Vidas Secas

Publicado em 1938, Vidas Secas é a obra mais famosa de Graciliano Ramos. A novela acompanha a família de Fabiano e suas dificuldades pelo sertão.

Publicado em 1938, durante a segunda fase do Modernismo, e apesar de inicialmente ser concebido como um conjunto de contos, Vidas Secas tornou-se o romance mais conhecido de Graciliano Ramos e é considerado por muitos como sua melhor obra, na qual o leitor acompanha as experiências de Fabiano e sua família pelo sertão nordestino. O autor alagoano consiste em um dos maiores nomes da literatura brasileira por fundir rigor estilístico e relevante contexto sócio-histórico.

Ramos, principal prosador da geração de 1930, adentra no contexto do Nordeste brasileiro e foca, assim como outros autores da vertente literária do romance nordestino, na construção de personagens que exibem uma realidade palatável do sertão. Assim, Vidas Secas encaixa-se no neorrealismo e busca retomar na literatura o interesse social do romance realista do século XIX.

Personagens

  • Fabiano: é um homem que possui receio da linguagem articulada do outro, pois passou por diversas situações ruins, assim, “as palavras parecem dotadas de um poder mágico e ele admira e teme os que conseguem falar com facilidade” (SARMENTO; TUFANO, 2010, p. 106).
  • Sinha Vitória: é a esposa de Fabiano. Ao contrário do marido, vislumbra a situação precária em que sua família vive, sempre se preocupa com as futuras secas e em como elas podem ser destrutivas.
  • Menino mais novo e menino mais velho: não reconhecem a miséria que vivem e, por não possuírem nomes próprios, marcam sua pessoalidade pela personalidade dos pais.
  • Cachorra Baleia: é querida pela família e é humanizada ao longo da narrativa.
  • Personagens secundárias: Tomás da bolandeira, soldado amarelo, o fazendeiro, fiscal da prefeitura e Sinha Térta.

Resumo da obra

O livro inicia com a família de Fabiano fugindo da seca do sertão e encontrando um local aparentemente abandonado para descansar. Entretanto, com a vinda das chuvas, o proprietário da fazenda chega e expulsa a família. Fabiano, então, oferece seus serviços como vaqueiro para permanecer ali, mas o patrão demonstra ser cruel e abusa de sua autoridade ao cobrar caro pelos mantimentos básicos oferecidos. Fabiano continua a se submeter ao patrão, mas começa a ir à cidade para comprar comida.

Em um episódio, ao ir comprar mantimentos na vila, adentra em um bar e joga cartas com um soldado, mas, ao haver desentendimento por causa da jogatina, é preso (mesmo com chance para se vingar, decide que não vale a pena). Após ser solto, retorna a sua família. Sinha Vitória possui o sonho de se ver livre da situação que se encontram, por isso, deixam a fazenda e se dirigem ao sul do país fugindo, da mesma forma como no início da narrativa, da seca.

Desfecho

Após várias tentativas de fuga, no último capítulo de Vidas Secas, intitulado Fuga, o narrador enfatiza que a vida na fazendo se tornara difícil, por isso, a família decidiu abandonar a região. Fabiano salientava que nada o prendia naquela terra seca e que acharia um lugar melhor para morrer. Entre momentos de otimismo e pessimismo, o vaqueiro caminhava junto a sua família, pensava sobre o soldado, o patrão e a morte da cachorra Baleia.

Durante o dia procuram sombra e água para satisfazer suas necessidades. Sinha Vitória rebatia constantemente o pessimismo de seu marido e indagava o porquê de sua família não possuir os bens como o patrão da terra que estavam. No fim, Fabiano acreditava no sonho de ir para essa nova terra. O livro encerra-se com a seguinte descrição: “Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos”.

Análise da obra e contexto histórico

  • Narrador: terceira pessoa, onisciente.
  • Espaço: sertão nordestino.
  • Tempo: psicológico, ocorre entre a descrição de duas secas.
  • Foco narrativo: família de Fabiano e introspecção das personagens.
  • Fatores externos: Segunda fase do Modernismo, Revolução de 1930, Estado Novo, urbanização ascendente a partir do início do século XX.

Vidas Secas, como o próprio título sugere, retrata o cotidiano de uma família no sertão nordestino, com seus anseios suprimidos por um ambiente hostil fisicamente e opressivo socialmente. Concebido como vários contos, a obra de Graciliano Ramos possui diversos capítulos que focam intrinsecamente em suas personagens e permitem ao leitor um mergulho na psique de Fabiano e sua família. Em um ambiente que transforma homem em bicho e bicho em homem, o autor alagoano descreve seus personagens humanos como ásperos e brutos. Por exemplo, Fabiano possui vergonha de se considerar um homem, com o próprio narrador explicitando que a personagem se trata de um animal.

O protagonista é fixado em sua terra, como um arbusto tem suas raízes no sertão. Descendente de vaqueiros, sonhava em possuir sua própria terra para cuidar de um rebanho e cultivá-la. Entretanto, nunca conseguiu essa prosperidade para si e sua família: era oprimido e amordaçado pelo sistema social, pelo Estado e pela terra, com o primeiro representado pelo patrão; o segundo, pelo soldado; e o último, pelo sertão nordestino. Nesse sentido, o autor utiliza amplamente o discurso indireto livre para capturar o pouco que os protagonistas, em especial Fabiano, dizem. O narrador em terceira pessoa, porém, onisciente do sofrimento desses sujeitos, permite ao leitor acompanhar visceralmente o núcleo familiar, com suas dificuldades e embates psicológicos.

O sertão nordestino retratado por Graciliano Ramos, a partir de um regionalismo que trata de temas universais, conversa sobre a condição de miséria perante a seca, o abuso de autoridade, a exploração do trabalho e a inócua perspectiva de vida de suas personagens.

Contexto histórico e literário

No período em que Vidas Secas foi publicado, ocorreu uma aceleração no processo de urbanização nacional, porém, duas realidades distintas surgiram: o crescente desenvolvimento da região Sul e Sudeste do país, em contraste com o atraso da região Nordeste. As antigas oligarquias rurais já não representavam o novo espectro econômico e social brasileiro, o que acarretou, em última instância, na revolução de 1930 e posterior Era Vargas. Ademais, nesse contexto, o Modernismo brasileiro alcançava sua segunda geração, na qual a prosa regionalista e a crítica social ganharam força com Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego, por exemplo.

Entenda mais sobre a obra

Depois de ler um pouco sobre Vidas Secas, assista aos vídeos abaixo para sedimentar as informações sobre essa obra de Graciliano Ramos e seu contexto de produção.

Resumo de Vidas Secas em animação

Nessa animação é possível ver a narrativa completa de Vidas Secas de uma forma rápida e que permite sedimentar o conteúdo do livro.

Vida de Graciliano Ramos

A vida de Graciliano Ramos é rica em detalhes que reverberam em suas obras. Nesse vídeo há um resumo sobre os principais fatos que o autor alagoano viveu.

Prosa na segunda fase do Modernismo

A segunda fase do Modernismo possui diversas características. Nesse vídeo é possível acompanhar um resumo de todos os pontos importantes dessa corrente literária na prosa.

Filme e outras adaptações

Além de ler o livro, é possível conferir outras adaptações da icônica narrativa de Vidas Secas para outras mídias.

Filme: Vidas Secas (1963)

Dirigido por Nelson Pereira dos Santos e lançado em 1963, essa adaptação de Vidas Secas para o cinema é estrelado por Átila Iório, Maria Ribeiro e Orlando Macedo. O longa concorreu à Palma de Ouro, do Festival de Cannes, em 1964. No vídeo há uma das cenas do longa.

Graphic Novel: Vidas Secas (2015)

Graphic novel de Vidas Secas.
Trecho da graphic novel de Vidas Secas. Fonte: Grupo Editorial Record.

Adaptado para os quadrinhos pelo quadrinista Eloar Guazzelli e roteirista Arnaldo Branco, Vidas Secas é revisitado e renovado, demonstrando a atualidade da escrita de Graciliano Ramos.

5 frases de Vidas Secas

As sentenças abaixo definem algumas das características fundamentais da obra, perpassando personagens, espaço e desfecho.

“A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas.”

“Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: – Você é um bicho, Fabiano.”

“Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás.”

“A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.”

“O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.”

Sobre o autor

Graciliano Ramos. Foto Acervo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP).

Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de outubro de 1892, na cidade Quebrangulo em Alagoas e foi o primeiro de dezesseis irmãos. Sua vida como escritor começou em 1904 quando publicou o conto “Pequeno Pedinte” e em 1906 iniciou uma colaboração com o Jornal de Alagoas. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1914 e trabalhou como revisor.

Casou-se em 1915 com Maria Augusta de Barros e seu primeiro filho, de um total de oito, nasceu um ano depois. Seu primeiro romance, Caetés, começaria a ser elaborado apenas em 1925. Também foi prefeito da cidade Palmeira dos Índios (AL). Seu segundo casamento ocorreu em 1928 com Heloísa Leite, após ficar viúvo sete anos depois das primeiras núpcias. Em 1934, publicou S. Bernardo, seu segundo romance.

Ao retornar para Maceió, foi preso e escreveu o romance Memórias de um Cárcere, no qual é contundentemente crítico ao governo Getúlio Vargas. Ao ser libertado, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. Publicou Vidas Secas em 1938. Ao ascender como escritor, assumiu a presidência da Associação Brasileira de Escritores em 1951. Aos 50 anos, morreu em virtude de um câncer de pulmão em 1953.

Portanto, Vidas Secas consiste em uma novela que foi além de qualquer romance nordestino da época, ainda continua vigoroso e atual.

Referências

Análise de obras literárias: Vidas Secas. Sistema de Ensino COC.
Biografia. Site oficial do escritor Graciliano Ramos.
Graciliano Ramos, uma poética da insignificância. Erwin Torralbo Gimenez.
O mundo coberto de penas: família e utopia em Vidas secas. Maria Helena Souza Patto.
Português: literatura, gramática e produção. Leila Lauar Sarmento e Douglas Tufano.
Vidas Secas. Graciliano Ramos.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [UEL]

O texto abaixo apresenta uma passagem do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, em que Fabiano é focalizado em um momento de preocupação com sua situação econômica. Escrito em 1938, esta obra insere-se num momento em que a literatura brasileira centrava seus temas em questões de natureza social.

“Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco.” (In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 55. ed. Rio de Janeiro: Record, 1991.)

Sobre este trecho do romance, somente está INCORRETO o que se afirma na alternativa:
a) Este trecho resume a situação de permanente pobreza de Fabiano e revela-se como uma crítica à economia brasileira e às relações de trabalho que vigoravam no sertão nordestino no momento em que a obra foi criada. Isso pode ser confirmado pelas orações: “… Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes….”
b) A oração: “Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça” tanto pode ser o discurso do narrador que revela o pensamento de Fabiano, quanto pode ser o próprio pensamento dessa personagem. Esse modo de narrar também ocorre com as demais personagens do romance.
c) A oração: “… Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco” indica a voz do narrador em terceira pessoa, ao mostrar o estado de agonia em que se encontra a personagem.
d) A expressão “Forjara planos”, típica da linguagem culta, é seguida no texto por um provérbio popular: “quem é do chão não se trepa”. Essa mudança de registro linguístico é reveladora do método narrativo de Vidas secas, que subordina a voz das classes populares à da elite.
e) O texto tem início com a esperança de Fabiano de mudanças em sua situação econômica; a seguir, passa a focalizar a realidade de pobreza em que a personagem se encontra, e finaliza com sua revolta e angústia diante da condição de empregado, sempre em dívida com o patrão.

Correta: d.

Justificativa: Além da miséria, um tema recorrente em Vidas Secas é a própria noção de abuso de uma classe sobre outra, como é possível averiguar na relação entre Fabiano e o fazendeiro. A linguagem utilizada por Graciliano Ramos sedimenta ainda mais essa visão.

2. [FUVEST]

Um escritor classificou Vidas secas como “romance desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita de episódios relativamente independentes e sequências parcialmente truncadas.
Essas características da composição do livro:

a) constituem um traço de estilo típico dos romances de Graciliano Ramos e do Regionalismo
nordestino.
b) indicam que ele pertence à fase inicial de Graciliano Ramos, quando este ainda seguia os ditames do primeiro momento do Modernismo.
c) diminuem o seu alcance expressivo, na medida em que dificultam uma visão adequada da realidade sertaneja.
d) revelam, nele, a influência da prosa seca e lacônica de Euclides da Cunha, em Os sertões.
e) relacionam-se à visão limitada e fragmentária que as próprias personagens têm do mundo.

Correta: e.

Justificativa: O romance é dividido em capítulos que focam nos personagens e permitem ao leitor conhecer a visão de mundo de cada um.

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