Humanismo

Conhecido por compreender o homem como a medida do universo e buscar inspiração nos valores clássicos, o movimento é representado por célebres nomes, como Petrarca, Maquiavel, Michelangelo e Da Vinci.

O homem como protagonista da natureza e do seu próprio saber – estes são os principais preceitos do humanismo. Seu surgimento se confunde com o princípio do Renascentismo, e tem como premissa a quebra de paradigmas medievais. No entanto, seus ideais ultrapassaram sua origem, tornando o humanismo uma corrente independente, presente até hoje em diferentes esferas do conhecimento e da sociedade.

O que foi o humanismo?

Humanismo é um sistema de educação e investigação originado no norte da Itália durante os séculos XIII e XIV que, posteriormente, alcançou outros países europeus. Tem como principal fundamento o protagonismo do homem na natureza. Além disso, quando referido em suas origens, o termo também é conhecido como Humanismo Renascentista, visto que a ideia predominante no período conhecido como Renascença era o despertar e a renovação – princípios estes, fundamentalmente humanistas.

Contexto histórico

O princípio do humanismo confunde-se com o Renascimento – período em que, segundo Russell (2015) a atividade intelectual deixa de ser fruto de uma meditação enclausurada que almeja preservar a ortodoxia escolástica, para tornar-se uma aventura social deleitosa. Neste contexto, os intelectuais foram libertos das amarras da cultura medieval, e puderam deixar florescer o ideal de liberdade e individualidade humanista.

Portanto, os valores humanistas emergiram como antítese ao período medieval, isto é, como uma alternativa cultural e social à sociedade alegadamente passiva e ignorante do “período das trevas”. Desse modo, estes novos valores encorajariam o desenvolvimento das grandes potencialidades humanas: primeiro, partindo do próprio indivíduo para, então, tornar-se um conceito de acolhimento universal.

Principais características

Já sabemos que o humanismo está ligado à ideia de que o ser humano é capaz de conhecer e modificar seu meio – ou seja, a natureza. Mas existem outros aspectos fundamentais que caracterizam este movimento, como a retomada de textos e valores clássicos. Conforme Abbagnano (2007), as bases fundamentais do Humanismo são:

  • A totalidade do ser humano, isto é, homens e mulheres são compreendidos em sua plenitude (corpo e alma), sua liberdade e dignidade. Além disso, tomam para si um lugar central na natureza, a qual o ser humano estaria destinado a dominar;
  • A historicidade, ou seja, olhar para o passado como forma de autoconhecimento e aprendizado;
  • O valor humano das letras clássicas, também conhecidas como disciplinas humanísticas, como um meio para a formação da consciência humana;
  • A naturalidade do ser humano – isso significa que somos seres naturais e, portanto, nos é imprescindível o conhecimento da natureza.

É evidente nestas características a constante necessidade de subversão dos valores do obscurantismo medieval. O corpo não é mais libertino, mas livre e digno. Bem como a razão humana não apenas é capaz, mas tem como dever conhecer seu espaço dentro da natureza – premissa esta que propulsionará o conhecimento científico moderno.

Vertentes do humanismo

Conforme já mencionamos, o humanismo extrapola seu local e período de origem, assim, ganhando formas mais complexas e novas subdivisões. Porém, como mostraremos a seguir, sua essência permanece e se repete nas mais diversas configurações.

  • Renascentista: o Humanismo Renascentista refere-se ao espírito que tomou conta dos círculos intelectuais ao final da Idade Média. É caracterizado pela ressurgência de textos clássicos e a valorização da autonomia e capacidade humana de distinguir o valor de verdade e falsidade.
  • Filosófico: em geral, consiste em uma perspectiva centrada nas necessidades do ser humano e seus próprios interesses no espaço e no tempo que ocupa.
  • Moderno: na modernidade, são agregados ao humanismo valores racionais, científicos e democráticos – mantendo o ser humano como centro de todo saber.
  • Cristão: a vertente do Humanismo Cristão defende a auto-realização do ser humano, sem deixar de lado preceitos da religião cristã. Inclusive, defende que algumas das necessidades humanas só podem encontrar realização na própria religião.
  • Secular: ao contrário da vertente anterior, o Humanismo Secular dispensa a religião, pois acredita que há muitos aspectos a serem questionados no campo da moral religiosa. Em geral, podem ser considerados céticos.

Portanto, denomina-se humanista o grupo ou corrente de pensamento que coloca o ser humano no centro da natureza, de forma que prevaleça sua autonomia frente ao conhecimento das coisas do mundo. Sendo assim, apesar de parecer paradoxal que o humanismo possa ser identificado dentro da religião ou do secularismo, isso mostra como seus ideais são democráticos e universais.

Humanismo na literatura

A obra Decameron, de Boccaccio, exposta na Biblioteca de Marucelliana. Fonte: Wikimedia

Os homens das letras que se reconheciam dentro do Humanismo consumiam obras da Antiguidade sob um viés novo e crítico, de modo que buscavam incorporar à tradição ocidental textos daquele período que estavam perdidos, incompletos ou negligenciados. A seguir, apresentamos alguns autores e suas contribuições para esta corrente literária.

Autores e obras

Quem primeiro se destacou como um autor caracteristicamente humanista foi Petrarca. Este apresentava um senso de autonomia pessoal que, posteriormente, veio a caracterizar o humanismo como um todo. No entanto, se por um lado, Petrarca compreendia a inteligência livre como uma virtude moral, por sua capacidade de escrutínio crítico e auto-indagação, por outro lado, reconhecia seus aspectos mais obscuros – aspectos estes, evidenciados pela obra O Príncipe, de Maquiavel. Nesta famosa obra, o indivíduo deve explorar a fraqueza da multidão para que ele próprio não perca o controle e, consequentemente, seu poder.

Além daqueles, Giovanni Pico Della Mirandola destaca em sua obra Discurso sobre a Dignidade do Homem outra noção de suma importância para a literatura humanista: o homem como um ser livre e com potencialidades ilimitadas, sendo assim dono de seu próprio futuro. Cabe ressaltar ainda o Decameron, de Boccaccio, uma enciclopédia dos vícios e virtudes humanos, além de sua Genealogia dos Deuses Pagãos que invoca e cataloga a cultura mítica Antiga. Ademais, destacam-se Coluccio Salutati, Leonardo Bruni, Lorenzo Valia, Leonbattista Alberti e Mario Nizoli na Itália; os franceses Charles de Bouelles e Michel de Montaigne; o espanhol Ludovico Vives, e o alemão Rudolph Agricola.

Portanto, é tema comum na literatura humanista a exaltação da autonomia e da potência humana. Nota-se ainda, o esforço de alguns autores em retratar a humanidade mesmo que em sua face não tão lisonjeira, como no caso de Maquiavel e Boccaccio.

Humanismo nas artes

A Primavera, de Sandro Botticelli. Fonte: Wikimedia

O humanismo foi um dos grandes temas das artes visuais no período do Renascentismo Italiano. Dentre suas principais características, estão: o realismo; o classicismo; o antropocentrismo e o individualismo; e a filosofia incorporada à arte. Dito isto, podemos afirmar que os humanistas se apropriaram de técnicas realistas em sua arte, como meio de alcançar a soberania do princípio criativo da Natureza. Além disso, foram invocados modelos clássicos de escultura e pintura, cuja simetria e proporcionalidade representavam a idealização artística da beleza humana, a exemplo das esculturas da Grécia Antiga. Por fim, a arte humanista ressalta a dignidade e autonomia do indivíduo, voltando-se para a experiência humana em seus extremos negativos e positivos – para tal, busca expressar mensagens codificadas – seja por símbolos, cores, estrutura e poses – que transmitem mensagens sobre a humanidade e a natureza.

Autores e obras

Assim como os autores literários humanistas inspiravam-se em textos clássicos, os artistas visuais buscaram inspiração nas imagens da Antiguidade, isto é, imitavam suas formas para, assim, desenvolver um certo domínio das formas humanas e sua colocação no espaço, bem como incorporam novos elementos e simbologias.

A respeito das formas humanas, a grande herança dos clássicos que foi imensamente explorada pelos renascentistas são as proporções matemáticas do corpo humano, bem caracterizado em O Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci. Antes disso, o realismo de figuras e paisagens naturalistas ganhou destaque nas obras de Giotto, como no afresco O Nascimento de Jesus, na Capena Scrovegni em Padua. Além de todo o exposto, cabe mencionar que a atmosfera próspera nas artes também se deve ao incentivo e apoio financeiro às artes. Nesse sentido, o mecenato, isto é, o patrocínio de artistas, tornou-se prática comum entre a alta sociedade, sendo que uma das obras mais célebres deste período, A Primavera, de Botticelli, comissionada pela família Medici. Igualmente, destacaram-se outros artistas visuais neste período, são eles: Brunelleschi, Giorgio Vasari, Alberti, Bramante, Palladio, Michelangelo, Donatello e Raphael.

Assim sendo, constata-se que os objetos das obras de arte humanistas podem ser diversos. Em especial, mencionamos um objeto religioso de Giotto, o estudo do homem de Da Vinci e o simbolismo mítico de uma festa pagã representada por Botticelli. Todavia, é evidente em todas estas obras como o ser humano torna-se objeto central, sendo sua humanidade, no sentido natural e essencial, a principal protagonista das obras.

Vídeos sobre humanismo

Após apresentarmos os fundamentos básicos para a compreensão das principais ideias do Humanismo, selecionamos alguns vídeos para complementar seus estudos.

O Humanismo no Renascimento Cultural

Neste vídeo, o professor Arão Alves explica as origens e a consolidação do Renascimento Cultural, bem como do Humanismo.

Humanismo Literário

A professora Patrícia Pirota dá uma aula sobre o Humanismo, suas características e nuances dentro da literatura.

A obra de Botticelli

Aqui, Patrícia de Camargo conta algumas curiosidades da obra de um dos principais artistas humanistas da Renascença italiana.

A Renascença em detalhes

Quer saber mais sobre o período do Renascimento? Este vídeo do The School of Life sintetiza o que de mais importante aconteceu naquele período. Não esqueça de ativar as legendas em português!

Por fim, aprendemos que o Humanismo, além de denominar um movimento literário e filosófico originado na Itália, assim sendo um aspecto fundamental do Renascimento, também indica qualquer movimento filosófico que se fundamente na natureza humana e em sua relação com a natureza, tendo como inspiração a filosofia, a literatura e as artes plásticas clássicas, como as gregas. Portanto, explore nosso conteúdo sobre Arte Grega e aprofunde seus conhecimentos no tema!

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. – 5ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2007.

GRUDIN, Robert. Humanism. Encyclopædia Britannica. Disponível em: Acesso em: 5 de junho de 2020.

RUSSELL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental. 3 vol. – Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2015.

KING, Margaret L. (org.). Renaissance humanism: an anthology of sources. Indianapolis/Cambridge: Hackett Publishing Company Inc., 2014.

Thaís Bravin Carmello
Por Thaís Bravin Carmello

Licenciada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá.

Como referenciar este conteúdo

Carmello, Thaís Bravin. Humanismo. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/filosofia/humanismo. Acesso em: 29 de October de 2020.

Exercícios resolvidos

1. [UNAMA]

“Humanismo é uma palavra inventada no século XIX para descrever o programa de estudos, e seu condicionamento de pensamento e expressão, que era conhecido desde o final do século XV”. HALE, John. Dicionário do renascimento italiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. p. 187.
De acordo com o trecho anterior, e por meio de seus estudos históricos, é correto afirmar que o programa humanista:
a) Era encabeçado por reis e papas (os mecenas), os quais auxiliavam, humanitariamente, os artistas do século XIX a compreender as formas artísticas do Renascimento.
b) Atrelava-se ao modo de pensar renascentista, no qual o homem e a natureza passavam a ser valorizados na construção do conhecimento mundano.
c) Era marcado por uma valorização de temas naturalistas, opondo-se aos temas religiosos e sua ligação e proximidade com a Igreja católica e a protestante do século XIX.
d) Constituía-se por uma aproximação com o mundo grego e romano, valorizando o equilíbrio das formas e proporções, num exemplo de arte barroca (humanista) do século XV.
e) A valorização de ideias como a coletividade e a expropriação da propriedade privada.

Resposta: B
Justificativa: O humanismo é caracterizado, primordialmente, pela valorização do ser humano na natureza, e da importância dessa relação para a aquisição do conhecimento. Portanto, a alternativa mais adequada é a B.

2. [UFES]

A imagem do “Homem Vitruviano” é uma representação elaborada no final do século XV por Leonardo da Vinci e exprime o antropocentrismo e a harmonia das formas que caracterizaram as obras artísticas do período renascentista.
Sobre o renascimento, não é correto afirmar que:
a) um dos seus principais fundamentos intelectuais foi o Humanismo, concepção segundo a qual o homem deveria ser valorizado como o epicentro do mundo e da história, como havia ocorrido na Antiguidade Clássica.
b) o estudo do homem e da natureza, nesse período, fundamentava-se no espírito crítico, o que possibilitou o desenvolvimento do pensamento científico, como se comprova na defesa da teoria heliocêntrica por Nicolau de Cusa e Nicolau Copérnico.
c) os homens da época tenderam a valorizar a produção artística e intelectual das civilizações do Oriente Médio, especialmente a egípcia e a mesopotâmica, pela conexão que estas guardavam com a história hebraica descrita na Bíblia.
d) um dos seus maiores expoentes foi Leonardo da Vinci, um modelo do intelectual renascentista, pelo fato de se ter dedicado a múltiplas áreas do conhecimento, como, por exemplo, à Anatomia, à Física e à Botânica, além de à Pintura.
e) o termo “Renascimento” designa uma modalidade de expressão intelectual urbana e burguesa originária da Península Itálica, que se constituiu a partir do sincretismo entre a Cultura Clássica e a tradição judaico-critã.

Resposta: C
Justificativa: O classicismo que inspirou os humanistas refere-se fundamentalmente à Antiguidade Ocidental, principalmente a grega. Deste modo, a alternativa C está incorreta.

3. [Unicamp]

De uma forma inteiramente inédita, os humanistas, entre os séculos XV e XVI, criaram uma nova forma de entender a realidade. Magia e ciência, poesia e filosofia misturavam-se e auxiliavam-se, numa sociedade atravessada por inquietações religiosas e por exigências práticas de todo gênero.
(Adaptado de Eugenio Garin, Ciência e vida civil no Renascimento italiano. São Paulo: Ed. Unesp, 1994, p. 11.)

Sobre o tema, é correto afirmar que:

a) O pensamento humanista implicava a total recusa da existência de Deus nas artes e na ciência, o que libertava o homem para conhecer a natureza e a sociedade.

b) A mistura de conhecimentos das mais diferentes origens – como a magia e a ciência – levou a uma instabilidade imprevisível, que lançou a Europa numa onda de obscurantismo que apenas o Iluminismo pôde reverter.

c) As transformações artísticas e políticas do Renascimento incluíram a inspiração nos ideais da Antiguidade Clássica na pintura, na arquitetura e na escultura.

d) As inquietações religiosas vividas principalmente ao longo do século XVI culminaram nas Reformas Calvinista, Luterana, Anglicana e finalmente no movimento da Contrarreforma, que defendeu a fé protestante contra seus inimigos.

Resposta: C
Justificativa: De fato, o classicismo é uma das principais características do Humanismo Renascentista, tendo a Antiguidade Clássica inspirado a literatura e as artes plásticas da época.

4. [ENEM]

“Acompanhando a intenção da burguesia renascentista de ampliar seu domínio sobre a natureza e sobre o espaço geográfico, através da pesquisa científica e da invenção tecnológica, os cientistas também iriam se atirar nessa aventura, tentando conquistar a forma, o movimento, o espaço, a luz, a cor e mesmo a expressão e o sentimento.” SEVCENKO, N. O Renascimento. Campinas: Unicamp, 1984.

O texto apresenta um espírito de época que afetou também a produção artística, marcada pela constante relação entre:

a) fé e misticismo.
b) ciência e arte.
c) cultura e comércio.
d) política e economia.
e) astronomia e religião.

Resposta: B
Justificativa: A resposta está presente no próprio cabeçalho da questão, visto que o autor faz claras referências à ciência (pesquisa científica; invenção tecnológica) e à arte (forma; movimento; espaço; luz; cor). Portanto, a alternativa correta é a B.

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