Aluísio Azevedo

Escritor maranhense e naturalista, Aluísio Azevedo deixou obras que criticavam os comportamentos da sociedade do século XIX, como O Mulato e O Cortiço.

Considerado o precursor do Naturalismo no Brasil, Aluísio Azevedo foi romancista, contista, cronista e dramaturgo. Sua principal obra, O Cortiço, é um quadro da sociedade brasileira corrompida do fim do século XIX e um dos grandes romances da literatura brasileira. Neste texto, você conhecerá mais sobre a vida do autor, assim como sua carreira literária e as principais características de sua obra.

Índice do conteúdo:

Biografia

Aluísio Azevedo
Escritor Aluísio Azevedo. Imagem em domínio público.

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo nasceu em São Luís do Maranhão, em 1857, e foi filho de duas figuras proeminentes da época. Sua mãe, D. Emília Amália Pinto de Magalhães, separou-se de um comerciante português e começou a se relacionar, sem o casamento, com David Gonçalves de Azevedo, vice-cônsul português, o que foi visto como um escândalo para a sociedade da época. Durante a adolescência, Aluísio Azevedo trabalhou como caixeiro e guarda-livros, além de desenvolver o gosto pela pintura e pelo desenho.

Estudou as séries iniciais em São Luís e, posteriormente, ao mudar-se para o Rio de Janeiro, onde já morava seu irmão mais velho, o comediógrafo Artur Azevedo, concluiu seus estudos na Imperial Academia de Belas Artes. Nesse período, já trabalhava para alguns jornais, como O Fígaro, O Mequetrefe, Zig-Zag e A Semana Ilustrada, para os quais produzia caricaturas. Seu pai faleceu em 1878 e, por isso, Azevedo retornou a São Luís. Foi nesse momento que começou sua carreira como escritor.

Carreira literária

Em 1880, publica sua primeira obra, Uma Lágrima de Mulher, não bem recebida pela crítica da época. Já em 1881, porém, O Mulato, considerado o primeiro exemplar de um romance naturalista no Brasil, é bem recebido pela Corte. A partir disso, escreveu ininterruptamente romances, contos, operetas e revistas teatrais. Publicou Casa de Pensão (1884) e O Cortiço (1890), o último considerado sua maior obra e que marcou seu nome como um dos maiores autores da literatura brasileira.

Ao ingressar na carreira diplomática, em 1895, Aluísio Azevedo parou sua carreira literária. Serviu na Espanha, no Japão, na Argentina, na Inglaterra e na Itália. Nesse momento já se relacionava com D. Pastora Luquez, vivendo também com seus dois filhos adotivos. Faleceu em 1913, aos 55 anos, na capital argentina, seu último posto como diplomata. É considerado o maior autor do Naturalismo brasileiro e, na Academia Brasileira de Letras, foi o fundador da cadeira nº 4.

Relação com Machado de Assis

Machado de Assis e Aluísio Azevedo não possuíam um relacionamento próximo e nunca comentaram explicitamente, ou pelo menos com grande afinco, a obra um do outro, mesmo sendo contemporâneos e de duas escolas literárias que se desenvolveram paralelamente, o Realismo e o Naturalismo. Somente em uma crônica da série A Semana, publicada em 1895, é que escritor fluminense comenta sobre as “qualidades habituais” de Azevedo, salienta como a narração “é cheia de interesse e movimento” e o estilo “animado e colorido”. Como se pode notar, são comentários precisos e rápidos sobre a obra do autor maranhense.

Por sua vez, Aluísio Azevedo, apesar de publicamente nunca ter se posicionado a respeito de Machado de Assis, em uma carta, endereçada a Oliveira Lima, comenta a obra machadiana. Afirma que nunca houve no Brasil “uma individualidade artística verdadeiramente difícil de ser enquadrada num elogio biográfico” como o autor fluminense; além disso, ressalta a qualidade de sua obra, sua extensa cultura e sua habilidade discursiva, mas também expõe sua origem pobre e sua gaguez.

Características da escrita de Aluísio Azevedo

A obra mais famosa de Aluísio Azevedo, O Cortiço, também demonstra as principais características do autor, que se enquadra predominantemente como naturalista. Abaixo você poderá conferir os principais pontos de destaque da obra do escritor maranhense.

  • Descrição minuciosa: Aluísio Azevedo era um escritor essencialmente naturalista. Por isso, suas obras possuíam descrições detalhadas dos ambientes e dos personagens.
  • Ênfase na denúncia social: os espaços em que as narrativas de Aluísio Azevedo se passam permitem uma observação detalhada da dinâmica da sociedade. Assim, descreve as patologias sociais desse meio e realiza diversas denúncias, principalmente em relação ao racismo, ao capitalismo selvagem e à vulgaridade das relações humanas.
  • Visão pessimista da realidade: é possível verificar em suas obras que há uma visão contestadora que leva o autor a apontar as mazelas sociais. O determinismo do ambiente, juntamente com as ações tomadas pelos personagens, demonstram o pessimismo do autor em relação àquilo que descreve.
  • Temas “proibidos”: o autor maranhense aborda o racismo, a opressão dos trabalhadores livres, as aberrações morais e biológicas dos pobres e dos ricos. Como se pode notar, há uma luta contra o conservadorismo vigente na época.

Além das características gerais apresentadas acima, os romances de Aluísio Azevedo geralmente exibem narradores oniscientes e se focavam no ambiente urbano do Brasil do século XIX. É importante ressaltar também que seus personagens acabam por representar as classes sociais da época, juntamente com críticas em relação à dinâmica entre eles.

Obras marcantes

Aluísio Azevedo foi o primeiro escritor brasileiro a viver plenamente do ofício durante sua carreira literária. Para isso, equilibrou a estética naturalista com as exigências mercadológicas da época. Suas duas principais obras, O Mulato e O Cortiço, são exemplares da sua crítica aos costumes da sociedade brasileira.

O Mulato (1881)

O Mulato, publicado em 1881, foi a primeira obra de relevância do autor e ainda há uma mistura entre características do Romantismo e do Naturalismo. A narrativa recai no personagem de Raimundo, um mulato de olhos azuis, que está em busca de suas origens familiares em São Luís do Maranhão. Mesmo com a pele mais clara, ainda sofre preconceito dos provincianos.

Em termos temáticos, é possível averiguar que Aluísio Azevedo faz um forte ataque ao preconceito enraizado nas relações sociais da época, além de criticar o clero e seu reacionarismo e a visão míope da comunidade provinciana. Os romances posteriores de Azevedo deixariam de lado os aspectos românticos ainda presentes aqui e se sedimentariam no Naturalismo.

O Cortiço (1890)

O Cortiço é considerada a obra mais importante de Aluísio Azevedo e a mais madura em termos narrativos e de estilo. A narrativa acompanha Bertoleza, uma escrava que é enganada por João Romão, dono de um grande cortiço e que mentiu sobre sua liberdade. Nesse contexto, o narrador descreve os personagens e as suas ações no ambiente urbano do Rio de Janeiro do fim do século XIX.

As duas principais características do romance consistem na evocação do meio e o determinismo atrelado a ele e a animalização do humano. Sem as amarras de um conservadorismo vazio, Aluísio Azevedo condena os personagens ao ambiente que vivem; além disso, apresenta uma obra de acordo com os princípios cientificistas da época e insere na literatura brasileira os indivíduos condenados à miséria, à exploração econômica e ao racismo.

Outras obras de Aluísio Azevedo

Aluísio Azevedo foi romancista, contista, cronista e dramaturgo. Entre suas diversas obras, podem-se citar:

Folhetins românticos e romances

  • Uma Lágrima de Mulher (1880);
  • O Mulato (1881);
  • Memórias de um Condenado (1882);
  • Casa de Pensão (1884);
  • Filomena Borges (1884);
  • O Homem (1887);
  • O Coruja (1890);
  • O Cortiço (1890);
  • O Esqueleto (1890, em colaboração com Bilac);
  • O Livro de uma Sogra (1895).

Contos e crônicas

  • Demônios (1893);
  • O Touro Negro (1938, póstumo).

Teatro

  • Os Doidos (1879);
  • Flor de Lis (1881);
  • Casa de Orates (1882);
  • Venenos que Curam (1886);
  • O Cabloco (1886);
  • Frizmark (1888);
  • A República (1890);
  • Um Caso de Adultério (1891);
  • Em Flagrante (1891).

É importante salientar que as peças de teatro escritas por Aluísio Azevedo foram em colaboração com seu irmão, Artur Azevedo, e Emílio Rouède.

Portanto, o autor maranhense tornou-se o maior nome do Naturalismo no Brasil e um dos grandes escritores da literatura brasileira. Apesar de altos e baixos em sua carreira literária, deixou obras importantes que se debruçavam sobre a sociedade do século XIX, como O Mulato e O Cortiço.

Referências

Curso de literatura brasileira – Sergius Gonzaga;
História concisa da literatura brasileira – Alfredo Bosi;
Literatura – Fábio D’Ávila. E Danton Pedro dos Santos;
Uma carta rara de Aluísio Azevedo sobre Machado de Assis – Hélio de Seixas Guimarães.

Leonardo Ferrari
Por Leonardo Ferrari

Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Maringá onde desenvolve pesquisa na área de Literatura Pós-Colonial e participa do projeto de extensão Letras na Web. É professor assistente em colégio de ensino médio. Nas horas livres dedica-se à família, aos amigos, à sétima arte e à leitura.

Exercícios resolvidos

1. [FGV/SP]

No romance O Cortiço, Aluísio Azevedo estabelece uma forte ligação entre o meio em que vivem as personagens e sua vida material, moral e psicológica. Tal relação apoia-se nos princípios:

a) do livre-arbítrio religioso.
b) do determinismo científico.
c) do sentimentalismo romântico.
d) do culto à natureza.
e) do ideário modernista.

Correta: b.
Justificativa: As personagens de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, estão impregnadas pelo meio que vivem e, em sua maioria, não conseguem escapar dele. Nesse contexto, são sempre influenciadas pelas características de onde estão. Esse conceito está relacionado ao determinismo científico.

2. [PUC/RS]

A redução dos seres humanos ao nível animal, a natureza humana vista como uma selva onde os fortes, representados por João Romão, devoram os fracos, são princípios básicos do romance ______ de ______.

a) A Mortalha de Alzira – Aluísio Azevedo.
b) Memorial de Aires – Machado de Assis
c) Casa de Pensão – Aluísio Azevedo.
d) O Cortiço – Aluísio Azevedo.
e) Esaú e Jacó – Machado de Assis.

Correta: d.
Justificativa: A principal característica de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é a animalização das personagens, isto é, a visão do narrador enfatiza e descreve as ações instintivas e puramente biológicas delas.

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