à noite. Seis recados para serem respondidos na secretária eletrônica. Recados chatos. Contas para pagar que venceram ontem. Estou nervoso. Estou zangado.

CARNEIRO, J. E. Veja, 11 set. 2002 (fragmento).

Nos textos em geral, é comum a manifestação simultânea de várias funções da linguagem, com o predomínio, entretanto, de uma sobre as outras. No fragmento da crônica Desabafo, a função da linguagem predominante é a emotiva ou expressiva, pois

a) o discurso do enunciador tem como foco o próprio código.

b) a atitude do enunciador se sobrepõe àquilo que está sendo dito.

c) o interlocutor é o foco do enunciador na construção da mensagem.

d) o referente é o elemento que se sobressai em detrimento dos demais.

e) o enunciador tem como objetivo principal a manutenção da comunicação.

Resposta: “B”.

Trata-se da função emotiva ou expressiva da linguagem, pois todos os elementos estão voltados para a figura do enunciador.

2. [ENEM - 2008]

São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas. O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:

— Quantos são aqui?

Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:

— Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.

E outro:

— Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota dos seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor… (…)

E outro:

— Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!

(Rubem Braga. Para gostar de ler. v. 3. São Paulo: Ática, 1998, p. 32-3 (fragmento).)

O fragmento acima, em que há referência a um fato sócio-histórico — o recenseamento —, apresenta característica marcante do gênero crônica ao:

a) expressar o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a ideia de uma coisa por meio de outra.

b) manter-se fiel aos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só espaço.

c) contar história centrada na solução de um enigma, construindo os personagens psicologicamente e revelando-os pouco a pouco.

d) evocar, de maneira satírica, a vida na cidade, visando transmitir ensinamentos práticos do cotidiano, para manter as pessoas informadas.

e) valer-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção de texto que recebe tratamento estético.

Resposta: “E”.

A crônica é um gênero que trata da vida real, mas de forma descompromissada do aspecto jornalístico em si. Há liberdade para a opinião e a reflexão.

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