Anacoluto

Consiste em uma quebra sintática inesperada, comumente utilizada em enunciados em tópicos e na comunicação diária.

Na comunicação diária, seja ela oral ou escrita, podemos utilizar diversas figuras de linguagem para construir um enunciado. Entre elas, há o anacoluto, uma figura de construção comumente utilizada nos momentos de fala. Neste texto, você encontrará sua definição, exemplos na literatura e na música, além de exercícios para sedimentar seu uso.

O que é anacoluto

Para compreender melhor o que é a figura de sintaxe denominada anacoluto, veja a origem da palavra: seu sinônimo, anacolutia, vem do grego, com an sendo um prefixo que significa “não”, e akoloutia, “sequência”. Assim, anacoluto consiste na quebra da estrutura esperada de uma oração, isto é, uma construção sintática irregular.

A sentença possui sentido, mas sua construção sintática está “quebrada”, com seus elementos soltos. Geralmente, em um enunciado topicalizado, é utilizado para dar ênfase a algo.

Veja o seguinte exemplo. Na primeira frase, “aquele menino” não está conectado sintaticamente a nenhum outro elemento do período; já na segunda, ele é movido como complemento do verbo ajudar.

  1. Aquele menino, como podemos ajudar?
  2. Como podemos ajudar aquele menino?

O anacoluto é utilizado por muitos autores, como Graciliano Ramos e James Joyce, para exprimir o fluxo de consciência de suas personagens. Importante ressaltar que essa figura de linguagem está no mesmo grupo do pleonasmo, anáfora, elipse, zeugma, assíndeto, polissíndeto, anástrofe, hipérbato e silepse.

Exemplos de anacoluto

Apesar de ser primordialmente utilizado na oralidade, também é possível encontrar essa figura de linguagem na literatura e na música. Você poderá ver vários exemplos abaixo para ajudá-lo a compreender melhor o conteúdo.

Na música

Nos trechos das músicas a seguir há dois exemplos de anacoluto. Em (1), o vocábulo mel está incompleto sintaticamente, isto é, não há nenhum verbo ou complemento que o complete; por isso, pode-se dizer que ele está solto na sentença.

  1. Como bebe um marinheiro de partida, mel
    (Embarcação, de Chico Buarque)
  2. Oh oh
    Quem ama o feio
    Bonito lhe parece
    Nos olhos de quem vê (Mina Feia, de Seu Jorge)

Já em (2), o anacoluto ocorre porque há uma mudança no sujeito de uma oração para a outra. Geralmente, a primeira sentença (quem ama o feio) desempenharia a função de sujeito oracional na segunda (bonito lhe parece); mas, nesse caso, apenas “feio” torna-se o sujeito, rompendo a estrutura sintática esperada.

Na literatura

Nos trechos abaixo, retirados de obras literárias, é possível verificar a quebra sintática nos trechos destacados. Em todos eles não há um verbo ou os complementos esperados pois, após a vírgula, outra oração é iniciada sem haver completude sintática.

  1. O homem, chamar-lhe mito
    não passa de anacoluto.
    (Confissão, em As impurezas do branco, de Carlos Drummond de Andrade)
  2. O homem daqui, seu conceito de felicidade é muito mais subjetivo: ser feliz não é ter coisas; ser feliz é ser livre, não precisar de trabalhar. (Felicidade, de Rachel de Queiroz)
  3. E a menina, para não passar a noite só, era melhor que fosse dormir na cada de uns vizinhos, a menos de quilômetro de distância. (O Caso da Menina da Estrada do Canindé, de Rachel de Queiroz)

Outros exemplos

Da mesma forma como nos exemplos literários da seção anterior, todas as sentenças destacadas abaixo possuem apenas o sujeito, não há verbos e complementos que o auxiliem sintaticamente. Como leitor, você se pergunta após o início de cada uma das sentenças: o quê? A pergunta, porém, não é respondida.

  1. O menino, o que é feito dele?
  2. Nós, você pode contar conosco.
  3. Meu pai, eu sempre honrarei a memória dele.
  4. Um bom amigo, você sabe que faço tudo por ele.
  5. Guerras, não gosto de violência.

Como se pode notar, o anacoluto também é utilizado em composições musicais e na literatura, como uma estrutura que permite a criação de tópicos discursivos. Entretanto, é no dia a dia que essa figura de sintaxe é mais vista, mesmo que os falantes não percebam sua utilização.

Videoaulas

Como vimos no decorrer do texto, o anacoluto é um recurso linguístico comumente utilizado na comunicação diária. Entretanto, existem diversas figuras de linguagem e, por isso, nos vídeos abaixo você poderá revisá-las e se aprofundar no conteúdo.

Revisão sobre as figuras de linguagem

Existem diversas figuras de linguagem, o anacoluto é apenas uma delas. Neste vídeo, você poderá assistir um panorama sobre elas e evitar dúvidas na hora de classificá-las em um texto.

Sobre o anacoluto

Neste vídeo, há uma explicação mais detalhada sobre o anacoluto, utilizando um texto literário.

Pleonasmo ou anacoluto

Apesar de distintos, o pleonasmo e o anacoluto podem causar confusão. Neste vídeo, é elucidado, por meio de exemplos, a diferença entre as duas figuras de linguagem.

Portanto, a importância do estudo do anacoluto reside na capacidade de reconhecê-lo como um recurso estilístico que pode ser empregado em textos, da mesma forma como as outras figuras de linguagem.

Referências

Anacolutia: estrutura do anacoluto – José Rebouças Macambira;
Moderna Gramática Portuguesa – Evanildo Bachara.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [FUVEST/SP]

O anacoluto (quebra da estruturação lógica da frase) presente no provérbio “Quem ama o feio, bonito lhe parece”, também se verifica em:

a) Quem o mal deseja ao seu vizinho, vem o seu pelo caminho.
b) Quem anda sem dinheiro, não arranja companheiro.
c) Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
d) Quem anda depressa é quem mais tropeça.
e) Quem com o demo anda, com o demo acaba.

Correta: a.
Justificativa: Essa questão possui um certo grau de dificuldade, pois é necessário atentar-se à ordem dos elementos na sentença original e então compará-la às alternativas. Em “quem ama o feio, bonito lhe parece”, o sujeito da segunda oração não é a primeira oração, mas apenas a palavra “feio”. Essa quebra da estrutura sintática ocorre novamente apenas na letra a, na qual o sujeito de “vem o seu pelo caminho” é “o mal”. Em todas as outras opções, a primeira oração funciona como sujeito oracional da segunda.

2. [UNIFOR/CE]

Anacoluto é uma figura em que ocorre quebra da estrutura sintática da oração. Há anacoluto, portanto, no segmento:

a) Outro dia, falando na vida do caboclo nordestino, eu disse aqui que ele não era infeliz.
b) Para o homem da cidade, ser feliz se traduz em “ter coisas”.
c) O homem daqui, seu conceito de felicidade é muito mais subjetivo.
d) Ser feliz não é ter coisas; ser feliz é ser livre, não precisar de trabalhar.
e) O melhor patrão do mundo não é o que paga mais, é o que não exige sujeição.

Correta: c.
Justificativa: A correta é a letra c, pois o trecho “o homem daqui” não está completo sintaticamente (sujeito + verbo + complementos) e a oração seguinte não exerce nenhuma função para completá-la.

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