Lavoura Arcaica

O primeiro romance de Raduan Nassar, publicado em 1975, é considerado uma das grandes obras brasileiras contemporâneas, em que se mescla o lírico e o novelesco.

Lavoura Arcaica é o primeiro romance escrito pelo descendente de libaneses Raduan Nassar. A obra integra um período muito conturbado no cenário brasileiro: a ditadura militar. O texto é marcado pelo lirismo e pela prosa lírica, em que se unem prosa e poesia, além de abordar temas como patriarcalismo, incesto e religião. No texto abaixo, você poderá conferir o resumo e a análise da obra, além de videoaulas para fixar o conteúdo.

Resumo da obra

Capa Lavoura Arcaica
Capa da edição mais recente de “Lavoura Arcaica”. Fonte: Companhia das Letras (divulgação).

O romance narra a história de André, um jovem que vivia no interior, em uma região rural, mais precisamente na fazenda de sua família (de descendência árabe), com seus pais e mais seis irmãos (Pedro, Rosa, Zuleika, Huda, Ana e Lula). A personagem decide se mudar para outra cidade, a fim de se distanciar de sua família e tudo o que ela representava.

A história inicia-se com André em um quarto em uma velha pensão interiorana, onde recebe a visita de seu irmão mais velho, Pedro, que tem a incumbência (designada pelo pai) de fazê-lo retornar ao lar, ao seio familiar.

Com a visita do irmão, o protagonista é tomado por diversas lembranças de sua vida na lavoura e da fazenda dos pais, além da convivência com a família: recorda-se dos sermões de seu pai e de sua severidade; da própria infância; da mãe e do avô, que, apesar de morto, era uma figura sempre presente.

Em meio a tantas recordações e flashbacks, é revelada ao leitor a realidade perturbadora vivida na casa da família: o autoritarismo do pai, Iohána, que preza pelo equilíbrio no lar, além da sua rigidez moral que sufoca a todos; a tensão de André por não se sentir parte integrante da família, devido à sua inadequação aos padrões impostos pelo pai e ao amor incestuoso do protagonista por sua irmã Ana.

Desfecho trágico

Por fim, Pedro consegue fazer com que André retorne para casa, onde é recebido com grande alegria e com um alvoroço contido por parte do chefe do lar. O seu retorno é comparado à parábola bíblica do filho pródigo e, apesar da felicidade de todos, os desentendimentos de André com Iohána ainda permanecem.

Nos capítulos finais, na celebração festiva do retorno do filho que partira, o patriarca da família descobre o amor incestuoso entre os irmãos, Ana e André, e desfere um golpe mortal na direção da moça enquanto ela dançava, arruinando, assim, a própria família. O derradeiro capítulo é dedicado à memória do pai.

Personagens

Um dos principais pilares da análise literária é compreender as personagens de uma narrativa. O protagonista de Lavoura Arcaica demonstra sua complexidade em sua discursividade intrincadamente verborrágica. Abaixo, estão breves apresentações de cada uma das personagens do romance aqui analisado.

Personagens principais

  • André: personagem principal e narrador do romance, conta suas memórias na lavoura da família, seus desacordos com os ensinos e hábitos impostos pelo pai. Sofre por não se sentir pertencente à sua família e entende-se como um amaldiçoado por não se encaixar nos padrões de Iohána, além de ser assombrado pelo seu amor incestuoso por Ana.
  • Iohána: o patriarca da família, representante do patriarcalismo. Homem religioso, sempre reunindo os filhos ao redor da mesa para ensiná-los a conduta cristã, o equilíbrio das coisas e a importância do trabalho árduo na lavoura. Possui uma rigidez moral forte, o que reprime os filhos e os torna reféns de sua vontade absoluta.
  • Mãe: de acordo com a interpretação do narrador a respeito de sua própria história, a mãe seria a culpada, dentro da árvore familiar, pelo galho doentio da família, devido aos seus carinhos em excesso. A figura materna era responsabilizada por mimar os filhos com afeto demasiado e arruiná-los com isso. É também a que mais sofre com a partida de André.
  • Pedro: o irmão mais velho é o que tem a incumbência de convencer André a retornar para casa. Devido à sua posição de primogênito, é tido como a herança do pai, como o responsável pela permanência dos ensinamentos de Iohána e pela continuidade do respeito e do equilíbrio da família. Em diversos momentos, André o descreve como a figura perfeita do pai.
  • Ana: o amor de André por Ana é apontado pelo narrador como um dos principais motivos de sua fuga da casa da família. A caracterização da personagem é ambígua: em alguns momentos, ela é descrita como devota, sempre na capela rezando; em outros, a sua sensualidade é bem marcada, principalmente na festa da família em que a jovem dança ao som das rodas musicais.

Personagens secundárias

  • Avô: o avô, apesar de morto, é uma figura sempre presente, como um velho fantasma da família, representando também a ancestralidade da casa.
  • Rosa, Zuleika e Huda: depois de Pedro, Rosa, Zuleika e Huda são as filhas mais velhas e também aceitam todos os ensinamentos do pai com resignada obediência. As personagens aparecem pouco e possuem pouquíssimas falas e espaço, marcando assim o espaço da mulher no contexto do romance.
  • Lula: Lula é o caçula da família e, assim como André, também deseja se ver livre das garras do pai e de sua rigidez.

Agora que conhecemos mais sobre as personagens, é hora de adentrar em outros detalhes do romance, principalmente relacionados ao contexto de produção, à temática e à estética literária.

Análise de Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica foi publicado em 1975, período marcado pela ditadura militar, mas com leves nuances de abertura política e de amenização da repressão; Ernesto Geisel era o presidente do país na época. O romance de Raduan Nassar é totalmente permeado pelo contexto de repressão ainda vivido nos anos 70. O texto retoma e critica as bases estruturais sociais do país, o patriarcalismo, as relações familiares e o machismo.

A obra é uma fusão entre a novela, a lírica e a narrativa, prosa e poesia, e tem a linguagem como um instrumento de significação: o fluxo do pensamento, os flashbacks e as memórias ganham ainda mais potência devido à linguagem que os qualifica, reforçando o caráter veloz, corruptível, desordenado e profundo da memória e das lembranças. Além disso, há diversos intertextos com trechos e parábolas bíblicas, bem como ensinamentos árabes.

Quanto às temáticas, André, sua mãe e seus irmãos são reféns de um sistema que reforça a superioridade masculina – principalmente a figura paterna, que deve ser respeitada e jamais questionada. Trabalha entre a linha do sagrado/religião e o profano, o equilíbrio e a desmedida, a indolência e as paixões. Expões os problemas gerados, nas relações familiares e pessoais, por um sistema social que sufoca seus integrantes.

Lavoura Arcaica: adaptação

O longa-metragem, produzido por Luiz Fernando Carvalho, foi lançado em 2001 e conta com grandes nomes do cinema brasileiro, como Selton Mello. Abaixo, você pode conferir o trailer do filme:

Foi reconhecido e premiado como o melhor longa brasileiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2001. Angariou também o prêmio especial do júri no Festival de Biarritz, em 2002, na França, além de receber a honra de melhor contribuição artística no Festival des Films du Monde de Montreal, no Canadá, em 2001. Recebeu também prêmios de Melhor Música Original, Melhor Fotografia, Melhor ator e Melhor Filme no Festival de Brasília (2001).

Que tal conhecer mais sobre a obra?

O romance Lavoura Arcaica pode ser considerado uma leitura desafiadora. Para amenizar um pouco o processo de absorver as características essenciais da obra, além do próprio texto que você acabou de ler, confira três vídeos que abordam a obra mais famosa de Raduan Nassar.

Resenha de Lavoura Arcaica

Assista a essa breve análise para conhecer mais detalhes e fixar o conteúdo. Lembre-se, porém, que é muito importante que você tenha contato com a obra para desenvolver sua própria percepção sobre ela.

Os nuances da narrativa de Raduan Nassar

Nesse quadro da Universidade Federal do Paraná, Entre Linhas, vários detalhes sobre a personagem de André e a estrutura da obra são elucidados. Confira o vídeo para tirar aquelas dúvidas que sempre surgem ao ler uma obra complexa.

Lavoura Arcaica, por João Anzanello Carrascoza

João Anzanello Carrascoza, famoso autor contemporâneo brasileiro, comenta sobre o livro Lavoura Arcaica para a série Livro de Cabeceira, produzida pela Cartola Filmes.

Lavoura Arcaica é a típica obra que marca a vida literária de qualquer leitor. As nuances temáticas e estilísticas tornam o livro um dos principais da literatura pós-1970 no Brasil. Agora que você conheceu mais sobre a obra, leia também sobre o autor Raduan Nassar.

Referências

Lavoura Arcaica (1975) – Raduan Nassar
Lavoura Arcaica: análise de personagens na literatura e no cinema (2015) – Érica R. Gonçalves

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Como referenciar este conteúdo

Ferrari, Leonardo. Lavoura Arcaica. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/literatura/lavoura-arcaica. Acesso em: 22 de September de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [UFPR]

Considere o trecho abaixo, que integra o livro Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar:

“[…] aprenderei ainda muitas outras tarefas, e serei sempre zeloso no cumprimento de todas elas, sou dedicado e caprichoso no que faço, e farei tudo com alegria, mas pra isso devo ter um bom motivo, quero uma recompensa para o meu trabalho, preciso estar certo de poder apaziguar a minha fome neste pasto exótico, preciso do teu amor, querida irmã, e sei que não exorbito, é justo o que te peço, é a parte que me compete, o quinhão que me cabe, a ração a que tenho direito”, e, fazendo uma pausa no fluxo da minha prece, aguardei perdido em confusos sonhos, meus olhos caídos no dorso dela, meu pensamento caído numa paragem inquieta, mas tinha sido tudo inútil, Ana não se mexia, continuava de joelhos, tinha o corpo de madeira, nem sei se respirava […] (p. 124)

Sobre esse trecho, assinale a alternativa correta.

a) Ana se mantém imóvel diante do irmão, o que faz desse trecho um contraponto com outra cena central do romance, em que a sensualidade e exuberância da personagem serão expostas numa dança.
b) Esse trecho apresenta a figuração da linguagem característica das demais falas de André, exemplificando um discurso que cruza a linguagem enigmática das preces religiosas associado com metáforas ligadas à agricultura.
c) As falas de Ana só estão omitidas nesse trecho; em todo o restante do romance, no entanto, a irmã é a principal propagadora da ordem instituída pelo pai, enquanto o discurso de André se contrapõe ao deles.
d) O livro de Raduan Nassar faz referências explícitas ao texto bíblico, procurando demonstrar, como nesse trecho, que o instinto e as leis da natureza estão de acordo com a moralidade cristã.
e) A linguagem enigmática do texto religioso é típica do pai de André, e isso reforça o seu desacordo com o filho, cujas falas são sempre explícitas e concisas, sem referências aos textos religiosos.

Reposta: a

Justificativa: No trecho acima, Ana e André encontram-se em uma capela, local onde o diálogo acontece; nesse momento, a imagem construída de Ana é de uma moça devota e boa. Tal construção é contraponto não só da cena de Ana dançando, mas de toda a ideia levantada pelo narrador de que Ana é a responsável por seu declínio.

2. [Albert Einstein]

Leia o trecho do romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, para responder à questão.

– Meu coração está apertado de ver tantas marcas no teu rosto, meu filho; essa é a colheita de quem abandona a casa por uma vida pródiga.
– A prodigalidade também existia em nossa casa.
– Como, meu filho?
– A prodigalidade sempre existiu em nossa mesa.
– Nossa mesa é comedida, é austera, não existe desperdício nela, salvo nos dias de festa.
– Mas comemos sempre com apetite.
– O apetite é permitido, não agrava nossa dignidade, desde que seja moderado.
– Mas comemos até que ele desapareça; é assim que cada um em casa sempre se levantou da mesa.
– É para satisfazer nosso apetite que a natureza é generosa, pondo seus frutos ao nosso alcance, desde que trabalhemos por merecê-los. Não fosse o apetite, não teríamos forças para buscar o alimento que torna possível a sobrevivência. O apetite é sagrado, meu filho.
– Eu não disse o contrário, acontece que muitos trabalham, gemem o tempo todo, esgotam suas forças, fazem tudo que é possível, mas não conseguem apaziguar a fome.
– Você diz coisas estranhas, meu filho.

(Lavoura Arcaica, 2001.)

No trecho do romance, o filho:

a) acusa o pai por tê-lo impedido de abandonar a casa.
b) é censurado pelo pai por ter partido em busca de uma vida pródiga.
c) discorda da opinião do pai de que o apetite é sagrado.
d) repreende o pai por ter sacralizado o apetite.
e) é repreendido pelo pai por não ter se empenhado o suficiente no trabalho.

Resposta: b

Justificativa: O diálogo destacado evidencia mais um dos desentendimentos entre André e o pai, marcando principalmente as suas diferenças ideológicas. O filho tenta expressar seu descontentamento, enquanto o pai o repreende por não buscar o equilíbrio e por abandonar o lar por uma vida desmedida.

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