Martin Heidegger

O autor de "Ser e Tempo" desenvolveu uma ontologia que influenciou muitos filósofos que o procederam, bem como outras áreas. Tratou de temas como a existência, a temporalidade e a morte.

Martin Heidegger dedicou sua vida ao estudo da ontologia, isto é, ao estudo do ser. Para ele, a filosofia até então se ocupava do ser de forma equivocada, pois confundiu o ser com o ente que é o próprio homem. Em razão disso, o filósofo se propõe a desfazer esta confusão para encontrar o verdadeiro sentido do ser e da sua existência.

Biografia de Heidegger

Martin Heidegger em 10 de maio de 1960. Fotografia de Willy Pragher (1908-1992). Fonte: Wikimedia

Martin Heidegger (1889-1976) foi um filósofo nascido em Messkirch, na Alemanha. Iniciou sua carreira acadêmica no campo da teologia, mas em seguida ingressou nos estudos de filosofia aos quais se dedicou primordialmente à ontologia, o estudo do ser. A princípio, suas principais influências consistiam nas ideias de Aristóteles e Brentano, além de alguns intérpretes da filosofia medieval escolástica. Posteriormente, dedicou-se aos estudos sobre Kant, Kierkegaard, Nietzsche e, principalmente, Dilthey e Husserl. Deste último, Heidegger foi assistente e, mais tarde, substituto na Universidade de Freiburg.

Em sua biografia ainda constam duas polêmicas: um breve relacionamento extraconjugal com a filósofa Hanna Arendt – que foi sua aluna em Marburg – e a filiação ao partido nazista. Em consequência deste último fato, após a guerra, o filósofo foi temporariamente banido de lecionar.Por fim, o autor de Ser e Tempo faleceu aos 86 anos em Freiburg, também na Alemanha.

Uma filosofia sem rótulos

Embora seu pensamento seja frequentemente associado ao existencialismo e à fenomenologia, especialistas sugerem que a classificação de sua filosofia dentro destes movimentos deve ser feita com cautela. O próprio filósofo criticava aos que o incluíam entre os existencialistas, pois a reflexão da existência, para ele, tratava-se apenas de uma introdução à análise do problema do ser. Contudo, é seguro afirmar que suas ideias influenciaram a fenomenologia de Merleau-Ponty, o existencialismo de Sartre, a hermenêutica de Gadamer e Ricoeur e a teoria política de Arendt, Marcuse e Habermas. Ademais, o filósofo teve um grande impacto não apenas quanto ao desenvolvimento da filosofia europeia contemporânea, mas em outros campos do conhecimento, tais como: teoria arquitetônica; criticismo literário; teologia; psicoterapia e ciências cognitivas.

Principais pensamentos e teorias

Martin Heidegger desenvolveu uma complexa ontologia para a compreensão do ser. Isto posto, explicaremos alguns dos principais conceitos que compõem este estudo.

Existência

Em Ser e Tempo (1927), Heidegger emprega um método fenomenológico para a análise da existência, pois considera que somente assim é possível compreender os fenômenos da existência. Segundo ele, a questão principal a ser desvelada é o sentido do ser, todavia, dissociado do ente com o qual seria historicamente confundido. Em suma, o ente é o modo de ser e o ser é o que determina o homem. Por outro lado, a existência é o modo de ser deste ente, que é o homem. Este é um ente que não está definido. Sua essência se confunde com o seu existir, isto é, com o seu “estar” no mundo, ou como Heidegger diz, Dasein (do alemão, literalmente, ser-aí).

Morte

O ser, deste modo, é uma possibilidade, um projeto. A existência é o ato de se projetar no futuro, ao mesmo tempo que transcende o passado. Assim, o existir do ser humano é estar continuamente lançando-se às possibilidades, sendo que dentre elas está a morte. A morte ou, o ser-para-a-morte é um fato inescapável que Heidegger chama de “situação-limite”. Em outras palavras, é o nada a que somos lançados, a não existência. Em decorrência disso, tem-se a angústia: o sentimento do ser que sabe existir para seu fim. A existência só é autêntica quando o ser humano aceita essa condição, quando acolhe a angústia de reconhecer seu fim, acolhe sua morte. O ser humano inautêntico foge da ideia da morte e nega a transcendência.

Tempo

Como visto, a existência é composta de possibilidades, ou seja, existir é um constante ato de projetar-se. Essas noções de possibilidade e projeto fazem do futuro a dimensão primordial do tempo, que nada mais é que um modo de existir. O limite desse tempo, como acima mencionado, é a morte. Tendo isso em vista, para viver autenticamente, o ser humano deve estar constantemente voltado para si, fazendo a união consciente entre o que ele é com o que já foi. Dessa maneira, o presente é a intersecção entre a retomada do passado e a antecipação do futuro. Cabe ressaltar que esse tempo a que Heidegger se refere não é uma mera sequência de momentos, mas a extensão compreensiva do que o ser foi, é, e será. Ou seja, o tempo une os sentidos do existir. O ser humano, portanto, consiste em um movimento temporal, o que Heidegger chama de História.

A respeito do exposto, é importante ter em mente a noção de que a existência é essa incessante projeção do ser no futuro, retomando seu passado, consequentemente constituindo seu presente. Esse é o modo temporal de existir, o qual tem como fim a situação-limite: a morte. Esses são, portanto, alguns dos conceitos básicos para a compreensão da filosofia de Heidegger.

Obras de destaque

Além do conhecido Ser e Tempo, o filósofo publicou diversos ensaios, artigos, tratados, bem como aulas e conferências transformadas em livros. Abaixo, listamos algumas de suas principais publicações.

  • Novas Indagações sobre Lógica (1912): consiste em um artigo no qual o jovem Martin Heidegger questiona o papel da lógica, problema sobre o qual fundamentou seu trabalho nas duas décadas seguintes.
  • Ser e Tempo (1927): esta ontologia é o mais conhecido trabalho do alemão, onde ele se debruça na questão do ser e o conceito de sua existência na temporalidade.
  • Carta sobre o Humanismo (1947): neste texto, originado de uma carta a Jean Beaufret, o filósofo busca distanciar-se do existencialismo e, inclusive, tece críticas a Jean-Paul Sartre.
  • A Origem da Obra de Arte (1950): esse ensaio é resultado de três conferências realizadas pelo filósofo, nas quais ele se propõe a uma reflexão acerca da natureza da obra de arte, sem, obviamente, perder de vista o ser.
  • Introdução à Metafísica (1953): em busca de resposta sobre o ser, Heidegger faz uma reinterpretação do pensamento grego e da etimologia do conceito.
  • A questão da Técnica (1954): neste trabalho, discutiu-se a essência da técnica, isto é, dos meios para um fim da atividade humana.
  • Que é isto, a Filosofia? (1956): embora o título seja autoexplicativo, a aparente simples pergunta feita por Heidegger desencadeia uma complexa reflexão sobre o ato de filosofar e o conceito de racionalidade desde a Grécia Antiga.

Nota-se que a ontologia de Heidegger abrange diversos temas, deste modo, ampliando a compreensão do ser. Assim, sua obra é composta pelas mais diversas temáticas, como lógica, arte, metafísica, e técnica, o que justificou a influência do filósofo nas mais variadas áreas do conhecimento conforme mostramos no início de nossa exposição.

Frases de Heidegger

Como visto, Heidegger possui uma vasta obra, além de uma extensa carreira acadêmica. A seguir, listamos quatro frases que expressam algumas ideias de sua filosofia.

  1. “A possibilidade de uma petrificação, endurecimento e inapreensão do que se apreendeu originariamente se acha no próprio trabalho concreto da fenomenologia” (Ser e Tempo, 1927).
  2. “O advento do ente repousa no destino do Ser” (Carta sobre o Humanismo, 1947).
  3. “A origem da obra de arte, a saber, ao mesmo tempo a origem dos que criam e dos que salvaguardam, quer dizer, do ser-aí histórico de um povo, é a arte” (A Origem da Obra de Arte, 1950).
  4. “Nunca chegamos aos pensamentos. São eles que vêm” (Da Experiência de Pensar, 1954).

Evidentemente, devido à complexidade da ontologia heideggeriana, as citações fora do contexto de suas obras podem soar incompreensíveis. Por isso, é importante ter um conhecimento global dos principais fundamentos de sua filosofia e, sempre que possível, ter contato com as obras integrais.

Vídeos sobre Heidegger

Agora que explicamos os fundamentos básicos para a compreensão das principais ideias do filósofo, selecionamos alguns vídeos para aprofundar seus conhecimentos.

Descomplicando conceitos

Neste vídeo, Mateus Salvadori explica o conceito de ser, a noção de temporalidade e outros aspectos fundamentais presentes no pensamento heideggeriano.

Explicando a morte em Heidegger

De forma simples e didática, o professor Jeferson Spindola explana a jornada do ser para a morte.

Mas afinal, o que é ontologia?

Kadu Santos dá uma aula sobre a ontologia, a disciplina filosófica pela qual Heidegger dedica sua vida.

Assim sendo, Martin Heidegger é um grande nome da filosofia e um marco para a ontologia. A importância de sua obra a respeito do ser é inquestionável e exerceu grande influência, embora ele se recusasse a receber quaisquer rótulos vinculados à fenomenologia e ao existencialismo. Continue seus estudos e mergulhe ainda mais nas reflexões sobre o ser!

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. – 5ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2007.

ABRÃO, Bernadette Siqueira (org.). A História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

KORAB-KARPOWICZ, Julian Wlodzimierz. Martin Heidegger. Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://www.iep.utm.edu/heidegge/. Acesso em: 19 de maio de 2020.

WHEELER, Michael. Martin Heidegger. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2018 Edition), Edward N. Zalta (ed.). Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/heidegger/. Acesso em: 18 de maio de 2020.

Thaís Bravin Carmello
Por Thaís Bravin Carmello

Licenciada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Carmello, Thaís Bravin. Martin Heidegger. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/martin-heidegger. Acesso em: 29 de October de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [UNIOESTE]

Martin Heidegger (1889-1976) afirmou: “ser homem já significa filosofar”. Sua tese é a seguinte: o homem se caracteriza pela distinção entre o “é” e as características de qualquer coisa, ou seja, de qualquer ente; com isso, no encontro cotidiano com os entes, antecipadamente (antes de encontrá-los e conhecê-los) sabemos (a) que eles são e (b) que eles não são o “ser”, que são diferentes de sua “existência”. Eis por que todos podemos, a qualquer instante, nos lançar às perguntas pelo ser dos entes e pelo sentido do ser em geral, ou seja, às perguntas filosóficas. Independente de filosofarmos expressamente, as questões e a força para a investigação, portanto, estariam na raiz mesma de nosso ser, e precedem todo conhecimento e pensamento aplicado.

De modo análogo, a primeira frase da Metafísica de Aristóteles afirma: “Todos os seres humanos tendem essencialmente ao Saber”. Essa tendência essencial significa que uma propensão para o Saber está presente, ainda que inexplorada, em todos os seres humanos. Como Aristóteles escolheu, para o Saber, uma palavra grega que se assemelha ao “Ver” imediato (eidénai), pode-se compreender que se trata tanto do conhecimento em geral quanto (e principalmente) do Saber metafísico, sobre o princípio essencial ou estrutura metafísica da realidade. Em suma, Aristóteles já estaria dizendo que ser homem significa filosofar.
Com base no que foi dito, marque a alternativa CORRETA.

a) Uma contradição total reina entre as teses contemporâneas e gregas, em filosofia.
b) Não tem importância central a atenção nem a interpretação das formulações e termos filosóficos.
c) Segundo Heidegger, a distinção entre o ente e o ser torna possível o pensamento.
d) Aristóteles afirma a tendência essencial do ser humano a ficar preso ao sentido da visão, nas sombras.
e) Heidegger e Aristóteles têm como tese que filosofar expressamente é um destino humano comum.

Resposta: C
Justificativa: Mesmo sem conhecimento prévio sobre Heidegger, o aluno pode responder a questão através da interpretação do texto. No primeiro parágrafo que diz respeito à citação de Heidegger, lê-se que “no encontro cotidiano com os entes, […] sabemos (a) que eles são e (b) que eles não são o “ser”, que são diferentes de sua “existência”” logo, ser e ente se distinguem. Além do mais, em seguida, afirma-se que “Eis por que todos podemos, a qualquer instante, nos lançar às perguntas pelo ser dos entes e pelo sentido do ser em geral”, portanto, é a distinção entre o ser e o ente que possibilita que nos lancemos a perguntas, e, assim, ao pensar.

2. [UFFS]

Na sua abordagem da fenomenologia, diferentemente dos demais pensadores, Heidegger busca o entendimento do conceito de ser, que para ele era um termo filosoficamente vazio na reflexão filosófica contemporânea.
Qual das proposições abaixo não pode ser associada ao tratamento do ser em Heidegger?

a) O Ser-aí possui consciência de sua realidade.
b) Na noção do Ser-aí, não há relação entre a essência e a existência.
c) Ser-no-mundo envolve relações de ser com os outros, os quais também são seres-no-mundo.
d) Para o entendimento do significado de ser, não bastaria retornar à linguagem aristotélica, é preciso buscar a dos pré-socráticos.
e) O significado do ser necessita da compreensão de um ente que Heidegger designa como Ser-aí.

Resposta: B
Justificativa: Para Heidegger, a essência se confunde com a existência do ser, pois o ser humano não é um ente definido, mas um ente que está projetado no mundo. Logo, a alternativa B está incorreta, e deve ser a escolha do aluno.

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