Jean-Baptiste Debret

Além de pintor, Jean-Baptiste Debret é considerado um intérprete do Brasil, por retratar não só a corte brasileira, mas o cotidiano social e desigual do império.

Toda produção humana reflete o tempo e contexto em que foi produzida, e a arte não é diferente. Um dos artistas mais influente da História do Brasil, Jean-Baptiste Debret foi um pintor, desenhista, professor, decorador e gravador francês que, em vida, refletiu o contexto social e as aspirações culturais do Brasil do século XIX.

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Biografia

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Nascido em Paris, em 1768, Debret, ainda muito jovem, torna-se aprendiz de um dos pintores representantes do neoclassicismo francês mais influente de sua época, Jacques-Louis David. Seu mentor contribuiu imensamente para a formação artística do pintor. Em 1786, o jovem pintor chega a casar com a prima de David, Marie-Sophie Demaison, e, conforme afirma o sociólogo Jacques Leenhardt, o pintor ganha o seu segundo prêmio de Roma, em 1791. Contudo, Debret chega a ver a sua lenta ascensão ameaçada devido aos acontecimentos revolucionários em decorrência da Revolução francesa (1789), e o mesmo chega até mesmo a presenciar a execução de Luís XVI na Place de la Concorde.

Esse acontecimento foi um marco na vida do pintor, tendo em vista que as agitações revolucionárias ocorridas na França entre os anos 1793 e 1794, levaram Debret à prisão duas vezes. Foi durante o governo revolucionário francês que o jovem Debret passa a fazer parte, em 1794, da Escola Central de Obras Públicas, posteriormente chamada Escola Politécnica.

Lá aprimora seus conhecimentos até exercer o cargo de professor de desenho. Alguns anos depois, já em 1798, o pintor trabalha auxiliando arquitetos, decoradores e cenógrafos, e dessa vez relacionando-se mais diretamente com as comemorações e celebrações do período revolucionário.

Por que Jean-Baptiste Debret veio para o Brasil?

Após o declínio do império napoleônico, para o qual trabalhou durante anos, Debret foi exilado com seu primo em Santa Helena, em 1815. Somado a isso, o pintor se viu numa situação de total desemprego e rejeição, visto que o mesmo mantivera laços com o império recém-acabado.

Sem emprego, Debret une-se a um grupo de artistas e outros profissionais rejeitados pela nova Corte francesa. Eles organizaram o que ficou conhecido na história como “Missão Artística francesa”, uma vinda ao Brasil em 1816, a pedido da corte real portuguesa. Instalados na sede do império, Rio de Janeiro, o grupo buscou atender uma das principais demandas da corte: proporcionar uma formação artística sistemática.

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Já em 1817, Debret leciona aulas de pinturas para seus alunos em seu ateliê, e um ano depois envolve-se, agora enquanto decorador, na construção decorativa para a ascensão de D. João VI, com o arquiteto Grandjean de Montigny. Enquanto em 1826, após a inauguração da Academia Imperial de Belas-Artes, Debret assume a posição de professor de pintura histórica — categoria de pintura considerada muito nobre.

Como pintor oficial da corte brasileira, uma das preocupações atribuídas a Debret seria a de, por meio da arte, contribuir para a criação de um imaginário cívico brasileiro. Após a ascensão de D. João VI, a imagem de exploração associada ao sistema colonial já não era tão adequada para o Brasil, agora elevado à condição de reino. Anos depois, em 1831, o pintor deixa o Brasil devido à abdicação de D. Pedro I e volta a Paris, onde vive até a sua morte.

Jean-Baptiste Debret e sua importância para o Neoclassicismo

Uma das características mais marcantes de Debret, é, sem dúvidas, a tradição do estilo neoclássico. O pintor uniu tal tradição à pintura histórica para retratar vivamente e em detalhes os principais eventos da vida da corte brasileira com objetivo de produzir uma nova representação do Estado e do Brasil enquanto reino.

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Segundo o sociólogo e pesquisador da arte, Jacques Leenhardt¸ aparentemente, foi Debret que desenhou a nova bandeira do Brasil, com as atuais cores verde e amarelo.

Interessante notar que o neoclassicismo, assim como qualquer outro estilo artístico, possuía características, dentre elas: a valorização dos padrões clássicos de proporção e perspectiva, a exaltação de um passado glorioso, perfeição das formas, dentre outras. E Debret, sem dúvidas, foi um dos maiores nomes dessa tradição.

A importância de Debret para o Neoclassicismo consiste nas obras primorosas de pinturas históricas da corte napoleônica e portuguesa, mas também está relacionada ao esforço de Debret em aplicar os padrões neoclássicos ao representar a vida social do Brasil.

Debret e a importância para o estudo da História do Brasil

Após retornar à França, em 1831, Debret busca ilustrar e publicar o livro com as pinturas em aquarela feitas no Brasil. A sua obra Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil conseguiu ser publicada entre 1834 e 1839 em três volumes. O primeiro volume da obra referia-se aos habitantes nativos da terra brasileira, incluindo 48 ilustraçõe.

O segundo volume da obra, publicada em 1835, foi caracterizado por retratar o cotidiano urbano do Rio, dando maior foco aos espaços ocupados pelos escravizados ativos na cidade. Conforme Leenhardt¸ Debret representou em detalhes os principais atores da vida social e econômica do Rio. Após o livro ser indicado como repleto de mentiras e “caricaturas” sobre a realidade brasileira, ele foi descartado e silenciado durante quase 100 anos, até ser redescoberto por estudiosos.

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Cada pintura de Debret representa duas realidades totalmente antagônicas vividas em um mesmo espaço: de um lado, uma corte que buscava ser retratada em glória e perfeição de modo a inaugurar um momento político e, por outro lado, um cotidiano social marcado por desigualdades.

Principais obras de Jean-Baptiste Debret

Jean-Baptiste Debret foi um dos pintores mais influentes do Neoclassicismo, retratando, através da pintura histórica, os temas considerados mais nobres. Mas foi distante de sua atividade “oficial” para a Corte brasileira que o pintor produziu as obras que, atualmente, constituem o seu maior reconhecimento. Veja algumas de suas principais obras a seguir:

Aclamação de D. Pedro (1822)

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Na obra “Aclamação de D. Pedro, é possível identificar as características do Neoclassicismo sendo postas em prática ao retratar a ascensão do imperador, além de construir, utilizando recursos da pintura histórica, uma imagem do Império.

Mercador da rua do Valongo (1835)

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Na obra, publicada pela primeira vez em 1835, Debret retrata as dinâmicas de compra e venda de escravizados na rua do Valongo, localizada no Rio de Janeiro. Conforme destacou o próprio Debret, a obra revela um “verdadeiro armazém onde os escravos são mantidos ao chegarem da África”

Feitor castigando negros (1834-1839)

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Na obra, o pintar mostra um retrato do cotidiano social e escravagista do Brasil, onde um escravizado é castigado de forma cruel por seu feitor.

Loja de Sapateiro (1820-1830)

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O artista mostra duas reações nos rostos negros: um olhar com medo o castigo com um chicote a que seu amigo é submetido. O outro parece fingir não notar; sua atenção está na tarefa que lhe é confiada, para que nenhuma punição lhe recaia pelo cuidado que tem com seu trabalho. A situação descrita poderia confirmar a brutalidade do sistema escravista.

Negros de carro (1834)

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Debret, nessa obra, capta mais uma vez a condição de trabalho na qual escravizados estavam submetidos, como também reflete a vida urbana do Rio de janeiro em suas contradições.

Calceteiros (1824)

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Essa obra retrata as transformações que foram necessárias no Rio de Janeiro para a coroação de D. João VI. A fim de atender dignamente à solenidade de coroação de D. João VI, influíram na melhoria do calçamento das ruas e praças da cidade velha tanto quanto da cidade nova do Rio de Janeiro

Família brasileira no Rio de Janeiro (1839)

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Retrato de uma típica família brasileira inserida num sistema altamente escravagista. A obra possibilita identificar o quanto as relações de poder estavam inseridas no dia a dia dos indivíduos.

A execução da punição de chicote (1830)

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Essa obra de Debret é curiosa, pois demonstra que a escravidão se baseia em relações de poder e numa ordem simbólica. Percebe-se na obra do pintor que a chicotada está sendo executada por um negro, possivelmente em obediência a uma ordem maior; nela também é possível perceber dois escravizados no chão, enquanto os outros olham a cena principal com um aspecto de medo.

Baianas (1826)

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Obra realizada em 1826, e nela Debret busca captar em detalhes e formas algumas situações presentes no cotidiano da cidade do Rio. Perceba que nela, uma mulher negra despeja algo num recipiente segurado por uma mulher branca. Os detalhes da obra são impressionantes, uma das marcas do neoclassicismo incorporado pelo pintor.

Um funcionário brasileiro a passeio com sua família (1839)

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A obra retrata uma família tipicamente tradicional do século XIX. Nela percebe-se dois traços da sociedade da época: o patriarcalismo e a hierarquia. Ter muitos escravos era bem visto pela sociedade escravagista oitocentista, e passear com eles demonstrava um símbolo de poder.

Por fim, estudar sobre Jean-Baptiste Debret e suas obras é estudar a história do Brasil não só no passado, mas os seus ecos ainda no tempo em que vivemos. O pintor francês foi não apenas um grande representante do Neoclassicismo, mas um grande intérprete do Brasil.

Vídeos sobre Debret e seus detalhes fantásticos

Estudar sobre Jean-Baptiste Debret é importantíssimo para um melhor entendimento do quanto a arte e o artista carregam o contexto em que viveram. Por isso, confira alguns vídeos para ampliar o seu conhecimento a respeito do pintor e de suas obras.

Obras de Debret em movimento

Neste vídeo, o professor Rodrigo Matiskei, juntamente aos seus alunos do curso de Design de Animação, realizaram um trabalho de animação dos retratos de Jean baptiste Debret. Uma forma de analisar as obras de Debret de forma mais viva!

Sobre a vida de Debret no Brasil

Neste vídeo, o canal Fome de Saber faz um panorama muito legal sobre vida do pintor francês e sua relação com as pinturas mais cotidianas feitas no Rio de Janeiro.

Jean-Baptiste Debret e sua importância para a história brasileira

De forma lúdica e animada, entenda mais sobre a importância de Debret para o estudo da nossa história.

Debret visto na atualidade

Nesse vídeo, o sociólogo e pesquisador da arte, Jacques Leenhardt, nos mostra como Debret tem sido visto e compreendido na atualidade depois de tantos anos de sua morte.

Estudar a arte é estudar sobre a história. Por isso, confira a matéria sobre outro pintor do mesmo século em que Debret viveu, e que revolucionou a arte deixando belas obras, Vicent Van Gogh.

Referências

Jean-Baptiste Debret: um olhar francês sobre os primórdios do Império brasileiro (2013) — Jacques Leenhardt.
A construção francesa do Brasil (2008) — Jacques Leenhardt
História da Arte (2000) — E. H. Gombrich
Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (1839) — Jean-Baptiste Debret

Thiago Abercio
Por Thiago Abercio

Historiador e mentor educacional formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor de História e de Repertório cultural e Ideias, redator e analista de conteúdo. Atualmente realiza pesquisas na área de História da arte e das mentalidades.

Como referenciar este conteúdo

Abercio, Thiago. Jean-Baptiste Debret. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/artes/jean-baptiste-debret. Acesso em: 26 de May de 2022.

Exercícios resolvidos

1. [IBFC - 2012]

O autor da imagem ao lado foi o artista francês Jean-Baptiste Debret, que veio ao Brasil em 1816, como integrante da Missão Francesa, promovida por D. João VI. Sua estada foi longa, pois ficou no Brasil até 1831. Isso permitiu que ele produzisse uma grande quantidade de desenhos e pinturas sobre o povo e as paisagens brasileiras, além de interessantes relatos. Publicou os seus trabalhos no livro Viagem pitoresca e histórica do Brasil. Sobre a sociedade imperial retratada no quadro de Debret é possível afirmar que:

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A) Todos os escravos viviam em condições bastante semelhantes.
B) Os senhores de escravos defendiam mais participação política dos seus escravos.
C) A mulher tinha um papel de destaque na família patriarcal.
D) Havia uma forte hierarquia na sociedade escravista que se expressava na vida cotidiana.

D- Havia uma forte hierarquia na sociedade escravista que se expressava na vida cotidiana.

A obra retrata fortemente a hierarquia e patriarcalismo existentes nas estruturas da sociedade brasileira

2. [FURB - 2018]

“Jean-Baptiste Debret, o principal personagem da arte brasileira no século XIX, integrou a chamada Missão Artística Francesa e foi o maior articulador da fundação da Academia de Belas-Artes no Rio de Janeiro. Responsável por formar a primeira geração de artistas brasileiros voltados à produção artística oficial.”

(SPACA, 2006. p. 5).

Sobre Jean-Baptiste Debret, podemos afirmar:

I- Foi colega de Grandjean de Montigny e do pintor de paisagens Nicolas- Antoine Taunay.

II- Retratou Dom Pedro II no ápice do seu reinado, esta obra acompanha as ilustrações de sua “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil”.

III- Foi cenógrafo do Teatro da Corte.

IV- Debret observou os diversos personagens da sociedade brasileira, além dos índios e dos escravos.

Assinale a alternativa correta:

A)Somente as afirmativas I, II e III estão corretas
B)Somente as afirmativas II, III e IV estão corretas.
C)Somente as afirmativas I, III e IV estão corretas.
D)Somente as afirmativas I, II e IV estão corretas.
E)Somente as afirmativas II, III e V estão corretas.

C)Somente as afirmativas I, III e IV estão corretas.

Debret foi muito atuante na vida da corte brasileira até 1831, e durante esse período exerceu seu cargo de pintor da corte brasileira, pintando pinturas históricas e documentais da sociedade brasileira do século XIX.

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